1 de novembro de 2010

Number One Apresenta Maysa (1972)

Number One Apresenta Maysa

“Gestos e expressões que lembram a amargura, a fossa e o sofrimento que exibia no início da carreira.”

Em Janeiro de 1972, Maysa estreou uma badalada temporada na elegante boate carioca Number One localizada em Ipanema. Maysa estava especialmente descontraída e sedutora naquela temporada. Belíssima, cabelos longos e revoltos (ou revoltados?) entrava em cena de forma hipnótica e em pouco também já tinha todo o público a seus pés. A caracterização dramática de uma Maysa mil vezes magnética é observada pelas fotos das apresentações, sempre em estilo noir, com expressões fortes e interpretativas. Com um repertório incrementado, somado a percussão da ótima Naila Skorpio – esposa do maestro Guto Graça Melo – a platéia da Number One pode ver Maysa em outra forma. O espetáculo agradou, e a Revista Veja publicou no mesmo mês uma crítica favorável, (que você lê aqui) narrando o show da Number One.

“Ela entra com os cabelos soltos, um vestido máxi branco e preto, e começa cantando ‘Tardes” com gestos e expressões que lembram a amargura, a fossa e o sofrimento que exibia no início de sua carreira. As palmas começam tímidas, aumentam no segundo número, o antigo bolero “Eclipse de Luna” (Margarida Lecuona), e se conservam entusiasmadas até o final, quando ela canta “Ouça” e a canção francesa “Ne Me Quitte Pas”.

Alegre e triste – Ao apresentar “Ouça” Maysa já tem o público sob seu controle. Antes, “botou todo mundo na fossa” cantando “Coração Ingrato” (Sílvio Caldas), ensaiou uns passinhos de dança e brincou com os acompanhantes em “Adeus, América”, homenageou sua personagem na telenovela O Cafona cantando o “Tema de Simone”. Pode, então, permitir-se à brincadeira e anuncia: “Quero cantar para vocês uma música que gravei há pouco e, eu sei, fará sucesso. Pois tudo o que eu gravo é sucesso.” A brincadeira, encaixada num show de boate, funciona. Mas sua interpretação nova para um de seus furores do passado é de fato surpreendente. Sua voz não é mais rouca e dolorida, como no princípio, mas aberta, forte, saída de uma garganta sem preocupação de estrangular sílabas ou prolongar frases. Torna a brincadeira no número seguinte, “Demais”, ao recitar os primeiros versos da música: “Todos acham que eu falo demais, e que ando bebendo demais.” E termina com o mesmo tom dramático de abertura ao murmurar o refrão de “Ne Me Quitte Pas” com toda a dor de uma amante suplicando para não ser abandonada. Nesse final, em “Ouça” e em “Adeus, América”, Maysa tem a parceria igualmente brilhante do conjunto de Oscar Milito, cujos componentes ela beija no início do show, com a seguinte explicação: “Ninguém vai entender o que está acontecendo. Mas é mesmo para ninguém entender. A classe artística é muito desunida.”
Incompreensível, realmente, e dispensável num espetáculo como este de Maysa, que dura pouco mais de meia hora, com músicas bem escolhidas e melhor ainda executadas. [...] Por mais que ela procure outras formas de realização, é como cantora que alcança um nível superior entre as artistas brasileiras.”

Maysa na Boate Number One – 14/01/1972

Maysa na Boate Number One – 14/01/1972

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