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6 de junho de 2026

Maysa, agora - revista Jóia, 05/1969

 

Maysa, Agora


Texto de Zélia Prado

Fotos de Orlando Abrunhosa


Com seus olhos grandes, verdes, fortes, sua voz quente e rouca, seu jeito especial e inconfundível, Maysa voltou. Para ficar? Ninguém sabe. Nem mesmo ela, que sonha em morar em Lisboa, com seu marido e o filho do primeiro casamento. Mas quem quiser a antiga Maysa, a expressão máxima da fossa na música popular brasileira, não a encontrará mais. Essa já não existe. Hoje Maysa é outra, de alma leve, apaixonada, respirando um ar puro que não deixa mais lembrar aquela velha imagem de um copo de uísque na mão esquerda e o cigarro na direita.

Todo mundo já disse que Maysa voltou. Que agora é uma nova mulher, mais bonita e serena, mais quieta e feliz. Dizem também que veio para ficar. Não é verdade. Maysa apenas chegou para ver e saber do que anda acontecendo por aqui. Ela quer morar em Lisboa, com Miguel, seu marido, e Jayme, seu filho de 12 anos.

Agora, é diferente. Maysa fala de tudo, até do passado que complicou muito a sua vida, e do qual ela não conseguia falar sem uma grande exaltação. Agora Maysa é tranquila, não se esconde, gosta de viver e gosta de Miguel, sua principal razão. Bonita. Emagreceu e parece ter crescido mais. Tem o cabelo acobreado e uns olhos terríveis, verdes e fortes.

Hoje, é capaz de dizer porque aconteceram certas coisas, é capaz de situar-se naquilo que antes ela apenas descrevia como uma grande confusão. No momento ela se dedica a um trabalho carinhoso de escolha. Devagar, vai ouvindo muitas novas músicas, conhecendo novas pessoas. Música boa há em toda parte, até na Penitenciária Lemos Brito onde as pessoas tem o samba reforçado de amor.

Quando chegou ao Rio, todos a vimos inteligente, crítica, segura. Miguel está sempre perto, atento. Às vezes falam castelhano, às vezes, português, às vezes só se falam pelos olhos, com a mesma clareza. Maysa Monjardim, ex-Matarazzo, agora casada com um belga naturalizado espanhol, não é uma pessoa simples que a gente conhece num dia qualquer. É complicada, estranha, porque já viveu o suficiente para isso. Tímida, não. Cuidadosa, talvez. Ela não poupa ninguém quando se refere a setores da imprensa que em outros tempos lhe causaram inúmeros aborrecimentos. Mas também não poupa quando se atira à autocrítica, franca e abertamente. Maysa sabe hoje, que a vida melhorou. Acaba a fase do “Ouça” e “Meu Mundo Caiu”.

“Ouça”: um modo de surgir e também fugir. Em 57, apareceu uma moça cantando. Ela surgia de repente, com um sobrenome importante e um excelente “pedigree”. Bem nascida, bem criada, a música popular brasileira ficou na expectativa de ver o que ia dar. Surgiu cantando “Ouça”, que só dizia tristeza do começo ao fim. Maysa Matarazzo, casada com o industrial André Matarazzo, mãe de um menino, há muito tempo travava relações com gente ligada ao meio musical. Sua casa era frequentada por Elizete Cardoso, por exemplo. E era em casa que ela cantava, acompanhada pelo violão de alguns amigos. Nasceu junto com a bossa nova, com “Barquinho”, de Menescal e Bôscoli. Foi revelação, foi melhor cantora, foi tudo. Mas havia de pagar muito caro por isso. Pela maneira especial de cantar, pelo gênero que fazia, Maysa foi talvez a cantora que mais sofreu o massacre da popularidade.

Entraram pela sua casa, invadiram seu domínio e sua intimidade, vasculharam sua vida pessoal. Começaram os problemas: Maysa e André se separaram, ela veio para o Rio para nunca mais voltar à sua casa paulista.

Não é difícil ter acesso à cantora, nem à mulher. Estamos em seu apartamento em Copacabana, numa rua das mais raras, onde não se ouve o barulho dos ônibus nem das buzinas do dia. Maysa, de calça comprida, esguia, sem maquilagem, sentada sobre uma perna, ao lado de Miguel. Dias antes, acontecera a estreia de seu programa na TV Tupi, de onde agora é contratada.

- Maysa, você se queixava muito do Brasil, não é? Que não chamavam você, que todos já a tinham esquecido e coisas no gênero. Como foi o convite da TV Tupi? E porque você acha que ele aconteceu justamente agora?




- Todas as queixas que eu fiz tinham sua razão, entende? Quando apareci como cantora, puseram-me lá em cima, você lembra? Depois as coisas mudaram, eu fugi. Você vê pela sucessão de viagens que já fiz, minha terrível necessidade de fugir das pessoas, de quando em quando. E aí fiquei lá fora por mais tempo, cantando para uma gente não é a minha. Ninguém se lembrou de me chamar. Desta vez foi em Lisboa. Encontrei-me com Flávio Cavalcanti no hotel e ele me falou que caso eu voltasse, haveria um lugar certo em seu programa de calouros, “A Grande Chance”.

- A Tupi foi bacana com você, não é, Maysa?

- E eu fiquei emocionada com isso. Eles foram carinhosos, receberam-me de uma forma muito especial. Agora, já tenho um ponto de partida. Em sua casa, o movimento é grande, todos os dias. Hoje, ela ainda conversava com um compositor quando cheguei. Amanhã, um bate-papo com Antônio Adolfo, autor de “Sá Marina” e “Meia-Volta’, para escolher algumas músicas que entrarão no próximo disco. Miguel, gravador em punho, faz a agenda de sua mulher. É ele quem comanda a parte mais difícil do espetáculo, marca as horas, os encontros e entrevistas.

A memória de Maysa é relativa e oscilante. Infância, quase apagada.

- Eu me lembro de tão pouca coisa, sabe? Há inclusive um período em minha vida que parece estar completamente em branco; aliás, vários períodos. Infância mesmo, lembro de quase nada. De minha casa, porém, lembro demais. Era uma casa enorme na Rua Visconde de Silva, em Botafogo, que hoje está transformada em hospital. Tinha um pé de abiu (uma frutinha que está fora de moda), tinha uma goiabeira, bacana onde eu me instalava por horas inteiras e era um custo me fazerem descer, tinha um telefone do qual me lembro bem. Lembro dos móveis, dos tapetes. Essa casa marcou muito, está em quase todos os meus sonhos. Um dia, eu gostaria de viver lá. Sou filha única de pais preocupados. Eles sempre exerceram sobre mim uma influência importante, sempre correram para me buscar quando eu passava tempo demais fora, isso depois de mulher feita, mãe de Jayminho.

Hoje é aniversário do pai de Maysa. De vez em quando ele telefona e conversam um pouco sobre as fitas, as gravações ouvidas. De noite, ela irá vê-lo e abraçá-lo pelo dia.

Maysa cresceu. O pai, fiscal do imposto de consumo, viajava demais acompanhado de sua mulher. Era preciso um lugar seguro, no conceito da época. Maysa foi interna para o Sacré-Coeur de Jesus de São Paulo, no mais tradicional estilo. Lá, muitos hábitos foram adquiridos, como por exemplo dormir com as pernas encolhidas, jamais esticadas sobre a cama.

- A freira dizia que se a gente dormisse com as pernas esticadas, e se assim morresse, o demônio vinha de noite levar a gente pelo pé. Hoje, não consigo me livrar disso. É claro que nenhum demônio vai me levar, mas eu ainda encolho as pernas para dormir.

Foi ainda no internato que ela começou a namorar André Matarazzo. Muito mais velho que Maysa, ele era amigo da família. Maysa era linda e era uma menina de 14 ou 15 anos. André cultivou-a a seu modo, preparou-a para ele. Levava bombons para o colégio, dava presentes, levava Maysa para passear aos domingos. Aos dezessete anos ela se casou.

- Maysa, eu me lembro de quando você foi embora do Brasil, ressentida, magoada, fugida. Agora vamos voltar à questão do que você chamou “esquecimento”. Eu acredito sinceramente que as pessoas tivessem medo de falar com você, entende?

- Era preciso que eles me chamassem para saber se eu queria ou não. E que medo é esse? Você sabe exatamente porque eu tive que ir embora? Porque na época, era livre um tipo de imprensa que a gente chamava de marrom. Essa imprensa acabou comigo, fez o diabo. Uma vez, na boate Meia-Noite, no Copacabana Palace, eu estava num grupo onde qualquer coisa muito engraçada foi dita. Num gesto meu, couberam várias legendas de escândalo. Só porque durante um segundo eu debrucei sobre a mesa, onde estavam copos e garrafas, já que era na boate que eu estava. E por incrível que pareça eu estava rindo, estava alegre, estava alegre de uma piada, compreende? Essa imprensa me deu o dissabor de passar pela rua e ver em cada banca de jornal uma insinuação do maior mau gosto. Essa imprensa me escandalizou. Você devia ser muito menina, não sabe bem como foi. Mas foi demais. Insuportável mesmo.

- Eu me lembro sim...

- E isso ainda era o de menos. E foi por essas e outras que eu resolvi desaparecer do mapa, entende? Não quero justificar minha vida nessa fase. Passei por uma crise aguda, bebi muito. A bebida causava os maiores estragos em mim. Tem gente que bebe dia e noite e continua a raciocinar direitinho, como sempre. Comigo não é assim. A bebida sobe à cabeça e eu me torno profundamente agressiva. O pior é que essa agressividade é dirigida às pessoas que eu mais gosto na vida. É uma defesa, não há dúvida, mas uma defesa dolorosa.

Não conheci essa Maysa de quem ela fala. Conheço outra, muito diferente e muito serena. Hoje, beber é inteiramente dispensável.

Jayme, seu filho, vai chegar de Madri para férias e sobretudo para matar as saudades. É um menino bonito. Quando fala nele, Maysa se enternece.

- Jayminho é um menino ainda. Está interno num colégio de Madri e leva a vida de uma criança tipicamente europeia. Lá, por vários motivos, a infância é maior, dura mais tempo. Aos doze anos, um menino ainda é uma criança no exato sentido da palavra. Gosto do tipo de educação que ele recebe, do jeito dele. Além do mais, é um filho maravilhoso, que entende as possibilidades e limitações que nós temos com relação a ele. Nunca menti para Jayme, nunca apareci de máscara, sabe? Um dos motivos que me levaram a deixar o Brasil foi meu filho. Eu não queria que na escola ele fosse uma criança diferente, por ser o filho de Maysa, porque não seria apenas assim. Palavra de honra, eu pensei muito nisso quando resolvi ir embora. Hoje, acredito que meu filho seja feliz seja integrado.

Quando o menino nasceu, Maysa esteve entre a vida e a morte. Só foi conhecê-lo dias depois, uma compensação radiosa a todas as angústias e medos até então sofridos.

Uma noite, na boate Sacha’s, ela decidiu que não voltaria mais a São Paulo. Estava com seu pai, o grande amigo e testemunha. Amanhecia na Avenida Atlântica, eram quase seis horas da manhã. Maysa nunca mais voltou. Começou a atuar no Rio, foi morar sozinha. Mesmo só, num reduto próprio Maysa se cansava e tinha vontade de fugir. Fugiu. A Europa estava lá esperando, era 1959.

- Maysa você foi para que?

- Eu fui para sair daqui, só isso. Fugi. Fiz minha primeira viagem sozinha, completamente sozinha. Em Paris, fizemos logo um grupo que andava sempre com o dinheiro curtíssimo. Mimi Ouro Preto, Vera Barreto Leite e eu. A vida era dura. Mas foi maravilhoso passar seis meses vivendo lá. Uma experiência notável que me ajudou, me ensinou. Quase me casei com um jornalista português exilado, conheci um mundo de gente formidável, um mundo de gente não formidável.

Maysa prepara cuidadosamente seu disco de regresso. Durante dias e dias ela ouve, discute e escolhe. A pessoas acham que o disco vai ser na base da fossa.

- Não, o disco tem o que eu achar mais bonito, o que for melhor. É por isso que estou escolhendo. Senão, eu pegava umas músicas que já conheço e gravava direito, não é? Amanhã, por exemplo. Amanhã, vou à penitenciária Lemos Brito, ver as músicas que os rapazes fizeram para o festival deles. Quem sabe, de lá sai uma faixa do meu disco.

Fui com Maysa à Penitenciária, num dia de muito sol, às três horas da tarde. Eu não sabia exatamente o que ia acontecer nesta visita. O objetivo era ouvir música com atenção, passá-la para o gravador. Mas que espécie de música pode fazer um homem que há muito tempo está fora do mundo? foi uma das experiências mais importantes que cada um de nós viveu, naquele auditório enorme e limpo da Rua Frei Caneca. Nem todos os presos estavam lá. Somente alguns, já que Maysa não ia cantar para ninguém. Eles têm uma orquestra composta quase que totalmente por instrumentos de sopro, mais o piano e o ritmo. Primeiro, ouvimos as três primeiras classificadas. Na primeira delas, Maysa parou. A música “O Guia”, foi a mais querida para ela. Nenhum de nós escondia um certo deslumbramento diante do que estava acontecendo. Maysa, ali, era uma visita de honra para todos. Uma espécie de mito que deixava sua redoma de aplausos e flores para penetrar no mundo deles.

Depois de Paris, de todo o aprendizado pessoal que Maysa sofreu, a volta ao Brasil. Mas ela não queria saber de estabelecer-se ainda. A Real inaugurava uma linha para Tóquio e pretendia vê-la entre seus passageiros. Passou três dias em Nova Iorque e depois foi a Los Angeles. Lá, recebeu um convite para atuar na boate Blue Angel, por uma temporada. Ela não poderia supor que apenas de passagem pelos Estados Unidos pudesse receber propostas de mudança.

Os pais, novamente tomaram uma providência: foram buscar Maysa, desfizeram seu apartamento americano. Aqui ela ficou apenas dois meses e seguiu para a Argentina onde ficou cinco. Brasil outra vez. Até que apareceu um contrato para Portugal. Estamos em 1962. Ela conhece Miguel Azanza.

- Foi então que minha vida, a verdadeira vida começou. Eu atuava no Cassino Estoril e uma noite, pouco antes de começar o show, estava no bar, sozinha. De repente se aproxima um grupo, com uma moça que trazia um disco meu para ser autografado. Entre todos estava Miguel, que nessa vez passou despercebido, juro que passou. Mas, quando teve de ir à Espanha, tão amigos tinham ficado, Maysa esteve novamente com Miguel. E quinze dias depois estavam juntos para o que desse e viesse.

- Era a primeira vez que eu fazia qualquer coisa de importante sem a interferência de ninguém. Eu me sentia livre, por isso mais segura e mais responsável. Passara toda minha vida como que tutelada. Aprendera que as pessoas mais velhas têm sempre mais razão, eram os donos da verdade e ponto final. Aí eu me senti muito eu mesma, sabe? Era eu, finalmente, quem respondia por mim. É, eu nasci naquele dia.  

- Eu não gosto muito de me arrumar, sabe? Só mesmo em tevê. E aí tem que ser muito bem arrumada, muito bem tudo. Em casa, eu ando como você vê. Calça comprida, nada de maquilagem, cabelo solto.

Maysa fala nervosamente, a voz grave, decidida e firme. Fuma muito, usa no dedo mínimo um anel de brasão. Apesar do cigarro, os dentes são claros e grandes, o lábio com um jeito meio amuado, mesmo na hora de sorrir.

- Sabe que eu e Miguel queríamos muito ter um filho?

Maysa ternamente se lembra de Jayminho, fala dele quase toda hora. Várias vezes é servido o café para nós. Ela se esforça para manter a linha usando adoçante artificial.

- Maysa, eu vi seu programa. A ideia de uma cantora subordinada a um texto não parecia ser real.

- Mas você não pode imaginar o que foi. Até cinco minutos antes do programa, o maestro ainda não tinha ensaiado comigo o que eu ia cantar, entende? Deu um medo enorme, mas o improviso funcionou, como inexplicavelmente funciona na maior parte das vezes.

A gente compreende porquê. Para Maysa, cantar é tão importante quanto receber ar continuamente. É uma forma de vida, o único jeito que ela tem de “botar pra fora o que está aqui dentro”.

Essa expulsão de sentimento não se condiciona a um só gênero, porque há muito para ser dito por Maysa, como cantora e como mulher. Preciso dela por mais um dia, mas esse dia é apenas a manhã, na praia, tranquilamente. Maysa, Miguel e eu, Ipanema toda para nós, sem intromissões.

- Vamos casar pela terceira vez não é incrível?

A alguém que se mostrou espantado pela insistência do casamento legalizado no Brasil, Maysa demonstrou a maior segurança:

- Casar não é mania não. É um jeito que eu tenho de ser mais eu, ser mais feliz porque serei tranquila em todos os sentidos. Nós casamos duas vezes, a segunda quando André Matarazzo morreu. Agora, só esperamos pela anulação do primeiro matrimônio de Miguel, que está por pouco tempo.

Miguel é três anos mais velho que sua mulher. Um homem elegante sob todos os pontos de vista, na maneira de ser e de vestir. Ele escuta Maysa falar e raramente interfere, ela não se constrange diante dele, em momento algum. Eles vão morar em Portugal, ela não sabe quando.

- Portugal é maravilhoso, gostamos de viver lá. E como brasileira, sou tratada de um modo bastante especial. As pessoas têm um tipo de formação muito apurado, são realmente amigos quando se aproximam da gente. Quando um português diz a você: “passa lá em casa amanhã”, ele está te esperando com um bom jantar, ou um cálice de vinho delicioso. O português leva muito a sério uma relação de amizade, uma ligação afetiva de qualquer espécie. Talvez por causa disso eu me sinta tão em casa, tão bem vivendo em Lisboa. Tão à vontade.

Ela não sabe até quando fica no Brasil. O Brasil é sempre um passeio de reconhecimento entre pessoas e coisas queridas, mas Maysa é mais Maysa quando pode ir e vir de todos os lugares que ama e fazem parte de sua vida. E se a gente perguntar o quando de seus planos, provavelmente vai ouvir alguma coisa que marca profundamente sua personalidade. Ela gosta de imprevisto, detesta os planos pré-estabelecidos.

- A gente fica enquanto realmente valer a pena.



(Matéria publicada originalmente no número 189 da revista Jóia, maio de 1969)



11 de fevereiro de 2019

Diálogos possíveis com Clarice Lispector - revista Manchete, 1969




“Sofro uma barbaridade antes de entrar em cena”

Maysa – eis o nome de uma mulher-gata muito bela, dona de uma voz rara e de dons artísticos também raros. É menos felina do que parece nos retratos e muito mais dada e simpática. Mas sobretudo Maysa – mulher sofrida e corajosa que encara os próprios erros – é um símbolo de ressureição. Fortemente deprimida quando deixou de cantar, não se esperava mais que tivesse força suficiente para refazer sua vida. E eis que surge uma mulher mais do que bonita, e mais forte do que antes. Reconstruir-se torna-se a mais importante palavra entre todas. Quem já se ergueu várias vezes das cinzas, sabe como é, ao mesmo tempo difícil e possível a própria reconstrução. Este é um diálogo antideclínio: é cheio de perspectivas.


- Maysa, nesse seu novo apogeu artístico você mudou em quê?
- Não acredito que tenha mudado, tanto é assim que meu repertório é mais ou menos o mesmo, apenas mais moderno. Isso de mudar a fase inicial talvez seja uma traição, uma ingratidão com aquilo que nos lançou, e mesmo quanto ao público daquela época. O que absolutamente não proíbe que eu mude, que eu vá adiante.
- Seu apogeu também é de vida: o que fez você para sair da profunda depressão em que havia caído?
- Olhe, eu acredito que isso tenha sido em parte por eu ter me afastado desse ambiente daqui, ter-me encontrado um pouco comigo mesma, ter achado o diálogo, entende? Eu acho que a solidão que procurei foi muito importante para esse encontro com a vida.
- Você é uma criatura profunda, e isso lhe deve trazer muitos dissabores. Como é que você se liberta deles?
- Clarice, eu não me liberto. Cada vez procuro me aprofundar mais, e especialmente, no problema alheio, olhando para baixo para dar mais valor às coisas boas da vida.
- Você tem muitos inimigos?
- Que eu saiba, não. Embora tenha aprendido na minha fase de solidão a dizer “não” às coisas que não me interessam.
Você já foi analisada?
- Comecei por três vezes, mas descobri que estava em mim mesma a resposta.
- Como é que você define Maysa?
- Uma pessoa essencialmente boa de coração, bastante insegura, mas já a caminho do encontro. Nunca fiz meu autorretrato.
- De onde vem essa insegurança?
- Virá talvez da brusca mudança no tempo, desde que eu nasci até hoje. Houve tantos tabus que hoje não existem mais, e isso me criou essa insegurança. Quanto a tudo. Como, por exemplo, conviver com as demais pessoas fora do meu círculo de família. Mas não tenho nenhuma insegurança artística. Inclusive acredito que eu esteja numa fase muito boa de busca.
- Você conseguirá, Maysa, o que busca. Qual é o ritmo de sua vida diária?
- Meus horários são muito desencontrados. Trabalho até às três horas da manhã e não consigo dormir sem ler. Portanto só durmo mesmo lá pelas seis horas. Preciso de nove horas de sono para ter a voz clara. Acordo às três ou quatro horas da tarde, que é a hora melhor para eu ouvir música, para memoriza-la. Meu almoço é às seis horas da tarde, portanto, o ritmo está todo trocado. Sempre ligo a televisão – para ver se melhorou um pouco – até a hora em que me visto para começar o trabalho. Isto quando trabalho, o que acontece quase sempre. Nos intervalos, vou à praia, levo livros e papel para escrever. Tenho feito alguma poesia sem intenção de musicar.
- Qual é o tipo de leitura que interessa a você?
- Toda e qualquer leitura que me prenda, como é o caso do último livro que li, sobre a vida de Milena, a amiga de Kafka. Não me lembro do nome da autora. Eu adoraria poder ter sido Milena. Estou inteiramente fascinada pelo livro, de modo que não quero lembrar-me de outros.  Gostei também enormemente de O Compromisso, de Kazan.
- Fora a música, o que é importante para você?
- Tudo é importante para mim. Viver ao máximo as coisas boas da vida e tentar esquecer o que passou. O que não é fácil aqui no Brasil; esquecer, quero dizer.
- Se você não cantasse, seria uma pessoa triste?
- Eu nunca pensei na possibilidade de não cantar. Mas acho que hoje em dia a gente não tem muito porque ser alegre. Felicidade a toda hora é privilégio dos burros.
- Quando é que você começou a cantar, Maysa?
- Aos dezenove anos. Antes eu compunha. Numa reunião na casa de papai, estava presente o diretor de uma fábrica de discos. Eu estava esperando um filho, e ele então me convidou para, depois que nascesse a criança, fazer um disco que reunisse todas as minhas músicas. Tudo o que esse disco rendeu foi dado à campanha contra o câncer. Então veio a televisão e consequentemente começou tudo, com toda a família contra, o que veio ocasionar uma separação.
- Na sua opinião qual é o melhor intérprete da música popular brasileira?
- Atualmente, como intérprete, Taiguara. Como cantora, Elis Regina.
- Você tem muitos amigos?
Tenho muitos conhecidos. Tenho um grande amigo. Ítalo Rossi.
- Você tem dificuldade de se ligar às pessoas por amizade?
- Tenho, sim. Além disso, depois de meu segundo casamento, tudo é tão harmonioso, sem ser monótono, que até tenho receio de quebrar essa harmonia com a vinda de outras pessoas.
- Cada noite, na hora de seu show, você se sente inspirada para cantar ou já fez disso um hábito sereno?
- Toda noite para mim é uma primeira vez, mesmo que isso parece lugar comum. Sofro uma barbaridade antes de entrar em cena. Depois é como se tivesse nascido outra vez.
- Que conselho você daria a uma jovem que caísse na depressão como você caiu? Qual é o melhor meio de sair dela?
- Acho conselho uma coisa muito perigosa. Eu não pedi nem aceitei nenhum. De qualquer modo, acredito que a humildade seja muito importante. Um dos meios de sair da depressão é não achar que o próprio problema seja o pior de todos.
- Quando você estava deprimida, houve algum amigo ou amiga que lhe desse a mão?
- Eu estava só, nessa época. Afastei-me de todos para não agredi-los com meus problemas. Dependendo do temperamento de cada um, deve-se ou não apoiar-se em alguém.


- O que fez com que você passasse, nesta sua nova fase, a gostar do público e não temê-lo, como anteriormente, quando você evitava cantar de frente, defrontando-o?
- Talvez eu sentisse que fisicamente estava agredindo o público. Com a minha aparência. Eu era muito gorda, suava muito, era antiestética. Isso digo agora, mas talvez naquela época eu tivesse medo do público.
- Agora como sua família está recebendo a segunda Maysa?
- Não creio que haja uma segunda Maysa. Apenas o tempo foi passando, e minha família evoluindo e sobretudo vendo que minha ressurreição, como você diz, só está me fazendo bem.
- Em todas as composições suas você deixava transparecer a busca do amor. Você o encontrou?
- Encontrei, sim. Encontrei amor em tudo o que hoje me cerca, no diálogo, no dia-a-dia, até nas pequenas briguinhas com os seres amados. Aprendi até a gostar um pouquinho de mim...
- O que fez você cair em depressão?
- Uma série de fatores, de datas, de frustrações na minha infância e que se juntaram à minha juventude. Não tive tempo de ser nem criança nem jovem: casei-me cedo.
- Você tem filhos?
- Tenho um, com treze anos, do meu primeiro casamento. E estou partindo agora para outro.
- Mas, isso, Maysa, é uma grande novidade: para quando é previsto o nascimento?
- Se não perder a criança, como já aconteceu duas vezes, será para março do ano que vem.
- Como será a mãe Maysa nessa nova fase?
- Não saberia dizer, Clarice, mas acho que bem gagá.
- Maysa, apesar de você responder tudo o que lhe perguntei acho você uma pessoa reservada.
- Eu acho que não.
Nesse momento, entrou na sala seu marido, Miguel Azanza, e concordou comigo: apesar de tudo, Maysa é reservada. Miguel é muito cordial, simples e com ar de grande companheiro.
- Como é que vocês se conheceram Maysa?
- Miguel estava num grupo que foi ao Cassino do Estoril, em Portugal, para me ouvir cantar. Miguel tinha vinda de Marrocos especialmente para me ver cantar, porque já conhecia meus discos. Queria confrontar a voz conhecida com a pessoa ainda desconhecida. Ele me chamou atenção por ter sido o único do grupo a não se aproximar de mim para um autógrafo. Fui eu que, no final, me aproximei dele, e tudo começou. Um ano depois estávamos casados. O engraçado é que nos casamos duas vezes: uma pelo México e outra pela Bolívia. Estamos esperando a anulação canônica do primeiro casamento de Miguel para casar pela terceira vez, porque eu sou viúva do meu primeiro casamento.
Tomamos um café e conversamos
- Talvez, Clarice, você tenha me achado reservada ou intimidada porque era muita a vontade e a curiosidade que eu tinha em conhecer você. Também leio sempre os seus diálogos, e me senti muito honrada por ser uma de suas entrevistadas.
Continuamos a conversa, e fiquei sabendo, por exemplo, que Maysa é ótima dona de casa, gostando de lidar com tudo que se refere ao lar, à cozinha, à arrumação. Como se vê, a Maysa real é muito diferente da Maysa mito. E ganha muito com a aproximação.


(Matéria publicada originalmente no número 910 da revista Manchete, em 1969)

20 de fevereiro de 2018

Maysa entre nós - Diário de Notícias, 1969



Reportagem de Anna Maria Funke
Fotos de Athayde dos Santos

MAYSA está de volta. Com sua beleza agressiva e aqueles seus olhos imensos e muito verdes, iluminando o rosto de uma mulher feliz e tranquila. Uma Maysa diferente daquela que o público conheceu em certa época. Mas isso é detalhe, pois Maysa, em nenhum momento, deixou de ser a cantora de voz personalíssima, cantando bonito e muito fazendo pela nossa música. Como compositora e cantora.

Maysa acha que o brasileira está cansado de música confusa, barulhenta, de letra longa. O que ele quer é coisa simples, bonita, humana, na qual cada um possa se identificar.
Música ela não tem feito há muito tempo. Está agora fazendo poesia, dentro da mesma linha de suas composições. Mas poesia, ela faz para ela só.
A primeira música, ela fez quando tinha doze anos, época em que já saia de casa, dizendo que ia estudar, para visitar gravadoras e estúdios... “Olha, levei muita surra e castigo por causa disso...” Chamava-se “Adeus” e foi por ela gravada, anos depois, quando surgiu para o grande público em 1957. Mas de suas músicas a que mais gosta é “Tarde Triste”, que juntamente com “Ouça” são talvez seus dois maiores triunfos.
Para fazer cinema ela teve um convite em Portugal, que não foi aceito. Não conhece muito o nosso atual cinema, mas gostaria muito de um dia poder interpretar na tela, a protagonista do romance de Mário de Andrade, “Amar, verbo intransitivo”. Aqui fica, portanto a sugestão para alguns de nossos cineastas...
A verdade é que hoje ela é um nome internacional. Já cantou em toda América do Sul, no Japão, nos Estados Unidos (onde morou dois anos e fez temporada no famoso “Blue Angel” de Nova York, ao lado de grandes cartazes), na Europa toda. Em Milão, fez programa de TV, “Em tempo de Samba”, mostrando as coisas bonitas desse nosso ritmo.
Mas o que pouca gente sabe é que no dia 16 de janeiro de 1963, uma brasileira fazia sucesso no Olympia de Paris. Era Maysa, que nesse dia estreava temporada, em programa no qual a vedete era o famoso Tino Rossi. Maysa cantou acompanhada pelo conjunto de Jacques Brel e o sucesso foi enorme. Nesse mesmo ano fez também programa de TV no único canal de TV de Paris cantando 12 músicas, com cenários sobre o Brasil, etc... chamou-se “Rendez-vous avec Maysa”. Também cantou em outro programa sucesso na TV francesa, o “Discorama” ao lado de Sacha Distel. Seu último disco, foi gravado na Espanha. Um compacto, com “Reza” (Edu Lobo) em versão espanhola, feita por ela mesma e “Pálida Ausência”, canção de protesto, de autor espanhol, com música, segundo ela, de grande beleza.
Mas em sua primeira ida a Europa, em 1959, quando resolveu deixar tudo aqui e viver uns tempos em Paris, ela já havia gravado no Olympia, com Ray Ventura e cantado em uma festa em San Remo.
Nessa época, ela descobriu Paris, com todo o seu encanto, inclusive o de viver nessa cidade, sem dinheiro, pois a família aqui, já não queria mandar mais, para ver se ela voltava. Junto com Vera Barreto Leite, que também lá estava, chegou a fazer desenhos e pinturinhas que vendiam aos turistas (pouco exigentes), para conseguir, quando muito almoçar e jantar.
Na continuação do papo, ficamos sabendo que temos uma admiração em comum por Judy Garland, cantora que ela considera extraordinária acima de qualquer outra. Gostava muito de Piaf que chegou a ouvir mais de uma vez.
De sua vida, feita de muita vivência e experiência, ela tem agora um sentido certo. De todos os anos que morou no exterior ela tem a certeza que ainda quer morar lá fora, pelo menos durante algum tempo ainda. Agora é viver intensamente essa atual temporada no Brasil. Trabalhando muito, cantando sempre bonito, com aquele jeito, muito seu, de cantar e dizer, ao mesmo tempo, transmitindo espontaneamente coisas de amor, saudade, tristeza, solidão, encontro e desencontro... Ou então a simplicidade da história de um barquinho em dia de sol, tema da canção que começou a leva-la para bem longe em sua carreira, que teve marés fortes e tempestuosas, mas hoje é calma e tranquila.
Dias atrás, Flávio Cavalcanti em seu programa, “A Grande Chance”, perguntou a Maysa, qual havia sido a sua grande chance. Maysa, não pensou muito para responder, que havia sido o fato de ter se chamado Matarazzo no início de sua carreira. Ali estava a resposta de uma mulher simples e autêntica.
Maysa não pensava em vir ao Brasil agora. Estava em Lisboa fazendo uma temporada numa das maiores boates da cidade (e fazendo um grande sucesso que pudemos comprovar quando lá fomos assistir a seu show em dezembro passado), quando foi convidada por Flávio Cavalcanti e Artur Farias para assinar um contrato com a TV Tupi.
Resolveu então vir. Agora faz parte do júri de “A Grande Chance”, e prepara a estreia de um programa seu na televisão. Deverá durar 1 hora e meia e vai mostrar vários aspectos da história de sua carreira. O programa estreia no começo de abril e terá nome simples que diz muita coisa: “Maysa”.
Em seu apartamento de Copacabana, onde pretende ficar até o fim do ano, quando então voltará para a Europa, conversamos durante muito tempo sobre música, gente e coisas. Ao seu lado, o marido Miguel Azanza, belga naturalizado espanhol, lembrava-lhe detalhes e datas participando, simpaticamente do nosso papo.
Faz 7 anos que ela não mora no Brasil, onde tem vindo relativamente pouco. O público a viu pela última vez no penúltimo Festival da Canção. Mas o ano passado ela deu uma “fugidinha” e passou 8 dias em São Paulo, com a família, fato que só agora ela nos conta. Era em Madri que estava morando atualmente, mas quando voltar irá morar em Portugal, numa casa gostosa, lá em Cascais, aquela cidadezinha-porto, de casas brancas e ruelas pitorescas, situada a alguns quilômetros de Lisboa. A casa já está comprada e os planos do casal são muitos no que diz respeito à decoração.
Antes de embarcar para o Rio, Maysa esteve cantando, durante um mês em Angola, acompanhada pelo conjunto Thilo’s Combo, o melhor de Portugal. Seus maiores sucessos nessa temporada: “O dia da vitória” de Marcos Valle e o nosso muito lindo “Chão de Estrelas”, que na sua interpretação ganha um tratamento muito especial.
No momento, Maysa prepara com todo carinho, o lançamento de um LP e um repertório novo. Para isso, tem recebido todas as noites, muitos compositores que vão lhe mostrar canções novas. No repertório que vai cantar aqui no Brasil (inclusive na boate Sucata, em temporada que começa dia 29 de abril) ela incluirá alguns números antigos, mas 80% será de música inédita. Mariozinho Rocha, Lúcio Alves, Flávia, Marcos Valle, Durval Ferreira, Francis Hime, Tom, Edu Lobo são alguns dos compositores que ela via em Egberto Gismonti, um jovem do estado do Rio, que segundo ela faz música para agora e daqui a muito tempo. Dele, ela irá gravar pelo menos três músicas, já escolhidas. De johnny Alf de quem ela canta “Eu e a Brisa”, na Europa, com o maior sucesso, também gostaria de cantar alguma coisa nova. Enfim, Maysa quer entrar em contato com a gente boa e nova que está fazendo o lado positivo da nossa música.
“E da pilantragem, o que você acha?” “Olha, acho válido como experiência, mas será uma fase apenas passageira. A meu ver é um misto de chá-chá-chá com xaxado... mas sobretudo o que eu não admito é que essa turma critique o outro lado da nossa música, que é o autêntico.”


(Reportagem publicada originalmente no jornal Diário de Notícias em 1969.)

31 de março de 2014

Imprensa: Maysa trocou o copo pelo Canecão - O Cruzeiro, 1969


Maysa trocou o copo pelo Canecão



Reportagem de Rosinha Sarda

“Ela trocou o copo pelo Canecão.” Um jogo de palavra de Leon Eliachar para falar da volta. Na hora em que se procura o novo, eis Maysa voltando: na voz, as mesmas canções, o mesmo mormaço de antes. Uma cartada de risco, no décimo ano de carreira: a cantora intimista, da solidão e do sussurro, vai ao Canecão, onde duas mil pessoas vão amá-la. Maysa de volta. Ela conta idas e vindas.

-         Maysa, porque você canta?
-         Eu acho que as pessoas devem fazer as coisas que mais gostam e melhor sabem. Eu gosto e especialmente: sei cantar.
-         Cantar é um meio de vida, para você, ou tem outro significado?
-         Eu dei metade da minha vida para cantar. Portanto, cantar, para mim, não é um meio de vida; cantar, para mim, é a própria vida.
-         Quem é o público?
-         Aquele que aplaude ou silencia. O outro não me interessa.
-         Que valor tem o público?
-         Não meço o público. Estou ali para eles. Eles é quem devem ser perguntados.
-         Você gosta mais do público selecionado?
-         O que é que você chama de público selecionado? A minha voz é igual para todos os que me ouvem. Se eles entre si se sentem diferentes, não é meu o problema.
-         Você é uma cantora de elite?
-         Eu sou cantora de músicas.
-         Houve época em que você bebia muito antes de se apresentar, porque?
-         Eu não bebia só antes de me apresentar. Eu bebia sempre. Porque? Porque queria, ora essa!
-         Você tem ódio?
-         É o sentimento mais pobre e mais chato que existe. Deve dar um trabalho danado odiar os outros.
-         Qual o sentimento mais constante em você: ódio, amor, alegria ou tristeza?
-         Eu busco amor em tudo.
-         Porque você só canta músicas tristes?
-         Talvez seja com elas, com as quais mais me identifico. Mas não é verdade que eu só cante músicas tristes. Canto o que gosto e o que sinto no momento. e não faço da tristeza profissão.
-         Que é que sente quando a chamam de cantora bêbada?
-         Uma tremenda vontade de tomar um pileque para dar-lhes razão, para não deixá-los no papel de mentirosos. E também uma profunda pena pela falta de assunto dessa gente.
-         Você tem, no olhar e no falar, uma agressividade profunda. Contra o que?
-         Isso é uma opinião sua. Eu não agrido ninguém. Eu me defendo. Eu fujo. Me defendo de pilantras. Fujo da burrice.
-         Gosta da vida, ou gostaria de estar morta?
-         Amo a vida com todos os seus problemas e todas as simples coisas do dia a dia.
-         Houve época em que preferia estar morta?
-         Sim, houve essa época. graças a Deus já não é assim.
-         Como interpreta o sentimento de amizade?
-         Para mim é a coisa mais importante que há. Desde que seja verdadeiro. Sou muito desconfiada, sabe?
-         Você tem amigos?
-         Poucos, mas muito verdadeiros. Um deles, talvez o maior: Ítalo Rossi.
-         Porque saiu do Brasil? Estava fugindo?
-         Porque tive vontade de ver outros problemas, amar em outros idiomas, cantar para outras plateias. Eu fugi sim. Me enchi de ser pão-de-ló de festa de determinada imprensa que estava muito em moda naquela época. Me cansei de ser importante só no meu país. Fui ser importante em outros lugares, não só pelo meu canto, mas também como ser humano.
-         Porque voltou?
-         Porque enfim, meu povo, minha gente, minha terra e minha saudade me trouxeram de volta.
-         Qual a sua maior decepção?
-         Não digo porque vocês não poderiam publicar.
-         Você ainda bebe?
-         E você, não?
-         Poderá um dia voltar a beber?
-         Nesse dia, mandarei um convite a todos os que possam interessar-se para a glória geral dos fofoqueiros profissionais.


(Entrevista publicada originalmente na revista O CRUZEIRO, em 1969)

13 de março de 2014

Imprensa: Os "trinta litros" a menos de Maysa - Diário da Noite, 15/09/1969


Os "trinta litros" a menos de Maysa


Texto: Suad Hadha – Foto: João Peixe

Maysa, um dos únicos “fenômenos artísticos”, concedeu ontem entrevista coletiva à imprensa no Urso Branco, local onde irá estrear seu novo show. A grande intérprete e cantora pode ser considerada um dos acontecimentos mais importantes do nosso meio musical.
Enquanto muitos de nomeada lutam pela permanência na parada de sucesso, a cantora brasileira deixa o Brasil, não vai à televisão, grava poucas melodias e quando retorna, depois de longo tempo, é sempre bem recebida, lotando todos os locais onde se apresenta.
Maysa é a mensagem mais autêntica de singeleza. Responde a qualquer pergunta e dá o máximo de atenção a quem a interroga. Com seus trinta quilos a menos, a compositora e cantora de “Ouça”, “Meu mundo caiu” e outros tantos sucessos que iniciaram a verdadeira fase intimista da música brasileira, está como aquilo que o brasileiro da gema rotula de “enxuta”. Linda, autêntica como sempre se apresentou, diz que “nunca deixei de beber”. Só não tomo aqueles pileques famosos, mas deixar da bebida, jamais. Emagreci, uns trinta litros”.
Maysa confessa que cantaria, como Ângela Maria, em qualquer boate e não vê nisso nenhum problema. E com suas novas gravações, onde se incluem músicas de Roberto Carlos, Johnny Alf e outros compositores, totalizando vinte interpretações, inclusive da sua própria autoria, Maysa, após longa ausência de nossos palcos, voltará no Urso Branco.

GRAVAÇÕES

Embora seja profundamente saudosista, a cantora que encantou muitos países da Europa, gosta muito de Caetano Veloso e o considera um “cantor que quem interpretar suas músicas, estará dando o recado. Caetano é ‘sideral’, mas eu não gostaria de gravar nada dele, porque acredito em uma gravação que exija criação pessoal. Enquanto outros podem interpretar Caetano, eu gostaria que ele compusesse para mim, só para mim. Aí então eu gravaria, caso contrário, não”.
Teatro também é tema para Maysa. se por um lado não lhe sobra espaço para faze-lo, em seus planos consta uma peça com roteiro baseado em crônicas do imortal compositor Antônio Maria e músicas de Dolores Duran. Essa peça, Maysa pretende leva-la no próximo ano, com estreia marcada em teatros do Rio de Janeiro.
Outra pergunta que se fez nessa entrevista, foi sobre seu ponto de vista a respeito de Cauby. Maysa disse gostar muito dele como pessoa. E como cantor, embasbacou-se, pois nunca houvera pensado antes. Disse aos repórteres que prometia “parar e pensar”.
Gosta do seu futebolzinho, embora “pó-de-arroz” em torce em S. Paulo pelo Palmeiras; no Rio é Botafogo.
Adiantou que está confiante na música que defenderá no Festival Internacional da Canção, e, a instituição do “Troféu Maysa” à melhor intérprete desse mesmo festival, a fez muito feliz.
Nem por essa docilidade toda, Maysa deixa de responder que “em verdade Elis Regina é o pior caráter que conhece no ambiente que vive. Elis é falsa, intrigueira, sem desmerecer seu grande valor como cantora. Intérprete ela não é. Maria Bethânia sim é uma grande intérprete da nossa música. Enquanto isso, Nara Leão é puramente autêntica”.

BRUXARIAS

Maysa não crê nisso, e sorriu quando lhe perguntaram se “Polanski não era um bruxo”. E vai além em todas suas considerações sobre o que há de acontecer. Para ela “felicidade é privilégio dos burros”.
Isso, segundo a cantora, é o mesmo que dizer que “não se vive com os pés fincados no passado e ser feliz é coisa de momento. Quem acreditar que se planta a felicidade em tempos, é burro mesmo. A gente terá sempre, no momento em que vive, sorrisos e tristezas. Terá a mesma coisa nos tempos idos. E será sempre assim”.
Maysa lê pouco, pela falta de tempo, mas confessou estar profundamente impressionada com o último livro que leu: “O Compromisso” de Elia Kazan.
Isso não impede de dizer que atualmente não componha mais. Faz, às vezes, poesia, mas “somente para consumo pessoal”.
Maysa é realmente a *palavra ilegível* mais autêntica mesmo. É capaz de dizer com convicção que “gosto muito mais de cachorro vira-lata do que desses atrevidos à bacanas. O vira-latas não tem trejeitos”.
De todos os convidados não faltou Werner, o cabeleireiro de Maysa, *palavra ilegível*. Foram muitos abraços *palavra ilegível* se viram e não faltou o clássico beijo de saudades quando se encontraram mais perto.
Realmente muita coisa *palavra ilegível* se diria de Maysa. No entanto, o mais importante é esse extravasamento e a alegria que essa excepcional compositora e cantora demonstrou.  Rejuvenescida, com seu filho a tira colo, *palavra ilegível* dos poucos sucessos permanentes de nosso meio romântico, falou à imprensa e dialogou com todos numa noite de muita música.


(Reportagem publicada originalmente no jornal DIÁRIO DA NOITE, na 5ª feira, 15 de setembro de 1969)

18 de novembro de 2013

Imprensa: Maysa, a volta ao lar - Revista Manchete, 1969


Maysa, a volta ao lar 




A experiência e o mundo tornaram tranquila a cantora atormentada, que mais uma vez retorna ao Brasil e ao encontro da sua arte

Reportagem de Creston Portilho · Foto de Wallace Calainho

Quem a vê falar e gesticular sente-se em companhia de outra mulher. Maysa, a dos olhos de gata, que era gorda demais, complicada demais, esta morreu. Os olhos continuam os mesmos, mas a figura mudou tanto quanto a pessoa: está magra e sorridente, sem os gestos nervosos e angustiados do tempo em que cantava Ouça. No apartamento de Copacabana, ao lado do marido espanhol e de recordações do meio mundo que andou percorrendo, ela informa que, finalmente voltou.
-         Voltei mesmo. Tudo aconteceu de repente. Agora que estou aqui só preciso de um repertório novo, porque o meu é absolutamente antigo, o que se pede pelo exterior.

Maysa tem as suas queixas, que desfila sem amargura. Por exemplo: não a mencionam nos textos sobre a bossa nova – “logo eu, que fui quem primeiro levou a bossa nova lá para fora” – e nem a procuraram para novos contratos enquanto morou na Europa – “não sei porque: o público nunca vendeu, sempre que passava aqui pelo Brasil era aplaudida nos espetáculos a que comparecia como espectadora”. De qualquer maneira, a mulher jovem que desprezou um sobrenome famoso para construir o seu cartaz só com o prenome, mantém a mesma sinceridade que lhe valeu a fama de atrevida.
-         Minha voz tem alguma amargura. Talvez porque na canção eu procure uma válvula de escape. Ou talvez porque a canção me ajuda a botar para fora tudo que tenho aqui dentro. A expressão botar para fora é muito feia. Posso substitui-la por outra melhor: vomitar. Vomitar todas as coisas que estão dentro de mim e que saem pelos olhos, pelos dedos e pela boca. É um modo de comunicar, sabe? Por exemplo, tenho muito medo do público, mas canto tão bem numa boate como quando o faço sozinha. Eu gosto de cantar, dá-me prazer.

Por onde andava Maysa? Há pouco tempo atrás, ela andava pelo elegante bairro de Salamanca, em Madri, onde vivia com o advogado e industrial Miguel Azanza, seu marido, e o filho, Jaime. Ai já era uma mulher diferente. Seu vestido curto chamava atenção. Estava magra, bonita, ria mais facilmente. Apenas, fumava demais – “Dizem que o fumo faz perder a memória. Por isso fumo, tentando esquecer certas coisas.” Seus jantares íntimos eram famosos, reunindo desde atores e toureiros a membros da realeza espanhola. Isto durante cinco anos. Antes, passou pelos Estados Unidos, por toda a América do Sul e Central, pelo Japão e pela Europa – Portugal e França. Foi a segunda brasileira – depois de Marlene – a cantar no Olympia de Paris. Cantou no Blue Angel de Nova Iorque e gravou durante dois anos para a CBS. Depois, em Portugal, conheceu Miguel Azanza, casou-se com ele e foi morar em Madri. Em 1963, já casada, gravou dois discos na Itália, inclusive o Barquinho.
-         Este resumo pode parecer que me sinto profissionalmente realizada – diz Maysa. Não há nada disso. Talvez porque ainda seja muito jovem... mas sentimentalmente, sou. Vivo bem com meu marido. Temos nossas brigas, como todas as pessoas de inteligência normal, mas é só.

Agora, de calças compridas e blusa verde, não há nada que faça lembrar aquela mulher atormentada, que uma vez recorreu à sonoterapia para afastar problemas.
-         Quando dizem que eu sou a voz do amor, não sei o que querem dizer. Procuro o amor que sinto, que canto. Nem uma palavra, nem um gesto deixam de ter significado para mim, e nunca foi de outra maneira. Dizem também que eu me exprimo melhor nas canções tristes. Talvez tenham razão. São as que mais chegam a mim. Eu acho que sou triste e não vejo porque havia de ser alegre. Foi sempre assim desde os onze anos, quando eu compunha umas bobagenzinhas. Aliás, não consigo me lembrar muito bem da minha juventude, dos tempos que passaram entre os doze anos e até a bem pouco. Mas me lembro bem dos detalhes de quando tinha três ou quatro anos. – dos móveis da minha casa, do telefone e de todas as coisas pequenas que eu conservo bem vivas. Por isso imagino que minha infância deve ter sido agradável. Talvez, só a infância. Agora luto para me encontrar. Toda mulher que tem uma certa vivência luta sempre por alguma coisa. Quer sempre mais e quando digo que luto para me encontrar, não quero dizer encontrar-me sempre. Isso seria aborrecido. Gostaria apenas de poder dizer, um dia: sou assim. Mas não sei como sou.

Quase ninguém se lembra de que o primeiro disco de Maysa foi gravado em benefício de casas de caridade – era essa a condição imposta pelo seu marido, André Matarazzo. Todos se recordam, no entanto, dos sucessos que começaram a se acumular quando ela se apaixonou pela nova carreira, tornando-se apenas Maysa: Ouça, Meu Mundo Caiu, Se Todos Fossem Iguais a Você, Recado. A última vez que lançou música nova foi no I Festival Internacional da Canção, Dia das Rosas, muito mais aplaudida pelo público do que a primeira colocada. É por tudo isso que Maysa tem confiança nesta sua volta, que se faz um tanto cautelosamente; primeiro ela integrará um júri de televisão, em programa normal; depois chegará a vez de voltar à luz dos holofotes.
-         Olha, a bossa nova, que é o meu gênero, não é o gênero de música que apreciam no Brasil de agora – diz ela. No momento, o pessoal gosta muito de iê-iê. Minha maior alegria no exterior foi ver os estrangeiros apreciando tudo aquilo que o nosso grande público não aprecia.

Dos compositores atuais, gosta muito de Chico Buarque – pretende gravar alguma coisa dele –, gosta de várias coisas, como Eu e a Brisa, de Johnny Alf, mas gostaria muito mais de voltar a compor.
Tenho trabalhado tanto, conhecido tanta gente, que me falta tempo para compor. Só tenho feito poesia. Talvez, algum dia, junte todas e publique. Dá um livro.


(Reportagem publicada originalmente na REVISTA MANCHETE, em 1969)