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11 de fevereiro de 2019

Diálogos possíveis com Clarice Lispector - revista Manchete, 1969




“Sofro uma barbaridade antes de entrar em cena”

Maysa – eis o nome de uma mulher-gata muito bela, dona de uma voz rara e de dons artísticos também raros. É menos felina do que parece nos retratos e muito mais dada e simpática. Mas sobretudo Maysa – mulher sofrida e corajosa que encara os próprios erros – é um símbolo de ressureição. Fortemente deprimida quando deixou de cantar, não se esperava mais que tivesse força suficiente para refazer sua vida. E eis que surge uma mulher mais do que bonita, e mais forte do que antes. Reconstruir-se torna-se a mais importante palavra entre todas. Quem já se ergueu várias vezes das cinzas, sabe como é, ao mesmo tempo difícil e possível a própria reconstrução. Este é um diálogo antideclínio: é cheio de perspectivas.


- Maysa, nesse seu novo apogeu artístico você mudou em quê?
- Não acredito que tenha mudado, tanto é assim que meu repertório é mais ou menos o mesmo, apenas mais moderno. Isso de mudar a fase inicial talvez seja uma traição, uma ingratidão com aquilo que nos lançou, e mesmo quanto ao público daquela época. O que absolutamente não proíbe que eu mude, que eu vá adiante.
- Seu apogeu também é de vida: o que fez você para sair da profunda depressão em que havia caído?
- Olhe, eu acredito que isso tenha sido em parte por eu ter me afastado desse ambiente daqui, ter-me encontrado um pouco comigo mesma, ter achado o diálogo, entende? Eu acho que a solidão que procurei foi muito importante para esse encontro com a vida.
- Você é uma criatura profunda, e isso lhe deve trazer muitos dissabores. Como é que você se liberta deles?
- Clarice, eu não me liberto. Cada vez procuro me aprofundar mais, e especialmente, no problema alheio, olhando para baixo para dar mais valor às coisas boas da vida.
- Você tem muitos inimigos?
- Que eu saiba, não. Embora tenha aprendido na minha fase de solidão a dizer “não” às coisas que não me interessam.
Você já foi analisada?
- Comecei por três vezes, mas descobri que estava em mim mesma a resposta.
- Como é que você define Maysa?
- Uma pessoa essencialmente boa de coração, bastante insegura, mas já a caminho do encontro. Nunca fiz meu autorretrato.
- De onde vem essa insegurança?
- Virá talvez da brusca mudança no tempo, desde que eu nasci até hoje. Houve tantos tabus que hoje não existem mais, e isso me criou essa insegurança. Quanto a tudo. Como, por exemplo, conviver com as demais pessoas fora do meu círculo de família. Mas não tenho nenhuma insegurança artística. Inclusive acredito que eu esteja numa fase muito boa de busca.
- Você conseguirá, Maysa, o que busca. Qual é o ritmo de sua vida diária?
- Meus horários são muito desencontrados. Trabalho até às três horas da manhã e não consigo dormir sem ler. Portanto só durmo mesmo lá pelas seis horas. Preciso de nove horas de sono para ter a voz clara. Acordo às três ou quatro horas da tarde, que é a hora melhor para eu ouvir música, para memoriza-la. Meu almoço é às seis horas da tarde, portanto, o ritmo está todo trocado. Sempre ligo a televisão – para ver se melhorou um pouco – até a hora em que me visto para começar o trabalho. Isto quando trabalho, o que acontece quase sempre. Nos intervalos, vou à praia, levo livros e papel para escrever. Tenho feito alguma poesia sem intenção de musicar.
- Qual é o tipo de leitura que interessa a você?
- Toda e qualquer leitura que me prenda, como é o caso do último livro que li, sobre a vida de Milena, a amiga de Kafka. Não me lembro do nome da autora. Eu adoraria poder ter sido Milena. Estou inteiramente fascinada pelo livro, de modo que não quero lembrar-me de outros.  Gostei também enormemente de O Compromisso, de Kazan.
- Fora a música, o que é importante para você?
- Tudo é importante para mim. Viver ao máximo as coisas boas da vida e tentar esquecer o que passou. O que não é fácil aqui no Brasil; esquecer, quero dizer.
- Se você não cantasse, seria uma pessoa triste?
- Eu nunca pensei na possibilidade de não cantar. Mas acho que hoje em dia a gente não tem muito porque ser alegre. Felicidade a toda hora é privilégio dos burros.
- Quando é que você começou a cantar, Maysa?
- Aos dezenove anos. Antes eu compunha. Numa reunião na casa de papai, estava presente o diretor de uma fábrica de discos. Eu estava esperando um filho, e ele então me convidou para, depois que nascesse a criança, fazer um disco que reunisse todas as minhas músicas. Tudo o que esse disco rendeu foi dado à campanha contra o câncer. Então veio a televisão e consequentemente começou tudo, com toda a família contra, o que veio ocasionar uma separação.
- Na sua opinião qual é o melhor intérprete da música popular brasileira?
- Atualmente, como intérprete, Taiguara. Como cantora, Elis Regina.
- Você tem muitos amigos?
Tenho muitos conhecidos. Tenho um grande amigo. Ítalo Rossi.
- Você tem dificuldade de se ligar às pessoas por amizade?
- Tenho, sim. Além disso, depois de meu segundo casamento, tudo é tão harmonioso, sem ser monótono, que até tenho receio de quebrar essa harmonia com a vinda de outras pessoas.
- Cada noite, na hora de seu show, você se sente inspirada para cantar ou já fez disso um hábito sereno?
- Toda noite para mim é uma primeira vez, mesmo que isso parece lugar comum. Sofro uma barbaridade antes de entrar em cena. Depois é como se tivesse nascido outra vez.
- Que conselho você daria a uma jovem que caísse na depressão como você caiu? Qual é o melhor meio de sair dela?
- Acho conselho uma coisa muito perigosa. Eu não pedi nem aceitei nenhum. De qualquer modo, acredito que a humildade seja muito importante. Um dos meios de sair da depressão é não achar que o próprio problema seja o pior de todos.
- Quando você estava deprimida, houve algum amigo ou amiga que lhe desse a mão?
- Eu estava só, nessa época. Afastei-me de todos para não agredi-los com meus problemas. Dependendo do temperamento de cada um, deve-se ou não apoiar-se em alguém.


- O que fez com que você passasse, nesta sua nova fase, a gostar do público e não temê-lo, como anteriormente, quando você evitava cantar de frente, defrontando-o?
- Talvez eu sentisse que fisicamente estava agredindo o público. Com a minha aparência. Eu era muito gorda, suava muito, era antiestética. Isso digo agora, mas talvez naquela época eu tivesse medo do público.
- Agora como sua família está recebendo a segunda Maysa?
- Não creio que haja uma segunda Maysa. Apenas o tempo foi passando, e minha família evoluindo e sobretudo vendo que minha ressurreição, como você diz, só está me fazendo bem.
- Em todas as composições suas você deixava transparecer a busca do amor. Você o encontrou?
- Encontrei, sim. Encontrei amor em tudo o que hoje me cerca, no diálogo, no dia-a-dia, até nas pequenas briguinhas com os seres amados. Aprendi até a gostar um pouquinho de mim...
- O que fez você cair em depressão?
- Uma série de fatores, de datas, de frustrações na minha infância e que se juntaram à minha juventude. Não tive tempo de ser nem criança nem jovem: casei-me cedo.
- Você tem filhos?
- Tenho um, com treze anos, do meu primeiro casamento. E estou partindo agora para outro.
- Mas, isso, Maysa, é uma grande novidade: para quando é previsto o nascimento?
- Se não perder a criança, como já aconteceu duas vezes, será para março do ano que vem.
- Como será a mãe Maysa nessa nova fase?
- Não saberia dizer, Clarice, mas acho que bem gagá.
- Maysa, apesar de você responder tudo o que lhe perguntei acho você uma pessoa reservada.
- Eu acho que não.
Nesse momento, entrou na sala seu marido, Miguel Azanza, e concordou comigo: apesar de tudo, Maysa é reservada. Miguel é muito cordial, simples e com ar de grande companheiro.
- Como é que vocês se conheceram Maysa?
- Miguel estava num grupo que foi ao Cassino do Estoril, em Portugal, para me ouvir cantar. Miguel tinha vinda de Marrocos especialmente para me ver cantar, porque já conhecia meus discos. Queria confrontar a voz conhecida com a pessoa ainda desconhecida. Ele me chamou atenção por ter sido o único do grupo a não se aproximar de mim para um autógrafo. Fui eu que, no final, me aproximei dele, e tudo começou. Um ano depois estávamos casados. O engraçado é que nos casamos duas vezes: uma pelo México e outra pela Bolívia. Estamos esperando a anulação canônica do primeiro casamento de Miguel para casar pela terceira vez, porque eu sou viúva do meu primeiro casamento.
Tomamos um café e conversamos
- Talvez, Clarice, você tenha me achado reservada ou intimidada porque era muita a vontade e a curiosidade que eu tinha em conhecer você. Também leio sempre os seus diálogos, e me senti muito honrada por ser uma de suas entrevistadas.
Continuamos a conversa, e fiquei sabendo, por exemplo, que Maysa é ótima dona de casa, gostando de lidar com tudo que se refere ao lar, à cozinha, à arrumação. Como se vê, a Maysa real é muito diferente da Maysa mito. E ganha muito com a aproximação.


(Matéria publicada originalmente no número 910 da revista Manchete, em 1969)

8 de fevereiro de 2017

Maysa, o medo e a falta de sol - Diário de Notícias, 1963




Texto de Fernando Lobo

A vida é um quarto escuro mesmo e Maysa é uma criança ainda. As águas do tempo passam, mas ela será sempre criança, pois sendo só e sendo o bem das horas, minutos e segundos, não ganhará jamais o ritmo de ser só, de ficar só. Então se sabendo grande, esconde o medo empurrando a coragem do álcool, a presença do amor que não é amor, mas é presença, é segurança, é fala, é voz; não é amor, mas é alguém ao seu lado.
Que procura essa estranha mulher? Que quer ela? Para onde quer ir e onde está?
O silêncio de resposta é grande. Ontem ela ria, porque em volta havia um bando de meninos da “bossa nova” que cantaram sambas, que imploraram gravações para seus sambas “geniais”. Depois o bando voou, ao encontro das bem-amadas. Maysa ficou só, com acordes de colcheias e semitons nos seus ouvidos. O bando não a levou. Cumpriu missão de colocar música e depois se foi. A estrela ficou só, com seu Deus e sua estrela.
Agora ela diz que há um verdadeiro amor em sua vida e que ficou lá na Espanha. Não! Não é este ainda. O seu homem está num continente que pode ser a um mundo de milhas de distância ou a um palmo da sua mão. Ele não veste a farda nova dos novos de agora, nem tem nas mãos a arma moderna de um violão em dissonância. Deve ser homem, alegre, musical, bom, mas de passadas firmes, olhar firme e amor seguro por você. Mãos longas que segurarão suas mãos de menina. Passos firmes a mostrar como se caminha na estrada longa você que engatinha ainda. Ele será o homem procurado e que não está dentro da cortina de fumaça da noite, nem debruçado no balcão meloso do bar, muito menos com o rosto maquilado a pedido da noite. Será um homem de sol, de dentro para fora, homem dos peixes, amigo do mar, cheirando a sargaço, a seiva, a vida e transbordando amor para quem está oca, assim como você. E ele será inteiro seu. Então você saberá do sol, junto ao sol, provando e bebendo sol, que é o que falta às suas entranhas como remédio único para afastar o medo e a coragem de só não ter medo se afogando em lua...
Que estranha mulher é esta, que procura no vazio um alento, que encontra o alento procurado e o atira para o ar em troca de lágrimas e sofrimentos? Que estranha mulher é esta, que não se escondeu nos quatro cantos de um lugar comum, para que pudesse ter nos lábios sempre pragas. Que estranha mulher é esta, que tem em sua volta o ouro da fama, do metal, da glória, do êxito, ao ritmo das palmas e das flores? Estranha mulher, Maysa estranha que, quer um mundo maior que seu mundo, um Deus maior que seu Deus, uma estrela mais clara que a mais clara estrela que é sua. Ela vê as horas, escuta as águas do tempo correndo, correndo, seguindo sem passar e teme que seus cabelos sigam com elas e voltem brancos de neve. Maysa medrosa, Maysa covarde, Maysa fingindo ganância, com a soberba enfiada no peito como um punhal a não deixar que saia dos seus lábios a confissão mais certa, aquela que começa dizendo “eu quero mamãe, eu tenho medo...”


(Matéria publicada originalmente no jornal carioca Diário de Notícias em 1963)


13 de maio de 2014

Imprensa: As confissões de Maysa III - Revista Amiga, 21/09/1971




“Eu estava bebendo demais e viver não tinha mais nenhum sentido”

“O amor deu nova força a minha vida”

depoimento à Gardênia Garcia

Quando eu estava bebendo demais, quando minha vida não tinha mais sentido, não via horizonte nenhum, fui a Portugal, em 62. Fui por ir, tanto fazia. E conheci Miguel. Ele e a mulher foram ver meu show, e Gabriela levou meu disco para autografar, no camarim. Eu e Miguel nos amamos à primeira vista. Quinze dias depois morávamos juntos. E Gabriela ficou minha amiga. Quando ela se divorciou de Miguel, no México, ficou hospedada em nossa casa. Vale lembrar que quando eu e Miguel nos conhecemos, em 62, Gabriela era linda e eu pesava 96 quilos. Foi amor mesmo!

CONHECI Miguel e minha vida mudou. Foi com a ajuda dele que saí do pileque de anos, que emagreci, que ganhei tranqüilidade. Precisamos muito um do outro. Ele deixou suas fábricas na Espanha e passou a me empresariar. Agora está produzindo a peça que ensaio.
Depois que emagreci, dou um valor imenso ao corpo, não por vaidade. A bebida e a gordura estavam interligadas, eram autodestruição. Quando engordo meio quilo fico muito deprimida, trato de perde-lo rápido.
Nós vivemos na Espanha, um tempo, transferi Jaiminho para um colégio lá, depois viajamos muito. Parei de cantar muitas vezes, de vez em quando volto. A última música que gravei é o Tema de Simone, do O Cafona, aliás, é das poucas composições minhas que gosto.
Vivemos um ano nos EUA, Miguel lecionando línguas, eu de doméstica. Porque adoro cuidar de casa, cozinhar.
Tenho premonição das coisas, sou meio bruxa. Por isso topei aquela temporada no Canecão. Estive magoada muito tempo, porque cantava no mundo inteiro e não recebia convite para o Brasil. Até que Flávio Cavalcanti se hospedou no mesmo hotel que nós, em Portugal, e me chamou para seu programa. E viemos para ficar. A temporada no Canecão foi maravilhosa para mim. Apesar de ter sido eu a primeira cantora que teve coragem de topar uma coisa destas, acabei me decepcionando com os donos do Canecão, que foram mal agradecidos, no final. Não entro em detalhes, ganhei a causa.
E então, no ano passado, aconteceu um novo marco na minha vida: o programa Dia D. Trabalhar como jornalista. Laerte Garcia, o cinegrafista do programa, foi pessoa da maior importância para mim. Foi ele quem acreditou que eu pudesse fazer o programa, acreditou em mim mais do que eu mesma. ele era o programa. Conseguimos fazer coisas maravilhosas. A cobertura da morte do Salazar, por exemplo, quando vimos o programa pronto nos espantamos: não era morte que estava ali, era uma mensagem de vida.
Um homem extremamente sensível, maravilhoso, nos entrosamos tanto que quando ele morreu não tinha mais sentido continuar com o Dia D. Como disse, ele era o programa, me ensinou muito de trabalho, de vida.
Fazer jornalismo foi ótimo, ser prato dos jornalistas é péssimo. Enquanto eu jogava microfone no público, aumentava tudo que acontecia. Depois, recentemente, criaram minha desavença com Elis Regina.
A imprensa não perdoa. Vive ressuscitando o que está tão longe: Ronaldo Bôscoli e eu. Daquela época da bossa nova, ainda. O que acontece é que hoje em dia somos amigos, acho Ronaldo um homem inteligentíssimo, o papo com ele é das coisas mais divertidas do mundo. Elis, considero das maiores cantoras que conheço. Acho-a, inclusive, muito segura, muito madura para a idade que tem. Ela sabe agir, sabe reagir.
Eu vou ver Elis cantar sempre, porque gosto. Quando ela esteve no Canecão, Miguel e eu fomos. Mandamos flores, antes. Depois saímos para jantar, os dois casais. E o que a imprensa inventou! Depois o casal nos ofereceu um almoço genial em sua casa há mais de um ano. O filho deles ainda não tinha nascido. Não nos vimos mais. A culpa, em grande parte é da imprensa, que cria casos entre Elis e eu. Nós poderíamos ser amigas, acredito, não fosse a onda da imprensa.
Felizmente meu filho não foi prejudicado pelo que escreveram a meu respeito. Ele é inteligente demais, o Jaiminho. Lembro que quando era pequeno, num colégio aqui no Rio, falaram mal de mim pra ele, a reação dele foi ótima: não bateu, não se chateou. Disse apenas – você é uma besta, garoto, não entende nada de nada. Jaiminho está no Rio, passando as férias comigo. Está interno na Espanha mas vive com toda liberdade. Confia inteiramente em mim.
Da época em que comecei a cantar, gostaria de dizer uma coisa que pouca gente sabe: gravei bossa nova primeiro que todo mundo. Só que me antecipei demais. Lancei O Barquinho dois meses antes do movimento todo. Mas ele pertence sem dúvidas a João Gilberto. Através de João foi que a música pegou e na minha gravação não havia a batida dele, que mais marcou a bossa nova. 


(Matéria publicada originalmente na revista AMIGA, nº 70, 21 de setembro de 1971)

12 de fevereiro de 2014

Imprensa: Maysa volta à vida com poesia - O Cruzeiro, 05/1962


Maysa volta à vida com poesia


Reportagem de TABAJARA TAJES · ANTÔNIO RONEK


Ainda há pouco circulou o boato: a cantora Maysa Matarazzo perdeu a voz. Em São Paulo, seu pai, o Sr. Alcebíades Monjardim, desmentiu a notícia afirmando que sua filha canta melhor do que nunca e que logo estará no Brasil. A verdade é que Maysa passou realmente algum tempo sem cantar, internada em uma clínica de Buenos Aires, onde convalesceu escrevendo poemas em espanhol.

***

Ese tan-tan enloquecido
Que construye p’arriba
Matando al que está abajo

Y las manos, blancas, negras,
Que fueron hechas de abajo
¿Por qué construyen p’arriba?

¡Qué suelo cobarde es éste
Que recibe en sus entrañas,
De manos ya no humanas
Un pedazo de sí mismo!

***

No puedo, tras las rejas.
Las de oro las tiré,
Las de hierro, las rompí.
Esas, ahora, no las veo
¿Qué hacer con rejas como estas?

No oyen mis gritos.
Quedé dormida y creyeron
O pensaron: se murió.

No puedo quitarme las rejas
Que no puedo tocar.
Si yo por lo menos tuviera
Coraje para matar,
Estas rejas malditas
Que se me adelantaron.

***

Es una tarde tan calma,
Tan calma, que puede ser monótona.
El pez ya no busca el anzuelo
Pasa de largo ante la línea.
Y la tarde sigue
Hasta el pájaro se olvidó de cantar,
Y el hombre de encender las luces
Que traen la oscuridad
Se perdió del reloj.

Parece que el tiempo, cansado,
Se ha quedado triste, monótono,
Y que se olvidaron de mí...

Não foi só a noite,
Foi mais silêncio.
Tua ausência me buscou;

Não veio lágrima,
O dia já vinha
E só tua ausência
Foi que ficou.

Ficou sozinha
Com meu eu antigo,
E se entenderam,
Se completaram.

Então a lágrima
Caiu baixinho
No que restava
Do teu carinho.

***

Já nem brilha mais a lua.
O pedaço de nós dois
Se apagou
E eu ainda fiquei.

Mas fiquei tão acanhada...
Amanhã não serei sol
Inda mais pensar em lua.

Se pelo menos eu tivesse
A coragem de ser tua...

***

Com um esparadrapo marcando em seu pulso a cicatriz de seu último gesto de incompatibilidade com a vida, a cantora Maysa Matarazzo, “née” Maysa Monjardim, deverá chegar por estes dias ao Brasil, após algumas semanas de internação na Clínica Bethlem, da rua Coronel Diaz, 2.892, em Buenos Aires. Submetida a um regime de bife magro com salada sem azeite, bebendo apenas água mineral sem gás e dormindo cedo (sem pílulas), Maysa voltará também com a silhueta adelgaçada, pois, com menos 15 quilos, o que perdeu em peso ganhou em graça.
Maysa começou a escrever seus poemas em espanhol enquanto se recuperava, aproveitando as folhas brancas de uma agenda. Em um deles, seu subconsciente se revela de maneira impressionante: “No oyen mis gritos./Quedé dormida y creyeron/O pensaron: se murió”. No Brasil, pensaram que ela tinha perdido a voz, quando ela apenas tinha perdido o contato com as raízes da vida. a perda de sentido da vida que a levou a escrever em outro poema: “Parece el tiempo, cansado,/Se ha quedado triste, monótono,/Y que se olvidaron de mi...”
A cantora Maysa Matarazzo não titula poemas. Escreve simplesmente o que lhe vem a cabeça, ao sabor da inspiração. Segundo seus pais, tão logo conclua a gravação de alguns discos em Buenos Aires, voltará ao Brasil – onde lhe negam o título de melhor entre as melhores. Assim recuperada para a vida pelo caminho da poesia, a cantora fará suas mudanças para iniciar uma nova etapa de sua carreira, cantando para os norte-americanos e para os europeus, em uma excursão em que reverá com a alma sua voz dolorida, os segredos de uma alma que vive em conflito com o mundo.






(Reportagem publicada originalmente na revista O CRUZEIRO, em maio de 1962)


6 de agosto de 2013

Texto: Maysa na pintura e na lembrança, de Carlos Drummond de Andrade


Carlos Drummond de Andrade

Maysa na pintura e na lembrança 


Não sei se a pintura de Maysa é boa, não sei se é má. Sei que a pintura de Maysa, agora exposta na galeria de arte do Teatro Vanucci, me comove. Não fui vê-la: basta-me a notícia da exposição para sentir como tudo que é de Maysa chega até nós envolvido de paixão, de luta existencial, de vida em conflito com a vida.

Ao ler que não foi só cantora, compositora e atriz, mas também pintora, escultora e poeta, e sem entrar na avaliação de seu mérito em cada uma dessas formas de expressão, não tenho impressão de insegurança, superficialidade ou vaidade em busca de sucesso. Imagino antes que em cada tentativa de Maysa para se afirmar num setor de criação, havia a procura lancinante de forma de doação ao mundo – a forma definitiva. E essa doação seria de amor, no sentido mais perfeito da palavra, que é antes estético do que sentimental, ou seja, o ajuste completo das potencialidades do ser às potencialidades do mundo, em harmoniosa composição.

Esta composição de amor pode começar no plano individual, como entendimento psicofísico entre dois seres, mas alastra-se até a comunhão com a humanidade, cuja expressão intemporal me parece residir no plano da arte. Seria vão dizer que Maysa procurava apenas o status cômodo de uma pessoa integrada na condição de cantora ou pintora. Prefiro acreditar que tinha sede de comunhão, e buscava-a de todos os modos. E as artes em que procurava exprimir-se eram outros tantos caminhos para chegar a essa finalidade. As formas contingentes de amor não lhe bastariam.

O sucesso de um disco ou de um show ficariam aquém do seu projeto subconsciente de vida.

Por tudo isso, teria de sacrificar-se. Uma bela mulher talentosa que não se satisfaz com sua beleza nem com seu talento e procura alguma coisa mais do que isto, sem encontra-la, não por serem limitados os seus dons, mas porque a vida se encarrega de gerar situações críticas. Sobrevém o choque, o desejo subterrâneo de auto-imolação, que vai cortando as possibilidades da artista. O amor-criação não encontra correspondência adequada no grupo social, que deseja apenas aplaudir a cantora da dor-de-cotovelo e da solidão, sem perceber que atrás dessa música dolente há um enorme coração ligado a uma irrecusável ansiedade artística. E esse coração destrói-se aos poucos.

Seu fim, mesmo inesperado, é compreensível. Uma vida cheia de tensões, de insubmissão às regrinhas miúdas do jogo, teve o desfecho dramático que coroa sua tragicidade espiritual.

Poupou-lhe a velhice, a doença congeladora, a exaustão das forças profundas que comandavam sua inquietude. E convida-nos a pensar melhor nessa rara figura de mulher cuja voz ressoa sempre a nossos ouvidos como portadora de uma carga emocional diferente da comum emoção de intérprete. Maysa interpretava-se a si mesma, não a autores de suas canções. Era ela, atirada de corpo inteiro no torvelinho, na dor de viver e de pedir à vida o que esta esconde ou nega aos mais exigentes e aos mais generosos. Maysa completa, identificada com o texto, pairando na melancolia.

Não sei de cantora que assim me transmitisse o sentimento de unidade entre o canto e o veículo humano, na área que ela ocupava. Decerto a televisão ajudou a fortalecer este sentimento, pois a imagem de Maysa envolvia sua interpretação como o vestido ao corpo, se não era o corpo que imprimia ao vestido essa autenticidade. Compreendo muito bem o fascínio que exerceu sobre Manuel Bandeira, através da figura, reduzida praticamente à boca e aos olhos: “Os olhos e a boca de Maysa se entendem, os olhos dizem uma coisa e a boca de Maysa se condói, se contrai, se contorce, como a ostra viva em que se pingou uma gota de limão”. Só uma gota? O belo destino destruído foi atraído ao léu por uma onda de amaritude.

Restam discos, quadros, esculturas, palavras. Restam as fotos. E uma história truncada que poderia ter sido feliz, mas que foi, sobretudo, dramaticamente humana em sua confluência de amor e arte.


(Texto publicado originalmente na coluna do escritor Carlos Drummond de Andrade, no jornal FOLHA DE S. PAULO - quinta-feira, 22 de junho de 1978)

24 de junho de 2013

Imprensa: Manuel Bandeira: um poema e sua história - Revista A Cigarra (1961)


Manuel Bandeira: um poema e sua história 


PRINCIPIEI a gostar de Maysa primeiro pelo seu nome. Maysa! Parece um amanhecer. Depois... eu tenho no meu quarto de dormir cinco instrumentos a que muita gente tem horror porque não sabe que eles são como a antiga navalha de barbear: utilíssimos e inofensivos quando só usados há seu tempo e hora: telefone, à direita de minha cama; rádiozinho, à esquerda; televisor, em frente; vitrola, perto da janela, refrigerador, na sala contígua (de sorte que nela faz frio, mas no quarto tenho ar fresco e seco e não ouço o ruído da máquina). Considero-os cinco amigos do peito, só que o televisor e o rádio uma vez por outra me pregam uma falseta.
Pois é, eu ouvia falar muito de Maysa, de sua voz, de sua vida, de suas excentricidades, e, uma noite, à hora do programa dela, liguei o televisor e disse comigo: vamos ver como é que é. Apareceu Maysa de costas, depois de repente se virou, com cara de pantera acuada e desfechou um “boa noite”, que dava a impressão de ter saído não da garganta, mas do fundo do estômago. Depois vieram as visagens, muitas visagens. Por fim, o canto. A voz de Maysa não tem nada de extraordinário. Diz mais do que canta, e a sua dicção também nada tem de extraordinário. Para ser inteiramente franco, não gostei muito não. Todavia, terminado o programa, desligado o televisor, quem disse que eu podia esquecer os olhos e a boca de Maysa? Eles me perseguiam, era tão pungente a expressão deles, expressão de amargura, a mais intensa que eu já tinha visto na vida ou na arte! Na semana seguinte estava eu colado ao televisor, à espera do programa de Maysa. E os olhos e a boca de Maysa continuavam a me perseguir fora do programa. Ora, isso não estava dentro do meu programa. Resolvi, então, aplicar à obsessão o golpe da catarse. O artista leva esta vantagem sobre o não-artista: pode livrar-se das obsessões, reduzindo-as a poema, estátua, pintura ou desenho. Vou fazer um poema sobre Maysa, disse com bravura, e comecei a assuntar. Pretendia ser absolutamente sincero, nada de galanteio, de orquídeas brancas, de marrons glacês. No meio da coisa, considerei que Maysa afinal é mulher, que Maysa podia magoar-se (ela já tem sido vítima de tanto cafajeste)... desisti do poema.
Mas o poema é que não desistia de vir a furo. Um dia veio. Eu tinha que bater a minha crônica para o jornal, não achava assunto que me atraísse, só se falava, então, em Brasília, de súbito me deu o estalo, principiei a teclar na Hermes Baby:

Neste momento a mão é para Brasília
(Todos os caminhos levam a Brasília)
Mas eu gosto de tumultuar o trânsito
Vou louvacionar Maysa!

Três quartos de hora depois o poema estava concluído.
Procedi, então, como costumo fazer quando fico satisfeito com o meu trabalho: entrei a narcisar-me nele. Confesso a minha fraqueza: gosto de lamber a minha cria, se ela me sai bonitinha. O narcisamento consiste em reler a versalhada dez, vinte, trinta vezes. Não há defeito, por pequeno que seja, que resista a essa prova.
Posteriormente, considerando que as quatro linhas iniciais soavam demasiado a crônica, suprimi-as, por caducas, da versão final e definitiva do poema.
Não sei se Maysa gostou ou não da louvação. Vinicius me disse que ela gostou.
Maysa não me deu bola.



MAÍSA

Um dia pensei um poema para Maísa
“Maísa não é isso
Maísa não é aquilo
Como é então que Maísa me comove e me sacode me buleversa me hipnotiza?

Muito simplesmente
Maísa não é isso mas Maísa tem aquilo
Maísa não é aquilo mas Maísa tem isto
Os olhos de Maísa são dois não sei o que dois não sei como diga dois oceanos não-pacíficos.

A boca de Maísa é isto isso e aquilo
Quem fala mais em Maísa a boca ou os olhos?
Os olhos e a boca de Maísa se entendem os olhos dizem uma coisa e a boca de Maísa se condói se contrai se contorce como a ostra viva em que se pingou uma gota de limão
A boca de Maysa escanteia e os olhos de Maísa ficam sérios meu Deus como os olhos de Maísa podem ser sérios e como a boca de Maysa pode ser amarga!

Boca da noite (mas de repente alvorece num sorriso infantil inefável)”
Cacei imagens delirantes
Maísa podia não gostar.
Cassei o poema.

Maísa reapareceu depois de longa ausência
Maísa emagreceu
Está melhor assim?
Nem melhor nem pior
Maísa não é um corpo
Maísa são dois olhos e uma boca

Essa é a Maísa da televisão
A Maísa que canta
A outra eu não conheço
Não conheço de todo

Mas mando um beijo para ela.


Poema originalmente publicado na coluna de Manuel Bandeira no Jornal do Brasil, em 1960.

(Reportagem publicada originalmente na revista A CIGARRA, em 1961. Agradecimentos ao leitor Edson Luiz Mendes que tornou possível a publicação desta matéria. Muito obrigado!)

25 de outubro de 2012

Discografia: Contracapa de Maysa (1966)


Maysa (1966)

Contracapa


"Aqui está um novo disco para sua coleção de LP's de Maysa. 
Com ele volta nossa alegria ao vê-la novamente brilhando na constelação dos maiores astros da música popular brasileira, no mesmo lugar que até agora ninguém conseguiu, ou seja, o da maior intérprete romântica da nossa música. Esse disco está associado à nova série de programas de televisão produzidos pela Guelmay, firma criada por Maysa e Miguel, seu marido, e que é responsável direta por essa sua nova temporada entre nós, depois de tanto tempo fora. Como Maysa primou sempre por apresentar criações moldadas especialmente para o seu temperamento, esse LP não poderia fugir à regra, assim como também o seu programa, no qual vocês terão oportunidade de ver uma Maysa completamente realizada artisticamente. E se compararmos esse disco ao seu primeiro, teremos a exata impressão de que ela está começando tudo outra vez, tal a beleza com que está cantando e dizendo aquelas coisas, com aquele desejo enorme de transmitir, como só ela sabe fazer.
Todos os números constantes desse LP fazem parte dos três primeiros programas já gravados, e que contam com a equipe dirigida por Abelardo Figueiredo, também grande responsável pela volta de Maysa ao cenário artístico. Aqui vai a relação de músicos e maestros que tiveram participação mais direta nessa produção, pois aparecem com Maysa na televisão:
Na Fantasia de Cellos, composta de três músicas / PRIMAVERA / EURÍDICE / e / CANÇÃO DO AMANHECER / estão 10 cellos da Sinfônica e Filarmônica de São Paulo, com o solo de Corazza, e, nos violinos, o solo de espala Gino Alfonsi, e a harpa de Elza Guarnieri. Arranjos de Chico de Moraes.
Para a Fantasia de Trombones, composta por LUANDA / DEMAIS / UM SUSSURRO DE MEU MUNDO CAIU / I'M GETTING SENTIMENTAL OVER YOU / e PRECISO APRENDER A SER SÓ / vieram especialmente do Rio de Janeiro, os irmãos Maciel e Lira, além de Bill e Toucinho, de São Paulo. Arranjos de Erlon Chaves.
Em / TRISTEZA / Maysa nos demonstra a sua versatilidade, cantando essa música de carnaval, acompanhada pela Escola de samba do Salgueiro. Participação de Menescal.
Em / NE ME QUITTE PAS / e / AS MESMAS HISTÓRIAS / acompanha o magnífico solo de violino de Elias Slom. Arranjos de Chico de Moraes.
Temos ainda uma nova composição de Maysa, / CANÇÃO SEM TÍTULO / com arranjo de Erlon Chaves; / CANTO LIVRE / música que abre o primeiro programa na televisão; e / MORRER DE AMOR / que a cantora considera uma das coisas mais sérias da atualidade.
Essas duas são também arranjos de Chico de Moraes.
Por fim, o já famoso / CANTO DE OSSANHA / que, no programa, conta com o ballet de Mercedes Batista. Arranjo de Erlon Chaves.
Eis portanto o novo LP de Maysa, na sua estreia, com a RCA VICTOR, produzido pela Guelmay.
Parabéns a todos nós, obrigado a Maysa, a Abelardo Figueiredo e principalmente à RCA VICTOR, por mais esse grande presente musical que nos oferece."

Roberto Corte Real

15 de fevereiro de 2012

Poema



Todo llegó
Con fuerzas,
Bravíamente,
Rompiendo,
Llegando,
Y se hizo la calma total.

El verde quedó verde,
La chica quedó renga,
La vieja seguía vieja,
Pero la calma... total.

No hubo una sola vez
Qué coraje tuviera de gritar,
De deshacerse,
Y preguntar.

Las piedras a los pies ya no herían
La noche,
El día,
Igual...

¿Quién ha muerto?
¿El mundo, o yo? 

Maysa

(Poema de Maysa escrito em Espanhol e publicado na Revista O Cruzeiro, em 1962.)


22 de dezembro de 2011

Especial: 2 anos de Blog Oficial Maysa



Enfim, dois anos! É muito tempo. Muitos artigos se passaram, muitas fotografias, muitos vídeos, muitas músicas. Seria impossível lembrar de tudo que aconteceu neste blog durante esses dois anos de feliz existência.  Do começo tímido, até agora, muita coisa mudou! Outras passaram...mas acredito que tudo contribuiu para o melhor, para se tornar o que é hoje em dia: o maior acervo de Maysa na internet.
Prometo que não vou falar muito. Estou muito feliz e ansioso para que vocês gostem da surpresa que preparei, mas sou obrigado a agradecer as centenas de elogios ao longo deste ano e de todos os dias. Desde o leitor mais assíduo até aquele que só vem aqui pra ler alguma coisa, de vez em quanto. A todos vocês o meu muito obrigado! E obrigado principal e infinitamente a Maysa, que é de todas as formas a maior mentora disto tudo aqui. É pra ela que tudo isto existe, espero estar agradando minha querida, e acredito que estou.
Agora, vamos celebrar porque é o este dia mais nos inspira a fazer. Obrigado!

Vitor Dirami

10 de agosto de 2011

Poema: "Canto Vagabundo"


Poema 


"Canto Vagabundo"

Ouve, vai te ouvir na vida
sem recados, sem partidas
deixa o peito se entregar.

Tantas verdades escondidas
em desculpas tão perdidas
que te escondeu o coração.

Se tu precisas dos pedaços
que ficaram nos caminhos
que tu queres apagar,
se quer ser arrependida,
sem ter por quê,
pára de uma vez com a tua busca,
se o que tu foste te assusta
vê se podes te esquecer.

Pinta teu negro de branco,
faz de ti um adeus
ou pede ao poço teu fundo.

Ouve o teu coração, ouve!
Que a dor é preciso
para a paz que te agoniza.

Maysa