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29 de dezembro de 2025

As últimas gravações de Maysa (1975)

 



    Relembramos hoje as últimas gravações conhecidas de Maysa, registradas pela Som Livre em 1975, e que permaneceram esquecidas até 2012. Em 1974, Maysa gravou seu último álbum, do qual já se falou aqui recentemente. Lindo e pouco reconhecido. Nos dois anos restantes que Maysa teve antes de partir, fez shows, fez música, cantou na televisão, mas não gravou mais nada. Assim se pensava até o ano de 2012, quando o produtor Rodrigo Faour resgatou o seu último e raríssimo compacto simples lançado pela Som Livre em 1975.

    No lado A, Maysa gravou a letra que tinha escrito para o tema de abertura da novela Bravo!, composto pelo maestro Júlio Medaglia para a telenovela das sete de Janete Clair, que estreou em 16 de junho de 1975. Até ali, o público já havia escutado aquela canção ao menos uma vez, quando Maysa cantou a sua criação mais recente acompanhada de grande orquestra, no Fantástico da TV Globo, em cores. A versão em estúdio soou muito mais modesta do que aquela ao vivo. Pela segunda vez consecutiva e igual ao Tema de Simone quatro anos antes, uma música que Maysa fazia para as novelas da Globo não era inclusa nos álbuns lançados com as trilhas sonoras pela Som Livre.

    No lado B, uma releitura supersensível de Ouça, um dos seus maiores sucessos, lançado quase vinte anos antes, mas sem o mesmo brilho da criação original. Curiosamente, cerca de um ano depois do lançamento do compacto com Bravo!, Maysa voltaria às paradas de sucesso através de uma outra novela da sete da Globo, Estúpido Cúpido, que incluiria Meu Mundo Caiu como um dos principais temas sonoros da novela ambientada no fim da década de 1950.

    Ainda que se trate de uma gravação lançada sem divulgação e com pouquíssima ou nenhuma repercussão (certamente foi impressa uma pequena e única tiragem, apenas para cumprir o contrato), estranha o fato desse compacto da Som Livre nunca ter sido sequer mencionado numa das biografias de Maysa escritas nos anos 2000. Só com o lançamento do CD Super Divas – Maysa, produzido por Faour na EMI, em 2012 – dedicado às pérolas do cancioneiro de grandes personalidades femininas da música popular brasileira – as últimas gravações de Maysa em estúdio foram lançadas remasterizadas, mas sem nenhum detalhe de sua produção em 1975.

    Apesar da pouca divulgação do lançamento original (1975) – visto que, de fato, ela não era ouvida na novela, é possível que o compacto tão tenha satisfeito Maysa. Em sua última entrevista, concedida em novembro de 1976, em Curitiba, ao jornalista Aramis Millarch, ela declarara que o uso excessivo de cordas (ex: violinos, violoncelos) na instrumentação de uma obra musical atrapalha; uma possível referência seu último trabalho em disco – o compacto de Bravo!/Ouça. Basta comparar essa versão de Ouça com a rendição ao vivo, acompanhada de Paulo Moura e trêsmúsicos na TV Cultura, em novembro do mesmo ano de 1975, para entender o que Maysa estava falando. O jeito de Maysa cantar em 1975, não era igual ao que ela cantava em 1957 quando gravou Ouça pela primeira vez. Na regravação, o arranjo de Ouça foi tão fidedigno à versão de 1957 que deixou a gravação soando antiquada; muito inferior à recriação no programa Ensaio, aonde a solidão enorme do eu lírico contagia numa roupagem instrumental intimista. Também é possível que ela possa ter renegado o lançamento como já indicava ter feito com a música tema de Bravo!, durante uma entrevista coletiva antes da estreia do show na boate Igrejinha, ainda em novembro daquele ano, quando se recusou a falar dessa música. Esse comportamento era um efeito do fim do relacionamento de Maysa com o ator Carlos Alberto, protagonista de Bravo! e provável “alvo poético” da letra que ela fizera. E essa já era a segunda música de Maysa associada a ele; a primeira fora a quinta faixa do lado 1 do LP lançado um ano antes – Não é Mais Meu – que ela declarara ter feito como um carinho ao ator. Além dela e de Bravo!, Maysa veria nascer ainda uma nova música feita com Julio Medaglia – seu novo parceiro musical e afetivo – a seresta Nós, que ela não teve tempo de gravar em estúdio.

    Para ouvir as músicas do compacto clique aqui e aqui.





30 de dezembro de 2024

Cinquentenário do álbum Maysa (1974)

 


    Lançado há cinquenta anos, em dezembro de 1974, nos formatos de LP e fita cassete, o disco intitulado apenas Maysa ganhou em meio século uma única reedição em CD, nos anos 1990. Pouco comentado, é lembrado mais por ser o último trabalho em disco de Maysa, do que propriamente pelo seu conteúdo, uma grande injustiça. O álbum marcava o reencontro de Maysa com o veterano produtor Aloysio de Oliveira, com quem já havia realizado dez anos antes o seu primeiro e melhor disco ao vivo, lançado pelo selo independente de Aloysio que marcou época no período da bossa nova: a Elenco. Em 1973, Aloysio iniciara um novo projeto junto a gravadora, dessa vez chamado Evento. O disco de Maysa foi um dos três primeiros lançamentos desse selo de curtíssima duração e pouca repercussão, junto a um novo LP de Billy Blanco em louvação a cidade de São Paulo e o relançamento do álbum de 1958 que reuniu Dorival Caymmi e Ary Barroso. 
    Gravado num raro período de calmaria na carreira de Maysa, o álbum, que do início ao fim levou um ano para ser lançado, comunicava o seu estado de isolamento, tanto na indústria musical quanto no pleno pessoal, como ela revelou em entrevista ao jornal O Globo na época:
 “Meu único programa, atualmente, é passar o maior tempo possível na minha casa em Maricá. Só voltarei a ter uma vida artística mais ativa se puder fazer tudo com muita calma. Senão, fico apenas no disco, que está aí para quem quiser ouvir. É o que tenho para dar”. 
    O repertório seguia os moldes do seu antecessor, o célebre Ando Só Numa Multidão de Amores (1970) – mais músicas antigas com roupagem nova e poucas contemporâneas. A diferença principal de um trabalho para o outro é a escolha aparentemente inusitada de clássicos carnavalescos como “Agora é Cinza” e “Rasguei a Minha Fantasia” que ganharam novo sentido na interpretação de Maysa. Um movimento semelhante ao que Elis Regina fizera em seu álbum de 1973, quando gravou “É com esse que eu vou”. Sentido novo também ganhou a sua versão da música que abre o disco, “Bloco da Solidão”, da dupla Jair Amorim e Evaldo Gouveia, que Maysa gravou com um surdo num dos melhores arranjos que o maestro Gaya fez para o álbum. Incluída no LP de Jair Rodrigues Festa Para um Rei Negro (1971), Maysa transformou “Bloco da Solidão” de um hino festivo para uma pungente declaração de mágoa que não se deixa abater por nada. Entre as poucas músicas “atuais” do disco, ela garimpou verdadeiras pérolas. 
    As outras são “Até Quem Sabe” de João Donato, gravada em seu álbum Quem é Quem? (1973); mas que Maysa pode ter ouvido na voz da amiga Gal Costa, que incluiu a música no álbum Cantar, lançado meses antes do LP dela. Preciosa também é a sua versão jazzística para o maior sucesso de Antônio Carlos e Jocafi, “Você Abusou”, que Maysa cantou com propriedade única, deslocando para a primeira estrofe os versos “Mas não faz mal/É tão normal ter desamor/É tão cafona sofrer dor que eu já nem sei/Se é meninice ou cafonice o meu amor...”. Ninguém deve ter entendido nada, uma pena. Novidade mesmo, apenas duas e mesmo assim pela metade. Uma era “Não Sei” – letra de Aloysio para o antigo standard estadunidense “No Other Love” (e que por si só era baseada numa melodia de Chopin). A segunda, “Não é Mais Meu”, letra da própria Maysa para um tema instrumental da novela Eu Compro Esta Mulher (1966), que ela gravou para “fazer um carinho” no namorado de então, o ator Carlos Alberto, que atuou na novela da TV Globo. 
  “O resto das músicas é de gente que estava comigo, quando comecei. Há pedaços de Silvinha Teles, de Dolores, de Aloysio, de Marisa. Não se trata de um saudosismo burro, de fossa, mas de um estado de espírito”. 
    Embora esquecido hoje em dia, naquela época houve uma certa excitação entorno do lançamento do novo disco da cantora, que apresentou as músicas dele no Fantástico com quase dois meses de antecedência. Ela também mostrou a regravação de “Morrer de Amor” no Especial Maysa, exibido na TVE-RJ no mesmo ano. Ocasião em que comentou o novo álbum e recebeu elogios de Tom Jobim, que naquele momento também tinha Aloysio de Oliveira como diretor da produção do famoso álbum que Elis Regina e ele gravaram em 1974. Não existem números seguros que informem o desempenho comercial do último álbum de Maysa, um indicativo de que provavelmente não foi um êxito de vendas. A revista Veja, numa crítica ranzinza, avaliou bem a performance vocal de Maysa, mas considerou que ela “perdia” para os arranjos “grandiloquentes” do maestro Gaya. O que não deixa de ser verdade e abre espaço para imaginarmos o que teria resultado o encontro de Maysa com a guitarra e o violão de Lee Ritenour e Oscar Castro Neves (que fez os arranjos de base do LP dela) – dupla que à mesma época, registrou um belo álbum de bossa nova sob a tutela de Aloysio no selo Evento. Só podemos imaginar. Mas razinza foi o tom predominante em maioria das críticas do álbum - algumas eram até cruéis. 
    Uma curiosidade é que o álbum lançado pela Odeon em dezembro de 1974 não se trata da última gravação de Maysa em estúdio. No ano seguinte, ela registraria um obscuro compacto pela Som Livre, contendo de um lado uma regravação pouco inspirada de “Ouça”, e do outro o tema da novela Bravo! para o qual escreveu uma letra que chegou a renegar pouco tempo depois. É possível que tenha sido esse compacto que motivou Maysa a reclamar do uso excessivo de cordas em orquestração, durante a última entrevista que ela concedeu, em novembro de 1976. Contudo, se os últimos anos de sua vida artística foram titubeantes, o último álbum permanece como uma delicada conclusão de uma etapa. Assim como o primeiro LP da cantora e compositora, lançado em novembro de 1956; por coincidência, o último álbum também não mostrava a foto de Maysa na capa, apenas aquarelas de gatos do artista gráfico César G. Vilella. Seu rosto só aparece na contracapa, sorrindo, ao lado de uma de suas pinturas. Maysa pinta e borda, literalmente, em seu último disco. Se ele começa extremamente dolorido, ao longo das outras onze faixas Maysa vai transfigurar as emoções como bem entende; seja expondo a melancolia oculta nos sambas alegres de carnaval, ou trazendo à flor da pele a tristeza inerente a todas as decepções e esperanças de viver um amor. E é o amor incondicional à vida que Maysa proclama na última faixa, “Hoje é dia de amor” de Luiz Bonfá e Maria Helena Toledo, gravada dez anos antes por Rosana Toledo e Dick Farney. É possível notar que ela termina sorrindo a última frase da canção – “tudo insiste em fazer voltar/Pra esse céu/Pra esse mar/E o amor” – difícil imaginar um jeito mais bonito de encerrar um álbum de Maysa. 


Veja aqui o Especial de Maysa exibido na TVE-Rio em 1974.

Um Encontro (1974) álbum de Lee Ritenour & Oscar Castro Neves 


Leia mais sobre o último álbum de Maysa aqui.






15 de julho de 2013

Imprensa: Maysa - edição - 1961 - exclusiva da bossa nova, Jornal do Brasil (12/04/1961)


Maysa - edição 1961 - exclusiva da bossa nova 

Vera Pereira


A cantora Maysa, que esta semana embarca para os Estados Unidos, em cumprimento de um contrato firmado no ano passado com a boate Blue Angel, de Nova Iorque, reaparecerá em fins de maio ao público carioca, em nova fase de sua carreira artística: assinou contrato de exclusividade com um conjunto de integrantes da bossa nova e em todas as suas apresentações, durante o ano, em shows, televisão ou discos, no Brasil, e, possivelmente, no exterior, se fará acompanhar por eles.
Nesse sentido, gravou um primeiro LP, em estilo bossa nova, intitulado Maysa e a Nova Onda, e, aproveitando sua temporada de um mês em Nova Iorque, tentará levar o conjunto para os Estados Unidos. Se não o conseguir, em virtude da barreira imposta pelo Sindicato de Músicos dos Estados Unidos à exibição de estrangeiros, reincidirá o contrato com a boate americana, pois já tem proposta para uma tournée pela América do Sul, acompanhada pelo conjunto, devendo apresentar-se em junho na Argentina e depois no Chile.

PRIMEIRA TOURNÉE


É essa a primeira vez que um conjunto de músicos bossa nova fará uma excursão artística fora do Brasil, principalmente aos Estados Unidos. Algumas exibições individuais, em pequenos grupos, foram feitas no ano passado, na Argentina, com João Gilberto e Norma Benguell, mas é a primeira vez que a tournée é organizada especialmente com uma cantora exclusiva.

A sugestão para a viagem partiu da própria Maysa que, durante sua última temporada nos Estados Unidos, havia ouvido referências entusiasmadas de Lena Horne, Sammy Davis Jr, e outros artistas que haviam conhecido a nossa música moderna ao fazer temporada no Brasil.

De volta ao Rio, Maysa, que em Punta Del Leste conhecera pessoalmente o violonista Menescal e João Gilberto, em sua exibição naquela cidade, entusiasmada com o ritmo dos músicos, procurou entrar em contato com outros elementos da turma, através de Ronaldo Bôscoli, que conhecia como compositor.

O CONTRATO


Já no show do Copacabana Palace e nos programas de televisão que realizou no início do ano, Maysa aparecera com elementos da bossa nova, e, ao ser contratada pela Columbia Discos para a gravação de um LP, surgiu a ideia da exclusividade. Tendo Roberto Corte-Real, diretor da companhia, permitido à cantora escolher os arranjadores do novo disco, Maysa exigiu que fossem contratados, ao mesmo tempo que ela, Luis Eça e Roberto Menescal, não desconhecidos profissionalmente e pertencentes ao grupo BN.

Com a assinatura do contrato, Maysa criou também uma novidade entre cantores brasileiros, embora de uso comum entre europeus e americanos: organizou uma direção artística, a cargo de Ronaldo Bôscoli, que se incubirá especialmente da montagem e da produção de seus shows.

O CONJUNTO


O conjunto, que assinou contrato de exclusividade para acompanhamento de Maysa em todas as suas exibições e que com ela gravou o LP Maysa e a Nova Onda, é integrado por:

Roberto Menescal, de 23 anos, conhecido compositor e violonista, responsável pelos arranjos para pequeno conjunto, que compôs também várias músicas do LP;
Luis Carlos, de 21 anos, pianista, acompanhante de João Gilberto, Norma Benguell e Cauby Peixoto em excursões à Argentina;
Bebeto, 21 anos, considerado o melhor contrabaixista do país, além de tocar também flauta, clarinete e sax;
Hélcio, baterista que acompanhará Maysa nos Estados Unidos. É quem possui maior soma de experiência profissional, pois acompanhou Sammy Davis em sua recente temporada em São Paulo, participou nos Estados Unidos do Perry Como Show e foi convidado por Les Baxter para gravar um LP intitulado Ritmos Latino-Americanos. É inventor de uma novidade em tipo de bateria, com quatro tambores, chamada tamba.
A regência e os arranjos para grande orquestra, assim como os solos de piano, foram feitos por um maestro de 23 anos, Luis Eça, que estreia como arranjador. É muito conhecido como pianista de jazz e já foi bolsista do Conservatório de Viena.

MAYSA SORRI


-         A Maysa do novo disco, afirma Ronaldo Bôscoli, aparece cantando leve, mais perto do ouvinte, sem superdramatização. É uma Maysa de sorriso no rosto.
O que em nada lhe modificou a personalidade; na opinião dos outros elementos do conjunto, o estilo Maysa é o mesmo, embora haja modificações na maneira de dizer as letras, com um acompanhamento moderno, balançando, bem de bossa nova.
-         Meu gênero ainda é o romântico, declara Maysa. Mas precisei me atualizar; e ter conhecido os meninos – como chama os integrantes do conjunto – teve a outra vantagem de me interessar em aprender música e aperfeiçoar meu estilo.

PORQUE NOVA ONDA


-         O nome bossa nova anda muito vulgarizado, diz Ronaldo Bôscoli. Atualmente se aplica a tudo o que é diferente, de bom gosto ou não, em todos os assuntos.
Por isso preferiram adotar o termo nova onda, sem dúvida tradução do francês nouvelle vague.

-         É preciso compreender que o nome, em si, não quer dizer nada, nem ao menos que o estilo seja completamente novo, explica Bôscoli. Apenas distingue, no momento, um grupo de jovens que faz música leve, antinegativista, triste mas com otimista.

Música para gente jovem, se não em idade, em talento, como Ary Barroso e Vinicius de Moraes.

MÚSICA DE ELITE


A bossa nova – ou nova onda – nasceu como um tipo de música brasileira para uma elite de cultura musical, assim como o jazz nos Estados Unidos.
O compositor ou instrumentista, precisa ter suficiente conhecimento teórico, boa técnica, estudar, ler e ouvir música, para adquirir a versatilidade necessária para improvisar e fazer harmonizações dentro do ritmo balançado.

-         Existem, na música brasileira, o samba de morro, o samba de salão e o samba bossa nova, afirma Ronaldo, assim como nos Estados Unidos, por exemplo, há o fox-trot, o jazz e outros ritmos.

BN COMERCIALIZADA


Dizem que a fase de sucesso da BN está passando e o movimento tende a desaparecer, pois o público está saturado com uma quantidade grande de cantores e compositores que aderiram ao estilo lançado por João Gilberto.
Para Ronaldo Bôscoli o próprio fato de quase todos os autores tentarem introduzir o ritmo balançado em suas composições já mostra que, embora não seja mais a novidade que era há dois anos, a influência da BN foi profunda.

-         Há é uma inflação de sambinhas, declara Menescal, que copiam a famosa batida de violão da BN, adaptam-na uma a uma, melodia de fácil agrado e comercializam o estilo. Uns com bom gosto – Luis Antônio e Miltinho, por exemplo – outros, nem tanto. A verdade é que, assim como Elvis Presley sempre venderá mais que Gerry Mulligan, também a autêntica BN não pode ser comercial, e muito compositor de menos categoria faz mais sucesso que Antônio Carlos Jobim.

CASO JUCA CHAVES


-         Exemplo típico é o do moço Juca Chaves, afirma Ronaldo. Representante da bossa paulista em terra carioca, chegou quando fervia o movimento BN. Imediatamente, sem que ninguém do grupo tomasse conhecimento, declarou-se adepto de nosso estilo. Depois, desmentiu-se; voltou atrás e, no meio tempo, ia entoando suas modinhas, tipo começo de século, que são lindas, à sua maneira, mas não respeitam nenhuma das características de bossa nova.
-         Principalmente, acrescentou, o caso Juca Chaves teve o desserviço de confundir, no conceito popular, o nome de um estilo musical com a adoção de comportamentos diferentes e atitudes desconcertantes.

INFLUÊNCIA DO JAZZ

A música da bossa nova tem muita afinidade com o jazz, embora seja essencialmente brasileira nos temas e no ritmo. A variação sobre um mesmo tema, a improvisação, mesmo algumas frases melódicas lembram imediatamente o estilo jazzístico. A origem negra comum nas músicas negra e americana, assim como a idade dos seus adeptos, talvez sejam fatores de explicação.
-         Essa influência existe e nem poderia deixar de existir, afirma Ronaldo Bôscoli, pois os músicos que criaram a BN, todos de menos de 30 anos, já cresceram sob o impacto da propaganda americana em discos e em filmes.

RITMO DE SAMBA-RANCHO


É no ritmo, entretanto, que se evidencia o caráter essencialmente brasileiro, talvez mesmo carioca, da bossa nova.
-         Foi João Gilberto quem adaptou para o violão a batida característica das escolas de samba, quando regressam de um desfile, explicou Hélcio, e que mais se assemelha a um samba-racho, lento e marcado, do que ao ritmo ligeiro da bateria que começa o desfile.

FARÁ SUCESSO


O ritmo da bossa nova deve agradar ao público americano. Além da afinidade com o jazz, o ritmo harmonicamente mais certo, mais definido, torna fácil a assimilação para o ouvinte estrangeiro.
-         O samba tradicional faz mais sucesso no exterior por ser exótico, afirma Ronaldo Bôscoli, do que pela sua qualidade intrínseca.
-         Assim acrescenta Maysa, é muito raro que uma cantora brasileira, que não se apresente no exterior com a clássica fantasia de baiana e a gesticulação de Carmen Miranda, faça sucesso.
A montagem do primeiro show de Maysa com a nova onda, nos Estados Unidos, será semelhante à que realizou na última temporada no Copacabana Palace. Cantará, em português, apenas acompanhada pelo pequeno conjunto. 


(Reportagem publicada originalmente no CADERNO B do JORNAL DO BRASIL, na quarta-feira, 12 de abril de 1961)

27 de novembro de 2012

Curiosidades: Maysa e Agostinho dos Santos - "Meu Castigo"


"Meu Castigo"

Agostinho dos Santos e Maysa em fragrante da Revista do Rádio, 1958.

Em 1958, Maysa gravou uma participação na valsa "Meu Castigo" de Onildo Ameida, interpretada por Agostinho dos Santos, declamando um poema de sua autoria. Gravada com acompanhamento da Orquestra RGE regida pelo maestro Enrico Simonetti, o disco foi lançado em 78 RPM pela gravadora RGE, mesma fábrica em que Maysa gravava. Ao que parece, a participação de Maysa não foi creditada no disco.
O registro da récita da cantora em "Meu Castigo", parece ter sido ignorado ao longo dos anos. Tanto é, que  sua participação na música nunca foi incluída em sua discografia oficial. O que pode ser visto como uma preciosidade quase inédita.
Apesar da rara gravação, os versos declamados por Maysa - "Hoje eu estive pensando, longo tempo, sem chorar, sem sofrer também, apesar de pensar em você..." são bem conhecidos do público. Esse poema de autoria de Maysa, seria musicado pelo maestro Simonetti, na canção intitulada "Você", - lançada no disco Convite para ouvir Maysa Nº 4, dali a pouco tempo, em fevereiro de 1959.
Fato quase desconhecido da carreira de Maysa, ouça agora, aqui no blog, essa bela canção. Uma verdadeira joia das carreiras de dois grandes nomes da MPB. Bravo!



16 de julho de 2010

Análise musical: O Estilo Maysa


O estilo Maysa


Dona de um estilo único, personalista, Maysa é o que se pode chamar de um canto singular em toda a história da música brasileira. Além de ser uma compositora extraordinária, autora de clássicos da MPB, Maysa interpretava de maneira muito intimista, emocionante, com toda a voz, sentimento e expressão sendo um dos maiores nomes deste gênero. Um canto gutural, ensejando momentos de tristeza e de grande expressão afetiva, muitas vezes, com uma caracterização altamente dramática. Esse expressionismo imenso, contribuiu para a criação de um estilo próprio – o estilo Maysa – que influenciou toda uma geração musical, principalmente posterior a sua.

É notável sua influência na obra de outras grandes vozes da MPB, como – Ângela Rô Rô, Cazuza, Fafá de Belém, Simone, Leila Pinheiro entre muitos outros. A equipe do blog oficial Maysa, reuniu 8 interpretações maravilhosas e especialíssimas de grandes nomes da música brasileira, cantando músicas que se eternizaram em sua voz, de Ângela Rô Rô á Nana Caymmi – passando por Claudette Soares, Elizeth Cardoso, Alaíde Costa, Cauby Peixoto e Arnaldo Antunes. Para começar, Ângela Rô Rô – uma das maiores vozes atuais da MPB, interpreta "Ouça" de autoria de Maysa, e "Demais" de Tom Jobim e Aloysio de Oliveira, alguns dos maiores sucessos da cantora. Reviva Maysa:

Ângela Rô Rô - "Ouça"


Ângela Rô Rô - "Demais"


A grande Claudette Soares interpreta "O Barquinho"; sucesso de Ronaldo Bôscoli e Roberto Menescal na voz de Maysa.


Arnaldo Antunes; um dos melhores representantes da geração musical dos anos 90 interpreta "Meu Mundo Caiu"; de Maysa.


A divina – Elizeth Cardoso dá sua voz á uma sensível interpretação para "Nós"; de Maysa e Julio Medaglia em 1979.


A eterna Alaíde Costa interpreta "Caminhos Cruzados" de Tom Jobim e Newton Mendonça; mais um dos muitos sucessos gravados por Maysa.


Cauby Peixoto, amigo da cantora, interpreta "Bom Dia, Tristeza"; de Adoniran Barbosa e Vinicius de Moraes, música eternizada na voz de Maysa.


Nana Caymmi, uma das maiores vozes femininas da música brasileira interpreta "Tarde Triste" de Maysa, um dos maiores clássicos de sua carreira.



2 de julho de 2010

Análise Musical: Maysa como compositora


Maysa como compositora



Aqui no blog oficial Maysa, uma das propostas é tentar desvendar o ser-humano Maysa. Pois hoje, vamos tentar revelar uma de suas mil faces – a compositora.


A Maysa compositora talvez, tenha mais importância em sua carreira do que a Maysa intérprete, afinal – seu ingresso no cenário musical da época fora como compositora, a mesma compositora das oito faixas de Convite para ouvir Maysa, disco que representa o início de sua carreira musical em 1956, oito faixas com letra e música de sua própria autoria que obtiveram rápido êxito perante o público, eram elas: Marcada, Não vou querer, Agonia, Quando vem a saudade, Tarde triste, Rindo de Mim, Resposta e Adeus. Todas com duas características principais únicas, que dali por diante marcariam toda sua obra, 1: a melancolia, abordada como tema nas canções, fato que caracterizarou sua obra como fruto do bom e velho samba-canção. 2: o caráter intimista e pessoal das letras, na maioria das vezes, abordada na primeira pessoa do singular, expondo ao público todos os sentimentos e emoções, sentidas pela autora.


Tecnicamente, Maysa não usava de artifícios sofisticados nas letras, muitas vezes, não conseguia alcançar a melodia perfeita, tentando ao máximo (e quase sempre conseguindo) atingir uma harmonia agradável no todo da composição. Realmente, seu brilhantismo consistia em converter sentimentos e emoções em versos e palavras, atingindo um êxito espantoso. Maysa conseguia transmitir em suas letras, tudo aquilo que sentia – amor, paz, tristeza, dor, felicidade... Ela se entregava profundamente a canção, como se seu próprio eu estivesse presente naqueles versos, seu trabalho é marcado pela sinceridade da compositora.


Daquele primeiro disco de 1956, ao menos quatro músicas obtiveram rápido e grande êxito junto ao público – Tarde triste (seu primeiro grande sucesso), Adeus, Agonia e Resposta. Muitas delas, se tornaram clássicos do samba-canção, ganhando inúmeras interpretações pelas mais diversas vozes, Resposta, parecia um tanto quanto deslocada do restante das faixas do álbum, seu caráter autobiográfico e seus versos em tom de desabafo, “Ninguém pode calar dentro em mim, esta chama que não vai passar.” Estava há anos-luz do repertório de Maysa, porém, se consagraria com o decorrer do tempo, como uma de suas melhores composições. Adeus, mostrava uma Maysa menina envolta entre amigas, telefonemas e roupas. “Adeus, palavra tão corriqueira, que diz-se a semana inteira, a alguém que se conhece.” era uma letra composta por uma Maysa adolescente – aos 12 anos de idade. Não é equívoco dizer que todas aquelas composições, com exceção da Adeus, retratavam sua infelicidade e seu desencontro dentro do casamento. Desta forma, fugindo do tédio e da tristeza, a música, nascia como uma verdade válvula de escape para Maysa.


Perante o êxito incontestável daquela jovem cantora de apenas vinte anos, que se mostrava compositora talentosa – não foram poucas as críticas há favor de Maysa, críticas de nomes de peso da época como os também compositores Antônio Maria, Denis Brean, Oswaldo Guilherme e o cronista Ricardo Galeno, homens que se derretiam em elogios ao talento da jovem. Impressionava também, sua veia criadora, Maysa havia absorvido com muita delicadeza e sinceridade, os maiores ensinamentos do cancioneiro romântico brasileiro. Em sua obra, via-se nitidamente a influência do romantismo da obra de grandes compositores como Noel Rosa e Dolores Duran, dois de sua galeria de ídolos. Curiosamente, ela havia estudado piano clássico por grande parte de sua infância e afirmava ser a música clássica sua maior influência musical.


Um dos maiores sucessos de toda sua carreira, e próxima canção a figurar nas paradas de sucesso foi o samba-canção Ouça. Lançado já em 1957, a música de sua autoria era segundo Maysa um recado ao marido André Matarazzo - “Ouça vá viver, sua vida com outro bem, que hoje eu já cansei de pra você não ser ninguém.” Entre o estrondoso sucesso da canção e a separação do casal, também não se demoraria tanto tempo. E o sucesso, foi realmente estrondoso, unanimidade de público e crítica, a canção entrou para o hall dos clássicos da canção romântica brasileira e serviu para consolidar a posição de Maysa na galeria das grandes cantoras e compositoras do Brasil. Enquanto Ouça embalava casais apaixonados e corações despedaçados país a fora, a vida dela tomava rumos que por sua vez, alteraria em 180º graus o curso de sua vida, e teria influência direta em sua música.


Segundo Maysa, é fato afirmar que após sua separação (1957), explodiu seu impulso criativo. É desta época que nasceram seus maiores clássicos e as composições de maior sucesso de sua carreira, são desta época – O Que?, Escuta Noel, Meu Mundo Caiu, Mundo Novo, Felicidade Infeliz e Diplomacia, todas obtiveram total sucesso de público e crítica. Durante este período, o tom de suas letras começaram a mudar, suas músicas começaram a adquirir um viés cada vez mais dramático, rodeadas sempre pelos mesmos temas que atormentavam sua autora, via-se Maysa em cada letra, sua personalidade turbulenta era transposta nos versos e a mostravam cada vez mais aflita e angustiada. Por esta mesma época, o maestro da maioria de seus discos na RGE – Enrico Simonetti- , começou a aparecer como seu parceiro em outras composições de sua autoria, ela ainda assinava as letras e Simonetti se encarregava de musica-las, desta parceria nasceram – Fala Baixo, Maria Que é Triste, Você, Deserto de Nós Dois, Voltei e Vem Comigo. Porém, a crítica logo observou que gostava de Maysa como compositora, porém, sem parceiros.


A partir de 1960, há um hiato na série de composições gravadas de Maysa, indagada inúmeras vezes, sobre esta ausência de letras de sua autoria, ela dava inúmeras respostas, por isso, não seria correto afirmar qual o seu motivo para ter parado de compor. Este hiato só seria quebrado com Canção Sem Título no LP Maysa de 1966 – “Que tristeza havia em mim, neste mesmo lugar, que saudade eu senti do que estava por vir.” Ali, ela inaugurava também uma nova forma de compor, cada vez mais sincera e verdadeira, fugindo das altas doses de dramaticidade e buscando uma atualização musical, ela encontrava uma nova forma de compor, mais refinada e moderna. Praticamente neste mesmo período, Maysa lançou a canção Amor-Paz de sua autoria com Vera Brasil, defendendo-a no II Festival de Música Popular Brasileira da TV Record em 1966, em Amor-Paz, ela transmite nitidamente há que veio – “Vou lhe cantar uma canção, que começa agora no teu sonho bom e tem a música que vem lhe ofertar, um canto meu, de amor-paz.”


Desta nova fase, também se destacaram a singela e autobiográfica Me Deixe Só, sua única parceria com Roberto Menescal de 1970 – “Me deixe só errada e complicada, não imponha tua mão no meu caminho.” Era uma música linda, quase uma declaração de amizade mútua dos dois, singela. Para embalar as desventuras de sua personagem na telenovela "O Cafona" "de 1971 na Rede Globo, Maysa compôs aquela, que ela acreditava ser sua melhor letra composta até ali – o Tema de Simone“Não sei que rosto eu vou usar de noite, em qual desgosto eu vou curtir meu papo.” Realmente, era sua melhor letra, em Tema de Simone, Maysa atinge a maturidade musical plena como compositora, é uma música sofisticada e assustadoramente moderna – “Que somos todos juntos, que estamos todos juntos, na busca inútil, de sermos separados.”


Sua última composição gravada é Não é Mais Meu, uma parceria com David Nasser e Erlon Chaves da década passada, tema da novela "Eu compro esta mulher" de 1966 – Maysa afirmava te-la gravado para fazer um agrado ao marido, o ator Carlos Alberto. Não era uma música ruim, pelo contrário, uma letra, tocante, porém, soa como um fim bucólico “Me dê tua mão que eu aprendo, difícil foi desaprender, por onde eu andei foi tão triste, que quase nem deu pra te ver.” Em 2000, Marcus Viana musicou um poema inédito da cantora, "La Enorme Soledad", cuja gravação feita pela cantora Paula Santoro, foi incluída com sucesso na trilha da minissérie "Aquarela do Brasil", produzida pela TV Globo.


É necessário que a Maysa compositora seja lembrada com o mesmo prestígio que a Maysa intérprete, que ela seja devidamente reconhecida como o que é: uma das maiores compositoras da história da MPB. Inexplicavelmente, muitas vezes, passa despercebido o fato de que os maiores sucessos de sua carreira serem composições de sua autoria – Ouça e Meu Mundo Caiu. É unânime, afirmar que Meu Mundo Caiu (1958) é o maior sucesso de sua carreira, apesar de vários afirmarem que Ouça seja unânime na preferência popular. Porém, o apelo e consagração da música a tornaram um verdadeiro mito na história da música popular brasileira, só Meu Mundo Caiu poderia superar a romântica Ouça em sucesso de público e crítica.


É também, mais do que necessário reafirmar a importância de sua música nesses tempos atuais tão decadentes na música brasileira, pois nesta época, sua música soa mais atual do que nunca. Maysa transita de forma belíssima pela poesia, poesia esta que faz de sua obra, um canto singular na história da música brasileira. Entre e o amor, a dor e a poesia, lá está a música de Maysa – “Por isso é que eu fico cismando, querendo ser tempo pra tempo me dar, se saudade é querer ficar perto, eu preciso de tempo pra me encontrar.” (Saudades de Mim) “A Lua que ontem me viu, chorando, me mandou contar, que em outra janela te viu, sozinho me nome á chamar.” (Toda Tua) “Felicidade, deves sem bem infeliz, andas sempre, tão sozinha, nunca perto de ninguém.” (Felicidade Infeliz). Pois eu clamo e reafirmo – que se passe mil modismos imbecis pela música brasileira, porém, o canto de Maysa não passará como uma folha jogada ao vento, é mais forte, sua música é eterna para todo sempre.

20 de março de 2010

Especial: Maysa em Jazz

Maysa em Jazz


Hoje vamos falar um pouco das versões standards de Maysa. Pouca gente sabe mas ela tinha uma grande veia jazzística, vamos tentar desvendar a face jazzística da cosmopolita Maysa.


Primeiramente é necessário esclarecer que até hoje no Brasil nunca se viram vozes como a de Maysa que transitam tão bem dos ritmos nacionais até os mais distantes como a Chanson Française e o bolero. Pois ela era assim. Fluente em 5 idiomas com uma desenvoltura assustadora, uma pronúncia elegante e refinada, notável pela total ausência de sotaque, Maysa interpretava clássicos do bolero á exemplo de La Barca assim como espantava cantando I’Ve Got You Under My Skin, uma das maiores canções do jazz.


Desde o segundo álbum, Maysa já demonstrava sua face internacional ao cantar em outros idiomas quando incluiu as estrangeiras To The End Of The Earth e Un Jour Tu Verras no LP. A primeira é um dos maiores clássicos de Beguine, grande sucesso na voz de Nat King Cole. A segunda por sua vez é uma das maiores letras da Chanson Française, composta por um nome do peso de Moloudji, que anos depois se derramou em elogios á Maysa.

Dali a dois anos não havia como não se espantar com uma surpreendente Maysa cantando 4 gravações inéditas de diferentes idiomas em um compacto de 1959. Eram elas a norte-americana Get Out Of Town do grande Cole Porter, a francesa Chanson D’Amour, a italiana Malatia e pasmem: ela desencavou do folclore turco Uska Dara, uma gravação inédita e muito pouco conhecida de sua discografia.

Em Maysa, Amor...e Maysa de 1961 ela registrou a glamourosa I Love Paris de Cole Porter, grande sucesso da Broadway.

No mítico disco norte-americano Sings Songs Before Dawn Maysa interpretava clássicos da música norte-americana em uma releitura de grandes sucessos do Jazz Standard como You Better Go Now, When Your Lover Has Gone , The End Of a Love Affair e The Man That Got Away. Músicas de grandes nomes do Jazz como Robert Graham, Eina Swan, Ira Gershwin e Frank Sinatra. Foi uma das primeiras excursões de Maysa ao mundo do Jazz em interpretações intensas e provocantes com a sua inconfundível voz grave e rouca.

Em 1962 Maysa fez mais duas gravações maravilhosas de grandes standards do Jazz, a primeira é uma verdadeira preciosidade: a misteriosa What’s New? da dupla Johnny Burke e Bob Haggart composta em um já distante 1939. A segunda é o maior clássico do Jazz Standard: a noturna e enigmática Round Midnight (também chamada de Round About Midnight) composta por um monstro sagrado do gênero Thelonius Monk e embelezada pelas mãos de Bernie Hanighen e Cootie Williams. É uma canção noturna, provocante e enigmática interpretada por meia dúzia dos maiores nomes da música americana como Sarah Vaughan, Ella Fitzgerald e Miles Davis. A voz rouca e quente de Maysa deu á canção uma interpretação personalíssima, extremamente sensual e entorpecente, é sem dúvidas o melhor standard em sua voz, na minha opinião ela chega a superar a versão da grande Ella para este clássico do jazz.

Em 1964 Maysa fez uma histórica temporada na boate Au Bon Gourmet, felizmente celebrada em um LP ao vivo. Na primeira faixa ela emendava Demais -que veio a se tornar um dos maiores clássicos de sua carreira- com uma interpretação agressiva e passional de I’ve Got You Under My Skin. Um dos maiores clássicos do Jazz de Cole Porter na voz do grande Frank Sinatra. Ela nunca chegou a gravar a música em estúdio, mas este registro histórico deu a Maysa um status único de Jazz Woman na música brasileira, sua voz rouca e quente casava perfeitamente com o ritmo noturno e a batida glamourosa do gênero norte-americano caracterizado pelo improviso. Ela é sem dúvidas ao lado de Dolores Duran e Dick Farney os maiores representantes do Jazz no Brasil.

Uma de suas últimas gravações jazzísticas foi o clássico Just in Time. Nele, Maysa faz uma de suas melhores interpretações do gênero acompanhada de um arranjo magnífico de saxes e trombones semelhante aos dos mais soberbos musicais da Broadway.

Além de todas essas interpretações estonteantes temos que destacar outras que não foram citadas como: Autumn Leaves, What Are You Doing The Rest Of Your Life? e o Pot-Pourri Fantasia de Trombones.

4 de março de 2010

Especial: Maysa na Sinfonia Carioca


Maysa na Sinfonia Carioca

Em 1960 Maysa seria convidada ao lado de grandes nomes da música brasileira como Jamelão, Ted Moreno, Luely Figueiró entre outros para o relançamento na gravadora Continental da clássica Sinfonia do Rio de Janeiro que imortalizaria a beleza da aclamada praia carioca nos versos ''Rio de Janeiro que eu sempre hei de amar/Rio de Janeiro, a montanha, o Sol, o mar''.


Obra de Billy Blanco e Tom Jobim, a grandiosa Sinfonia teria sua primeira versão em 1954 acompanhada de um time precioso de intérpretes nas vozes de Nora Ney, Doris Monteiro, Dick Farney, Elizeth Cardoso, Emilinha Borba e outros. Assim como sua primeira versão, o relançamento de 1960 apesar de imitar a primeira na pompa e no glamour, acabou se tornando um fiasco com pouquíssimas cópias vendidas. Nesta segunda versão coube a Maysa a interpretação de ''A Montanha'' e o ''O Morro'' canções antes confiadas á Emilinha Borba e Nora Ney respectivamente em sua primeira gravação.


Aqui você curte agora essa gravação pouquíssimo conhecida da discografia de Maysa, um verdadeiro tesouro para ávidos colecionadores! Viva MAYSA.





Agradecimentos: Fotos gentilmente cedidas do acervo de um grande e querido amigo colecionador, muito obrigado!

3 de fevereiro de 2010

Especial: Maysa e a Bossa Nova

Maysa e a Bossa Nova

Hoje vamos falar um pouco sobre o famoso e conturbado relacionamento de Maysa com a nova onda, a Bossa Nova! Vamos tentar explicar e contar um pouco desse tórrido relacionamento. Maysa é com certeza a maior injustiçada da bossa nova, a "Rainha da Fossa" é poucas vezes apresentada como uma das pioneiras do movimento, o que é a mais pura verdade. Maysa não só cantou o amor, o sorriso e a flor, como também foi uma das primeiras grandes estrelas da música á cantar a nova onda, estando seu nome intimamente ligado ao novo rítmo. Maysa já cantava composições da memorável dupla Tom Jobim e Vinícius de Moraes desde seu segundo LP de 1957 com Se Todos Fossem Iguais a Você. A cantora eternizaria em sua voz interpretações de clássicos do ritmo como Meditação, O Barquinho, Água de Beber, Quem Quiser Encontrar o Amor, Nós e o Mar entre várias outras. Mas o flerte de Maysa com a bossa nova ficaria cada vez mais forte com a década de 60 e o ínicio de seu namoro com Ronaldo Bôscoli, um dos maiores nomes e compositores da bossa nova. O namoro daria muito pano para manga. Maysa caiu na vida de Bôscoli literalmente do ar, quando na então inóspita praia da Barra da Tijuca, ela chegou de helicóptero, fazendo um estardalhaço próximo a um barzinho onde ele estava. Bôscoli era um cafajeste legítimo, charmoso, que na época namorava a então desconhecida e futura musa da bossa nova: Nara Leão. No segundo semestre de 1961, Maysa faria uma turnê antológica em Buenos Aires acompanhada de Bôscoli e a turma da bossa nova. Nas apresentações no famoso King’s Club da capital portenha, Maysa seria a primeira cantora brasileira a cantar a bossa nova fora do Brasil, além disso a temporada seria recheada de histórias famosas de brigas entre Maysa e Bôscoli, escândalos em hotéis e verdadeiros combates entre os dois com direito a arsenais de bombinhas e um desfecho digno de cena de Hollywood. Logo após a conturbada temporada em Buenos Aires, seria lançado no Brasil pela Columbia um dos mais comentados e polêmicos discos de Maysa, Barquinho. Produzido por Ronaldo Bôscoli o primeiro disco de Maysa totalmente de bossa nova continha arranjos leves e suaves, das mãos de Luiz Eça, Roberto Menescal e Luiz Carlos Vinhas. Em que Maysa interpretava de um modo nunca antes visto. Foi uma chuva de críticas! Acusaram Maysa de tudo, de estar renegando o samba canção e até de estar tentando embarcar na nova onda para fugir do ultrapassado samba canção. Até amigos da cantora tacaram o pau, o próprio Antonio Maria faria uma crítica pesadíssima a Maysa, era uma guerra declarada. Incompreendido e alvo de tantas críticas o disco tornou-se um insucesso e uma grande dor de cabeça para Maysa. Porém, engana-se quem pensa que sua tavessia pela nova onda foi um naufrágio, Maysa deixou uma imensa contribuição para a bossa nova, infelizmente muitas vezes esquecida. Mas suas ótimas interpretações devem ser celebrizadas, poucos sabem mas foi Maysa a primeira á gravar a antológica O Barquinho de Bôscoli e Menescal muito antes de qualquer outra suposta gravação. Também foi Maysa a maior divulgadora da bossa nova no exterior, em suas inúmeras excursões pelo mundo. O sucesso da bossa, tem uma dívida eterna com Maysa. Maysa também é bossa. Viva Maysa!



Maysa e Ronaldo Bôscoli. Um tórrido relacionamento que daria muito pano para manga.



Maysa em versão bossa nova. A praia da Barra da Tijuca era um paraíso e o principal refúgio de Maysa nos anos 60.

Capa de "Barquinho". Ensolarado e inovador, o primeiro LP totalmente de bossa nova de Maysa renderia muitas críticas e dores de cabeça à cantora.