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6 de junho de 2026

Maysa, agora - revista Jóia, 05/1969

 

Maysa, Agora


Texto de Zélia Prado

Fotos de Orlando Abrunhosa


Com seus olhos grandes, verdes, fortes, sua voz quente e rouca, seu jeito especial e inconfundível, Maysa voltou. Para ficar? Ninguém sabe. Nem mesmo ela, que sonha em morar em Lisboa, com seu marido e o filho do primeiro casamento. Mas quem quiser a antiga Maysa, a expressão máxima da fossa na música popular brasileira, não a encontrará mais. Essa já não existe. Hoje Maysa é outra, de alma leve, apaixonada, respirando um ar puro que não deixa mais lembrar aquela velha imagem de um copo de uísque na mão esquerda e o cigarro na direita.

Todo mundo já disse que Maysa voltou. Que agora é uma nova mulher, mais bonita e serena, mais quieta e feliz. Dizem também que veio para ficar. Não é verdade. Maysa apenas chegou para ver e saber do que anda acontecendo por aqui. Ela quer morar em Lisboa, com Miguel, seu marido, e Jayme, seu filho de 12 anos.

Agora, é diferente. Maysa fala de tudo, até do passado que complicou muito a sua vida, e do qual ela não conseguia falar sem uma grande exaltação. Agora Maysa é tranquila, não se esconde, gosta de viver e gosta de Miguel, sua principal razão. Bonita. Emagreceu e parece ter crescido mais. Tem o cabelo acobreado e uns olhos terríveis, verdes e fortes.

Hoje, é capaz de dizer porque aconteceram certas coisas, é capaz de situar-se naquilo que antes ela apenas descrevia como uma grande confusão. No momento ela se dedica a um trabalho carinhoso de escolha. Devagar, vai ouvindo muitas novas músicas, conhecendo novas pessoas. Música boa há em toda parte, até na Penitenciária Lemos Brito onde as pessoas tem o samba reforçado de amor.

Quando chegou ao Rio, todos a vimos inteligente, crítica, segura. Miguel está sempre perto, atento. Às vezes falam castelhano, às vezes, português, às vezes só se falam pelos olhos, com a mesma clareza. Maysa Monjardim, ex-Matarazzo, agora casada com um belga naturalizado espanhol, não é uma pessoa simples que a gente conhece num dia qualquer. É complicada, estranha, porque já viveu o suficiente para isso. Tímida, não. Cuidadosa, talvez. Ela não poupa ninguém quando se refere a setores da imprensa que em outros tempos lhe causaram inúmeros aborrecimentos. Mas também não poupa quando se atira à autocrítica, franca e abertamente. Maysa sabe hoje, que a vida melhorou. Acaba a fase do “Ouça” e “Meu Mundo Caiu”.

“Ouça”: um modo de surgir e também fugir. Em 57, apareceu uma moça cantando. Ela surgia de repente, com um sobrenome importante e um excelente “pedigree”. Bem nascida, bem criada, a música popular brasileira ficou na expectativa de ver o que ia dar. Surgiu cantando “Ouça”, que só dizia tristeza do começo ao fim. Maysa Matarazzo, casada com o industrial André Matarazzo, mãe de um menino, há muito tempo travava relações com gente ligada ao meio musical. Sua casa era frequentada por Elizete Cardoso, por exemplo. E era em casa que ela cantava, acompanhada pelo violão de alguns amigos. Nasceu junto com a bossa nova, com “Barquinho”, de Menescal e Bôscoli. Foi revelação, foi melhor cantora, foi tudo. Mas havia de pagar muito caro por isso. Pela maneira especial de cantar, pelo gênero que fazia, Maysa foi talvez a cantora que mais sofreu o massacre da popularidade.

Entraram pela sua casa, invadiram seu domínio e sua intimidade, vasculharam sua vida pessoal. Começaram os problemas: Maysa e André se separaram, ela veio para o Rio para nunca mais voltar à sua casa paulista.

Não é difícil ter acesso à cantora, nem à mulher. Estamos em seu apartamento em Copacabana, numa rua das mais raras, onde não se ouve o barulho dos ônibus nem das buzinas do dia. Maysa, de calça comprida, esguia, sem maquilagem, sentada sobre uma perna, ao lado de Miguel. Dias antes, acontecera a estreia de seu programa na TV Tupi, de onde agora é contratada.

- Maysa, você se queixava muito do Brasil, não é? Que não chamavam você, que todos já a tinham esquecido e coisas no gênero. Como foi o convite da TV Tupi? E porque você acha que ele aconteceu justamente agora?




- Todas as queixas que eu fiz tinham sua razão, entende? Quando apareci como cantora, puseram-me lá em cima, você lembra? Depois as coisas mudaram, eu fugi. Você vê pela sucessão de viagens que já fiz, minha terrível necessidade de fugir das pessoas, de quando em quando. E aí fiquei lá fora por mais tempo, cantando para uma gente não é a minha. Ninguém se lembrou de me chamar. Desta vez foi em Lisboa. Encontrei-me com Flávio Cavalcanti no hotel e ele me falou que caso eu voltasse, haveria um lugar certo em seu programa de calouros, “A Grande Chance”.

- A Tupi foi bacana com você, não é, Maysa?

- E eu fiquei emocionada com isso. Eles foram carinhosos, receberam-me de uma forma muito especial. Agora, já tenho um ponto de partida. Em sua casa, o movimento é grande, todos os dias. Hoje, ela ainda conversava com um compositor quando cheguei. Amanhã, um bate-papo com Antônio Adolfo, autor de “Sá Marina” e “Meia-Volta’, para escolher algumas músicas que entrarão no próximo disco. Miguel, gravador em punho, faz a agenda de sua mulher. É ele quem comanda a parte mais difícil do espetáculo, marca as horas, os encontros e entrevistas.

A memória de Maysa é relativa e oscilante. Infância, quase apagada.

- Eu me lembro de tão pouca coisa, sabe? Há inclusive um período em minha vida que parece estar completamente em branco; aliás, vários períodos. Infância mesmo, lembro de quase nada. De minha casa, porém, lembro demais. Era uma casa enorme na Rua Visconde de Silva, em Botafogo, que hoje está transformada em hospital. Tinha um pé de abiu (uma frutinha que está fora de moda), tinha uma goiabeira, bacana onde eu me instalava por horas inteiras e era um custo me fazerem descer, tinha um telefone do qual me lembro bem. Lembro dos móveis, dos tapetes. Essa casa marcou muito, está em quase todos os meus sonhos. Um dia, eu gostaria de viver lá. Sou filha única de pais preocupados. Eles sempre exerceram sobre mim uma influência importante, sempre correram para me buscar quando eu passava tempo demais fora, isso depois de mulher feita, mãe de Jayminho.

Hoje é aniversário do pai de Maysa. De vez em quando ele telefona e conversam um pouco sobre as fitas, as gravações ouvidas. De noite, ela irá vê-lo e abraçá-lo pelo dia.

Maysa cresceu. O pai, fiscal do imposto de consumo, viajava demais acompanhado de sua mulher. Era preciso um lugar seguro, no conceito da época. Maysa foi interna para o Sacré-Coeur de Jesus de São Paulo, no mais tradicional estilo. Lá, muitos hábitos foram adquiridos, como por exemplo dormir com as pernas encolhidas, jamais esticadas sobre a cama.

- A freira dizia que se a gente dormisse com as pernas esticadas, e se assim morresse, o demônio vinha de noite levar a gente pelo pé. Hoje, não consigo me livrar disso. É claro que nenhum demônio vai me levar, mas eu ainda encolho as pernas para dormir.

Foi ainda no internato que ela começou a namorar André Matarazzo. Muito mais velho que Maysa, ele era amigo da família. Maysa era linda e era uma menina de 14 ou 15 anos. André cultivou-a a seu modo, preparou-a para ele. Levava bombons para o colégio, dava presentes, levava Maysa para passear aos domingos. Aos dezessete anos ela se casou.

- Maysa, eu me lembro de quando você foi embora do Brasil, ressentida, magoada, fugida. Agora vamos voltar à questão do que você chamou “esquecimento”. Eu acredito sinceramente que as pessoas tivessem medo de falar com você, entende?

- Era preciso que eles me chamassem para saber se eu queria ou não. E que medo é esse? Você sabe exatamente porque eu tive que ir embora? Porque na época, era livre um tipo de imprensa que a gente chamava de marrom. Essa imprensa acabou comigo, fez o diabo. Uma vez, na boate Meia-Noite, no Copacabana Palace, eu estava num grupo onde qualquer coisa muito engraçada foi dita. Num gesto meu, couberam várias legendas de escândalo. Só porque durante um segundo eu debrucei sobre a mesa, onde estavam copos e garrafas, já que era na boate que eu estava. E por incrível que pareça eu estava rindo, estava alegre, estava alegre de uma piada, compreende? Essa imprensa me deu o dissabor de passar pela rua e ver em cada banca de jornal uma insinuação do maior mau gosto. Essa imprensa me escandalizou. Você devia ser muito menina, não sabe bem como foi. Mas foi demais. Insuportável mesmo.

- Eu me lembro sim...

- E isso ainda era o de menos. E foi por essas e outras que eu resolvi desaparecer do mapa, entende? Não quero justificar minha vida nessa fase. Passei por uma crise aguda, bebi muito. A bebida causava os maiores estragos em mim. Tem gente que bebe dia e noite e continua a raciocinar direitinho, como sempre. Comigo não é assim. A bebida sobe à cabeça e eu me torno profundamente agressiva. O pior é que essa agressividade é dirigida às pessoas que eu mais gosto na vida. É uma defesa, não há dúvida, mas uma defesa dolorosa.

Não conheci essa Maysa de quem ela fala. Conheço outra, muito diferente e muito serena. Hoje, beber é inteiramente dispensável.

Jayme, seu filho, vai chegar de Madri para férias e sobretudo para matar as saudades. É um menino bonito. Quando fala nele, Maysa se enternece.

- Jayminho é um menino ainda. Está interno num colégio de Madri e leva a vida de uma criança tipicamente europeia. Lá, por vários motivos, a infância é maior, dura mais tempo. Aos doze anos, um menino ainda é uma criança no exato sentido da palavra. Gosto do tipo de educação que ele recebe, do jeito dele. Além do mais, é um filho maravilhoso, que entende as possibilidades e limitações que nós temos com relação a ele. Nunca menti para Jayme, nunca apareci de máscara, sabe? Um dos motivos que me levaram a deixar o Brasil foi meu filho. Eu não queria que na escola ele fosse uma criança diferente, por ser o filho de Maysa, porque não seria apenas assim. Palavra de honra, eu pensei muito nisso quando resolvi ir embora. Hoje, acredito que meu filho seja feliz seja integrado.

Quando o menino nasceu, Maysa esteve entre a vida e a morte. Só foi conhecê-lo dias depois, uma compensação radiosa a todas as angústias e medos até então sofridos.

Uma noite, na boate Sacha’s, ela decidiu que não voltaria mais a São Paulo. Estava com seu pai, o grande amigo e testemunha. Amanhecia na Avenida Atlântica, eram quase seis horas da manhã. Maysa nunca mais voltou. Começou a atuar no Rio, foi morar sozinha. Mesmo só, num reduto próprio Maysa se cansava e tinha vontade de fugir. Fugiu. A Europa estava lá esperando, era 1959.

- Maysa você foi para que?

- Eu fui para sair daqui, só isso. Fugi. Fiz minha primeira viagem sozinha, completamente sozinha. Em Paris, fizemos logo um grupo que andava sempre com o dinheiro curtíssimo. Mimi Ouro Preto, Vera Barreto Leite e eu. A vida era dura. Mas foi maravilhoso passar seis meses vivendo lá. Uma experiência notável que me ajudou, me ensinou. Quase me casei com um jornalista português exilado, conheci um mundo de gente formidável, um mundo de gente não formidável.

Maysa prepara cuidadosamente seu disco de regresso. Durante dias e dias ela ouve, discute e escolhe. A pessoas acham que o disco vai ser na base da fossa.

- Não, o disco tem o que eu achar mais bonito, o que for melhor. É por isso que estou escolhendo. Senão, eu pegava umas músicas que já conheço e gravava direito, não é? Amanhã, por exemplo. Amanhã, vou à penitenciária Lemos Brito, ver as músicas que os rapazes fizeram para o festival deles. Quem sabe, de lá sai uma faixa do meu disco.

Fui com Maysa à Penitenciária, num dia de muito sol, às três horas da tarde. Eu não sabia exatamente o que ia acontecer nesta visita. O objetivo era ouvir música com atenção, passá-la para o gravador. Mas que espécie de música pode fazer um homem que há muito tempo está fora do mundo? foi uma das experiências mais importantes que cada um de nós viveu, naquele auditório enorme e limpo da Rua Frei Caneca. Nem todos os presos estavam lá. Somente alguns, já que Maysa não ia cantar para ninguém. Eles têm uma orquestra composta quase que totalmente por instrumentos de sopro, mais o piano e o ritmo. Primeiro, ouvimos as três primeiras classificadas. Na primeira delas, Maysa parou. A música “O Guia”, foi a mais querida para ela. Nenhum de nós escondia um certo deslumbramento diante do que estava acontecendo. Maysa, ali, era uma visita de honra para todos. Uma espécie de mito que deixava sua redoma de aplausos e flores para penetrar no mundo deles.

Depois de Paris, de todo o aprendizado pessoal que Maysa sofreu, a volta ao Brasil. Mas ela não queria saber de estabelecer-se ainda. A Real inaugurava uma linha para Tóquio e pretendia vê-la entre seus passageiros. Passou três dias em Nova Iorque e depois foi a Los Angeles. Lá, recebeu um convite para atuar na boate Blue Angel, por uma temporada. Ela não poderia supor que apenas de passagem pelos Estados Unidos pudesse receber propostas de mudança.

Os pais, novamente tomaram uma providência: foram buscar Maysa, desfizeram seu apartamento americano. Aqui ela ficou apenas dois meses e seguiu para a Argentina onde ficou cinco. Brasil outra vez. Até que apareceu um contrato para Portugal. Estamos em 1962. Ela conhece Miguel Azanza.

- Foi então que minha vida, a verdadeira vida começou. Eu atuava no Cassino Estoril e uma noite, pouco antes de começar o show, estava no bar, sozinha. De repente se aproxima um grupo, com uma moça que trazia um disco meu para ser autografado. Entre todos estava Miguel, que nessa vez passou despercebido, juro que passou. Mas, quando teve de ir à Espanha, tão amigos tinham ficado, Maysa esteve novamente com Miguel. E quinze dias depois estavam juntos para o que desse e viesse.

- Era a primeira vez que eu fazia qualquer coisa de importante sem a interferência de ninguém. Eu me sentia livre, por isso mais segura e mais responsável. Passara toda minha vida como que tutelada. Aprendera que as pessoas mais velhas têm sempre mais razão, eram os donos da verdade e ponto final. Aí eu me senti muito eu mesma, sabe? Era eu, finalmente, quem respondia por mim. É, eu nasci naquele dia.  

- Eu não gosto muito de me arrumar, sabe? Só mesmo em tevê. E aí tem que ser muito bem arrumada, muito bem tudo. Em casa, eu ando como você vê. Calça comprida, nada de maquilagem, cabelo solto.

Maysa fala nervosamente, a voz grave, decidida e firme. Fuma muito, usa no dedo mínimo um anel de brasão. Apesar do cigarro, os dentes são claros e grandes, o lábio com um jeito meio amuado, mesmo na hora de sorrir.

- Sabe que eu e Miguel queríamos muito ter um filho?

Maysa ternamente se lembra de Jayminho, fala dele quase toda hora. Várias vezes é servido o café para nós. Ela se esforça para manter a linha usando adoçante artificial.

- Maysa, eu vi seu programa. A ideia de uma cantora subordinada a um texto não parecia ser real.

- Mas você não pode imaginar o que foi. Até cinco minutos antes do programa, o maestro ainda não tinha ensaiado comigo o que eu ia cantar, entende? Deu um medo enorme, mas o improviso funcionou, como inexplicavelmente funciona na maior parte das vezes.

A gente compreende porquê. Para Maysa, cantar é tão importante quanto receber ar continuamente. É uma forma de vida, o único jeito que ela tem de “botar pra fora o que está aqui dentro”.

Essa expulsão de sentimento não se condiciona a um só gênero, porque há muito para ser dito por Maysa, como cantora e como mulher. Preciso dela por mais um dia, mas esse dia é apenas a manhã, na praia, tranquilamente. Maysa, Miguel e eu, Ipanema toda para nós, sem intromissões.

- Vamos casar pela terceira vez não é incrível?

A alguém que se mostrou espantado pela insistência do casamento legalizado no Brasil, Maysa demonstrou a maior segurança:

- Casar não é mania não. É um jeito que eu tenho de ser mais eu, ser mais feliz porque serei tranquila em todos os sentidos. Nós casamos duas vezes, a segunda quando André Matarazzo morreu. Agora, só esperamos pela anulação do primeiro matrimônio de Miguel, que está por pouco tempo.

Miguel é três anos mais velho que sua mulher. Um homem elegante sob todos os pontos de vista, na maneira de ser e de vestir. Ele escuta Maysa falar e raramente interfere, ela não se constrange diante dele, em momento algum. Eles vão morar em Portugal, ela não sabe quando.

- Portugal é maravilhoso, gostamos de viver lá. E como brasileira, sou tratada de um modo bastante especial. As pessoas têm um tipo de formação muito apurado, são realmente amigos quando se aproximam da gente. Quando um português diz a você: “passa lá em casa amanhã”, ele está te esperando com um bom jantar, ou um cálice de vinho delicioso. O português leva muito a sério uma relação de amizade, uma ligação afetiva de qualquer espécie. Talvez por causa disso eu me sinta tão em casa, tão bem vivendo em Lisboa. Tão à vontade.

Ela não sabe até quando fica no Brasil. O Brasil é sempre um passeio de reconhecimento entre pessoas e coisas queridas, mas Maysa é mais Maysa quando pode ir e vir de todos os lugares que ama e fazem parte de sua vida. E se a gente perguntar o quando de seus planos, provavelmente vai ouvir alguma coisa que marca profundamente sua personalidade. Ela gosta de imprevisto, detesta os planos pré-estabelecidos.

- A gente fica enquanto realmente valer a pena.



(Matéria publicada originalmente no número 189 da revista Jóia, maio de 1969)



12 de maio de 2026

Maysa: "Hoje sou feliz" - Revista Jóia, 31/12/1957

 
Maysa: "Hoje sou feliz"


Reportagem de Isaac Piltcher

Fotos de Dilson Martins

A cantora acha caro o preço da glória, mas paga, tostão a tostão – uma vida inteira que começou com a gravação de um LP – “não trocaria por nada do mundo os milhares de amigos que minhas canções me trouxeram”.


    A pele queimada da praia, os olhos brilhando mais que nunca, cabelos despenteados como sempre, Maysa voltou para o Rio de Janeiro. Nascida carioca, os Monjardim cedo se transferiram para o planalto, levando-a ainda pequenina. Maysa se criou paulista, gosta da sua terra de adoção, mas o mar lhe faz falta. O mar e a poesia que envolve o Rio de Janeiro. É certo que ela gostaria que as circunstâncias em que se deu essa mudança fossem outra. Maysa afirma que gostaria muito que nada do que aconteceu – seu desquite de Andrézinho Matarazzo – dando ao caso as proporções de um “affaire” hollywoodiano, tivesse acontecido. Mas, se para que ela pudesse cantar livremente, para que ela pudesse viver a vida que ela queria e para um público que ela ama, esse teve de ser o preço. Maysa pagou-o sem hesitar, embora lamentando.

O que eu estou procurando

No vago aflita olhando,

De canto em canto buscando,

O que?...

    Maysa procurava, às vezes, aflita, a sua afirmação, a sua vida própria como mulher e como artista. E encontrou:

- Eu sou uma mulher feliz. Nunca pretendi nobrezas, nem de sangue nem industriais, e hoje tenho o que eu sempre quis. Tenho meu filho, tenho meu canto e tenho o meu público.

- Foi uma noite feliz aquela em que Roberto Côrte-Real, numa festa, começou a insistir para que eu marcasse a data em que eu gravaria o meu primeiro “LP”. A oposição das famílias era enorme, ajudada por um certo receio meu, que até então só cantara em casa, para os amigos. Entusiasmada por Roberto, resolvi pegar o “pião na unha”: Gravei o “Convite...” dias depois do nascimento do meu filho. Foi o meu segundo... Gosto de ambos e ambos me trazem alegrias...

- O sucesso do disco deu-me a coragem necessária para enfrentar o público de frente, e o que eu pensava ser uma luta amarga acabou sendo um encontro entre amigos... Hoje eu não trocaria por nada os milhares de amigos que minhas canções me trouxeram.

Onde estás Noel

Que não escutas

Os plágios das tuas músicas

Que se ouvem por aí...

    Maysa quando apareceu fez sensação como compositora. Suas letras inspiradíssimas e suas melodias bonitas, tomaram conta de São Paulo e logo do Brasil. Seu primeiro “LP” chamou-se “Convite para ouvir Maysa”. Convite que o povo aceitou sofregamente.

    Maysa agora não pensa em outra coisa que não seja a sua carreira artística: cantar, gravar, fazer filmes – já fez o primeiro e agora estuda proposta para o segundo – e excursões artísticas: no princípio do ano próximo Maysa deverá levar as suas canções aos States, depois de ter recusado convites para cantar na França, por imposição da família. Pela mesma razão, o o público de boates não a ouvirá tão cedo.

Ouça, vá viver sua vida com outro bem.

Hoje eu já cansei de pra você não ser ninguém...

A história de Maysa, de um ano para cá, está contada em suas canções, a maior parte composta bem antes disto. Se todos os que escreveram sobre ela se tivessem dado ao trabalho de ouvi-las, muito papel teria sido poupado e tudo teria sido melhor compreendido...

    Não há magoa em Maysa quando olha o passado: o que houve foi uma libertação, o fim de uma situação que não devia ter começado e que teria de acabar. Quando eu entrei para o Sacre-Coeur de Marie, em São Paulo, as freiras já gostavam de me ouvir cantando. Saí de lá para casar: meus estudos só puderam ser continuados em casa, com professores particulares – inglês, francês, piano – e um pouco, mas muito pouco, de economia doméstica. Minha vida se transformava numa pequena prisão de ouro que ia envolvendo toda a minha forma de ser. E não podia durar: o que eu queria não era nada disso; o que eu queria era exatamente o que eu vivo hoje: cantar para um público que eu gosto e que gosta das minhas canções. Eu sou uma mulher feliz.

To the end of the Earth

I’ll follow my star...

    Entre pratas antigas e gravuras inglesas Maysa constrói sua vida no Rio de Janeiro; Jayminho, seu filho, vive com ela e vê o pai de tempos em tempos. Há paz em sua volta, e o seu clima é trabalho. Muito mais do que antes, sem dúvida, mas é um ambiente de alegria que lhe dá força para ir perseguindo sua estrela, vencendo os obstáculos que a carreira lhe trouxe, junto com as alegrias e consagrações.

    Apesar de já ter atingido pontos que outros artistas só chegam no fim da carreira, Maysa acha que ainda há muito caminho a andar. Impulsionada por uma extraordinária força interior, Maysa seguirá, se preciso até o fim da terra, para dar ao seu público, sempre, o melhor das suas canções e da sua voz. 




(Reportagem de capa publicada originalmente no nº 3 da revista Jóia, de 31 de dezembro de 1957.)

3 de junho de 2024

Maysa entrevistada por Djenane Machado, 1971


Por vezes não contamos com todas as informações sobre uma reportagem como é o caso desta entrevista de Maysa por Djenane Machado. Não sei em qual revista ela foi publicada, mas certamente foi no ano de 1971. Quando Djenane e Maysa estavam no elenco da novela O Cafona da TV Globo. 


As Reportagens de Djenane 

Maysa: - Eu me matava por desamor


Quando eu estava no primário, tinha uma mania: desenhar olhos de pessoas famosas nos meus cadernos. Tinha verdadeira obsessão por olhos bonitos. Fazia-os com um esforço desgraçado porque sempre fui uma negação em desenho. Eu desenhava os olhos em cima e o nome da pessoa embaixo. Era gozadíssimo... Tinha uns preferidos, verdes, imensos, e o nome vinha embaixo: Maysa...

Eu cresci, Maysa viajou; estudei teatro; ela fazia um tratamento numa clínica na Espanha. Eu me tornei atriz. Eu me tornei atriz e entrei para a tevê; ela volta para o Brasil. Linda, magra, cantando como nunca. Foi aquele espanto, aquela alegria. Todos queriam saber se ela tinha mudado, como tinha emagrecido, que diabo tinha acontecido depois daquele tempão todo. Choveram entrevistas. E foi por causa destas entrevistas que embatuquei e cismei com ela de vez.

Maysa era um pouco eu. Seu modo de pensar, seus problemas, angústias tinham muito a ver comigo. Poxa, pensei comigo mesma, achei uma pessoa que não vai se assustar com meus problemas porque seus grilos são parecidos com os meus. Fui ver o seu show no Canecão e jurei que ia ser amiga dela. Não deu outra coisa, claro...

Houve de cara uma comunicação muito forte, imensa e acho eterna. Quando acontece um troço bacana ou então ela está na fossa, liga pra mim e eu corro para a casa dela pra gente curtir juntas. Enfim, a gente se dá muito bem, a gente briga muito, mas nada diminui o carinho. Hoje, pra mim, ela não se chama Maysa. Chama-se Ma. E eu passei a ser DG.



EU – Ma, me conta da tua infância, da tua babá, da tua mãe, do teu pai, das coisas que te marcaram. Da tua casa.

ELA – A minha infância foi uma árvore, um mar que servia de quintal de minha casa, foi um amor muito grande e de muita certeza, coragem. Foi boa demais para o que estava por vir. E veio, e como... minha babá, que continua comigo até hoje, continua com aquele cheirinho de alfazema no cangote onde muitas vezes eu me agarrava de medo da noite e do escuro. Mamãe, aquela mulher intocável, linda. A minha deusa. Papi, aquele ser quase proibido, sempre longe por causa do seu trabalho, forte como uma árvore, doce como um beijo que me dava no travesseiro quando estava no colégio interno, vivendo a imagem dele e de mamãe, naquela carícia medrosa e sozinha. Tudo me marcou na minha infância, porque eu sabia que ela ia terminar rápido.

- Ma, me conta do teu colégio (se você era boa aluna ou se tinha boas amigas).

- Meu colégio não era ruim. Eu é que era ruim no colégio, não por falta de disciplina, mas por saber que estando interna eu estava perdendo a juventude de meus pais.

 - Esse problema do seu pai e da sua mãe te marcou muito. Você é triste por causa disso?

- Triste, eu acho; mais que triste, só.

- Você tinha muitas amigas?

- Nunca pude ter amigas. Nunca me entendi muito com mulheres.

- Por que você diz sempre que sua mãe era uma deusa para você. Por que sempre era, no passado?

- Ela ainda é. Só que agora ela é minha também. Antes era só do papai.

- E André, teu primeiro marido, ele era super-mais-velho que você. E você uma garotinha. Você achava isso legal?

- No princípio, André era a figura do pai. Depois, mudou e eu passei a ser a mãe dele. Então, eu cansei. E descansei...

- Me conta um troço, Ma. Sempre achei o suicídio um ato de extrema coragem. Quando você tentava se suicidar, você realmente queria acabar com tudo ou o que você queria, no fundo, era começar outra coisa diferente?

- Os meus suicídios sempre foram pra valer. Geralmente, eu só faço as coisas pra valer. Depois, foi que eu descobri que aquilo era uma enorme procura de amor, de chamar atenção sobre mim. É, é um ato de coragem. Mas é a coragem mais inútil que eu já vi.

- Sabia que você ia dizer isso. Você já tentou a análise?

- Eu já me meti em análise, sim.

- Você teve coragem mesmo de se conhecer?

- Eu acho que sim, que teria coragem de me conhecer, não sei por quê, não? Mas prefiro conhecer os outros, gastar meu tempo conhecendo os outros. É mais importante para mim, é claro.

- Falou e disse...

- Ma, por que você bebe? Se eu sei que você tem horror ao gosto da bebida?

- Por que é que eu bebo, DG? Pela mesma razão que você. Realmente, eu não gosto do gosto da bebida. Mas tem o efeito depois. Às vezes, é bom. Às vezes, não, como você sabe tão bem.

- Mas eu gosto do gosto. Me responde agora. Eu sei que você adora a Elis Regina. E sofre à beça essa distância. Por que você não tenta se aproximar dela?

- Djenane, você às vezes julga os outros por si mesma. Nós temos, eu e você, alguma coisa em comum, mas nesse ponto não. Quem adora a moça é você. Eu, não. Quanto a sofrer a distância, como é que a gente sofre a distância se nunca houve presença? Você é que está sofrendo, porque ruiu a historiazinha que você fabricou, querida.

- Você muda muito de opinião, Dona Maysa. E que historiazinha é essa? Como eu gosto muito de você e gosto também dela, queria que vocês fossem amigas, só isso. Vamos mudar de assunto. Quais são as coisas que mais te emocionam num ser humano?

- As coisas que mais me emocionam num ser humano, é? A capacidade de amor, de humanidade que possa caber dentro de uma pessoa. Mesmo que sejam pequeninas. De tamanho, estou dizendo?

- Eu não sei se a senhora está me espinafrando ou se está me elogiando. Como eu sou uma moça muito educada, pelo sim pelo não, obrigada pela parte que me toca. O que é que você primeiro olha numa pessoa?

- Nos olhos. Pra mim, as pessoas estão dentro dos seus olhos.

- O que é que você não gosta numa pessoa? Aquilo que você não admite?

- Apunhada pelas costas, a mentira gratuita, as pessoas falsas, mesquinhas. São odiosas.

- Você acredita nas pessoas? Porque a impressão que você me dá é de que você só acredita em você mesma. Ponto final.

- Você vê. Se eu não tivesse acreditado em você, eu poderia ter ido dormir sem essa afirmação idiota sua. Se eu só acreditasse em mim, DG, eu já estaria morta, morta mesmo.

- Calma. Era só uma impressão minha, poxa. Guarda a faca afiada e o revólver e vamos mudar o assunto de novo.

- O que é que você queria, agora?

- No presente momento, gostaria de já ter estreado no teatro. Amanhã ou mesmo daqui a pouco, eu não sei...

- Do que é que você gosta?

- De tanta coisa. De Leila, por exemplo (Leila é uma criatura divina que a gente conhece. Uma pessoa tão boa, tão desarmada, dessas que não existem mais).

- Do que é que você tem medo?

- Eu não tenho medo de nada. Só de gente burra.

- Você não tem medo da solidão?

- Eu odeio a solidão quando não posso estar só. Eu amo a solidão quando preciso dela.

- Eu sei que você tem sempre uma musiquinha que você curte à beça. Foi o Midnight Cowboy, depois outras, e agora, qual é?

- Agora é o Tema de Simone. Modesto, né?

- Ultimamente, você já esteve tão feliz a ponto de querer que o tempo parasse?

- Faz tempo que não. E não sei até onde o tempo devesse parar. As coisas se tornariam muito iguais, portanto muito chatas.

- Qual é a hora do dia mais chata para você?

- A hora em que vejo um cachorrinho ou um animalzinho qualquer com fossa, só, sem possibilidades de poder falar. Nada há mais triste, seja a hora em que for!

- Que lindo e que triste, poxa. Vamos brincar um pouco agora, Ma. Eu digo uma palavra e você associa a outra. Tem que ser a primeira que vier à cabeça, senão não vale. Quero ver como anda a sua cuquinha (não perco essa mania de psicóloga).

Djenane – Saudade.

Maysa – Filme.

D – Felicidade.

M – Mar.

D – Amizade.

M – DG.

D – Homem.

M – Pai.

D – Mulher.

M – Eu.

D – Avião.

M – Desejo.

D – Miguel.

M – Paz.

D – Violência.

M – Amor.

D – Telefone.

M – Chato.

D – Eu.

M – Eu.

D – Árvore.

M – Teatro.

D – Sexo.

M – Paz.

D – Fim.

M – Começo.




Ary Fontoura, Maysa, Tônia Carrero, Marília Pêra e Djenane Machado em festa oferecida ao elenco da novela O Cafona na casa do produtor Carlos Machado, 29/04/1971. Foto: Ronald Fonseca. O Globo. 


11 de abril de 2023

Entrevista de Maysa à Rádio Jornal do Brasil, 1973


 Entrevista de Maysa à Rádio Jornal do Brasil 



Há cinquenta anos, em março de 1973, Maysa concedeu uma entrevista ao jornalista Simon Khoury da Rádio Jornal do Brasil, onde, sem papas na língua e bastante ferina, comenta o fracasso de sua segunda temporada no Canecão, em 1970, o porquê dela ter detestado gravar uma versão em português de "Love Story", critica Vinícius de Moraes e outros nomes da MPB, relembra episódios de sua carreira e canta à capela o "Tema de Simone", sua música favorita dentre as que compôs. Imperdível. Ouçam Maysa!



4 de outubro de 2022

Maysa: "É tão difícil caminhar" - Ele Ela, 07/1975


Maysa: “É tão difícil caminhar”


Entrevista a Clóvis Levi


“Hoje já há um caminho percorrido do meu processo de descoberta... Há um amor pela pele..., há um certo cuidado pelo corpo que, antes, não existiam. A mente ainda está um pouco..., é... tapada, cheia de certas imagens, certos padrões. Mas já começando a caminhar...”

Em 1969 você afirmou: “Sei que estou me desorganizando para me organizar de novo.” Em 1975, seis anos depois, como vai essa sua organização?

- Essa declaração foi feita quando voltei ao Brasil, medrosa, assustadíssima, querendo fazer uma porção de coisas diferentes, como a preocupação de limpar aquela imagem da mulher bêbada, da mulher gorda. Hoje estou procurando ficar em paz, tranquila, estou me deixando encontrar.

Porque você disse que a Maysa cantora não tem relação alguma com a Maysa ser humano?

- Porque nunca consegui ser a pessoa. Eu achava que só viam, em mim, a cantora com aquela imagem negativa, e nunca o ser humano. Havia, então, uma grande carência e um profundo desencontro dentro de mim: eu nunca sabia se estava sendo recebida como uma cantora ou como eu mesma. Eu mesma acabei sem saber quem eu era. E, quando uma pessoa se desconhece, ela não sabe nunca o que dar para os outros.

Porém a Maysa com quem conversei, parece estar cada vez mais apta ao ato de doar. Principalmente, porque começa a dar a si mesma, um justo valor.

- Hoje em dia já estou achando que “Maysa” é um negócio muito sério, é um negócio que impõe um respeito filho da mãe, que tem uma verdade... tem um peso muito importante. Estou começando a me achar uma pessoa muito bacana. Só está faltando me aproximar de mim mesma mais um pouquinho.

E o que é que você está fazendo para incentivar essa aproximação?

- Estou fazendo análise! (“Ela se ilumina, passa a falar com mais entusiasmo”). Faço análise de grupo e individual com uma das pessoas mais maravilhosas que já vi, ela é um sol, uma dimensão. (“Ela faz uma pequena pausa. Fica tensa.”) Mas, apesar disso, acordo sempre muito angustiada. É uma coisa muito estranha. Minhas mãos ficam muito frias e vem o desespero de não saber exatamente o que vai acontecer, um desespero de encontros, de desencontros, então, geralmente, eu me escondo, me meto numa cova e fico lá dentro. E fica difícil, para mim, tomar uma atitude que eu tenha programado. Sou incapaz de me programar, tenho medo de me programar.

Como é que você está se sentindo agora? Com disponibilidade para a entrevista? Ou angustiada, amargurada?

- Estou muito angustiada. Além do mais, hoje é segunda-feira, e segunda é sempre um dia de começar coisas, ainda é dia de voltar para o colégio interno.

Todo começo é angustiante?

- É. Angustiante, tumultuado, confuso. Eu não sei se estou agradando e meu medo é sempre esse: tenho um certo receio de ser demais.

Essa sua preocupação em agradar não será uma exagerada (e compreensível, num processo de análise) reação à a sua famosa agressividade?

- Acho que não, porque, no fundo, sempre tive essa preocupação. E eu acho que o que me fazia agressiva era a bebida. Era, talvez, para me defender de uma certa coisa que eu sabia que, de certa forma... fazia mal... ou melhor, pegava mal... fui criada dentro desses padrões que determinam que mulher não bebe. Então eu me defendia antes que me acusassem.


E hoje, depois de ter se submetido a um doloroso tratamento de desintoxicação, como é que você está com a bebida? (A resposta vem firme e imediata.)

- Muito bem. Totalmente em paz com ela.

Mas você bebe normalmente?

- Não. (Aí, então, Maysa vacila.”) Bebo... não... não posso. Não devo (A voz quase some). Mas faço de vez em quando. (“Assume a situação e a voz volta a ficar firme.”) Há momentos em que tenho uma terrível necessidade. Mas, agora, eu faço diferente. Fico dentro de casa. Antes eu ia para a rua... agredia meio mundo...

Mas você ainda se embriaga mesmo dentro de casa? Perde o controle?

- Não. Não. Não perco o controle (“Agora ela relaxa e sorri.”) ligo para o mundo inteiro. É aí que eu busco o relacionamento, é aí que eu tenho coragem de falar com as pessoas, de dizer o que sinto, de dizer que gosto delas... tenho uma profunda necessidade de dizer que amo as pessoas, mas só tenho coragem de fazer isso com a ajuda da bebida. Chamo aqui para casa as pessoas que eu amo, tentando juntar essas ilhas. As pessoas estão ficando cada vez mais sós, estão se separando cada vez mais, ficando cada vez mais ilhadas.

Mas você também ajuda esse processo, ilhando-se dentro desse apartamento...

- Ajudo. Ajudo muito. No momento em que eu quero essa aproximação...

Você mesma não acredita nela.

- Exatamente... e, aí, talvez, eu assuste as pessoas. Eu, geralmente, acabo destruindo as amizades, destruindo aquele amor que estou querendo dar. Geralmente, as pessoas não gostam de bêbados.

Você é uma bêbada muito chata? (Ela volta a ficar tensa.)

- Acho que sim. Muito chata. Tanto que já estou tão consciente disso que fico dentro de casa. (“Relaxa e ri.”) Fico só no telefone. (“Faz uma pausa. Fica séria.”) Bêbada, sou mais adulta, sabe? E sóbria, sou mais criança. Ficando bêbada eu assumo essa possibilidade de relacionamento que eu não devo ter tido, quando criança.

Depois de ter feito uma desintoxicação e continuando a beber você não está ameaçada de voltar a ser uma bêbada irremediável, sem controle?

- Sei que sou uma pessoa doente em relação à bebida, disso não tenho a menor dúvida. Sou uma pessoa que não pode se dar ao luxo de beber dois uísques só e parar. Então eu tenho de me moderar nisso. A desintoxicação foi uma coisa horrível, foram meses de grades, isso já tem seis, sete anos. mas os médicos me avisaram que eu iria passar por crises incríveis e que tudo seria muito difícil. Então, quando entro em crise, tento não beber. Eu procuro beber quando estou o mais relaxada possível.

Fale um pouco sobre os seis meses de grades (A resposta é definitiva.)

- Não!

É verdade que você ficou amarrada na cama? (Pelo rosto de Maysa passa uma sensação de terror.)

- Não! Não quero falar sobre isso.

Porquê? Isso ainda não está resolvido dentro de você? (Ela fala rápido, procurando cortar esse assunto.)

- Porque não interessa. (“Bem angustiada”) ... não me interessa... não me interessa... não é uma coisa sobre a qual interesse falar...

- Antigamente eu só chorava quando bebia. Atualmente, já consigo chorar sem beber e, que eu me lembre, é uma coisa de muito pouco tempo para cá. Sabe... é um negócio assim de você sentir... (“Maysa respira profundamente”) ... sei lá... agora mesmo, quando você me fez uma pergunta, já nem sei qual foi, a lágrima já estava saindo normalmente. E isso é uma coisa muito difícil de acontecer comigo.

Como vai o seu relacionamento com as pessoas?

- Está péssimo. Você pode chamar de pretensão, mas são poucas com quem eu gostaria de bater papo. Hoje, não tenho mais saco para aguentar determinadas pessoas (e determinadas entrevistas, inclusive, com gente que vem aqui me perguntar besteira). Parece que falta uma certa dimensão humana, sei lá... Tenho muita inveja das pessoas que falam nos “meus velhos amigos”, que se respeitam, que se veem. Com seus defeitos e qualidades, não importa.

Você não consegue manter seus amigos?

- Não. Eu perco. Perco porque fujo deles com medo de perdê-los. Fujo antes que isso aconteça.

Quantas pessoas você acha que são realmente suas amigas? (Há uma pausa, ela vacila um pouco.)

- Não sei... a Leila (“sua secretária”) é uma grande amiga que eu tenho, é uma mulher extraordinária... acho que todo o grupo que está fazendo análise comigo, não sei se são meus amigos por forças das circunstâncias, mas são meus amigos... acho que vou parando por aí... tem o Mister Eco, tenho um carinho enorme pelo Mister Eco (pausa.) Bom, tem o Aluísio de Oliveira, mas o Aluísio é diferente... é meu irmão, é outra coisa. Luisinho Eça... tenho paixão por Luisinho, é meu compadre... Gal Costa, por exemplo, é uma das coisas mais lindas que já vi na minha vida, coisa mais pura, mais doce, mais suave. O que essa menina tem dentro dela para dar, em nível de carinho, é uma coisa maravilhosa.

Mas você encontra esses amigos só uma vez na vida e outra na morte?

- Não. Gal e eu temos um relacionamento bastante bom. Mister Eco, por exemplo... a gente sempre se fala. Eu tenho uma saudade enorme dos meus amigos que já morreram: Antônio Maria, Stanislaw, Dolores. A gente era uma coisa, era um bloco – embora embalado no álcool – mas era um negócio para valer, a gente se via sempre, estava sempre junto, as pessoas se precisavam. Hoje todo mundo é muito sozinho, a solidão é grande demais.

Mas a solidão existe mesmo com o Carlos Alberto?

- O que eu gostaria de obter na vida, em termos sentimentais, seria a completa realização desde encontro com Carlos. Tem seus atritos, mas eu acho... tenho a impressão que vai bem...

Há quantos anos?

- Desde 72. Está se lixando... se polindo, as arestas estão sendo aparadas. Carlos é uma pessoa extraordinária, de uma pureza, de uma beleza... é um homem que vê transparente... eu gostaria que isso se firmasse, que fosse uma coisa que realmente prevalecesse. Estou cansada já de... de buscas... de desencontros. Estou realmente cansada, amargurada. Por enquanto esse relacionamento está meio difícil porque nós dois tivemos uma vida muito tumultuada. Então nós temos muitos, muitos, muitos machucados pelo corpo inteiro, então de vez em quando a gente se agride muito, às vezes até sem querer... então, dói profundamente, dói e há um medo que a gente volte a encontrar aquelas situações do passado, aquelas pessoas, aquelas coisas ruins da nossa vida. E a gente, então, se recolhe como uma ostra.

E por falar em se recolher, fale um pouco da crise que fez você se fechar como uma ostra por causa da gordura.


- Foi terrível. E não foi tanto no sentido da estética. Acho que aquela gordura toda era uma espécie de capa para me esconder, quase um invólucro. Eu tenho a impressão de que aquele negócio todo suava, me parecia uma coisa suja. Era uma imagem feia. Mas, ao mesmo tempo em que eu não cuidava do corpo, eu também me defendia: na televisão, só deixava que a câmera me pegasse do pescoço para cima. Trinta e seis quilos a mais...foi uma época realmente terrível. E a coisa ainda não está resolvida: hoje, se eu vou comprar roupa, vou direito para as cores escuras, para o preto, porque a coisa da gordura ainda está dentro de mim, eu não estou acostumada ainda.

Há alguma possibilidade de você voltar a engordar?

- Não. Inclusive, é horrível quando eu engordo um quilo minha cuca fica estourando, é um negócio de louco (Pausa. Sorri.) Agora, tem vezes que não dá, tem dias que preciso comer loucamente, é um processo de carência, sei lá. Como à beça e aí me vem o sentimento de culpa, eu engordo dois, três quilos, é um troço chato pra burro. Mas eu jamais voltarei a ser gorda. Não é só a gordura física, mas o que ela representava dentro de mim.

A gordura dificultou o teu relacionamento com as pessoas?

- Acho que sim. Pelo menos, durante o dia. Eu não me lembro de ter saído durante o dia, naquela época de gorda.

Mas eu não estou falando de você para as pessoas; e sim, das pessoas para você.

- É. Eu achava que as pessoas se sentiam agredidas. Eu tinha uma casa na Barra e, lá, recebia meus amigos, mesmo de maiô. Mas, naquela época, eu nunca colocaria um maiô aqui em Copacabana.

(Hoje Maysa é uma mulher magra. Porém seu rosto está um pouco marcado e há um ar de cansaço em torno dela. Mas, paradoxalmente, o que se nota é um renovar constante de esperanças, um incrível potencial de vida. Sua vontade seria a de fazer música, jornalismo, teatro, cinema, tevê. Gosta de tudo e é pena que haja tão pouco tempo. Todavia, com tantas coisas para fazer, ela se tranca em casa e nada produz. O potencial está emperrado. Ela é uma artista, hoje, com sua criatividade minada. Por que Maysa nunca mais conseguiu compor?)

Em 69 você declarou que não havia atmosfera para compor. Isso existe ainda hoje?

- Existe.

Atmosfera interna ou externa?

- Interna. A externa, inclusive, em que ela pode me afetar? Por eu não estar fazendo sambinha de breque? Por não estar atualizada com o momento? Eu não sei o que é estar atualizada com o momento, porque o que está dentro de você é o que vale, o momento é o meu e não o que está lá fora. Tenho escrito muita poesia, muita coisa..., mas eu não tenho coragem... não sei o que é... não estou conseguindo botar música...

Há quanto tempo você não compõe?

- Desde 71. O “Tema de Simone”, para a novela “O Cafona” foi a última coisa.

Mas não existe um motivo específico que impeça você de criar?

- Aí é que está: não sei. Tá embutido, tá lá dentro..., mas não sei o que é....

(Maysa, uma mulher sempre à procura de respostas. Maysa, uma mulher de 39 anos que não dorme de perna esticada com medo que lhe puxem o pé (“É um trauma do colégio interno, a pior coisa que aconteceu na minha vida”). Maysa, uma mulher adulta que se sente – no mundo – como a Maysa-criança: sempre procurando agradar as freiras do internato. Para não ser nunca castigada. Para não ficar sozinha no quarto escuro. Maysa, cujo nome está tão ligado – muitas vezes levianamente – à palavra suicídio.)

Afinal, você tentou o suicídio quantas vezes?

- Várias.

E sem estar bêbada?

- Algumas vezes.

Mas é evidente que uma pessoa que vive tentando se suicidar não está mesmo a fim de morrer.

- Também acho. Eu sei que não quero morrer. Mas acontece que isso tudo é uma espécie de apelo, um pedido de proteção. A gente, de repente, se vê só, se sente rejeitada. E a gente sabe que uma tentativa de suicídio, traz, de novo, para perto de nós, as pessoas de quem a gente gosta.

E é importante, neste momento, lembrar a fase inicial da entrevista. Pois é com ela que a entrevista acaba:

- Hoje já há um caminho percorrido do meu processo de descoberta... Há um amor pela pele..., há um certo cuidado pelo corpo que, antes, não existiam. A mente ainda está um pouco..., é... tapada, cheia de certas imagens, certos padrões. Mas já começando a caminhar...


(Reportagem publicada originalmente na revista Ele Ela de julho de 1975.)


Agradecimento: Maysa Oficial


7 de julho de 2022

Escrava de sua alma - entrevista na Argentina, 1971


“Escrava de sua alma”





 Durante várias horas, se manteve entre Maysa e SEMANA, um diálogo intenso em que a grande cantora brasileira desnudou sua alma e convocou seus demônios. O que surpreendeu neste diálogo com o jornalista foram as incríveis revelações e ela, por sua vez, foi surpreendida com uma anedota doce e terrível.
- “Não só o sonho da tumba da terra se repete há muito tempo. Também sonho que vôo. Eu nasci para voar... Para ser livre. Sempre sonho que vôo... Ou que estou na tumba”. 

 - Sobre drogas: “Provei as drogas, logicamente. Eu gosto de provar tudo. Mas não gostei delas. Gosto é do efeito da bebida, embora não goste do seu gosto”. 

 - Sobre análise: “O que se passa lá, não me interessa. Se perde muito tempo. E eu não tenho tanto tempo para perder – ou para ganhar. O melhor tratamento é estar ao lado de gente que me interessa, e fazer o que tenho vontade”. 

 - Sobre Deus: “Creio no verde, vejo um Deus maior, e não aquele que me foi ensinado no catolicismo”. 

 - Sobre a infância e a primeira juventude: Afastada pelos pais, como interna, em um colégio de freiras: “Saí de lá um pássaro ferido com a pata atada a uma correntinha lançando a liberdade ilusória do céu que, de pronto, se converte outra vez na caixa negra e, asfixiante de um matrimônio com um homem obtuso, um verdadeiro quadrado. Tinha dezessete anos e meio e pensei que iria abandonar a janelinha quadrada do colégio, e cair em uma gaiola. Desde então, não podia dormir e comecei a tomar comprimidos”. 

 Mas, foi neste colégio que lhe condicionaram o inconsciente para a pulcritude moral, as exigências ascéticas, a escravidão às normas estritas a cerca de sexo e a vida “ordenada”, porta estreita por onde teve que passar empurrada também pelos pais e pelo marido, um homem muito mais velho do que ela. Quando resolve romper com seu primeiro marido e se deixa levar mais livremente pelos sentimentos amorosos (leia-se sexuais) além do gosto crescente pelo álcool, concessões todas que dá a si mesma, desde sua consciência ansiosa de liberdade, começa o terrível e destruidor conflito. Seu inconsciente segue clamando pela “velha ordem”, o ascetismo, a sujeição sexual a uma pessoa com a qual está “casada perante à lei”, mas sua razão, empurrada por seus desejos, a coloca no meio da liberdade mais absoluta e faz com que ela, desde o fundo de sua alma escravizada à família (“adoro os meus pais”) e a religião (“creio em um Ser superior”), passe a se considerar uma LIBERTINA.

 - Sobre Miguel: “Um amigo excepcional, por que... Marido somente, é muito pesado!”

 - Sobre suicídio: “Sempre tenho a sensação de que me vigiam, de que não aceitam minha forma de viver. Então, isso me violenta e busco a solução mais fácil. Eu busco, desesperadamente, amizade; em vez de amizades encontro sempre acusações. Sempre não, aqui em Buenos Aires, não. Aqui me sinto bem... Amo essa cidade, onde, além disso, debutei como cantora. Aqui tenho verdadeiros amigos. Aliás, no Rio, retorno ao meu cárcere do hotel, com as montanhas por trás e o mar pela frente. Aqui, por fim, me sinto livre outra vez.” 

 - Sobre show em Mar del Plata: “Tenho medo do frio. Eu gosto do calor, deve ser por isso que sigo vivendo, de algum modo, no Rio. O calor... tomar banho de sol. Algum dia vou para uma ilha sozinha e ver se me encontro comigo mesma.” “Se tivesse que deixar alguma das duas coisas que faço o jornalismo e o canto, deixaria o canto, porque me machuca toda essa maquinaria do comércio que se faz com os discos, toda essa gente que não me interessa para nada e que me obriga à concessões permanentes desde o início da minha carreira.”





(Entrevista concedida ao jornal argentino SEMANA na ocasião da última turnê de Maysa em Buenos Aires, em 1971).

11 de fevereiro de 2019

Diálogos possíveis com Clarice Lispector - revista Manchete, 1969




“Sofro uma barbaridade antes de entrar em cena”

Maysa – eis o nome de uma mulher-gata muito bela, dona de uma voz rara e de dons artísticos também raros. É menos felina do que parece nos retratos e muito mais dada e simpática. Mas sobretudo Maysa – mulher sofrida e corajosa que encara os próprios erros – é um símbolo de ressureição. Fortemente deprimida quando deixou de cantar, não se esperava mais que tivesse força suficiente para refazer sua vida. E eis que surge uma mulher mais do que bonita, e mais forte do que antes. Reconstruir-se torna-se a mais importante palavra entre todas. Quem já se ergueu várias vezes das cinzas, sabe como é, ao mesmo tempo difícil e possível a própria reconstrução. Este é um diálogo antideclínio: é cheio de perspectivas.


- Maysa, nesse seu novo apogeu artístico você mudou em quê?
- Não acredito que tenha mudado, tanto é assim que meu repertório é mais ou menos o mesmo, apenas mais moderno. Isso de mudar a fase inicial talvez seja uma traição, uma ingratidão com aquilo que nos lançou, e mesmo quanto ao público daquela época. O que absolutamente não proíbe que eu mude, que eu vá adiante.
- Seu apogeu também é de vida: o que fez você para sair da profunda depressão em que havia caído?
- Olhe, eu acredito que isso tenha sido em parte por eu ter me afastado desse ambiente daqui, ter-me encontrado um pouco comigo mesma, ter achado o diálogo, entende? Eu acho que a solidão que procurei foi muito importante para esse encontro com a vida.
- Você é uma criatura profunda, e isso lhe deve trazer muitos dissabores. Como é que você se liberta deles?
- Clarice, eu não me liberto. Cada vez procuro me aprofundar mais, e especialmente, no problema alheio, olhando para baixo para dar mais valor às coisas boas da vida.
- Você tem muitos inimigos?
- Que eu saiba, não. Embora tenha aprendido na minha fase de solidão a dizer “não” às coisas que não me interessam.
Você já foi analisada?
- Comecei por três vezes, mas descobri que estava em mim mesma a resposta.
- Como é que você define Maysa?
- Uma pessoa essencialmente boa de coração, bastante insegura, mas já a caminho do encontro. Nunca fiz meu autorretrato.
- De onde vem essa insegurança?
- Virá talvez da brusca mudança no tempo, desde que eu nasci até hoje. Houve tantos tabus que hoje não existem mais, e isso me criou essa insegurança. Quanto a tudo. Como, por exemplo, conviver com as demais pessoas fora do meu círculo de família. Mas não tenho nenhuma insegurança artística. Inclusive acredito que eu esteja numa fase muito boa de busca.
- Você conseguirá, Maysa, o que busca. Qual é o ritmo de sua vida diária?
- Meus horários são muito desencontrados. Trabalho até às três horas da manhã e não consigo dormir sem ler. Portanto só durmo mesmo lá pelas seis horas. Preciso de nove horas de sono para ter a voz clara. Acordo às três ou quatro horas da tarde, que é a hora melhor para eu ouvir música, para memoriza-la. Meu almoço é às seis horas da tarde, portanto, o ritmo está todo trocado. Sempre ligo a televisão – para ver se melhorou um pouco – até a hora em que me visto para começar o trabalho. Isto quando trabalho, o que acontece quase sempre. Nos intervalos, vou à praia, levo livros e papel para escrever. Tenho feito alguma poesia sem intenção de musicar.
- Qual é o tipo de leitura que interessa a você?
- Toda e qualquer leitura que me prenda, como é o caso do último livro que li, sobre a vida de Milena, a amiga de Kafka. Não me lembro do nome da autora. Eu adoraria poder ter sido Milena. Estou inteiramente fascinada pelo livro, de modo que não quero lembrar-me de outros.  Gostei também enormemente de O Compromisso, de Kazan.
- Fora a música, o que é importante para você?
- Tudo é importante para mim. Viver ao máximo as coisas boas da vida e tentar esquecer o que passou. O que não é fácil aqui no Brasil; esquecer, quero dizer.
- Se você não cantasse, seria uma pessoa triste?
- Eu nunca pensei na possibilidade de não cantar. Mas acho que hoje em dia a gente não tem muito porque ser alegre. Felicidade a toda hora é privilégio dos burros.
- Quando é que você começou a cantar, Maysa?
- Aos dezenove anos. Antes eu compunha. Numa reunião na casa de papai, estava presente o diretor de uma fábrica de discos. Eu estava esperando um filho, e ele então me convidou para, depois que nascesse a criança, fazer um disco que reunisse todas as minhas músicas. Tudo o que esse disco rendeu foi dado à campanha contra o câncer. Então veio a televisão e consequentemente começou tudo, com toda a família contra, o que veio ocasionar uma separação.
- Na sua opinião qual é o melhor intérprete da música popular brasileira?
- Atualmente, como intérprete, Taiguara. Como cantora, Elis Regina.
- Você tem muitos amigos?
Tenho muitos conhecidos. Tenho um grande amigo. Ítalo Rossi.
- Você tem dificuldade de se ligar às pessoas por amizade?
- Tenho, sim. Além disso, depois de meu segundo casamento, tudo é tão harmonioso, sem ser monótono, que até tenho receio de quebrar essa harmonia com a vinda de outras pessoas.
- Cada noite, na hora de seu show, você se sente inspirada para cantar ou já fez disso um hábito sereno?
- Toda noite para mim é uma primeira vez, mesmo que isso parece lugar comum. Sofro uma barbaridade antes de entrar em cena. Depois é como se tivesse nascido outra vez.
- Que conselho você daria a uma jovem que caísse na depressão como você caiu? Qual é o melhor meio de sair dela?
- Acho conselho uma coisa muito perigosa. Eu não pedi nem aceitei nenhum. De qualquer modo, acredito que a humildade seja muito importante. Um dos meios de sair da depressão é não achar que o próprio problema seja o pior de todos.
- Quando você estava deprimida, houve algum amigo ou amiga que lhe desse a mão?
- Eu estava só, nessa época. Afastei-me de todos para não agredi-los com meus problemas. Dependendo do temperamento de cada um, deve-se ou não apoiar-se em alguém.


- O que fez com que você passasse, nesta sua nova fase, a gostar do público e não temê-lo, como anteriormente, quando você evitava cantar de frente, defrontando-o?
- Talvez eu sentisse que fisicamente estava agredindo o público. Com a minha aparência. Eu era muito gorda, suava muito, era antiestética. Isso digo agora, mas talvez naquela época eu tivesse medo do público.
- Agora como sua família está recebendo a segunda Maysa?
- Não creio que haja uma segunda Maysa. Apenas o tempo foi passando, e minha família evoluindo e sobretudo vendo que minha ressurreição, como você diz, só está me fazendo bem.
- Em todas as composições suas você deixava transparecer a busca do amor. Você o encontrou?
- Encontrei, sim. Encontrei amor em tudo o que hoje me cerca, no diálogo, no dia-a-dia, até nas pequenas briguinhas com os seres amados. Aprendi até a gostar um pouquinho de mim...
- O que fez você cair em depressão?
- Uma série de fatores, de datas, de frustrações na minha infância e que se juntaram à minha juventude. Não tive tempo de ser nem criança nem jovem: casei-me cedo.
- Você tem filhos?
- Tenho um, com treze anos, do meu primeiro casamento. E estou partindo agora para outro.
- Mas, isso, Maysa, é uma grande novidade: para quando é previsto o nascimento?
- Se não perder a criança, como já aconteceu duas vezes, será para março do ano que vem.
- Como será a mãe Maysa nessa nova fase?
- Não saberia dizer, Clarice, mas acho que bem gagá.
- Maysa, apesar de você responder tudo o que lhe perguntei acho você uma pessoa reservada.
- Eu acho que não.
Nesse momento, entrou na sala seu marido, Miguel Azanza, e concordou comigo: apesar de tudo, Maysa é reservada. Miguel é muito cordial, simples e com ar de grande companheiro.
- Como é que vocês se conheceram Maysa?
- Miguel estava num grupo que foi ao Cassino do Estoril, em Portugal, para me ouvir cantar. Miguel tinha vinda de Marrocos especialmente para me ver cantar, porque já conhecia meus discos. Queria confrontar a voz conhecida com a pessoa ainda desconhecida. Ele me chamou atenção por ter sido o único do grupo a não se aproximar de mim para um autógrafo. Fui eu que, no final, me aproximei dele, e tudo começou. Um ano depois estávamos casados. O engraçado é que nos casamos duas vezes: uma pelo México e outra pela Bolívia. Estamos esperando a anulação canônica do primeiro casamento de Miguel para casar pela terceira vez, porque eu sou viúva do meu primeiro casamento.
Tomamos um café e conversamos
- Talvez, Clarice, você tenha me achado reservada ou intimidada porque era muita a vontade e a curiosidade que eu tinha em conhecer você. Também leio sempre os seus diálogos, e me senti muito honrada por ser uma de suas entrevistadas.
Continuamos a conversa, e fiquei sabendo, por exemplo, que Maysa é ótima dona de casa, gostando de lidar com tudo que se refere ao lar, à cozinha, à arrumação. Como se vê, a Maysa real é muito diferente da Maysa mito. E ganha muito com a aproximação.


(Matéria publicada originalmente no número 910 da revista Manchete, em 1969)