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6 de maio de 2026

Maysa no alvorecer de Brasília


 


    Antes que todos os prédios projetados estivessem prontos, antes mesmo que os operários que construíram aquela cidade tivessem suas residências fixas, a inauguração de Brasília não poderia esperar. O dia 21 de abril de 1960 marcou além de mais um feriado de Tiradentes, a inauguração da nova capital do Brasil, construída em tempo recorde no coração do planalto central. Inaugurada incompleta e já marcada por desigualdades sociais gritantes, Brasília poderia prescindir de muita coisa, mas não de uma emissora de televisão e muito menos de vida noturna. E aí que Maysa entra nessa história.


Noite inaugural de Brasília. Fotografia de René Burri, 1960. 


    Em 1960 Maysa estava no auge. Ao assinar com as Associadas de Assis Chateaubriand naquele ano, a cantora e compositora embarcou em viagens do norte ao sul do Brasil para se apresentar nas rádios e TVs do que era, então, o maior conglomerado de imprensa e mídia do país. Menos de um mês depois da inauguração da cidade, Brasília entrou na rota de Maysa. A novíssima capital do Brasil já nascera com uma trilha sonora própria: a Sinfonia da Alvorada, criação pouco badalada da dupla Tom & Vinícius, lançada em disco em 1961 e que caiu no esquecimento nos anos seguintes. Não era esse o tipo de música que os congressistas e outra gente graúda do governo federal estava acostumada a ouvir nas célebres boates de Copacabana.







    Para colorir a vida diária que começaria terrivelmente monótona, supunha-se, foi inaugurada concomitantemente à nova capital o seu primeiro jornal impresso, o Correio Braziliense, e a TV Brasília, ambas pertencentes aos Diários Associados. A noite de sábado, dia 14 de maio de 1960, não deve ter sido nada monótona naquela cidade construída em meio ao bioma do cerrado. Naquele dia o Correio Braziliense anunciou várias vezes a apresentação de Maysa, em pessoa, na TV Brasília, às 21 horas, patrocinada pela Cacic S.A Indústria e Comércio. O uso do termo “em pessoa” servia para destacar que Maysa apareceria para os telespectadores diretamente dos estúdios em Brasília, não se tratando de gravação em vídeo-tape –, um recurso tecnológico que começava a ser utilizado com frequência na TV brasileira à época. O jornal ainda anunciava que, naquele mesmo dia, Maysa faria um show na boate Pillango apresentado pela TV Brasília. O Pillango era um restaurante e boate que naqueles dias iniciais de Brasília, funcionava diariamente das 11h da manhã às 4h da madrugada, no início da W3, avenida que seria por décadas um importante ponto comercial e social da cidade, até entrar em decadência. Na semana seguinte ao show, a coluna social do Correio Braziliense declarou o show de Maysa um sucesso absoluto, notando o especial bom humor da cantora, por ter suportado uma plateia mal-educada sem devolver as típicas retaliações que ela reservava ao público nessas ocasiões.




"Antes de partir para uma longa temporada nos Estados Unidos, a famosa cantora Maysa que estreará em outubro no Blue Angel, foi recebida no Palácio da Alvorada pelo Presidente Juscelino Kubitschek. O chefe da nação, depois de inteirar-se dos detalhes do plano da popular artista de divulgar nossa música nos Estados Unidos, através de uma intensa atuação em televisão, rádio e boates, desejou-lhe um grande êxito. Na foto, o presidente cumprimentando a estrela". Correio Braziliense - Brasília, 14 de setembro de 1960.

    Uma curiosidade é que, dezesseis anos depois do instante capturado na imagem, Maysa relembrou o episódio em sua última entrevista, concedida ao jornalista Aramis Millarch em novembro de 1976. Na ocasião, ainda no início da abertura política da Ditadura Militar e poucos meses depois da morte do ex-presidente, Maysa fez questão de afirmar que foi JK o único presidente do Brasil a parabeniza-la em seus vinte anos de carreira. É um fato notório que JK adorava Maysa.


     
Correio Braziliense - 14 de novembro de 1961.       


    Depois do encontro com o Presidente Bossa Nova, Maysa voltaria à Brasília para cantar em pelo menos duas ocasiões, em uma delas repetiu a dobradinha de shows na TV Brasília e depois em casa noturna – dessa vez na boate Macumba. Na derradeira, Maysa cantou no lindíssimo Brasília Palace Hotel supostamente acompanhada pelo conjunto de bossa novistas com quem gravara o álbum Barquinho alguns meses antes.


Correio Braziliense - 8 de março de 1961.


            Não foram encontrados registros posteriores da presença de Maysa em Brasília. Assim como não há nenhuma outra imagem conhecida dela na capital federal, além da foto tirada ao lado de Juscelino Kubitschek. A Brasília que Maysa viu praticamente nascer, com odor misturado de mato e tinta fresca, também não existe mais. Transformou-se. É instigante tentar imaginar o que Maysa viu lá. As imagens que sobreviveram de uma Brasília recém-nascida são desconcertantes – prédios monumentais pairando sobre imensos descampados; outros ainda em construção. Uma paisagem aonde o vermelho da terra tantas vezes revolvida se mistura ao verde que tentava domar. Poucas árvores. Brasília representou desde o início o melhor e o pior do Brasil.









26 de março de 2019

O último amor de Maysa - Radiolândia, 12/1961



     Cantar descalça ante as câmeras da tevê, sentada contra o encosto da cadeira, o microfone em uma das mãos e o cachorrinho americano na outra – e cantar bem como sempre – convenhamos que isso não é para qualquer um. Mas o é para Maysa, que nesse estilo surpreendeu ao público da TV Record, em São Paulo, na atual temporada de audições exclusivas às 20 horas de segunda-feira. Uma bossa novíssima, como se vê.
     Igualmente, iniciar temporada com os programas coproduzidos por seu amor de então, Ronaldo Bôscoli, que também funcionava como empresário da estrela, e com acompanhamento a cargo de um conjunto exclusivo, o do pianista Roberto Menescal, que viajava do Rio especialmente para tal fim, concordemos que à primeira vista era novidade. Mas não o era em verdade... Pois se tratava de Maysa.
     E o quadro de surpresas se completa após saber-se que poucas semanas após Maysa rompeu com o noivo empresário, desistiu do anunciado casamento em Paris em março do próximo ano, dispensou o pianista e tornou a calçar os sapatos para defrontar o público. Conforme se verifica, o destino continua a sacar na caixinha de surpresas portada a tiracolo por Maysa.
Mas esses incidentes, como no passado, passam sem deixar marca visível na fisionomia, no temperamento e na própria carreira de Maysa. Ela mesma confessa à reportagem:
- Nada de extraordinário entre mim e o Ronaldo. Amamo-nos alguns meses, que não repudio em minhas recordações sentimentais, mas – como dizem atualmente os cronistas políticos – um dia o amor esvaziou-se de conteúdo, daí a separação consequente. Coisas normais à vida de quem vive intensamente e com sentido aos minutos desperdiçados. Sem mágoa a separação, creia. Quanto a cantar descalça, começou durante minha última temporada em Buenos Aires. Cantando numa boate, sentia certa noite os pés em fogo, afetando-me naturalmente os nervos. A certa altura não aguentei mais: perdi o acanhamento e tirei os sapatos. Que alívio para a matéria e o espírito! Pois a turma presente gostou, no dia seguinte os cronistas me designavam como “a princesa descalça” e vi-me impelida, também por gosto, a exibir-me desse jeito. Não se tratava, porém, de um estilo que eu forçava por impor. Apenas com os pés descalços me sentia muito mais à vontade – só isso. Nos meus últimos programas na Record, entretanto, tornei a calçar-me devido a inúmeros pedidos para que eu voltasse a apresentar, ao invés de apenas músicas da bossa nova, como vinha fazenda, também as minhas criações do início da carreira. E como respeito o público, embora pareça o contrário, não vacilei em atender a essas solicitações, naturalmente sem os pés descalços  para não descolorir o ambiente com relação às minhas primeiras músicas. No entanto o “barquinho” da minha vida navega conforme eu quero: a velas soltas.
     E o que Maysa não comenta, talvez por considerar desnecessário, é que, não obstante as tropelias impostas pela vida artística e a circunstância de sua pessoa constituir sempre uma notícia em potencial – com espaço permanente aberto nas colunas da imprensa – é que não lhe faltam contratos em parte alguma, no Brasil ou no exterior, em rádio, televisão, boate e shows avulsos. Por exemplo: o atual patrocinador de sua temporada no Canal 7, em São Paulo (Cestas de Natal Amaral), não apenas não levanta objeções às “esquisitices” da artista frente às câmeras, como pretende mesmo ampliar a promoção publicitária deste ano mediante a apresentação de Maysa – ao vivo e em vídeo tape – em diversas outras capitais do país. Se isso não representa prestígio, apesar de todas as outras “ondas” em contrário, difícil dizer o que o seja.
Por isso, pode-se dizer sem receio de erro que, não obstante as “surpresas” que com frequência oferece ao público – ou talvez por isso mesmo – Maysa continua Maysa...



(Matéria publicada originalmente na revista Radiolândia em dezembro de 1961.)


5 de novembro de 2018

A cantora mais rica do mundo também tem seus problemas - New York Mirror Magazine, 1961



de Hyman Goldberg


É provável que você nunca tenha ouvido falar de uma moça chamada Maysa Figueira Monjardim, mas provavelmente ela tampouco ouviu falar de você. E embora ela esteja se esforçando enormemente para fazer seu nome tão bem conhecido nos Estados Unidos quanto o é por toda América do Sul, ela logo não ouviria nada sobre ninguém, exceto aqueles que promoverão sua carreira.
Maysa, que é como ela chama a si mesma, pulando os dois outros sobrenomes, é uma moça tão impetuosa e independente como você já viu. Ela é uma brasileira rica. Quando você diz que os Monjardim são uma família brasileira rica, é como se dissesse que os Rockfeller são uma família americana rica.
Ela também é casada, mas separada de um homem chamado André Matarazzo. A família dele é tão rica que Baby Pignatari, o extravagante playboy, com quem têm parentesco, é considerado um dos parentes pobres.
Maysa é uma cantora. E é uma brigona. Ela briga com qualquer um. Donos de boates, maestros e até com o público. Quando ela estava no Blue Angel recentemente,  costumava advertir os clientes que conversavam durante a sua apresentação.
A razão pela qual ela é separada do seu marido é uma briga que tiveram. Ele se opôs violentamente a que ela cantasse profissionalmente.
“Ele queria que eu ficasse em casa”, disse Maysa, os olhos escuros estalando furiosos com a lembrança, “porque moças de boas famílias não trabalham, e no Brasil estar no meio artístico é muito mal visto.”
Essa briga aconteceu há dois anos, quando ela e o marido estavam viajando do seu palacete carioca até a mansão de praia deles. “Um dia numa festa em minha casa”, ela disse, “Eu cantei uma música para os convidados e de brincadeira isso foi registrado num gravador. Eu gravei um disco, apenas para presentear os amigos. De alguma forma, uma rádio local conseguiu um deles e passou a tocar. Quando meu marido ouviu isso no rádio enquanto estávamos na estrada, ele ficou furioso.”
Esse foi o fim do casamento de Maysa e o início da carreira dela. Desde aquele dia a dois anos, ela se tornou a cantora mais popular do Brasil e nas TVs, rádios e boates da América do Sul. A gravadora Columbia daqui já a contratou e vai lançar vários discos dela em breve. Ela também mantém uma coluna em um jornal no Brasil chamada “Maysa à Noite”.
Na América do Sul ela ganha cerca de cinco mil dólares por semana. O que é um monte de dinheiro em qualquer lugar, mas muito mais lá. E a maioria dele, dizem seus assessores, ela doa para a caridade.
Maysa veio para os Estados Unidos com oito baús de roupas, todas de Paris e a maioria de Christian Dior. E um secretário, um empresário, um músico e um cabeleireiro. Ela canta em português, francês, espanhol, italiano e inglês, e fala, lê e escreve em todas elas também.
Cantar nos Estados Unidos, segundo o seu secretário, um jovem chamado Odilo Licetti, lhe custa cerca de mil dólares por semana, porque seus gastos são muito maiores do que o dinheiro que ela está ganhando agora, em sua primeira turnê aqui.
“Mas nós estamos acostumados com isso,” disse ele, dando de ombros. “Ela gasta dinheiro como se ele desse em árvores. Uma vez, em Las Vegas, quando eu não lhe dei mais nenhum dinheiro, ela apostou suas pérolas na roleta.”
Maysa sorriu, “elas eram minhas velhas,” ela disse.


(Matéria publicada originalmente na revista New York Mirror em 15 de janeiro de 1961)

16 de abril de 2014

Imprensa: Maysa: contrato de três anos na TV americana - A Noite, 28/02/1961


Maysa: contrato de três anos na TV americana



Muito mais magra, trajando calças colantes de variadas cores e blusa bege, que mais ressaltavam sua beleza exótica, Maysa Monjardim – que também já foi Matarazzo – e ao nome famoso renunciou, pelo ideal artístico de uma carreira hoje vitoriosa, ensaiava com um pequeno conjunto musical, sob o calor intensíssimo de possantes refletores, num estúdio de TV, quando foi localizada pelo repórter. E, aproveitando um momento de descanso, antes de novo programa, falou-nos ligeiramente sobre seu recente estado nos Estados Unidos.
-         Foi das mais proveitosas, a minha passagem pela televisão americana, onde estou cumprindo contrato de três anos, numa das emissoras de Nova York – disse-nos a famosa intérprete e compositora da música popular brasileira.
Prosseguindo na rápida palestra – que o repórter procurou abreviar ao máximo, dada a elevadíssima temperatura reinante – confessou-nos Maysa que teve a melhor impressão do ambiente técnico e artístico dos estúdios norte-americanos, “com quem muito temos, ainda, que aprender, não só tecnicamente (imagem e som), mas, também, quanto aos programas, que são maravilhosos.”
Sobre nossa música popular nos Estados Unidos, disse-nos, desencantada:
-         Infelizmente, não está tão difundida tanto quanto seria de desejar. Com exceção de Ary Barroso como compositor e Leny Eversong como cantora, que obteve, realmente, estrondoso sucesso em Las Vegas, nenhum outro artista nosso logrou alcançar sucesso, ali.
-         Nem o Cauby Peixoto? Indaga, surpreso, o repórter.
E ela, mais surpresa, ainda, da nossa surpresa: “Porque Cauby Peixoto? Posso afiançar-lhe que, pelo menos em Nova York, jamais se ouviu falar em Cauby Peixoto. Não é fácil vencer nos Estados Unidos, onde abundam valores, procedentes de todas as partes do mundo.”
-         E que sugestão apresentaria para sanar essa falha?
-         Verbas do governo, para excursões artísticas, em larga escala.
Dizendo que prefere atuar como intérprete, mais do que como compositora, Maysa declarou-nos estar satisfeitíssima com sua carreira – não só artística, mas financeira também; que passará os próximos três anos presa a contratos, nos Estados Unidos, e que pretende dar um giro pela Europa e, nos intervalos, voltará ao Brasil “a fim de matar as saudades dos seus queridos telespectadores, dos quais vai sentir muita falta e deles também espera o mesmo.” E finalizando:
-         Voltarei no dia 5 de abril para Nova York, onde gravei um LP, que está prestes a sair. Aqui também estou gravando outro, que espero seja lançado antes do meu regresso.”


(Entrevista publicada originalmente no jornal carioca A NOITE, terça-feira, 28 de fevereiro de 1961)

15 de julho de 2013

Imprensa: Maysa - edição - 1961 - exclusiva da bossa nova, Jornal do Brasil (12/04/1961)


Maysa - edição 1961 - exclusiva da bossa nova 

Vera Pereira


A cantora Maysa, que esta semana embarca para os Estados Unidos, em cumprimento de um contrato firmado no ano passado com a boate Blue Angel, de Nova Iorque, reaparecerá em fins de maio ao público carioca, em nova fase de sua carreira artística: assinou contrato de exclusividade com um conjunto de integrantes da bossa nova e em todas as suas apresentações, durante o ano, em shows, televisão ou discos, no Brasil, e, possivelmente, no exterior, se fará acompanhar por eles.
Nesse sentido, gravou um primeiro LP, em estilo bossa nova, intitulado Maysa e a Nova Onda, e, aproveitando sua temporada de um mês em Nova Iorque, tentará levar o conjunto para os Estados Unidos. Se não o conseguir, em virtude da barreira imposta pelo Sindicato de Músicos dos Estados Unidos à exibição de estrangeiros, reincidirá o contrato com a boate americana, pois já tem proposta para uma tournée pela América do Sul, acompanhada pelo conjunto, devendo apresentar-se em junho na Argentina e depois no Chile.

PRIMEIRA TOURNÉE


É essa a primeira vez que um conjunto de músicos bossa nova fará uma excursão artística fora do Brasil, principalmente aos Estados Unidos. Algumas exibições individuais, em pequenos grupos, foram feitas no ano passado, na Argentina, com João Gilberto e Norma Benguell, mas é a primeira vez que a tournée é organizada especialmente com uma cantora exclusiva.

A sugestão para a viagem partiu da própria Maysa que, durante sua última temporada nos Estados Unidos, havia ouvido referências entusiasmadas de Lena Horne, Sammy Davis Jr, e outros artistas que haviam conhecido a nossa música moderna ao fazer temporada no Brasil.

De volta ao Rio, Maysa, que em Punta Del Leste conhecera pessoalmente o violonista Menescal e João Gilberto, em sua exibição naquela cidade, entusiasmada com o ritmo dos músicos, procurou entrar em contato com outros elementos da turma, através de Ronaldo Bôscoli, que conhecia como compositor.

O CONTRATO


Já no show do Copacabana Palace e nos programas de televisão que realizou no início do ano, Maysa aparecera com elementos da bossa nova, e, ao ser contratada pela Columbia Discos para a gravação de um LP, surgiu a ideia da exclusividade. Tendo Roberto Corte-Real, diretor da companhia, permitido à cantora escolher os arranjadores do novo disco, Maysa exigiu que fossem contratados, ao mesmo tempo que ela, Luis Eça e Roberto Menescal, não desconhecidos profissionalmente e pertencentes ao grupo BN.

Com a assinatura do contrato, Maysa criou também uma novidade entre cantores brasileiros, embora de uso comum entre europeus e americanos: organizou uma direção artística, a cargo de Ronaldo Bôscoli, que se incubirá especialmente da montagem e da produção de seus shows.

O CONJUNTO


O conjunto, que assinou contrato de exclusividade para acompanhamento de Maysa em todas as suas exibições e que com ela gravou o LP Maysa e a Nova Onda, é integrado por:

Roberto Menescal, de 23 anos, conhecido compositor e violonista, responsável pelos arranjos para pequeno conjunto, que compôs também várias músicas do LP;
Luis Carlos, de 21 anos, pianista, acompanhante de João Gilberto, Norma Benguell e Cauby Peixoto em excursões à Argentina;
Bebeto, 21 anos, considerado o melhor contrabaixista do país, além de tocar também flauta, clarinete e sax;
Hélcio, baterista que acompanhará Maysa nos Estados Unidos. É quem possui maior soma de experiência profissional, pois acompanhou Sammy Davis em sua recente temporada em São Paulo, participou nos Estados Unidos do Perry Como Show e foi convidado por Les Baxter para gravar um LP intitulado Ritmos Latino-Americanos. É inventor de uma novidade em tipo de bateria, com quatro tambores, chamada tamba.
A regência e os arranjos para grande orquestra, assim como os solos de piano, foram feitos por um maestro de 23 anos, Luis Eça, que estreia como arranjador. É muito conhecido como pianista de jazz e já foi bolsista do Conservatório de Viena.

MAYSA SORRI


-         A Maysa do novo disco, afirma Ronaldo Bôscoli, aparece cantando leve, mais perto do ouvinte, sem superdramatização. É uma Maysa de sorriso no rosto.
O que em nada lhe modificou a personalidade; na opinião dos outros elementos do conjunto, o estilo Maysa é o mesmo, embora haja modificações na maneira de dizer as letras, com um acompanhamento moderno, balançando, bem de bossa nova.
-         Meu gênero ainda é o romântico, declara Maysa. Mas precisei me atualizar; e ter conhecido os meninos – como chama os integrantes do conjunto – teve a outra vantagem de me interessar em aprender música e aperfeiçoar meu estilo.

PORQUE NOVA ONDA


-         O nome bossa nova anda muito vulgarizado, diz Ronaldo Bôscoli. Atualmente se aplica a tudo o que é diferente, de bom gosto ou não, em todos os assuntos.
Por isso preferiram adotar o termo nova onda, sem dúvida tradução do francês nouvelle vague.

-         É preciso compreender que o nome, em si, não quer dizer nada, nem ao menos que o estilo seja completamente novo, explica Bôscoli. Apenas distingue, no momento, um grupo de jovens que faz música leve, antinegativista, triste mas com otimista.

Música para gente jovem, se não em idade, em talento, como Ary Barroso e Vinicius de Moraes.

MÚSICA DE ELITE


A bossa nova – ou nova onda – nasceu como um tipo de música brasileira para uma elite de cultura musical, assim como o jazz nos Estados Unidos.
O compositor ou instrumentista, precisa ter suficiente conhecimento teórico, boa técnica, estudar, ler e ouvir música, para adquirir a versatilidade necessária para improvisar e fazer harmonizações dentro do ritmo balançado.

-         Existem, na música brasileira, o samba de morro, o samba de salão e o samba bossa nova, afirma Ronaldo, assim como nos Estados Unidos, por exemplo, há o fox-trot, o jazz e outros ritmos.

BN COMERCIALIZADA


Dizem que a fase de sucesso da BN está passando e o movimento tende a desaparecer, pois o público está saturado com uma quantidade grande de cantores e compositores que aderiram ao estilo lançado por João Gilberto.
Para Ronaldo Bôscoli o próprio fato de quase todos os autores tentarem introduzir o ritmo balançado em suas composições já mostra que, embora não seja mais a novidade que era há dois anos, a influência da BN foi profunda.

-         Há é uma inflação de sambinhas, declara Menescal, que copiam a famosa batida de violão da BN, adaptam-na uma a uma, melodia de fácil agrado e comercializam o estilo. Uns com bom gosto – Luis Antônio e Miltinho, por exemplo – outros, nem tanto. A verdade é que, assim como Elvis Presley sempre venderá mais que Gerry Mulligan, também a autêntica BN não pode ser comercial, e muito compositor de menos categoria faz mais sucesso que Antônio Carlos Jobim.

CASO JUCA CHAVES


-         Exemplo típico é o do moço Juca Chaves, afirma Ronaldo. Representante da bossa paulista em terra carioca, chegou quando fervia o movimento BN. Imediatamente, sem que ninguém do grupo tomasse conhecimento, declarou-se adepto de nosso estilo. Depois, desmentiu-se; voltou atrás e, no meio tempo, ia entoando suas modinhas, tipo começo de século, que são lindas, à sua maneira, mas não respeitam nenhuma das características de bossa nova.
-         Principalmente, acrescentou, o caso Juca Chaves teve o desserviço de confundir, no conceito popular, o nome de um estilo musical com a adoção de comportamentos diferentes e atitudes desconcertantes.

INFLUÊNCIA DO JAZZ

A música da bossa nova tem muita afinidade com o jazz, embora seja essencialmente brasileira nos temas e no ritmo. A variação sobre um mesmo tema, a improvisação, mesmo algumas frases melódicas lembram imediatamente o estilo jazzístico. A origem negra comum nas músicas negra e americana, assim como a idade dos seus adeptos, talvez sejam fatores de explicação.
-         Essa influência existe e nem poderia deixar de existir, afirma Ronaldo Bôscoli, pois os músicos que criaram a BN, todos de menos de 30 anos, já cresceram sob o impacto da propaganda americana em discos e em filmes.

RITMO DE SAMBA-RANCHO


É no ritmo, entretanto, que se evidencia o caráter essencialmente brasileiro, talvez mesmo carioca, da bossa nova.
-         Foi João Gilberto quem adaptou para o violão a batida característica das escolas de samba, quando regressam de um desfile, explicou Hélcio, e que mais se assemelha a um samba-racho, lento e marcado, do que ao ritmo ligeiro da bateria que começa o desfile.

FARÁ SUCESSO


O ritmo da bossa nova deve agradar ao público americano. Além da afinidade com o jazz, o ritmo harmonicamente mais certo, mais definido, torna fácil a assimilação para o ouvinte estrangeiro.
-         O samba tradicional faz mais sucesso no exterior por ser exótico, afirma Ronaldo Bôscoli, do que pela sua qualidade intrínseca.
-         Assim acrescenta Maysa, é muito raro que uma cantora brasileira, que não se apresente no exterior com a clássica fantasia de baiana e a gesticulação de Carmen Miranda, faça sucesso.
A montagem do primeiro show de Maysa com a nova onda, nos Estados Unidos, será semelhante à que realizou na última temporada no Copacabana Palace. Cantará, em português, apenas acompanhada pelo pequeno conjunto. 


(Reportagem publicada originalmente no CADERNO B do JORNAL DO BRASIL, na quarta-feira, 12 de abril de 1961)

24 de junho de 2013

Imprensa: Manuel Bandeira: um poema e sua história - Revista A Cigarra (1961)


Manuel Bandeira: um poema e sua história 


PRINCIPIEI a gostar de Maysa primeiro pelo seu nome. Maysa! Parece um amanhecer. Depois... eu tenho no meu quarto de dormir cinco instrumentos a que muita gente tem horror porque não sabe que eles são como a antiga navalha de barbear: utilíssimos e inofensivos quando só usados há seu tempo e hora: telefone, à direita de minha cama; rádiozinho, à esquerda; televisor, em frente; vitrola, perto da janela, refrigerador, na sala contígua (de sorte que nela faz frio, mas no quarto tenho ar fresco e seco e não ouço o ruído da máquina). Considero-os cinco amigos do peito, só que o televisor e o rádio uma vez por outra me pregam uma falseta.
Pois é, eu ouvia falar muito de Maysa, de sua voz, de sua vida, de suas excentricidades, e, uma noite, à hora do programa dela, liguei o televisor e disse comigo: vamos ver como é que é. Apareceu Maysa de costas, depois de repente se virou, com cara de pantera acuada e desfechou um “boa noite”, que dava a impressão de ter saído não da garganta, mas do fundo do estômago. Depois vieram as visagens, muitas visagens. Por fim, o canto. A voz de Maysa não tem nada de extraordinário. Diz mais do que canta, e a sua dicção também nada tem de extraordinário. Para ser inteiramente franco, não gostei muito não. Todavia, terminado o programa, desligado o televisor, quem disse que eu podia esquecer os olhos e a boca de Maysa? Eles me perseguiam, era tão pungente a expressão deles, expressão de amargura, a mais intensa que eu já tinha visto na vida ou na arte! Na semana seguinte estava eu colado ao televisor, à espera do programa de Maysa. E os olhos e a boca de Maysa continuavam a me perseguir fora do programa. Ora, isso não estava dentro do meu programa. Resolvi, então, aplicar à obsessão o golpe da catarse. O artista leva esta vantagem sobre o não-artista: pode livrar-se das obsessões, reduzindo-as a poema, estátua, pintura ou desenho. Vou fazer um poema sobre Maysa, disse com bravura, e comecei a assuntar. Pretendia ser absolutamente sincero, nada de galanteio, de orquídeas brancas, de marrons glacês. No meio da coisa, considerei que Maysa afinal é mulher, que Maysa podia magoar-se (ela já tem sido vítima de tanto cafajeste)... desisti do poema.
Mas o poema é que não desistia de vir a furo. Um dia veio. Eu tinha que bater a minha crônica para o jornal, não achava assunto que me atraísse, só se falava, então, em Brasília, de súbito me deu o estalo, principiei a teclar na Hermes Baby:

Neste momento a mão é para Brasília
(Todos os caminhos levam a Brasília)
Mas eu gosto de tumultuar o trânsito
Vou louvacionar Maysa!

Três quartos de hora depois o poema estava concluído.
Procedi, então, como costumo fazer quando fico satisfeito com o meu trabalho: entrei a narcisar-me nele. Confesso a minha fraqueza: gosto de lamber a minha cria, se ela me sai bonitinha. O narcisamento consiste em reler a versalhada dez, vinte, trinta vezes. Não há defeito, por pequeno que seja, que resista a essa prova.
Posteriormente, considerando que as quatro linhas iniciais soavam demasiado a crônica, suprimi-as, por caducas, da versão final e definitiva do poema.
Não sei se Maysa gostou ou não da louvação. Vinicius me disse que ela gostou.
Maysa não me deu bola.



MAÍSA

Um dia pensei um poema para Maísa
“Maísa não é isso
Maísa não é aquilo
Como é então que Maísa me comove e me sacode me buleversa me hipnotiza?

Muito simplesmente
Maísa não é isso mas Maísa tem aquilo
Maísa não é aquilo mas Maísa tem isto
Os olhos de Maísa são dois não sei o que dois não sei como diga dois oceanos não-pacíficos.

A boca de Maísa é isto isso e aquilo
Quem fala mais em Maísa a boca ou os olhos?
Os olhos e a boca de Maísa se entendem os olhos dizem uma coisa e a boca de Maísa se condói se contrai se contorce como a ostra viva em que se pingou uma gota de limão
A boca de Maysa escanteia e os olhos de Maísa ficam sérios meu Deus como os olhos de Maísa podem ser sérios e como a boca de Maysa pode ser amarga!

Boca da noite (mas de repente alvorece num sorriso infantil inefável)”
Cacei imagens delirantes
Maísa podia não gostar.
Cassei o poema.

Maísa reapareceu depois de longa ausência
Maísa emagreceu
Está melhor assim?
Nem melhor nem pior
Maísa não é um corpo
Maísa são dois olhos e uma boca

Essa é a Maísa da televisão
A Maísa que canta
A outra eu não conheço
Não conheço de todo

Mas mando um beijo para ela.


Poema originalmente publicado na coluna de Manuel Bandeira no Jornal do Brasil, em 1960.

(Reportagem publicada originalmente na revista A CIGARRA, em 1961. Agradecimentos ao leitor Edson Luiz Mendes que tornou possível a publicação desta matéria. Muito obrigado!)

10 de junho de 2013

Imprensa: Maysa acha os americanos ingênuos - Radiolândia (05/1961)


Maysa acha os americanos ingênuos


Esta entrevista foi realizada com Maysa noite dessas no apartamento 1.303 do Plaza Hotel, onde a estrela se encontrava hospedada. Informal e simples, lacônica por vezes, mas categórica sempre, deixando de lado, por completo, os chavões e as frases feitas, a criadora de “Ouça”, “Mundo Vazio”, “Suas Mãos”, “Escuta Noel” e tantos outros sucessos em disco foi respondendo, uma a uma, às indagações que lhe dirigimos, sem titubear, sem hesitar um instante sequer. Vestia uma blusa de malha e uma saia escura. Ao colo, seu cachorrinho de estimação. Os cabelos revoltos, caindo em mechas sobre a testa, davam-lhe um toque de encantadora negligência, que a ausência de “baton”, “rouge”, ou rimmel” tão bem complementava.
Fitou-nos, com seus olhos marcados a lápis. Seu olhar nos disse que podíamos começar.

“NÃO ME CONHEÇO”

-         Que acha de si mesma? – iniciamos.
-         Já cheguei à conclusão de que não me conheço. Não sei ainda, exatamente, quem sou, quem fui, quem serei. Vivo procurando a mim mesma, certa, embora, de que não me encontrarei nunca, nem no espaço nem no tempo. Sou, entretanto, a mulher que se busca.
-         Considera-se realizada como criatura, artista e mulher?
-         Realizei-me plenamente como criatura humana, como matéria orgânica e sensitiva. Não o consegui, todavia, como artista e mulher. Pensando bem, pouco ou nada realizei na vida, pois cada dia que passa mais me convenço de que me falta tudo para realizar aquilo a que me propus, quando iniciei a jornada da existência. Existência? Nem sei mesmo, ao certo, se vivo ou vegeto...
-         Considera-se uma mulher de grande personalidade?
-         Não, de personalidade grande. Não sei se para bem ou para mal. Costumo dizer o que penso, porque, geralmente, penso o que digo, aproveitando o “slogan” de um jornal.
-         A Maysa-mãe é condescendente ou rigorosa?
-         Nem uma coisa nem outra: compreensiva. Meu filhinho (que se encontra em São Paulo, residindo em companhia de meus pais) não conheceu, até agora, de minha parte, tolerância ou tirania. Dispenso-lhe a compreensão de vida aos meninos de sua idade, pois não desconheço que a benevolência excessiva é tão perigosa quanto o rigor em demasia.
-         Qual é sua religião? E cor política?
-         Tenho, por princípio, não responder a perguntas que versem sobre questões religiosas ou políticas, uma vez que são assuntos extremamente controversos. Vou abrir uma exceção, certa de que vocês não tocaram mais nestes temas. A religião que professo, defino-a numa palavra – cristã. Quanto à minha cor política, é... meia-esquerda.
E deu um sorriso maroto. Espremendo mais ainda os olhos rasgados.

“BEBO PORQUE QUERO”

-         Maysa, porque você bebe? – perguntamos, de chofre. Pausa. Lentamente o sorriso se desfez. E a resposta veio, em tom que não admitia réplica:
-         Bebo, por vários motivos: em primeiro lugar, porque quero. Em segundo, porque sinto vontade. Em terceiro, porque tenho dinheiro para pagá-la. Finalmente, porque bebendo, eu me torno menos insuportável aos outros e, ao mesmo tempo, consigo suportar a presença dos insuportáveis, coisa que seria difícil obter fora do estado etílico.
-         E que faz quando, mesmo estando em multidão, sente-se só?
-         Bebo.
Aproveitamos a embalagem:
-         A noite carioca lhe agrada? E a paulista? E a nova-iorquina?
-         Quer saber de uma coisa? Minhas noites não têm sobrenome.

“FRACASSEI NO AMOR”

-         Quantas vezes você se viu frustrada no amor, Maysa?
-         Tantas quanto tentei. Meu fracasso no amor foi qualquer coisa de cruel, total, inumano, exasperante, irremediável. Como sigo, entretanto, a teoria filosófica que erige a fatalidade como supremo dogma, conformei-me com os meus contínuos insucessos nesse terreno, cujos encantos, ainda, a bem dizer, desconheço. Resigno-me a amar sem ser amada ou ser amada sem amar, ou ainda: nem amar, nem ser amada – que considero a mais simples para uma vida vegetativa e sem pretensões. Diga-se de passagem que não creio já ter sido amada verdadeiramente, levando-se em conta o que eu entendo por “amar”, em toda complexa acepção da palavra.
-         Julga-se feliz atualmente? Nada lhe falta?
-         Sim, feliz. Nada me falta, exceto encontrar-me, como já disse acima. Se isto acontecer, – o que não acredito – então, sim, terei atingido a felicidade verdadeira, completa, insofismável.
-         Acha o ciúme um sentimento próprio dos medíocres?
-         Ah! Então é por isso que eu sou tão medíocre...

“STATES”

Como não poderia deixar de ser, tocamos no assunto “States”. Disse-nos Maysa que ficou verdadeiramente encantada com o adiantado estágio de civilização que já atingiu o povo daquele país irmão. Suas magnificentes construções, – maravilhas arquitetônicas – suas pontes, vida noturna, indústrias, enfim, todas as inúmeras formas de resolver os problemas da vida quotidiana pela maneira mais prática e eficiente – a deslumbraram. Gostaríamos, entretanto, de saber o que, dentre aquela imensidão de maravilhas que existe nos Estados Unidos, mais entusiasmara a artista brasileira. Por isso, fizemos a pergunta:
-         O que mais a impressionou nos “States”?
A resposta de Maysa veio pronta.
-         A ingenuidade dos americanos.


(Reportagem publicada originalmente na RADIOLÂNDIA - Nº352, segunda quinzena de maio de 1961. Agradecimentos ao leitor Edson Luiz Mendes que tornou possível a publicação desta matéria. Muito obrigado!)

14 de fevereiro de 2011

Especial: A temporada norte-americana de Maysa


Maysa é fotografada na Avenida Madison em Nova York.

1960, foi um realmente muito agitado na carreira de Maysa. Após uma célebre rentrée, a cantora havia retornado ao mundo artístico mais bela e magra. E logo, já havia gravado dois discos pela gravadora RGE e compartilhava uma agenda lotada de shows e compromissos. Acabava de retornar aos programas de televisão, e ainda faria uma inesquecível visita artística ao Japão. Esta viagem, seria responsável por mudar os rumos de sua vida, novamente.
Segundo a própria Maysa em depoimento anos depois, o começo desta história originou-se ainda no Japão. Segundo as palavras de Maysa, ela estava em Tóquio, quando um amigo, em Nova York lhe telefonou. E ela lhe garantiu que no dia seguinte estaria em Nova York, e assim foi feito. Voou até Nova York, passou pela Capital – Washington – e ainda deu o ar de sua graça na capital dos jogos de azar – Las Vegas, passando pela badalada Los Angeles. Quando retornou a Tóquio, e de lá, tomou o avião que lhe traria de volta ao Brasil. Na bagagem, carregava uma surpresa que a faria navegar por mares nunca dantes navegados.

...

No dia 21 de agosto de 1960, ás 17:30, Maysa convocou a imprensa carioca para uma entrevista coletiva em que anunciaria a boa-nova. De um dos salões do luxuoso hotel Copacabana Palace, Maysa anunciou que na rápida passagem pelos Estados Unidos, assinara contrato com empresários norte-americanos, e mais um contrato com a famosa agência e produtora Associated Booking Corporation, para apresentações nos Estados Unidos durante um prazo de 3 anos. A notícia causou grande furor, e logo se especulou o valor do salário estipulado no contrato de Maysa. Mas, para fomentar a curiosidade alheia, ela não revelou o valor dos seus contratos. “Não quero revelar as cifras do meu contrato. Porém asseguro que desde Carmen Miranda não pagam tão bem uma artista brasileira.” A central de boatos se pôs a ativa – devidamente instigada pelos assessores de Maysa –  que logo divulgaram que a cantora ganharia nos EUA, algo entorno de 5 mil dólares. Um valor astronômico à época, que equivalia a mais ou menos, 1 milhão de cruzeiros. O primeiro compromisso seria dali a dois meses, no Blue Angel Nightclub – simplesmente, a mais sofisticada boate de Nova York. A coletiva de imprensa seguiu, cheia de revelações da parte de Maysa. Inclusive, depois, vários jornais anunciariam erroneamente, que o contrato de Maysa era com a Associated Broadcasting Corporation – a emissora de televisão ABC – ironicamente, de sigla idêntica a da Associated Booking Corporation. Maysa chegou a notar o engano, mas também não fez nenhuma questão de reparar o mau entendido da imprensa.
As novidades, parecem ter feito muito bem a Maysa, que parecia animada e feliz com o que viria a seguir. Ela chegou a apresentar o seu novo cãozinho a imprensa durante a entrevista – o Yorkshire Talismã – que comprara durante a passagem pelos Estados Unidos e lhe custara à bagatela de 50 mil cruzeiros. Maysa parecia realmente ter reconquistado a doçura da imprensa. No dia seguinte, a coletiva de imprensa foi amplamente noticiada nos jornais do eixo Rio – São Paulo. O escandaloso Última Hora, apresentava em letras garrafais:
“Maysa: 1 milhão de cruzeiros por semana.”
 Era de se notar que Maysa estava muito mais bonita. Os cabelos mais curtos, com mechas avermelhadas lhe conferiam um ar sofisticado. Vestia um vestido de musselina negra, com um delicado broche de pérolas e brilhantes junto ao ombro. Parecia ser uma Maysa mais disciplinada, ela acrescentou que teria de emagrecer mais 8 quilos por exigência dos padrões norte-americanos e ainda teria que manter um tom de voz moderado – “Os empresários de lá são muito rigorosos. Além de me quererem ainda mais magra, exigiram também que eu não falasse alto e, mesmo em entrevistas como essa, devo manter o tom sereno de voz.”
Quando Maysa embarcou no comet da frota da Aerolineas Argentinas, proveniente de Buenos Aires, com destino aos EUA, no dia 25 de outubro de 1960 – fora saudada como uma verdadeira superstar. Pouco antes da partida, o presidente Juscelino Kubitschek, seu fã declarado, fez com que o avião de Maysa aterrissa-se na novíssima capital brasileira – Brasília. Onde recebeu Maysa em audiência oficial, cumprimentando-a pela divulgação da música brasileira no exterior. No dia 1º de novembro de 1960, ela subiria pela primeira vez em um palco nova-iorquino.

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Maysa deveria estar realmente, muito otimista, e com razão. O Blue Angel ostentava o título de boate mais sofisticada de Nova York. Dentro daquele ambiente de extremo requinte e bom gosto, situado na rua 55 Leste – Upper East Side de Manhattam, várias estrelas já haviam despontado para o sucesso. Entre elas, o hoje aclamado cineasta e ator Woody Allen, que à época, se limitava apenas a escrever textos para outros comediantes. A premiada Barbra Streisand, também despontou ao sucesso no Blue Angel, em 1959. O proprietário da casa – Max Gordon – também era dono do mítico Village Vanguard, um templo sagrado do Jazz norte-americano, existente até hoje, situado na Sétima Avenida. Portanto, Maysa tinha razões de sobra para estar otimista, se apresentando numa boate que alcançara fama e sucesso numa agitada Nova York, agenciada pela ABC e contratada pela poderosa Columbia Records. O que mais ela poderia querer?

...

Maysa não era a estrela principal da casa. Seu contrato previa que dividisse o palco com mais dois outros artistas, no caso: a cantora, atriz e comediante Dorothy Loudon e o humorista Irwin Corey. Maysa, que no exterior ainda usava o sobrenome Matarazzo, enfrentava três apresentações por noite, a primeira as 21:30, com intervalos de duas horas. Ela cantava acompanhada pelo conjunto do saxofonista  norte-americano Jimmy Lyons. Mas vendo a dificuldade do trio em se adaptar ao ritmo do samba brasileiro, mandou chamar o percussionista Russo do Pandeiro diretamente do Brasil, para incrementar o espetáculo.
Animada, ela não demorou a enviar notícias da temporada ao Brasil. Logo, quinze dias após chegar a Nova York, Maysa enviou uma carta ao colunista Mattos Pacheco, do vespertino Diário da Noite. Nela, contava os pormenores das primeiras apresentações no Blue Angel, e do sucesso que vinha obtendo na casa noturna. Ainda comentava sobre a boa recepção da crítica, em vários jornais e revistas. E se dizia animada quanto ao futuro, entre várias metrópoles norte-americanas, e futuros trabalhos na televisão e musicais da Broadway. As notícias foram recebidas com festa no Brasil, em manchetes muito mais entusiasmadas e espetaculosas que o normal.
Apesar da boa recepção da crítica nova-iorquina, Maysa não chegou a estourar em Nova York, como disseram os periódicos brasileiros. Ao mesmo tempo das críticas positivas, proliferavam-se curiosas lendas ao seu respeito – uma verdadeira confusão de fatos, somados pelo nome de peso, a posição de estrela de primeira grandeza e o passado Matarazzo. Em fevereiro de 1961, Maysa se tornou destaque nas páginas da prestigiada New York Mirror Magazine, em que era apontada – de forma peculiar – como “a cantora mais rica do mundo”, e dava continuidade aos exageros: “Maysa considera-se alguém de vontade de ferro, e é a pessoa mais independente que se possa imaginar. É uma brasileira riquíssima. Quando se fala que a família Monjardim é rica, é como se falasse, aqui, nos Estados Unidos, dos Rockefeller. No Brasil, ganha perto de 5 mil dólares – cerca de 1 milhão de cruzeiros – por semana, o que já é uma grande soma nos Estados Unidos. O que não será isso no Brasil? Mas a grande parte desta fortuna, dizem seus amigos mais íntimos, ela destina a instituições de caridade.” E mais uma vez, a revista fazia confusão com o passado – e os sobrenomes – de Maysa. O título da matéria já era bem sugestivo: “A cantora mais rica do mundo também tem seus problemas”. E quanto a isso, a revista já acusava o golpe.

...

longe da família e dos amigos, perto do natal, Maysa passou a enfrentar sucessivas crises de solidão, naquele rigoroso inverno nova-iorquino. A melancolia a empurrou diretamente para o álcool e Maysa mergulhou de cara, numa profunda depressão. O círculo vicioso voltara a agir novamente, e Maysa foi fundo no álcool. Bebia para esquecer as tristezas e afogar as mágoas, mas as ressacas a deixavam aos cacos. Em companhia, passou a engordar horrores, e faltar sistematicamente, a todos os compromissos estabelecidos na noite.
  Apenas 1 mês após o começo da temporada no Blue Angel, a casa noturna anunciou que a cantora brasileira passaria alguns dias sem se apresentar, pois estaria gripada e afônica – uma desculpa que disfarçava os canos que Maysa vinha dando em Max Gordon. O pai, Alcebíades, foi ao encontro da filha nos EUA, para poder consola-la, queria que ela  voltasse para o Brasil imediatamente. Mas Maysa estava irredutível, e nem sequer cogitava a hipótese de abandonar uma promissora carreira internacional nos EUA. Que a propósito, ela mesma, logo trataria de naufragar.
Por esta época, registrou no diário:
“A verdade é que nunca fui boêmia.
Vim ver e viver, na noite fria daqui de Nova York,
De maneira inconseqüente e aventureira.
Mas não boêmia.

...

Naquele gelado fim de 1960 em Nova York, Maysa não esperava encontrar um ilustre conhecido. O argentino Duilio Marzio era um verdadeiro galã de cinema. Bonito e esbelto, Duilio era constantemente capa de revista nas publicações argentinas. Ao longo da carreira, estrelou mais de meia-centena de filmes, tornando-se um dos maiores astros da Argentina. (Duilio hoje vive em Buenos Aires e está com 87 anos). Maysa já  o conhecia de outros carnavais, os dois já haviam vivido um rápido affair quando ela realizava sua primeira temporada na capital portenha, em 1958. Foi um rápido, forem intenso romance e Duilio não esqueceria Maysa tão facilmente. Por isso, ele não exitou em ir ao seu encontro, enquanto ela já fazia sua temporada no Blue Angel.
O romance foi reatado do exato momento em que parou, como um revival – um verdadeiro déjà vu. Duilio se encontrava nos EUA a trabalho, mas logo conseguiu uma brecha no serviço para divertir-se no fim de ano ao lado de Maysa. Os dois aproveitaram plenamente os últimos dias de 1960 e passaram juntos o Réveillon de 1961, no apartamento alugado por Maysa no charmoso Upper East Side. Foi uma farra sem precedentes, em companhia de amigos brasileiros e argentinos, que não acabou nada bem. Certa hora da madrugada, Maysa já bêbada, ficou agressiva e começou a atirar objetos para todos os lados do ambiente, atingindo alguns convidados.
Como se não bastasse, de manhã – no primeiro dia de 1961 – Duilio acordou com o cobertor simplesmente, em chamas. Maysa mais uma vez havia dormido com um cigarro aceso entre os dedos e pela décima vez, quase provocara um incêndio no quarto. Após mais algum tempo juntos, decidiram por encerrar o romance, sem mais delongas. “A gente se encontra de novo por aí, em qualquer lugar do planeta”, “Até uma próxima”, disse Maysa, prevendo um possível reencontro que jamais viria a acontecer.

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Como a própria Maysa disse anos depois, seu contrato era de trabalhos nos Estados Unidos por 3 anos. Mas neste meio tempo ela sempre ia e vinha entre os EUA e o Brasil. No início de 1961, ela viajou até o Uruguai para uma temporada de shows na movimentada Punta Del Este. Na volta, fez escala no Rio de Janeiro, onde experimentou o gostinho da vingança ao saber que andavam sentindo – e muito – sua falta no Brasil. Antes de voltar para os EUA, Maysa cumpriu mais uma temporada de shows, agora, na Meia-Noite – a boate do luxuoso hotel Copacabana Palace. Acabou só retornando a Nova York em meados de abril, quando alguns jornais levantaram notícias maliciosas de que ela não estaria obtendo o estrondoso sucesso que afirmava, nos EUA. Aos fofoqueiros de plantão, deixou o recado: “Quem fracasso nos Estados Unidos, não volta uma segunda vez para lá. E eu estou voltando. Adeus para vocês que ficam.”

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Entre idas e vindas, Maysa esteve gravando entre o inverno de 1960 / 1961, em Nova York, um disco que se tornaria objetivo mitológico. O álbum Maysa Sings Songs Before Dawn, é em todos os sentidos uma preciosidade. Lançado pela Columbia Records norte-americana em meados de julho, Maysa estava realmente desfrutando de recursos de estrela de primeira grandeza. A Columbia, parecia querer investir firme na cantora brasileira, que era apresentada na capa do LP como “A new star of Columbia Records”, em livre tradução – “A nova estrela da gravadora Columbia”. No disco, Maysa foi acompanhada pela orquestra do prestigiado maestro Jack Pleis que conferiu ao LP uma sonoridade incrível, embalada por arranjos sofisticados de uma orquestração delicada e primorosa, aliado a um repertório delicioso.
 O texto de contracapa de Maysa Sings Songs Before Dawn, apresentava Maysa uma cantora mundialmente celebrada, que antes de gravar seu primeiro LP nos Estados Unidos, já havia conquistado as platéias do Rio de Janeiro, São Paulo, Buenos Aires, Montevidéu, Paris e Tóquio. “Essa é a voz de Maysa, a mais emocionante e popular cantora brasileira. Ela canta de maneira provocante quente e sedutora. Sua performance é hipnótica. Esse disco é a estréia no mercado fonográfico norte-americano de uma grande estrela internacional.”
E finalmente, para fazer jus à tão belas palavras, Maysa interpretava em inglês, francês, espanhol e português. Era uma verdadeira releitura de clássicos. Grandes sucessos da música popular norte-americana, canções do repertório de Billie Holiday, Judy Garland, Chet Baker e Frank Sinatra. Ao lado de “A Noite do Meu Bem”, de Dolores Duran, e do clássico bolero mexicano “La Barca”, de Roberto Cantoral. Havia ainda a primeira gravação da impagável “Ne Me Quitte Pas”, de Jacques Brel. Este disco, foi sem dúvidas, o melhor fruto da passagem de Maysa pelos Estados Unidos. Inexplicavelmente, o álbum jamais foi lançado no Brasil, pois a gravadora RGE detinha a exclusividade sobre Maysa no Brasil, mas Maysa Sings Songs Before Dawn, chegou a ser reeditado na Argentina, no Uruguai e no Peru. Onde obteve foi rebatizado de La Noche de Mi Amor, obtendo um grande sucesso nos países latinos.
A crítica ao disco de Maysa, foi sim positiva, mas nem de todo elogios. A revista Time, por exemplo, alfinetou o estilo da cantora: “A cantora brasileira de voz melancólica fala sobre velhos e esquecidos amores: “Something To Remember You By”, “The End Of a Love Affair”, “The Man That Got Away”. Ocasionalmente imita Dietrich, mas sem a mesma pose.” Na revista Cash Box, o disco de Maysa dividiu espaço com outros cinco lançamentos. “A cantora brasileira tem voz quente e respira sensualidade. É uma companhia perfeita para as horas de solidão”.
Não era um enxovalhe, mas também não foi o lançamento do ano, como Maysa queria fazer acreditar no Brasil. Uma das causas, foi a de que pouco tempo depois, seu tempo nos Estados Unidos chegaria ao fim. E conseqüentemente, ela não teve tempo suficiente para divulgar o disco.

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em Agosto, sem conseguir renovar os contratos estabelecidos, e sem nenhuma nova perspectiva de trabalho nos EUA, Maysa decidiu por voltar ao Brasil. Ela não renovara o contrato com o Blue Angel, pois o proprietário – Max Gordon, cansara dos canos que Maysa lhe dava, quando desaparecia na noite nova-iorquina sem dar satisfações nem cumprir os shows programados. A produtora ABC, também desistiu de agencia-la pois era impossível produzir uma artista que deixava as platéias e os donos de boate, a ver navios. Maysa praticara coisas, inimagináveis para um artista que desejava conquistar o público norte-americano. Por exemplo, várias vezes ela subira ao palco do Blue Angel visivelmente alcoolizada. Tentava repetir lá, o que fazia no Brasil quando certos espectadores conversavam enquanto ela cantava – obviamente, munida de sapatos e microfones a mão. Mas, o problema era que o público norte-americano jamais aceitaria ser repreendido por uma cantora latina em começo de carreira nos Estados Unidos. Eles, simplesmente se levantavam e iam embora. Como vingança, acreditem: Maysa cantava canções em português, substituindo os versos, por palavrões impublicáveis. Que obviamente, os norte-americanos jamais saberiam o que de fato, significava.
Ao voltar ao Rio de Janeiro, logo declarou: “Os americanos são muito rigorosos nessas coisas de contrato artístico. É tudo muito certinho e organizado. Não me acostumaria a ter uma vidinha toda regrada como eles exigem”. Pois o sonho de conquistar a América, fora atirado pela janela, talvez, por ela mesma. Mas Maysa, orgulhosa como era, jamais permitiria que a sombra do fracasso pairasse sobre a sua imagem. Sobranceira, anunciou que fora ela quem decidiu dar um tempo em relação aos Estados Unidos. Um dia, quem sabe, voltaria para reconquistar a América.
A verdade, é que realmente, Maysa, com sua personalidade ímpar e de certa forma, muito inconseqüente, jamais se adaptaria ao tão responsável American Way Of Life. Anos depois, ela confessaria nostálgica as impressões desta doce – e louca – empreitada.
“[...] Eu saí de New York três dias depois, voltando para Tóquio, para de Tóquio voltar para o Brasil. Com um contrato, agenciada pela ABC, com um contrato para cantar no Blue Angel. [...] Em 1961 eu estava com um contrato de dois anos nos Estados Unidos, cantando no Blue Angel, contratada pela CBS e agenciada pela ABC. [...] Sei que passei dois anos trabalhando em New York, no local mais chique da Broadway, com uma vida absolutamente “sofisticadérrima”. Bom, eu consegui acabar com a minha carreira em New York. Porque estava se preparando uma coisa tão bonita, eram tantos os elogios, enfim. E me achavam um pouco parecida com a Jacqueline Kennedy, e meu nome estava muito badalado. Mas eu consegui também acabar com aquele troço, porque não era bem aquele troço, estava muito profissional demais, muito “arrumadinho” demais...”


The Blue Angel, Nova York 1961.


Em close para lentes dos fotógrafos na Avenida Madison.


Longe da família e dos amigos, perto do natal. Maysa passou a enfrentar sucessivas crises de solidão, naquele rigoroso inverno nova-iorquino.


Antes de partir, Maysa foi saudada pelo presidente Juscelino Kubitschek, pela divulgação da música brasileira no exterior.


Maysa Sings Songs Before Dawn – gravado em Nova York, no inverno de 1960 / 1961. Jamais seria lançado no Brasil.