Antes que todos os prédios projetados estivessem prontos, antes mesmo que os operários que construíram aquela cidade tivessem suas residências fixas, a inauguração de Brasília não poderia esperar. O dia 21 de abril de 1960 marcou além de mais um feriado de Tiradentes, a inauguração da nova capital do Brasil, construída em tempo recorde no coração do planalto central. Inaugurada incompleta e já marcada por desigualdades sociais gritantes, Brasília poderia prescindir de muita coisa, mas não de uma emissora de televisão e muito menos de vida noturna. E aí que Maysa entra nessa história.
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| Noite inaugural de Brasília. Fotografia de René Burri, 1960. |
Em 1960 Maysa estava no auge. Ao assinar com as Associadas de Assis Chateaubriand naquele ano, a cantora e compositora embarcou em viagens do norte ao sul do Brasil para se apresentar nas rádios e TVs do que era, então, o maior conglomerado de imprensa e mídia do país. Menos de um mês depois da inauguração da cidade, Brasília entrou na rota de Maysa. A novíssima capital do Brasil já nascera com uma trilha sonora própria: a Sinfonia da Alvorada, criação pouco badalada da dupla Tom & Vinícius, lançada em disco em 1961 e que caiu no esquecimento nos anos seguintes. Não era esse o tipo de música que os congressistas e outra gente graúda do governo federal estava acostumada a ouvir nas célebres boates de Copacabana.
Para colorir a vida diária que começaria terrivelmente monótona, supunha-se, foi inaugurada concomitantemente à nova capital o seu primeiro jornal impresso, o Correio Braziliense, e a TV Brasília, ambas pertencentes aos Diários Associados. A noite de sábado, dia 14 de maio de 1960, não deve ter sido nada monótona naquela cidade construída em meio ao bioma do cerrado. Naquele dia o Correio Braziliense anunciou várias vezes a apresentação de Maysa, em pessoa, na TV Brasília, às 21 horas, patrocinada pela Cacic S.A Indústria e Comércio. O uso do termo “em pessoa” servia para destacar que Maysa apareceria para os telespectadores diretamente dos estúdios em Brasília, não se tratando de gravação em vídeo-tape –, um recurso tecnológico que começava a ser utilizado com frequência na TV brasileira à época. O jornal ainda anunciava que, naquele mesmo dia, Maysa faria um show na boate Pillango apresentado pela TV Brasília. O Pillango era um restaurante e boate que naqueles dias iniciais de Brasília, funcionava diariamente das 11h da manhã às 4h da madrugada, no início da W3, avenida que seria por décadas um importante ponto comercial e social da cidade, até entrar em decadência. Na semana seguinte ao show, a coluna social do Correio Braziliense declarou o show de Maysa um sucesso absoluto, notando o especial bom humor da cantora, por ter suportado uma plateia mal-educada sem devolver as típicas retaliações que ela reservava ao público nessas ocasiões.
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Uma curiosidade é que, dezesseis anos depois do instante capturado na imagem, Maysa relembrou o episódio em sua última entrevista, concedida ao jornalista Aramis Millarch em novembro de 1976. Na ocasião, ainda no início da abertura política da Ditadura Militar e poucos meses depois da morte do ex-presidente, Maysa fez questão de afirmar que foi JK o único presidente do Brasil a parabeniza-la em seus vinte anos de carreira. É um fato notório que JK adorava Maysa.
Correio Braziliense - 14 de novembro de 1961.
Depois
do encontro com o Presidente Bossa Nova, Maysa voltaria à Brasília para cantar
em pelo menos duas ocasiões, em uma delas repetiu a dobradinha de shows na TV
Brasília e depois em casa noturna – dessa vez na boate Macumba. Na derradeira, Maysa
cantou no lindíssimo Brasília Palace Hotel supostamente acompanhada pelo
conjunto de bossa novistas com quem gravara o álbum Barquinho alguns meses
antes.

Correio Braziliense - 8 de março de 1961.
Não
foram encontrados registros posteriores da presença de Maysa em Brasília. Assim
como não há nenhuma outra imagem conhecida dela na capital federal, além da
foto tirada ao lado de Juscelino Kubitschek. A Brasília que Maysa viu
praticamente nascer, com odor misturado de mato e tinta fresca, também não
existe mais. Transformou-se. É instigante tentar imaginar o que Maysa viu lá.
As imagens que sobreviveram de uma Brasília recém-nascida são desconcertantes –
prédios monumentais pairando sobre imensos descampados; outros ainda em
construção. Uma paisagem aonde o vermelho da terra tantas vezes revolvida se
mistura ao verde que tentava domar. Poucas árvores. Brasília representou desde
o início o melhor e o pior do Brasil.






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