12 de maio de 2026

Maysa: "Hoje sou feliz" - Revista Jóia, 31/12/1957

 
Maysa: "Hoje sou feliz"


Reportagem de Isaac Piltcher

Fotos de Dilson Martins

A cantora acha caro o preço da glória, mas paga, tostão a tostão – uma vida inteira que começou com a gravação de um LP – “não trocaria por nada do mundo os milhares de amigos que minhas canções me trouxeram”.


    A pele queimada da praia, os olhos brilhando mais que nunca, cabelos despenteados como sempre, Maysa voltou para o Rio de Janeiro. Nascida carioca, os Monjardim cedo se transferiram para o planalto, levando-a ainda pequenina. Maysa se criou paulista, gosta da sua terra de adoção, mas o mar lhe faz falta. O mar e a poesia que envolve o Rio de Janeiro. É certo que ela gostaria que as circunstâncias em que se deu essa mudança fossem outra. Maysa afirma que gostaria muito que nada do que aconteceu – seu desquite de Andrézinho Matarazzo – dando ao caso as proporções de um “affaire” hollywoodiano, tivesse acontecido. Mas, se para que ela pudesse cantar livremente, para que ela pudesse viver a vida que ela queria e para um público que ela ama, esse teve de ser o preço. Maysa pagou-o sem hesitar, embora lamentando.

O que eu estou procurando

No vago aflita olhando,

De canto em canto buscando,

O que?...

    Maysa procurava, às vezes, aflita, a sua afirmação, a sua vida própria como mulher e como artista. E encontrou:

- Eu sou uma mulher feliz. Nunca pretendi nobrezas, nem de sangue nem industriais, e hoje tenho o que eu sempre quis. Tenho meu filho, tenho meu canto e tenho o meu público.

- Foi uma noite feliz aquela em que Roberto Côrte-Real, numa festa, começou a insistir para que eu marcasse a data em que eu gravaria o meu primeiro “LP”. A oposição das famílias era enorme, ajudada por um certo receio meu, que até então só cantara em casa, para os amigos. Entusiasmada por Roberto, resolvi pegar o “pião na unha”: Gravei o “Convite...” dias depois do nascimento do meu filho. Foi o meu segundo... Gosto de ambos e ambos me trazem alegrias...

- O sucesso do disco deu-me a coragem necessária para enfrentar o público de frente, e o que eu pensava ser uma luta amarga acabou sendo um encontro entre amigos... Hoje eu não trocaria por nada os milhares de amigos que minhas canções me trouxeram.

Onde estás Noel

Que não escutas

Os plágios das tuas músicas

Que se ouvem por aí...

    Maysa quando apareceu fez sensação como compositora. Suas letras inspiradíssimas e suas melodias bonitas, tomaram conta de São Paulo e logo do Brasil. Seu primeiro “LP” chamou-se “Convite para ouvir Maysa”. Convite que o povo aceitou sofregamente.

    Maysa agora não pensa em outra coisa que não seja a sua carreira artística: cantar, gravar, fazer filmes – já fez o primeiro e agora estuda proposta para o segundo – e excursões artísticas: no princípio do ano próximo Maysa deverá levar as suas canções aos States, depois de ter recusado convites para cantar na França, por imposição da família. Pela mesma razão, o o público de boates não a ouvirá tão cedo.

Ouça, vá viver sua vida com outro bem.

Hoje eu já cansei de pra você não ser ninguém...

A história de Maysa, de um ano para cá, está contada em suas canções, a maior parte composta bem antes disto. Se todos os que escreveram sobre ela se tivessem dado ao trabalho de ouvi-las, muito papel teria sido poupado e tudo teria sido melhor compreendido...

    Não há magoa em Maysa quando olha o passado: o que houve foi uma libertação, o fim de uma situação que não devia ter começado e que teria de acabar. Quando eu entrei para o Sacre-Coeur de Marie, em São Paulo, as freiras já gostavam de me ouvir cantando. Saí de lá para casar: meus estudos só puderam ser continuados em casa, com professores particulares – inglês, francês, piano – e um pouco, mas muito pouco, de economia doméstica. Minha vida se transformava numa pequena prisão de ouro que ia envolvendo toda a minha forma de ser. E não podia durar: o que eu queria não era nada disso; o que eu queria era exatamente o que eu vivo hoje: cantar para um público que eu gosto e que gosta das minhas canções. Eu sou uma mulher feliz.

To the end of the Earth

I’ll follow my star...

    Entre pratas antigas e gravuras inglesas Maysa constrói sua vida no Rio de Janeiro; Jayminho, seu filho, vive com ela e vê o pai de tempos em tempos. Há paz em sua volta, e o seu clima é trabalho. Muito mais do que antes, sem dúvida, mas é um ambiente de alegria que lhe dá força para ir perseguindo sua estrela, vencendo os obstáculos que a carreira lhe trouxe, junto com as alegrias e consagrações.

    Apesar de já ter atingido pontos que outros artistas só chegam no fim da carreira, Maysa acha que ainda há muito caminho a andar. Impulsionada por uma extraordinária força interior, Maysa seguirá, se preciso até o fim da terra, para dar ao seu público, sempre, o melhor das suas canções e da sua voz. 




(Reportagem de capa publicada originalmente no nº 3 da revista Jóia, de 31 de dezembro de 1957.)

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