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12 de maio de 2026

Maysa: "Hoje sou feliz" - Revista Jóia, 31/12/1957

 
Maysa: "Hoje sou feliz"


Reportagem de Isaac Piltcher

Fotos de Dilson Martins

A cantora acha caro o preço da glória, mas paga, tostão a tostão – uma vida inteira que começou com a gravação de um LP – “não trocaria por nada do mundo os milhares de amigos que minhas canções me trouxeram”.


    A pele queimada da praia, os olhos brilhando mais que nunca, cabelos despenteados como sempre, Maysa voltou para o Rio de Janeiro. Nascida carioca, os Monjardim cedo se transferiram para o planalto, levando-a ainda pequenina. Maysa se criou paulista, gosta da sua terra de adoção, mas o mar lhe faz falta. O mar e a poesia que envolve o Rio de Janeiro. É certo que ela gostaria que as circunstâncias em que se deu essa mudança fossem outra. Maysa afirma que gostaria muito que nada do que aconteceu – seu desquite de Andrézinho Matarazzo – dando ao caso as proporções de um “affaire” hollywoodiano, tivesse acontecido. Mas, se para que ela pudesse cantar livremente, para que ela pudesse viver a vida que ela queria e para um público que ela ama, esse teve de ser o preço. Maysa pagou-o sem hesitar, embora lamentando.

O que eu estou procurando

No vago aflita olhando,

De canto em canto buscando,

O que?...

    Maysa procurava, às vezes, aflita, a sua afirmação, a sua vida própria como mulher e como artista. E encontrou:

- Eu sou uma mulher feliz. Nunca pretendi nobrezas, nem de sangue nem industriais, e hoje tenho o que eu sempre quis. Tenho meu filho, tenho meu canto e tenho o meu público.

- Foi uma noite feliz aquela em que Roberto Côrte-Real, numa festa, começou a insistir para que eu marcasse a data em que eu gravaria o meu primeiro “LP”. A oposição das famílias era enorme, ajudada por um certo receio meu, que até então só cantara em casa, para os amigos. Entusiasmada por Roberto, resolvi pegar o “pião na unha”: Gravei o “Convite...” dias depois do nascimento do meu filho. Foi o meu segundo... Gosto de ambos e ambos me trazem alegrias...

- O sucesso do disco deu-me a coragem necessária para enfrentar o público de frente, e o que eu pensava ser uma luta amarga acabou sendo um encontro entre amigos... Hoje eu não trocaria por nada os milhares de amigos que minhas canções me trouxeram.

Onde estás Noel

Que não escutas

Os plágios das tuas músicas

Que se ouvem por aí...

    Maysa quando apareceu fez sensação como compositora. Suas letras inspiradíssimas e suas melodias bonitas, tomaram conta de São Paulo e logo do Brasil. Seu primeiro “LP” chamou-se “Convite para ouvir Maysa”. Convite que o povo aceitou sofregamente.

    Maysa agora não pensa em outra coisa que não seja a sua carreira artística: cantar, gravar, fazer filmes – já fez o primeiro e agora estuda proposta para o segundo – e excursões artísticas: no princípio do ano próximo Maysa deverá levar as suas canções aos States, depois de ter recusado convites para cantar na França, por imposição da família. Pela mesma razão, o o público de boates não a ouvirá tão cedo.

Ouça, vá viver sua vida com outro bem.

Hoje eu já cansei de pra você não ser ninguém...

A história de Maysa, de um ano para cá, está contada em suas canções, a maior parte composta bem antes disto. Se todos os que escreveram sobre ela se tivessem dado ao trabalho de ouvi-las, muito papel teria sido poupado e tudo teria sido melhor compreendido...

    Não há magoa em Maysa quando olha o passado: o que houve foi uma libertação, o fim de uma situação que não devia ter começado e que teria de acabar. Quando eu entrei para o Sacre-Coeur de Marie, em São Paulo, as freiras já gostavam de me ouvir cantando. Saí de lá para casar: meus estudos só puderam ser continuados em casa, com professores particulares – inglês, francês, piano – e um pouco, mas muito pouco, de economia doméstica. Minha vida se transformava numa pequena prisão de ouro que ia envolvendo toda a minha forma de ser. E não podia durar: o que eu queria não era nada disso; o que eu queria era exatamente o que eu vivo hoje: cantar para um público que eu gosto e que gosta das minhas canções. Eu sou uma mulher feliz.

To the end of the Earth

I’ll follow my star...

    Entre pratas antigas e gravuras inglesas Maysa constrói sua vida no Rio de Janeiro; Jayminho, seu filho, vive com ela e vê o pai de tempos em tempos. Há paz em sua volta, e o seu clima é trabalho. Muito mais do que antes, sem dúvida, mas é um ambiente de alegria que lhe dá força para ir perseguindo sua estrela, vencendo os obstáculos que a carreira lhe trouxe, junto com as alegrias e consagrações.

    Apesar de já ter atingido pontos que outros artistas só chegam no fim da carreira, Maysa acha que ainda há muito caminho a andar. Impulsionada por uma extraordinária força interior, Maysa seguirá, se preciso até o fim da terra, para dar ao seu público, sempre, o melhor das suas canções e da sua voz. 




(Reportagem de capa publicada originalmente no nº 3 da revista Jóia, de 31 de dezembro de 1957.)

11 de agosto de 2014

Imprensa: Maysa uma gatinha na galeria dos ídolos - Radiolândia, 1957


Maysa uma gatinha na galeria dos ídolos!



Havia no público do Rio incontido desejo de conhecer a jovem cantora e compositora surgida tão surpreendentemente no cenário musical do país – e Maysa Matarazzo, que conquistara S. Paulo da noite para o dia, encontrou o Rio de braços abertos, para a complementação de sua glória – beleza exótica, sua cara lembra a de uma gatinha mesmo – o sucesso enorme do primeiro “Lp” animou a RGE ao segundo, que vem por aí para novos êxitos de vendagem – a noite foi de Maysa na TV-Rio

De OSWALDO MIRANDA
Fotos de WILSON LOPES

Maysa Matarazzo agora também canta para os cariocas, depois de representar para eles, assim como que um enigma... sim – um enigma. A totalidade do público do Rio só conhecia Maysa de sua fama obtida fulminantemente, com o lançamento de um “long-playing”. Ela começava por onde os outros terminam. O LP é o ápice da carreira de todo cantor de rádio e muitos, de comprovada categoria e popularidade ou tradição artística, ainda não o conseguiram. E seria inoportuno, até, referi-los neste escrito que focaliza um valor absolutamente novo, um nome incipiente na arte da composição e do canto populares.
Eu disse que Maysa era um enigma para os cariocas. Sim. Eles a viam em fotografias, liam as reportagens, procuravam seu disco nas lojas, mas já desde há algum tempo davam mostras de um desejo incontido de conhecer, em pessoa, aquela que tão sensacionalmente surgira no mundo musical do Brasil, legendada, primeiro, pelo sobrenome famoso que logo evoca uma alta expressão na sociedade e na indústria nacionais; segundo, pelo valor incontestável que demonstrou possuir.
Um dia Maysa viera ao Rio, cantara na Mayrink Veiga, dera um giro pelas emissoras, mas tudo foi uma andança a jato, na companhia de Valter Silva. Logo voltava a São Paulo e em seguida se conhecia a notícia de que fora contratada pela rádio e televisão Record. Tal contrato, como o que assinara com a RGE, a instâncias de Roberto Côrte Real, Maysa só o fizera mediante a condição primacial de atuar, na qualidade de profissional, com o dinheiro proveniente de seu trabalho revertendo, na mor parte, em favor dos necessitados, em favor dos cancerosos.
Maysa passou a ser notícia de jornal e a cada dia crescia sua popularidade e aumentava, no Rio, a angústia de um público que ansiava por conhecer a grata revelação artística do ano de 1956.
O enigma, finalmente de desfez. Maysa aceitou contrato de Bom Bril para fazer uma temporada na TV-Rio. E veio; veio para começar no Rio a mesma brilhante carreira já consolidada em São Paulo. Sua vinda coincidiu com a instalação dos escritórios da RGE no Rio. Não será preciso dizer, portanto, que um mundo de gente da terra da garoa (ainda é?) voou do planalto para festejar com Maysa a noite de sua estreia. Primeiro, foi um “cock-tail” na Mesbla, com taças se chocando no ar e às vezes até se quebrando, tal entusiasmo que imperava no ambiente amigo, de confraternização artística, com o Ibirapuera abraçando o Maracanã e a Avenida São João se dando de braços com a Avenida Rio Branco... uma hora depois toda aquela gente alegre enchia o auditório da TV-Rio, florido para a noite de Maysa. noite memorável porque dezenas de milhares de pessoas, que tanto desejavam conhecer Maysa, com ela travaram contato, tiveram-na assim, com a cara de gata dentro de sua casa, cantando com a voz quente e ingênua, doce e insinuante, que já fizera o encanto dos paulistas.

Léo Batista foi o felizardo da apresentação, contou a história curiosa do surgimento de Maysa, tal como está escrita na contracapa do “long-playing” “Convite para ouvir Maysa”, em redação brilhante de Roberto Côrte Real, e disse o que poucos sabiam: ela é carioca!
A orquestra de Osvaldo Borba, de violinos em surdina, fez os acompanhamentos e o público foi-se embriagando com “Tarde triste”, “O que?”, “Escuta Noel” e “Ouça”, tudo de autoria da própria cantora, e “Segredo” de Fernando César. Violinos e harpas compunham o todo orquestral que amparava a voz gostosa de Maysa, no seu recital, e sua beleza exótica – repito que Maysa parece uma gatinha de estimação e vou até mais longe, sugerindo que sua beleza seja assim uma beleza felina... – a todos encantava.

A noite carioca era toda de Maysa. Para ela eram as atenções, os olhares, os comentários de um milhão de cariocas; para ela eram as palmas da plateia; para ela era o champagne que escorreria no auditório da TV-Rio, o mesmo champagne que marca sempre os grandes acontecimentos.
De vestido preto, com bordados de pedras, Maysa trazia o cabelo louro despenteado e caído por sobre a fronte. Mas o despenteado de Maysa completa o exotismo de sua beleza e compõe, com os olhos verdes, puxados para o canto, em forma de losango, o toque felino a que já me referi.

Quando cumprimentei Maysa, disse-lhe:
-         Você ficará zangada se eu disser que você tem uma carinha linda de gata?
Maysa só fez sorrir e disse:
-         Sabe que eu até gosto de ser comparada a uma gatinha?

É essa simpatia, esse valor, essa esplêndida revelação da música popular do Brasil que hoje todos festejamos. Maysa venceu porque tinha mesmo de vencer. Não fez porque. Venceu naturalmente, pela lógica das coisas. Seu disco que traz o samba “Ouça” já vendera mais de 30 mil exemplares quando escrevo estas linhas e o LP continua descendo das prateleiras, para a alegria de José Scatena e de toda a gente boa da RGE.
Agora vem outro “long-playing” por aí. Na face “A” vocês encontrarão “Ouça”, “O que?”, “Escuta Noel” e “Segredo” e na face “B”, “To the ends of the earth”, “Franqueza”, “Um jour tu verras” e “Se todos fossem iguais a você”. As orquestrações, à exceção de “Segredo”, que é de Henrique Simonetti, são do mesmo Rafael Puglieli, autor de todos os primorosos arranjos do primeiro LP. Será também sucesso.
Quando esta reportagem sair, já Maysa terá feito três ou quatro programas na TV-Rio e os cariocas já terão incorporado a gatinha à galeria de seus ídolos do canto popular. Não sou de dar palpites, mas este eu arrisco, sem receio de errar.


(Reportagem publicada originalmente na revista RADIOLÂNDIA, 1957)

3 de julho de 2014

Imprensa: Maysa Matarazzo um show de beleza e caridade - Jornal das Moças, 29/08/1957



Maysa Matarazzo não é só a artista. É, também, a mulher bela e elegante, que atrai pelo encanto natural que a sua pessoa exerce sobre todos nós.

Aproximarmo-nos do belo é próprio da natureza humana. Mas em Maysa outros predicados existem que nos levam a desejar estar perto dela: é a bondade, o espírito de compreensão, e o desejo de melhorar a situação dos que sofrem.

Maysa nasceu artista. Canta porque nasceu com a voz privilegiada, com a arte na alma. Ouvida por muitos, certa ocasião foi convidada para gravar. Negou-se, a princípio.

Concordou depois, impondo uma condição. Os seus vencimentos seriam doados à campanha contra o câncer, em São Paulo. Seu gesto nobre foi reconhecido pela Câmara de São Paulo. Logo em sua primeira gravação os discos R.G.E. alcançaram recordes de vendagem. Depois outros mais e o LP da R.G.E. “Convite para ouvir Maysa”. E Maysa veio à Cidade Maravilhosa. Fez um contrato com a TV Rio, e mais uma vez cederia os seus vencimentos. Um cheque foi entregue “As Pioneiras” de D. Sara Kubitscheck.

Aqui está Maysa! um show de beleza, de voz, de gestos simpáticos. Uma artista maravilhosa que nasceu para fazer caridade.


(Matéria publicada originalmente no JORNAL DAS MOÇAS em 29 de agosto de 1958)

5 de maio de 2014

Imprensa: Maysa (que não é mais Matarazzo) trocou André pelo samba - Revista da Semana, 09/11/1957


Maysa (que não é mais Matarazzo) trocou André pelo samba



Um desquite que não abalou em nada o prestígio de uma das melhores cantoras brasileiras – continua sendo “gente bem”, cantando bem e frequentando a sociedade – só uma coisa não trocaria pela carreira: seu filho

Texto de JEANETTE ABIB

Desde menina Maysa preferia Noel Rosa a Chopin, a batida do samba aos compassos do “ballet”. Uma vocação artística que não encontra barreiras para se realizar

Os parentes conservadores de Maysa, começaram a se escandalizar quando, com apenas 13 anos, ela trocava o “ballet” e a música clássica pelos sambas de Noel Rosa e Ary Barroso. Revelando-se compositora de música popular, compôs o primeiro samba-canção: “Adeus”, causando decepções sempre que se recusava a assistir uma ópera para ficar ouvindo batucada na voz de algum de seus sambistas prediletos. Sua leitura constante era a poesia e os autores Manuel Bandeira e Vinicius de Morais.

Uma “cantora-bem” revelada entre “gente-bem”

Acompanhando-se ao violão, Maysa começou a cantar em festas de sociedade, interpretando páginas da música popular brasileira, constituídas, na maioria, de composições de sua autoria. Os mais severos repeliam-na, aconselhando-a a se interessar pela música clássica – gênero adequado à sua posição social. Mas a arte superava qualquer argumento – e já não lhe importavam as aparências, os comentários – queria satisfazer o seu “eu” – libertando-se das correntes que dominavam-lhe a vontade e os impulsos. Queria ser cantora.

Como se apaixonou pelo filho do conde Matarazzo

Ainda menina, Maysa revelou sua primeira paixão por um amigo da família – o filho do conde André Matarazzo. A inconveniência da pouca idade de Maysa era ressaltada por sua mãe – d. Iná. O romance foi alimentado durante três anos até que a jovem se transformou numa das mais bonitas moças da sociedade paulistana, e culminou com um casamento pomposo. Após a viagem de lua de mel nos Estados Unidos, o casal passou a circular com intensidade na vida social de São Paulo e Maysa deixou-se contagiar pela vontade firme de ser cantora profissional. Iniciou uma série de recitais com fins filantrópicos e mostrou que podia ir além – muito além.

Surge a cantora-milionária

Uma noite de exibição na boate Cave – em benefício do Hospital Central do Câncer foi o bastante para que o nome de Maysa Matarazzo ocupasse páginas de revistas e jornais de São Paulo e desta capital – na mais franca repercussão que abalou sobremaneira alguns membros das famílias Monjardim e Matarazzo. As propostas iniciais para rádio e TV foram recusadas. Havia a natural curiosidade do público em ver e ouvir a cantora-milionária de voz rouca, cantando com um estilo todo seu. Ela apenas concordou em gravar suas próprias músicas, doando os lucros a associações beneficentes. Grande sucesso em seu primeiro disco, que lhe proporcionou o título de “a maior revelação feminina de 1956”, na escolha anual dos cronistas de rádio de São Paulo – para eleger as melhores do ano.
O interesse das emissoras de rádio e TV da paulicéia cresceu – tendo sido, por várias vezes, anunciado seu ingresso no setor artístico. Vinham os desmentidos: nada ficara positivado. Com o nascimento do primeiro filho do casal – (Jaiminho) – Maysa abandonou temporariamente a ideia de se dedicar à vida artística. Passados os primeiros meses da maternidade, voltou com sua voz a contribuir para o brilhantismo das reuniões sociais. Aquilo, porém, não era o suficiente. Ela queria cantar para milhares de pessoas e sentir as emoções que o sucesso proporciona. Estava disposta a cumprir seu intento, e rompendo a barreira da oposição, Maysa assinou o primeiro contrato para atuar na rádio e televisão Record, doendo seus proventos a associações de caridade.

Andrézinho concordou, depois arrependeu-se

Um tanto inconformado, André Matarazzo consentiu que a esposa atuasse algumas vezes na televisão. Pouco tempo durou o acordo. Surgiram as incompatibilidades oriundas das atividades artísticas da “cantora-bem”. Seu marido criou uma série de obstáculos ao prosseguimento de sua carreira de cantora – já então em grande evidencia. A solução para o caso parecia impossível para ambos, de vez que Maysa mantinha irredutível, seu firme propósito de não abandonar o rádio e a televisão. A moça lançou mão do desquite – que na primeira tentativa não chegou a ser homologado graças a intervenção das famílias Matarazzo e Monjardim, fazendo-a retroceder no seu intento. Veio a reconciliação e quando a serenidade parecia ter voltado à vida do casal, novas rusgas deram margem a que a cantora apelasse pela segunda vez para o desquite, fazendo constar no seu pedido de anulação de casamento: “incompatibilidade de gênios”. Outra intervenção das duas famílias, e conselhos de d. Iná fizeram com que Maysa e André chegassem novamente a reconciliação. De parte a parte, houve promessas no sentido de reatarem o amor que parecia estar perdido para sempre, sem que Maysa abrisse mão de sua carreira. Poucos dias depois, a situação se agravou novamente. André não se conformava com o fato da esposa ter ampliado suas atividades artísticas – vindo a fazer, também, televisão no Rio – e essas viagens semanais, desgostaram-no. Decidiram reiniciar a ação de desquite – já agora convencidos de que não existe uma fórmula conciliatória capaz de uni-los noutra tentativa de felicidade.

Maysa fixa residência no Rio

Enquanto aguarda os termos finais do desquite, Maysa fixou residência no Rio – Avenida Atlântica, trazendo Jaiminho – seu filho.
Maysa nega-se a fazer declarações à imprensa, seguindo, talvez, determinações de seu advogado, pelo menos enquanto não estiver concluída a ação de desquite. Mesmo assim, conseguimos obter algumas palavras da cantora.
-         Arrependida, Maysa?
-         Por que? Fiz as pazes várias vezes e não deu certo. Eu preferia não falar neste assunto...
-         É verdade que, depois que você entrou para o rádio e televisão, já não se sente tão à vontade nas reuniões do “high society”?
-         Eu me sinto bem em qualquer meio e não tenho nenhuma restrição a fazer. Pelo contrário...
-         Porque desistiu de atuar na TV Rio?
-         Eu não desisti. Apenas meu marido resolveu cancelar meu contrato.
-         Sobre seu filho, André se opôs que ele ficasse em sua companhia?
-         O que importa é que meu filhinho ficará comigo. Gostaria de não abordar este assunto.
-         Na sua opinião, o casamento é um estorvo na vida de uma cantora?
-         Não... absolutamente! Pode haver perfeitamente uma compreensão entre marido e mulher – tudo dependendo de boa vontade. Em caso contrário, quando os pontos de vista divergem, não há possibilidade de dar certo.
-         Você receia os comentários “gente-bem”, sobre os motivos que determinaram seu desquite?
-         Nada tenho a recear.
-         Porque veio morar no Rio?
-         Acho o mar uma coisa impressionante, e só gosto das praias cariocas – as mais belas do mundo. Adoro esta cidade onde nasci!
-         Como cantora, você encontrou afinal o grande ideal de sua vida?
-         Sim. Gosto demais de cantar. Mas o meu grande ideal era ter o garoto que tenho – que por sinal, está comigo e se divertindo a valer.
-         Como costuma compor suas músicas?
-         Na base da inspiração. Eu componho desde os 13 anos de idade. A minha primeira música foi o samba-canção Adeus.
-         Depois do desquite continuará usando o mesmo nome artístico?
-         Usarei apenas Maysa.
-         E continuará doando seus proventos no rádio e na TV para associações de caridade?
-         Não tudo, pelo menos uma parcela.
-         Você não trocaria nada pela sua carreira?
-         Isto depende muito do futuro...
-         Prefere o meio social ou artístico?
-         Prefiro o meio artístico.
-         Você acha o ambiente artístico de certa forma degenerado?
-         Não. Em todo ambiente há degeneração.
-         E a seu ver, uma mulher é capaz de se apaixonar mais de uma vez?
-         Perfeitamente. Quantas vezes for possível acontecer.
-         Prefere a franqueza ou gosta de contornar os assuntos acomodando-os da melhor maneira?
-         Franqueza, ao máximo!

Na boate Meia-Noite e uma viagem aos EUA

Desenvolvendo seu trabalho artístico, Maysa aderiu à vida noturna e está cantando na boate Meia-Noite de Copacabana. Em seus planos para o futuro entra uma viagem aos EUA, em janeiro próximo – onde fará curta temporada. Assim, Maysa, “née” Monjardim – dona de bonita voz – figura de destaque na sociedade bandeirante, trocou a tranquilidade de um lar fortalecido pelos milhões, pela glória de ser artista.





(Reportagem publicada no nº 45 da REVISTA DA SEMANA, em 9 de novembro de 1957)

7 de outubro de 2013

Imprensa: Maysa Matarazzo recebe - Radiolândia, 1957


Maysa Matarazzo recebe




Fotos de HILDO PASSOS

Um simpático cocktail em homenagem a RADIOLÂNDIA representada pelo Sr. Leônidas Bastos e pela equipe paulista desta revista – a cantora vai gravar músicas de outros compositores – confissão feita com muita simplicidade: – “Cantar, para mim, faz parte do ar que respiro!”

Na penumbra do elegante apartamento da rua Rego Freitas, residência do casal Alcebíades Monjardim, pais da cantora Maysa Matarazzo., realizou-se um cocktail seguido do que um cronista social chamaria de “canja amiga”, em homenagem a RADIOLÂNDIA, que foi representada nessa oportunidade por nosso chefe de publicidade, Sr. Leônidas Bastos. Com apenas vinte anos, Maysa alcançou o que muitas pessoas levam muito mais tempo para conseguir. É uma senhora da mais alta sociedade, mãe de um belo menino chamado Jaime e começou sua carreira como cantora gravando um long-playing na RGE sob o título “Convite para ouvir Maysa”, que chamou sobre si a atenção da crítica especializada, e que lhe valeu de parte do nosso colega Jair Amorim o título de “revelação do disco” em 1956. Com um encanto todo seu, Maysa atende seus convidados, enquanto se confessa entusiasmada por conhecer compositores do quilate de um Fernando César e de um Nazareno de Brito: – tu “Aliás, meu próximo disco vai ser “Segredo”, música do Fernando César, a outra face vai ser uma composição minha intitulada “Ouça”. Vou descansar um pouco, mas deverei voltar ao rádio e a TV muito em breve. Não, ainda não sei em que prefixo. Pode dizer que adoro cantar, que sinto em mim uma vocação irresistível desde muito pequenina. Cantar, para mim, faz parte do ar que respiro! – conclui com um gesto muito expressivo de quem quer abarcar o ar que a circunda. Deixamos Maysa entregue a suas ocupações como anfitriã e passamos a anotar os nomes dos presentes a essa simpática homenagem a nossa revista. Entre outros estiveram presentes o Sr. e Sra. Jacques Netter (ele, diretor dos discos RGE), Sra. Hélio da Fonseca, Sr. Francisco Vieira, Sr. e Sra. Paulo Frontin Werneck (ele, diretor da noite Oásis), Sr. e Sra. Fernando Silva, Sr. Hugi Hager, Sr. Caio Furtado, cronista social do “Correio Paulistano”, Sr. Bob Stewart, Sr. e Sra. Aurasil Brandão Joly, Srta. Elsa Laranjeira, Sr. Agostinho dos Santos, maestro Henrique Simonetti, Sr. Fernando César, compositor e cronista da revista “Você”, Sr. Leônidas Bastos, chefe de publicidade de RADIOLÂNDIA, Sr. Nazareno de Brito, compositor e gerente da filial do Rio de Janeiro da RGE, Sr. Mário Duarte, cronista de “O Mundo Ilustrado”, Sr. Leonel Gualter, assistente da filial do Rio da RGE, Sr. Randal Juliano, Sr. Milton Salles, Sr. Osvaldo Miranda,  da RADIOLÂNDIA, “Última Hora” e “Shopping News””, do Rio, Sr. Sílvio Túlio Cardoso, de “O Globo”, Válter Silva e Sra. (ele, divulgador da RGE), Max Gold, representando o departamento de divulgação da Rádio Record no Rio de Janeiro. 


(Reportagem publicada originalmente na revista RADIOLÂNDIA, em 1957)

22 de abril de 2013

Imprensa: O grande amor de Maysa Matarazzo - Diário de Notícias, 29/09/1957


O grande amor de Maysa Matarazzo 


Um vestido vermelho entre violinos –
Recordações do colégio de freiras –
Cantar não é pecado – Romance inacabado – A tentação do teatro – O momento sagrado – Tudo em paz – Renunciar? Nunca

Entrevista exclusiva para a Revista Feminina

(Especial para a Revista Feminina)

O auditório estava às escuras. O ensaio havia começado. A orquestra, no palco. Maysa Matarazzo cantava Mea Culpa. O repórter sabia que a entrevista só podia ser feita durante o ensaio. Maysa devia ir ao hotel trocar de roupa, depois atuaria no programa de televisão e, logo a seguir, tomaria o avião de volta para São Paulo. O repórter chegou até a beirada do palco, lápis e papel na mão.

-         Maysa!
A orquestra tocava outra música. O maestro indicava os andamentos aos instrumentistas. E, assim, entre as pausas dos violinos, fez-se a entrevista.
-         Maysa, você sabe que parece uma menina com esses cabelos despenteados?
-         Não tive tempo para ir ao cabeleireiro.
-         Tem uma cabeça de artista jovem e bonita.
-         Jura?
-         Então! Onde nasceu?
-         No Rio. Minha família foi residir em São Paulo quando eu contava três anos de idade.
-         Onde estudou?
-         No Colégio Sacre-Coeur de Marie.
-         Quando começou a cantar?
-         No coro do colégio. Ali também aprendi que cantar não é pecado.
-         Não é, não. A arte resume o que de mais puro existe em todas as religiões.
-         Você disse tudo. Sabia que estudei seis anos de piano?
-         Ótimo. E como iniciou a carreira?
-         Em casa, sem pensar em me tornar profissional. Ouviram-me uns amigos de meu pai, gravaram minha voz em fita. Pouco depois, fiz o primeiro long-playing para a fábrica RGE, em novembro do ano passado.
-         E a sua estreia para o público?
-         Foi no dia 13 de abril, pela TV-Canal 7, da Rádio Record de São Paulo. Nem queira saber a surpresa de muitos, a minha alegria, os debates na família, os comentários dos jornais. Estreia emocionante.
-         É verdade que destina tudo que ganha a instituições de caridade?
-         Sim.
-         E quanto ganha?
-         Vinte e cinco contos em cada programa de televisão no Rio, vinte e cinco contos em cada programa de televisão em São Paulo. Falando em cruzeiros, cinqüenta mil cruzeiros semanais. Cantar não é pecado...
-         Pretende fazer tournées?
-         Mais tarde, talvez.
-         Algum dia pensou em escrever romance?
-         Comecei, parei no meio, não tinha título.
-         Que heroína de peça teatral desejaria viver?
-         Alma, personagem surrealista da comédia de Sophie Rosenhaus O Ambutis.
-         Sophie Rosenhaus?
-         É uma autora desconhecida, mas que terá fama, breve.
-         Qual o trabalho em casa que você mais gosta?
-         Nenhum. Em casa, o meu prazer é cuidar do filho e ouvir música.
-         O que mais aprecia no Rio?
-         Tudo. O Rio.
-         E em São Paulo?
-         Detesto o clima.
-         Qual a mulher mais elegante, a carioca ou a paulista?
-         A mulher brasileira.
-         Como se inspira para compor suas músicas?
-         Em casa. A melodia surge em mim, distante, até que se apossa de toda a minha sensibilidade. Canto a melodia, fazendo a gravação na fita. Depois, eu mesma escrevo a letra. É um momento sagrado. Vou ao piano e faço o acompanhamento. Minhas canções são dolentes, sentimentais: Tarde triste, Adeus, Mundo novo... a última intitula-se Felicidade triste. A música é o meu grande amor.
-         Maysa, reconstituiu definitivamente o seu lar?
-         Sem, graças a Deus.
-         Ninguém, falará mais em desquite?
-         Ninguém, graças a Deus.
-         Algum dia poderá renunciar à carreira artística?
-         Isso, nunca.
A sonoridade vibrante dos violinos no palco era como um convite irresistível à música. Maysa Matarazzo despediu-se do repórter. 


(Publicado originalmente no jornal DIÁRIO DE NOTÍCIAS, em 29 de julho de 1957.)

9 de maio de 2011

Maysa Matarazzo: multimilionária vira cantora popular (Manchete - 1957)


Na edição de 18 de maio de 1957, a revista Manchete contemplou os leitores de todo Brasil com uma capa que trazia um belo – e enorme – close de uma cantora novata, que gravara seu primeiro LP no ano anterior, e já causava um imenso furor em todo Brasil. Era Maysa, a primeira capa a gente nunca esquece! A chamada da matéria dizia: “Maysa Matarazzo: multimilionária vira cantora popular”. Na reportagem interna a Manchete resumia o furor em torno daquela cantora: “Dos milhões de cruzeiros aos milhões de fãs”. Com reportagem do jornalista Ivo Serra e fotos do consagrado Gervásio Batista, a Manchete revelava aos leitores a origem aristocrática e a história da “Cinderela às avessas”. Mas também punha a tona, a desarmonia que já imperava no lar da família Matarazzo.

Agora, o Blog oficial Maysa traz na íntegra para vocês a reportagem da revista Manchete. Boa leitura!

Maysa Matarazzo: dos milhões de cruzeiros aos milhões de fãs

Está é uma história de Cinderela. Mas ao contrário. É a história de uma jovem, bonita, milionária, de excelente posição social, que se viu atraída pelo microfone e o disco, não tardando em trocar qualquer lista de “dez mais” pelo sucesso como cantora popular. É a história da bisneta do barão de Monjardim, neta do senador Monjardim, filha do deputado Alcebíades Monjardim, capixaba de 400 anos, promovido a fiscal do imposto do consumo em São Paulo. É a história de uma mulher que porta o nome mágico de Matarazzo, mas prefere seguir decididamente a linha de Sílvio Caldas e Dorival Caymmi. A história, enfim, de Maysa Matarazzo, grande fortuna e não menor êxito como cantora de samba.

Concorrência de Matarazzo a Ângela, Sílvio Caldas e Dorival Caymmi

Carioca, criada em São Paulo por acaso, Maysa vivia, até faz pouco tempo, sua vida de menina rica, tendo passado pelos melhores colégios. Como muitas colegas de infância, todas “bem”, aprendeu música e  ballet. Mas em vez de suspirar por Chopin, como mandava o bom-tom, escandalizava parentes da velha guarda, com sua mania de Noel e Ary Barroso. Quando esperavam que quisesse ir à Ópera, ouvir Bidu Sayão e Tito Schipa, causava novas decepções, mostrando predileção entusiástica, por Aracy de Almeida, Elizeth Cardoso ou Carmen Costa. Convidada a ouvir Brailowsky ou Yasha Heifetz, preferia saber onde estava tocando Russo do Pandeiro. Apesar do curso de ballet, gostava cada vez mais de samba e batucada.

Desde  menina gostava de ler, principalmente poesia. Só que, sendo Guilherme de Almeida e Olegário Mariano os poetas da moda, causava espanto, ao eleger Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira e Vinicius de Moraes como prediletos. Aos 15 anos, era uma mocinha sem laço de fita na cabeça, gostando de pentear os cabelos com os dedos.

Sempre esportiva, precoce, inteligente, costumava cantar em festas de sociedade, acompanhando-se ao violão. Um dia, tomou coragem e cantou um samba-canção que ninguém conhecia: “Adeus”. Aos que elogiavam, respondia que era de uma amiga. Mas, à primeira pessoa que disse não ter gostado, rebateu com orgulho: “Pois é meu. Letra e música. Desculpe ter nascido...”.

Pouco tempo depois. Embora sua mãe, D. Ináh, também de tradicional família capixaba, ainda a julgasse apenas uma menina, Maysa já se sentia apaixonada por um amigo do pai – André Matarazzo Filho. Mas era interna, no Sacré Coeur de Marie, e só nas férias ou de vez em quando estava com a família. Era uma criança, inclusive para o filho do conde Andrea Matarazzo. Mais dois anos, e se transformava numa das moças mais bonitas da sociedade paulistana. O romance com Andrézinho, nascido em seu próprio lar, teve fecho de ouro, com o noivado de ouro e logo depois o casamento, apontado pelos colunistas sociais da capital paulista como um dos acontecimentos marcantes do ano.

Da lua-de-mel nos "States" às propostas vantajosas

Lua-de-mel nos Estados Unidos e Europa, longa viagem de volta e vida social intensa, em São Paulo. Mas a srª. Maysa Matarazzo continuava fiel ao gosto da música popular. Se lhe pediam, nas festas, que cantasse, não se fazia de rogada. Sua voz, rouca e fora do comum, ganhava em volume e qualidade. A interpretação era seu forte. Não imitava ninguém, com um jeito todo seu, diferente, personalíssimo, fossem as músicas, americanas, francesas, italianas ou brasileiras. Nunca deixava de interpretar alguma coisa de Noel Rosa. Só muito solicitado, apresentava seus sambas-canções: “Tarde Triste”, “Adeus”, “Quando Vem a Saudade”, “Agonia”,  “Marcada”, “Rindo de Mim”, “Não Vou Querer” – todos com letra e música de sua autoria.

Até que a srª.  Maysa Matarazzo, que sempre prestigiara festas de sociedade com fins assistenciais, concordou em dar contribuição pessoal mais importante à campanha contra o câncer: um recital, na boate Cave, em benefício do Hospital Central do Câncer. Autêntico sucesso – artístico, de público e crítica. O nome da cantora Maysa Matarazzo apareceu então com maior destaque, nos jornais e revistas de São Paulo e do Rio de Janeiro, espalhando-se por todo Brasil. A repercussão chegou a preocupar alguns membros das famílias Matarazzo e Monjardim. Outros, pelo contrário, gostaram.

Surgiram logo propostas vantajosas para que ela cantasse no rádio e na TV. Foram recusadas. Houve insistência: era pena que voz tão boa, tão diferente, e interpretação tão admirável, fossem privilégio dos grã-finos. Enquanto isso, crescia a curiosidade dos que, na boate, tinham conhecido as músicas e a voz de Maysa. Foi quando surgiu a fórmula conciliatória: ela concordou em gravar suas músicas, doando os direitos de sambista, letrista e cantora a diversas associações beneficentes, principalmente à campanha contra o câncer, comandada, em São Paulo, pela srª. Carmen Prudente. A RGE cuidou da gravação, encarregando da orquestração o maestro Rafael Puglielli. Foi assim que surgiu o long-playing “Convite para ouvir Maysa”, que, em pouco tempo, alcançou grande sucesso, sendo o disco mais vendido em São Paulo.

A maior revelação e André no meio-termo

No julgamento anual dos cronistas de rádio de São Paulo, para a escolha de “os melhores do ano de 1956”, Maysa foi apontada como “a maior revelação feminina”, “o melhor compositor”, e “o melhor letrista”.

Voltaram as propostas do rádio e da TV paulistas. Várias vezes, foi anunciado e desmentido o ingresso de Maysa Matarazzo no broadcasting e no vídeo. Mas o casal André Matarazzo já ganhara um herdeiro, Jayminho, e Maysa estava com todo seu tempo reclamado pelo bebê. Além disso, na família, a corrente do “contra” era a mais forte.
Ela se limitou a compor mais dois excelentes sambas-canções – “Ouça” e um outro dedicado a Noel Rosa e ainda sem título. Sua voz voltou a ser privilégio da gente-bem, nas festas íntimas da sociedade paulistana, até que, contrariando muita resistência, Maysa resolveu cumprir seu destino de cantora e de sambista: aceitou um contrato da rádio e televisão Record para um programa ás quartas-feiras, doando sua parte a associações de caridade. O patrocinador (fabricante de “Bombril”, amigo da família, conseguira demover, pelo menos temporariamente, os últimos opositores).

Foi assim que a srª. Maysa Matarazzo se tornou uma das maiores atrações da TV e do rádio, em São Paulo. Suas fotografias enfeitam vitrinas e balcões das casas de discos. Seu nome, antes apenas nas colunas sociais, hoje aparece também nas páginas dedicadas à música popular.

Isto, certamente, não agrada ao ramo oposicionista da família. Quanto a André, está no meio-termo, entre as duas correntes. É possível que não seja muito favorável à carreira da esposa como sambista e cantora popular, mas gosta de vê-la fazer sucesso. Até ajuda a colecionar recortes de jornais e revistas para o álbum de Maysa.






O "new-look" de Maysa tem violão. Sua vocação, ave liberta, se cumpriu.



Seu amor ao samba obrigou Andrézinho a ficar entre correntes opostas.



25 de fevereiro de 2010

Coluna: Disco da semana


Maysa


Gravadora: RGE
Ano: 1957
Faixas:
1-   Se Todos Fossem Iguais a Você (Tom Jobim / Vinicius de Moraes)
2-   Ouça (Maysa)
3-   Escuta Noel (Maysa)
4-   To The End Of The Earth (J. Sherman / N. Sherman)
5-   O Que? (Maysa)
6-    Franqueza (Denis Brean / Oswaldo Guilherme)
7-    Segredo (Fernando Cesar)
8-   Un Jour Tu Verras (Van Parys / Mouloudji)

Análise:
 O Segundo disco de Maysa é impecável da primeira à última música. O disco trazia três canções de autoria de Maysa: "Ouça", "Escuta Noel" e "O Que?". A primeira seria o maior hit do ano de 1957, vendendo mais de 5 mil cópias e entrando para a história da música brasileira; "Ouça" embalou os romances de muitos casais apaixonados e outros separados nos Anos Dourados. "Escuta Noel" era uma singela homenagem ao poeta da Vila, um dos maiores ídolos de Maysa, nos versos "Sambista só sabe sambar pra grã fino e a poesia acabou", ela fazia uma clara crítica à sociedade da época. "O Que?" é sem dúvidas uma das melhores composições de Maysa. Além das três composições de sua autoria, o disco vinha com Se "Todos Fossem Iguais a Você", o primeiro sucesso de Tom Jobim e Vinicius de Moraes gravada por Maysa, logo, se tornaria um clássico do repertório da cantora. "Franqueza" se tornou um clássico da música brasileira e eternizada na voz de Maysa, tanto é que até hoje muita gente acredita que a letra é dele mesma. Em seguida vinha a delicada "Segredo", de Fernando César, a primeira composição de outro autor gravada por Maysa. Dando início ao seu famoso cosmopolitismo ao cantar em outros idiomas, ela incluiu duas canções estrangeiras no LP: um beguine - "To The Ends Of The Earth" de J. Sherman e N. Sherman, e "Un Jour Tu Verras", chanson  fraçaise, de Van Parys e Moloudji; a primeira se tornou um clássico na voz de Nat King Cole, interpretadA com muito glamour por Maysa. O segundo disco da cantora foi na verdade um trabalho de transição entre o primeiro e o próximo, que a consolidaria como a melhor e mais bem paga cantora do Brasil.

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