6 de junho de 2026

Maysa, agora - revista Jóia, 05/1969

 

Maysa, Agora


Texto de Zélia Prado

Fotos de Orlando Abrunhosa


Com seus olhos grandes, verdes, fortes, sua voz quente e rouca, seu jeito especial e inconfundível, Maysa voltou. Para ficar? Ninguém sabe. Nem mesmo ela, que sonha em morar em Lisboa, com seu marido e o filho do primeiro casamento. Mas quem quiser a antiga Maysa, a expressão máxima da fossa na música popular brasileira, não a encontrará mais. Essa já não existe. Hoje Maysa é outra, de alma leve, apaixonada, respirando um ar puro que não deixa mais lembrar aquela velha imagem de um copo de uísque na mão esquerda e o cigarro na direita.

Todo mundo já disse que Maysa voltou. Que agora é uma nova mulher, mais bonita e serena, mais quieta e feliz. Dizem também que veio para ficar. Não é verdade. Maysa apenas chegou para ver e saber do que anda acontecendo por aqui. Ela quer morar em Lisboa, com Miguel, seu marido, e Jayme, seu filho de 12 anos.

Agora, é diferente. Maysa fala de tudo, até do passado que complicou muito a sua vida, e do qual ela não conseguia falar sem uma grande exaltação. Agora Maysa é tranquila, não se esconde, gosta de viver e gosta de Miguel, sua principal razão. Bonita. Emagreceu e parece ter crescido mais. Tem o cabelo acobreado e uns olhos terríveis, verdes e fortes.

Hoje, é capaz de dizer porque aconteceram certas coisas, é capaz de situar-se naquilo que antes ela apenas descrevia como uma grande confusão. No momento ela se dedica a um trabalho carinhoso de escolha. Devagar, vai ouvindo muitas novas músicas, conhecendo novas pessoas. Música boa há em toda parte, até na Penitenciária Lemos Brito onde as pessoas tem o samba reforçado de amor.

Quando chegou ao Rio, todos a vimos inteligente, crítica, segura. Miguel está sempre perto, atento. Às vezes falam castelhano, às vezes, português, às vezes só se falam pelos olhos, com a mesma clareza. Maysa Monjardim, ex-Matarazzo, agora casada com um belga naturalizado espanhol, não é uma pessoa simples que a gente conhece num dia qualquer. É complicada, estranha, porque já viveu o suficiente para isso. Tímida, não. Cuidadosa, talvez. Ela não poupa ninguém quando se refere a setores da imprensa que em outros tempos lhe causaram inúmeros aborrecimentos. Mas também não poupa quando se atira à autocrítica, franca e abertamente. Maysa sabe hoje, que a vida melhorou. Acaba a fase do “Ouça” e “Meu Mundo Caiu”.

“Ouça”: um modo de surgir e também fugir. Em 57, apareceu uma moça cantando. Ela surgia de repente, com um sobrenome importante e um excelente “pedigree”. Bem nascida, bem criada, a música popular brasileira ficou na expectativa de ver o que ia dar. Surgiu cantando “Ouça”, que só dizia tristeza do começo ao fim. Maysa Matarazzo, casada com o industrial André Matarazzo, mãe de um menino, há muito tempo travava relações com gente ligada ao meio musical. Sua casa era frequentada por Elizete Cardoso, por exemplo. E era em casa que ela cantava, acompanhada pelo violão de alguns amigos. Nasceu junto com a bossa nova, com “Barquinho”, de Menescal e Bôscoli. Foi revelação, foi melhor cantora, foi tudo. Mas havia de pagar muito caro por isso. Pela maneira especial de cantar, pelo gênero que fazia, Maysa foi talvez a cantora que mais sofreu o massacre da popularidade.

Entraram pela sua casa, invadiram seu domínio e sua intimidade, vasculharam sua vida pessoal. Começaram os problemas: Maysa e André se separaram, ela veio para o Rio para nunca mais voltar à sua casa paulista.

Não é difícil ter acesso à cantora, nem à mulher. Estamos em seu apartamento em Copacabana, numa rua das mais raras, onde não se ouve o barulho dos ônibus nem das buzinas do dia. Maysa, de calça comprida, esguia, sem maquilagem, sentada sobre uma perna, ao lado de Miguel. Dias antes, acontecera a estreia de seu programa na TV Tupi, de onde agora é contratada.

- Maysa, você se queixava muito do Brasil, não é? Que não chamavam você, que todos já a tinham esquecido e coisas no gênero. Como foi o convite da TV Tupi? E porque você acha que ele aconteceu justamente agora?




- Todas as queixas que eu fiz tinham sua razão, entende? Quando apareci como cantora, puseram-me lá em cima, você lembra? Depois as coisas mudaram, eu fugi. Você vê pela sucessão de viagens que já fiz, minha terrível necessidade de fugir das pessoas, de quando em quando. E aí fiquei lá fora por mais tempo, cantando para uma gente não é a minha. Ninguém se lembrou de me chamar. Desta vez foi em Lisboa. Encontrei-me com Flávio Cavalcanti no hotel e ele me falou que caso eu voltasse, haveria um lugar certo em seu programa de calouros, “A Grande Chance”.

- A Tupi foi bacana com você, não é, Maysa?

- E eu fiquei emocionada com isso. Eles foram carinhosos, receberam-me de uma forma muito especial. Agora, já tenho um ponto de partida. Em sua casa, o movimento é grande, todos os dias. Hoje, ela ainda conversava com um compositor quando cheguei. Amanhã, um bate-papo com Antônio Adolfo, autor de “Sá Marina” e “Meia-Volta’, para escolher algumas músicas que entrarão no próximo disco. Miguel, gravador em punho, faz a agenda de sua mulher. É ele quem comanda a parte mais difícil do espetáculo, marca as horas, os encontros e entrevistas.

A memória de Maysa é relativa e oscilante. Infância, quase apagada.

- Eu me lembro de tão pouca coisa, sabe? Há inclusive um período em minha vida que parece estar completamente em branco; aliás, vários períodos. Infância mesmo, lembro de quase nada. De minha casa, porém, lembro demais. Era uma casa enorme na Rua Visconde de Silva, em Botafogo, que hoje está transformada em hospital. Tinha um pé de abiu (uma frutinha que está fora de moda), tinha uma goiabeira, bacana onde eu me instalava por horas inteiras e era um custo me fazerem descer, tinha um telefone do qual me lembro bem. Lembro dos móveis, dos tapetes. Essa casa marcou muito, está em quase todos os meus sonhos. Um dia, eu gostaria de viver lá. Sou filha única de pais preocupados. Eles sempre exerceram sobre mim uma influência importante, sempre correram para me buscar quando eu passava tempo demais fora, isso depois de mulher feita, mãe de Jayminho.

Hoje é aniversário do pai de Maysa. De vez em quando ele telefona e conversam um pouco sobre as fitas, as gravações ouvidas. De noite, ela irá vê-lo e abraçá-lo pelo dia.

Maysa cresceu. O pai, fiscal do imposto de consumo, viajava demais acompanhado de sua mulher. Era preciso um lugar seguro, no conceito da época. Maysa foi interna para o Sacré-Coeur de Jesus de São Paulo, no mais tradicional estilo. Lá, muitos hábitos foram adquiridos, como por exemplo dormir com as pernas encolhidas, jamais esticadas sobre a cama.

- A freira dizia que se a gente dormisse com as pernas esticadas, e se assim morresse, o demônio vinha de noite levar a gente pelo pé. Hoje, não consigo me livrar disso. É claro que nenhum demônio vai me levar, mas eu ainda encolho as pernas para dormir.

Foi ainda no internato que ela começou a namorar André Matarazzo. Muito mais velho que Maysa, ele era amigo da família. Maysa era linda e era uma menina de 14 ou 15 anos. André cultivou-a a seu modo, preparou-a para ele. Levava bombons para o colégio, dava presentes, levava Maysa para passear aos domingos. Aos dezessete anos ela se casou.

- Maysa, eu me lembro de quando você foi embora do Brasil, ressentida, magoada, fugida. Agora vamos voltar à questão do que você chamou “esquecimento”. Eu acredito sinceramente que as pessoas tivessem medo de falar com você, entende?

- Era preciso que eles me chamassem para saber se eu queria ou não. E que medo é esse? Você sabe exatamente porque eu tive que ir embora? Porque na época, era livre um tipo de imprensa que a gente chamava de marrom. Essa imprensa acabou comigo, fez o diabo. Uma vez, na boate Meia-Noite, no Copacabana Palace, eu estava num grupo onde qualquer coisa muito engraçada foi dita. Num gesto meu, couberam várias legendas de escândalo. Só porque durante um segundo eu debrucei sobre a mesa, onde estavam copos e garrafas, já que era na boate que eu estava. E por incrível que pareça eu estava rindo, estava alegre, estava alegre de uma piada, compreende? Essa imprensa me deu o dissabor de passar pela rua e ver em cada banca de jornal uma insinuação do maior mau gosto. Essa imprensa me escandalizou. Você devia ser muito menina, não sabe bem como foi. Mas foi demais. Insuportável mesmo.

- Eu me lembro sim...

- E isso ainda era o de menos. E foi por essas e outras que eu resolvi desaparecer do mapa, entende? Não quero justificar minha vida nessa fase. Passei por uma crise aguda, bebi muito. A bebida causava os maiores estragos em mim. Tem gente que bebe dia e noite e continua a raciocinar direitinho, como sempre. Comigo não é assim. A bebida sobe à cabeça e eu me torno profundamente agressiva. O pior é que essa agressividade é dirigida às pessoas que eu mais gosto na vida. É uma defesa, não há dúvida, mas uma defesa dolorosa.

Não conheci essa Maysa de quem ela fala. Conheço outra, muito diferente e muito serena. Hoje, beber é inteiramente dispensável.

Jayme, seu filho, vai chegar de Madri para férias e sobretudo para matar as saudades. É um menino bonito. Quando fala nele, Maysa se enternece.

- Jayminho é um menino ainda. Está interno num colégio de Madri e leva a vida de uma criança tipicamente europeia. Lá, por vários motivos, a infância é maior, dura mais tempo. Aos doze anos, um menino ainda é uma criança no exato sentido da palavra. Gosto do tipo de educação que ele recebe, do jeito dele. Além do mais, é um filho maravilhoso, que entende as possibilidades e limitações que nós temos com relação a ele. Nunca menti para Jayme, nunca apareci de máscara, sabe? Um dos motivos que me levaram a deixar o Brasil foi meu filho. Eu não queria que na escola ele fosse uma criança diferente, por ser o filho de Maysa, porque não seria apenas assim. Palavra de honra, eu pensei muito nisso quando resolvi ir embora. Hoje, acredito que meu filho seja feliz seja integrado.

Quando o menino nasceu, Maysa esteve entre a vida e a morte. Só foi conhecê-lo dias depois, uma compensação radiosa a todas as angústias e medos até então sofridos.

Uma noite, na boate Sacha’s, ela decidiu que não voltaria mais a São Paulo. Estava com seu pai, o grande amigo e testemunha. Amanhecia na Avenida Atlântica, eram quase seis horas da manhã. Maysa nunca mais voltou. Começou a atuar no Rio, foi morar sozinha. Mesmo só, num reduto próprio Maysa se cansava e tinha vontade de fugir. Fugiu. A Europa estava lá esperando, era 1959.

- Maysa você foi para que?

- Eu fui para sair daqui, só isso. Fugi. Fiz minha primeira viagem sozinha, completamente sozinha. Em Paris, fizemos logo um grupo que andava sempre com o dinheiro curtíssimo. Mimi Ouro Preto, Vera Barreto Leite e eu. A vida era dura. Mas foi maravilhoso passar seis meses vivendo lá. Uma experiência notável que me ajudou, me ensinou. Quase me casei com um jornalista português exilado, conheci um mundo de gente formidável, um mundo de gente não formidável.

Maysa prepara cuidadosamente seu disco de regresso. Durante dias e dias ela ouve, discute e escolhe. A pessoas acham que o disco vai ser na base da fossa.

- Não, o disco tem o que eu achar mais bonito, o que for melhor. É por isso que estou escolhendo. Senão, eu pegava umas músicas que já conheço e gravava direito, não é? Amanhã, por exemplo. Amanhã, vou à penitenciária Lemos Brito, ver as músicas que os rapazes fizeram para o festival deles. Quem sabe, de lá sai uma faixa do meu disco.

Fui com Maysa à Penitenciária, num dia de muito sol, às três horas da tarde. Eu não sabia exatamente o que ia acontecer nesta visita. O objetivo era ouvir música com atenção, passá-la para o gravador. Mas que espécie de música pode fazer um homem que há muito tempo está fora do mundo? foi uma das experiências mais importantes que cada um de nós viveu, naquele auditório enorme e limpo da Rua Frei Caneca. Nem todos os presos estavam lá. Somente alguns, já que Maysa não ia cantar para ninguém. Eles têm uma orquestra composta quase que totalmente por instrumentos de sopro, mais o piano e o ritmo. Primeiro, ouvimos as três primeiras classificadas. Na primeira delas, Maysa parou. A música “O Guia”, foi a mais querida para ela. Nenhum de nós escondia um certo deslumbramento diante do que estava acontecendo. Maysa, ali, era uma visita de honra para todos. Uma espécie de mito que deixava sua redoma de aplausos e flores para penetrar no mundo deles.

Depois de Paris, de todo o aprendizado pessoal que Maysa sofreu, a volta ao Brasil. Mas ela não queria saber de estabelecer-se ainda. A Real inaugurava uma linha para Tóquio e pretendia vê-la entre seus passageiros. Passou três dias em Nova Iorque e depois foi a Los Angeles. Lá, recebeu um convite para atuar na boate Blue Angel, por uma temporada. Ela não poderia supor que apenas de passagem pelos Estados Unidos pudesse receber propostas de mudança.

Os pais, novamente tomaram uma providência: foram buscar Maysa, desfizeram seu apartamento americano. Aqui ela ficou apenas dois meses e seguiu para a Argentina onde ficou cinco. Brasil outra vez. Até que apareceu um contrato para Portugal. Estamos em 1962. Ela conhece Miguel Azanza.

- Foi então que minha vida, a verdadeira vida começou. Eu atuava no Cassino Estoril e uma noite, pouco antes de começar o show, estava no bar, sozinha. De repente se aproxima um grupo, com uma moça que trazia um disco meu para ser autografado. Entre todos estava Miguel, que nessa vez passou despercebido, juro que passou. Mas, quando teve de ir à Espanha, tão amigos tinham ficado, Maysa esteve novamente com Miguel. E quinze dias depois estavam juntos para o que desse e viesse.

- Era a primeira vez que eu fazia qualquer coisa de importante sem a interferência de ninguém. Eu me sentia livre, por isso mais segura e mais responsável. Passara toda minha vida como que tutelada. Aprendera que as pessoas mais velhas têm sempre mais razão, eram os donos da verdade e ponto final. Aí eu me senti muito eu mesma, sabe? Era eu, finalmente, quem respondia por mim. É, eu nasci naquele dia.  

- Eu não gosto muito de me arrumar, sabe? Só mesmo em tevê. E aí tem que ser muito bem arrumada, muito bem tudo. Em casa, eu ando como você vê. Calça comprida, nada de maquilagem, cabelo solto.

Maysa fala nervosamente, a voz grave, decidida e firme. Fuma muito, usa no dedo mínimo um anel de brasão. Apesar do cigarro, os dentes são claros e grandes, o lábio com um jeito meio amuado, mesmo na hora de sorrir.

- Sabe que eu e Miguel queríamos muito ter um filho?

Maysa ternamente se lembra de Jayminho, fala dele quase toda hora. Várias vezes é servido o café para nós. Ela se esforça para manter a linha usando adoçante artificial.

- Maysa, eu vi seu programa. A ideia de uma cantora subordinada a um texto não parecia ser real.

- Mas você não pode imaginar o que foi. Até cinco minutos antes do programa, o maestro ainda não tinha ensaiado comigo o que eu ia cantar, entende? Deu um medo enorme, mas o improviso funcionou, como inexplicavelmente funciona na maior parte das vezes.

A gente compreende porquê. Para Maysa, cantar é tão importante quanto receber ar continuamente. É uma forma de vida, o único jeito que ela tem de “botar pra fora o que está aqui dentro”.

Essa expulsão de sentimento não se condiciona a um só gênero, porque há muito para ser dito por Maysa, como cantora e como mulher. Preciso dela por mais um dia, mas esse dia é apenas a manhã, na praia, tranquilamente. Maysa, Miguel e eu, Ipanema toda para nós, sem intromissões.

- Vamos casar pela terceira vez não é incrível?

A alguém que se mostrou espantado pela insistência do casamento legalizado no Brasil, Maysa demonstrou a maior segurança:

- Casar não é mania não. É um jeito que eu tenho de ser mais eu, ser mais feliz porque serei tranquila em todos os sentidos. Nós casamos duas vezes, a segunda quando André Matarazzo morreu. Agora, só esperamos pela anulação do primeiro matrimônio de Miguel, que está por pouco tempo.

Miguel é três anos mais velho que sua mulher. Um homem elegante sob todos os pontos de vista, na maneira de ser e de vestir. Ele escuta Maysa falar e raramente interfere, ela não se constrange diante dele, em momento algum. Eles vão morar em Portugal, ela não sabe quando.

- Portugal é maravilhoso, gostamos de viver lá. E como brasileira, sou tratada de um modo bastante especial. As pessoas têm um tipo de formação muito apurado, são realmente amigos quando se aproximam da gente. Quando um português diz a você: “passa lá em casa amanhã”, ele está te esperando com um bom jantar, ou um cálice de vinho delicioso. O português leva muito a sério uma relação de amizade, uma ligação afetiva de qualquer espécie. Talvez por causa disso eu me sinta tão em casa, tão bem vivendo em Lisboa. Tão à vontade.

Ela não sabe até quando fica no Brasil. O Brasil é sempre um passeio de reconhecimento entre pessoas e coisas queridas, mas Maysa é mais Maysa quando pode ir e vir de todos os lugares que ama e fazem parte de sua vida. E se a gente perguntar o quando de seus planos, provavelmente vai ouvir alguma coisa que marca profundamente sua personalidade. Ela gosta de imprevisto, detesta os planos pré-estabelecidos.

- A gente fica enquanto realmente valer a pena.



(Matéria publicada originalmente no número 189 da revista Jóia, maio de 1969)



12 de maio de 2026

Maysa: "Hoje sou feliz" - Revista Jóia, 31/12/1957

 
Maysa: "Hoje sou feliz"


Reportagem de Isaac Piltcher

Fotos de Dilson Martins

A cantora acha caro o preço da glória, mas paga, tostão a tostão – uma vida inteira que começou com a gravação de um LP – “não trocaria por nada do mundo os milhares de amigos que minhas canções me trouxeram”.


    A pele queimada da praia, os olhos brilhando mais que nunca, cabelos despenteados como sempre, Maysa voltou para o Rio de Janeiro. Nascida carioca, os Monjardim cedo se transferiram para o planalto, levando-a ainda pequenina. Maysa se criou paulista, gosta da sua terra de adoção, mas o mar lhe faz falta. O mar e a poesia que envolve o Rio de Janeiro. É certo que ela gostaria que as circunstâncias em que se deu essa mudança fossem outra. Maysa afirma que gostaria muito que nada do que aconteceu – seu desquite de Andrézinho Matarazzo – dando ao caso as proporções de um “affaire” hollywoodiano, tivesse acontecido. Mas, se para que ela pudesse cantar livremente, para que ela pudesse viver a vida que ela queria e para um público que ela ama, esse teve de ser o preço. Maysa pagou-o sem hesitar, embora lamentando.

O que eu estou procurando

No vago aflita olhando,

De canto em canto buscando,

O que?...

    Maysa procurava, às vezes, aflita, a sua afirmação, a sua vida própria como mulher e como artista. E encontrou:

- Eu sou uma mulher feliz. Nunca pretendi nobrezas, nem de sangue nem industriais, e hoje tenho o que eu sempre quis. Tenho meu filho, tenho meu canto e tenho o meu público.

- Foi uma noite feliz aquela em que Roberto Côrte-Real, numa festa, começou a insistir para que eu marcasse a data em que eu gravaria o meu primeiro “LP”. A oposição das famílias era enorme, ajudada por um certo receio meu, que até então só cantara em casa, para os amigos. Entusiasmada por Roberto, resolvi pegar o “pião na unha”: Gravei o “Convite...” dias depois do nascimento do meu filho. Foi o meu segundo... Gosto de ambos e ambos me trazem alegrias...

- O sucesso do disco deu-me a coragem necessária para enfrentar o público de frente, e o que eu pensava ser uma luta amarga acabou sendo um encontro entre amigos... Hoje eu não trocaria por nada os milhares de amigos que minhas canções me trouxeram.

Onde estás Noel

Que não escutas

Os plágios das tuas músicas

Que se ouvem por aí...

    Maysa quando apareceu fez sensação como compositora. Suas letras inspiradíssimas e suas melodias bonitas, tomaram conta de São Paulo e logo do Brasil. Seu primeiro “LP” chamou-se “Convite para ouvir Maysa”. Convite que o povo aceitou sofregamente.

    Maysa agora não pensa em outra coisa que não seja a sua carreira artística: cantar, gravar, fazer filmes – já fez o primeiro e agora estuda proposta para o segundo – e excursões artísticas: no princípio do ano próximo Maysa deverá levar as suas canções aos States, depois de ter recusado convites para cantar na França, por imposição da família. Pela mesma razão, o o público de boates não a ouvirá tão cedo.

Ouça, vá viver sua vida com outro bem.

Hoje eu já cansei de pra você não ser ninguém...

A história de Maysa, de um ano para cá, está contada em suas canções, a maior parte composta bem antes disto. Se todos os que escreveram sobre ela se tivessem dado ao trabalho de ouvi-las, muito papel teria sido poupado e tudo teria sido melhor compreendido...

    Não há magoa em Maysa quando olha o passado: o que houve foi uma libertação, o fim de uma situação que não devia ter começado e que teria de acabar. Quando eu entrei para o Sacre-Coeur de Marie, em São Paulo, as freiras já gostavam de me ouvir cantando. Saí de lá para casar: meus estudos só puderam ser continuados em casa, com professores particulares – inglês, francês, piano – e um pouco, mas muito pouco, de economia doméstica. Minha vida se transformava numa pequena prisão de ouro que ia envolvendo toda a minha forma de ser. E não podia durar: o que eu queria não era nada disso; o que eu queria era exatamente o que eu vivo hoje: cantar para um público que eu gosto e que gosta das minhas canções. Eu sou uma mulher feliz.

To the end of the Earth

I’ll follow my star...

    Entre pratas antigas e gravuras inglesas Maysa constrói sua vida no Rio de Janeiro; Jayminho, seu filho, vive com ela e vê o pai de tempos em tempos. Há paz em sua volta, e o seu clima é trabalho. Muito mais do que antes, sem dúvida, mas é um ambiente de alegria que lhe dá força para ir perseguindo sua estrela, vencendo os obstáculos que a carreira lhe trouxe, junto com as alegrias e consagrações.

    Apesar de já ter atingido pontos que outros artistas só chegam no fim da carreira, Maysa acha que ainda há muito caminho a andar. Impulsionada por uma extraordinária força interior, Maysa seguirá, se preciso até o fim da terra, para dar ao seu público, sempre, o melhor das suas canções e da sua voz. 




(Reportagem de capa publicada originalmente no nº 3 da revista Jóia, de 31 de dezembro de 1957.)

6 de maio de 2026

Maysa no alvorecer de Brasília


 


    Antes que todos os prédios projetados estivessem prontos, antes mesmo que os operários que construíram aquela cidade tivessem suas residências fixas, a inauguração de Brasília não poderia esperar. O dia 21 de abril de 1960 marcou além de mais um feriado de Tiradentes, a inauguração da nova capital do Brasil, construída em tempo recorde no coração do planalto central. Inaugurada incompleta e já marcada por desigualdades sociais gritantes, Brasília poderia prescindir de muita coisa, mas não de uma emissora de televisão e muito menos de vida noturna. E aí que Maysa entra nessa história.


Noite inaugural de Brasília. Fotografia de René Burri, 1960. 


    Em 1960 Maysa estava no auge. Ao assinar com as Associadas de Assis Chateaubriand naquele ano, a cantora e compositora embarcou em viagens do norte ao sul do Brasil para se apresentar nas rádios e TVs do que era, então, o maior conglomerado de imprensa e mídia do país. Menos de um mês depois da inauguração da cidade, Brasília entrou na rota de Maysa. A novíssima capital do Brasil já nascera com uma trilha sonora própria: a Sinfonia da Alvorada, criação pouco badalada da dupla Tom & Vinícius, lançada em disco em 1961 e que caiu no esquecimento nos anos seguintes. Não era esse o tipo de música que os congressistas e outra gente graúda do governo federal estava acostumada a ouvir nas célebres boates de Copacabana.







    Para colorir a vida diária que começaria terrivelmente monótona, supunha-se, foi inaugurada concomitantemente à nova capital o seu primeiro jornal impresso, o Correio Braziliense, e a TV Brasília, ambas pertencentes aos Diários Associados. A noite de sábado, dia 14 de maio de 1960, não deve ter sido nada monótona naquela cidade construída em meio ao bioma do cerrado. Naquele dia o Correio Braziliense anunciou várias vezes a apresentação de Maysa, em pessoa, na TV Brasília, às 21 horas, patrocinada pela Cacic S.A Indústria e Comércio. O uso do termo “em pessoa” servia para destacar que Maysa apareceria para os telespectadores diretamente dos estúdios em Brasília, não se tratando de gravação em vídeo-tape –, um recurso tecnológico que começava a ser utilizado com frequência na TV brasileira à época. O jornal ainda anunciava que, naquele mesmo dia, Maysa faria um show na boate Pillango apresentado pela TV Brasília. O Pillango era um restaurante e boate que naqueles dias iniciais de Brasília, funcionava diariamente das 11h da manhã às 4h da madrugada, no início da W3, avenida que seria por décadas um importante ponto comercial e social da cidade, até entrar em decadência. Na semana seguinte ao show, a coluna social do Correio Braziliense declarou o show de Maysa um sucesso absoluto, notando o especial bom humor da cantora, por ter suportado uma plateia mal-educada sem devolver as típicas retaliações que ela reservava ao público nessas ocasiões.




"Antes de partir para uma longa temporada nos Estados Unidos, a famosa cantora Maysa que estreará em outubro no Blue Angel, foi recebida no Palácio da Alvorada pelo Presidente Juscelino Kubitschek. O chefe da nação, depois de inteirar-se dos detalhes do plano da popular artista de divulgar nossa música nos Estados Unidos, através de uma intensa atuação em televisão, rádio e boates, desejou-lhe um grande êxito. Na foto, o presidente cumprimentando a estrela". Correio Braziliense - Brasília, 14 de setembro de 1960.

    Uma curiosidade é que, dezesseis anos depois do instante capturado na imagem, Maysa relembrou o episódio em sua última entrevista, concedida ao jornalista Aramis Millarch em novembro de 1976. Na ocasião, ainda no início da abertura política da Ditadura Militar e poucos meses depois da morte do ex-presidente, Maysa fez questão de afirmar que foi JK o único presidente do Brasil a parabeniza-la em seus vinte anos de carreira. É um fato notório que JK adorava Maysa.


     
Correio Braziliense - 14 de novembro de 1961.       


    Depois do encontro com o Presidente Bossa Nova, Maysa voltaria à Brasília para cantar em pelo menos duas ocasiões, em uma delas repetiu a dobradinha de shows na TV Brasília e depois em casa noturna – dessa vez na boate Macumba. Na derradeira, Maysa cantou no lindíssimo Brasília Palace Hotel supostamente acompanhada pelo conjunto de bossa novistas com quem gravara o álbum Barquinho alguns meses antes.


Correio Braziliense - 8 de março de 1961.


            Não foram encontrados registros posteriores da presença de Maysa em Brasília. Assim como não há nenhuma outra imagem conhecida dela na capital federal, além da foto tirada ao lado de Juscelino Kubitschek. A Brasília que Maysa viu praticamente nascer, com odor misturado de mato e tinta fresca, também não existe mais. Transformou-se. É instigante tentar imaginar o que Maysa viu lá. As imagens que sobreviveram de uma Brasília recém-nascida são desconcertantes – prédios monumentais pairando sobre imensos descampados; outros ainda em construção. Uma paisagem aonde o vermelho da terra tantas vezes revolvida se mistura ao verde que tentava domar. Poucas árvores. Brasília representou desde o início o melhor e o pior do Brasil.









29 de dezembro de 2025

As últimas gravações de Maysa (1975)

 



    Relembramos hoje as últimas gravações conhecidas de Maysa, registradas pela Som Livre em 1975, e que permaneceram esquecidas até 2012. Em 1974, Maysa gravou seu último álbum, do qual já se falou aqui recentemente. Lindo e pouco reconhecido. Nos dois anos restantes que Maysa teve antes de partir, fez shows, fez música, cantou na televisão, mas não gravou mais nada. Assim se pensava até o ano de 2012, quando o produtor Rodrigo Faour resgatou o seu último e raríssimo compacto simples lançado pela Som Livre em 1975.

    No lado A, Maysa gravou a letra que tinha escrito para o tema de abertura da novela Bravo!, composto pelo maestro Júlio Medaglia para a telenovela das sete de Janete Clair, que estreou em 16 de junho de 1975. Até ali, o público já havia escutado aquela canção ao menos uma vez, quando Maysa cantou a sua criação mais recente acompanhada de grande orquestra, no Fantástico da TV Globo, em cores. A versão em estúdio soou muito mais modesta do que aquela ao vivo. Pela segunda vez consecutiva e igual ao Tema de Simone quatro anos antes, uma música que Maysa fazia para as novelas da Globo não era inclusa nos álbuns lançados com as trilhas sonoras pela Som Livre.

    No lado B, uma releitura supersensível de Ouça, um dos seus maiores sucessos, lançado quase vinte anos antes, mas sem o mesmo brilho da criação original. Curiosamente, cerca de um ano depois do lançamento do compacto com Bravo!, Maysa voltaria às paradas de sucesso através de uma outra novela da sete da Globo, Estúpido Cúpido, que incluiria Meu Mundo Caiu como um dos principais temas sonoros da novela ambientada no fim da década de 1950.

    Ainda que se trate de uma gravação lançada sem divulgação e com pouquíssima ou nenhuma repercussão (certamente foi impressa uma pequena e única tiragem, apenas para cumprir o contrato), estranha o fato desse compacto da Som Livre nunca ter sido sequer mencionado numa das biografias de Maysa escritas nos anos 2000. Só com o lançamento do CD Super Divas – Maysa, produzido por Faour na EMI, em 2012 – dedicado às pérolas do cancioneiro de grandes personalidades femininas da música popular brasileira – as últimas gravações de Maysa em estúdio foram lançadas remasterizadas, mas sem nenhum detalhe de sua produção em 1975.

    Apesar da pouca divulgação do lançamento original (1975) – visto que, de fato, ela não era ouvida na novela, é possível que o compacto tão tenha satisfeito Maysa. Em sua última entrevista, concedida em novembro de 1976, em Curitiba, ao jornalista Aramis Millarch, ela declarara que o uso excessivo de cordas (ex: violinos, violoncelos) na instrumentação de uma obra musical atrapalha; uma possível referência seu último trabalho em disco – o compacto de Bravo!/Ouça. Basta comparar essa versão de Ouça com a rendição ao vivo, acompanhada de Paulo Moura e trêsmúsicos na TV Cultura, em novembro do mesmo ano de 1975, para entender o que Maysa estava falando. O jeito de Maysa cantar em 1975, não era igual ao que ela cantava em 1957 quando gravou Ouça pela primeira vez. Na regravação, o arranjo de Ouça foi tão fidedigno à versão de 1957 que deixou a gravação soando antiquada; muito inferior à recriação no programa Ensaio, aonde a solidão enorme do eu lírico contagia numa roupagem instrumental intimista. Também é possível que ela possa ter renegado o lançamento como já indicava ter feito com a música tema de Bravo!, durante uma entrevista coletiva antes da estreia do show na boate Igrejinha, ainda em novembro daquele ano, quando se recusou a falar dessa música. Esse comportamento era um efeito do fim do relacionamento de Maysa com o ator Carlos Alberto, protagonista de Bravo! e provável “alvo poético” da letra que ela fizera. E essa já era a segunda música de Maysa associada a ele; a primeira fora a quinta faixa do lado 1 do LP lançado um ano antes – Não é Mais Meu – que ela declarara ter feito como um carinho ao ator. Além dela e de Bravo!, Maysa veria nascer ainda uma nova música feita com Julio Medaglia – seu novo parceiro musical e afetivo – a seresta Nós, que ela não teve tempo de gravar em estúdio.

    Para ouvir as músicas do compacto clique aqui e aqui.





30 de dezembro de 2024

Cinquentenário do álbum Maysa (1974)

 


    Lançado há cinquenta anos, em dezembro de 1974, nos formatos de LP e fita cassete, o disco intitulado apenas Maysa ganhou em meio século uma única reedição em CD, nos anos 1990. Pouco comentado, é lembrado mais por ser o último trabalho em disco de Maysa, do que propriamente pelo seu conteúdo, uma grande injustiça. O álbum marcava o reencontro de Maysa com o veterano produtor Aloysio de Oliveira, com quem já havia realizado dez anos antes o seu primeiro e melhor disco ao vivo, lançado pelo selo independente de Aloysio que marcou época no período da bossa nova: a Elenco. Em 1973, Aloysio iniciara um novo projeto junto a gravadora, dessa vez chamado Evento. O disco de Maysa foi um dos três primeiros lançamentos desse selo de curtíssima duração e pouca repercussão, junto a um novo LP de Billy Blanco em louvação a cidade de São Paulo e o relançamento do álbum de 1958 que reuniu Dorival Caymmi e Ary Barroso. 
    Gravado num raro período de calmaria na carreira de Maysa, o álbum, que do início ao fim levou um ano para ser lançado, comunicava o seu estado de isolamento, tanto na indústria musical quanto no pleno pessoal, como ela revelou em entrevista ao jornal O Globo na época:
 “Meu único programa, atualmente, é passar o maior tempo possível na minha casa em Maricá. Só voltarei a ter uma vida artística mais ativa se puder fazer tudo com muita calma. Senão, fico apenas no disco, que está aí para quem quiser ouvir. É o que tenho para dar”. 
    O repertório seguia os moldes do seu antecessor, o célebre Ando Só Numa Multidão de Amores (1970) – mais músicas antigas com roupagem nova e poucas contemporâneas. A diferença principal de um trabalho para o outro é a escolha aparentemente inusitada de clássicos carnavalescos como “Agora é Cinza” e “Rasguei a Minha Fantasia” que ganharam novo sentido na interpretação de Maysa. Um movimento semelhante ao que Elis Regina fizera em seu álbum de 1973, quando gravou “É com esse que eu vou”. Sentido novo também ganhou a sua versão da música que abre o disco, “Bloco da Solidão”, da dupla Jair Amorim e Evaldo Gouveia, que Maysa gravou com um surdo num dos melhores arranjos que o maestro Gaya fez para o álbum. Incluída no LP de Jair Rodrigues Festa Para um Rei Negro (1971), Maysa transformou “Bloco da Solidão” de um hino festivo para uma pungente declaração de mágoa que não se deixa abater por nada. Entre as poucas músicas “atuais” do disco, ela garimpou verdadeiras pérolas. 
    As outras são “Até Quem Sabe” de João Donato, gravada em seu álbum Quem é Quem? (1973); mas que Maysa pode ter ouvido na voz da amiga Gal Costa, que incluiu a música no álbum Cantar, lançado meses antes do LP dela. Preciosa também é a sua versão jazzística para o maior sucesso de Antônio Carlos e Jocafi, “Você Abusou”, que Maysa cantou com propriedade única, deslocando para a primeira estrofe os versos “Mas não faz mal/É tão normal ter desamor/É tão cafona sofrer dor que eu já nem sei/Se é meninice ou cafonice o meu amor...”. Ninguém deve ter entendido nada, uma pena. Novidade mesmo, apenas duas e mesmo assim pela metade. Uma era “Não Sei” – letra de Aloysio para o antigo standard estadunidense “No Other Love” (e que por si só era baseada numa melodia de Chopin). A segunda, “Não é Mais Meu”, letra da própria Maysa para um tema instrumental da novela Eu Compro Esta Mulher (1966), que ela gravou para “fazer um carinho” no namorado de então, o ator Carlos Alberto, que atuou na novela da TV Globo. 
  “O resto das músicas é de gente que estava comigo, quando comecei. Há pedaços de Silvinha Teles, de Dolores, de Aloysio, de Marisa. Não se trata de um saudosismo burro, de fossa, mas de um estado de espírito”. 
    Embora esquecido hoje em dia, naquela época houve uma certa excitação entorno do lançamento do novo disco da cantora, que apresentou as músicas dele no Fantástico com quase dois meses de antecedência. Ela também mostrou a regravação de “Morrer de Amor” no Especial Maysa, exibido na TVE-RJ no mesmo ano. Ocasião em que comentou o novo álbum e recebeu elogios de Tom Jobim, que naquele momento também tinha Aloysio de Oliveira como diretor da produção do famoso álbum que Elis Regina e ele gravaram em 1974. Não existem números seguros que informem o desempenho comercial do último álbum de Maysa, um indicativo de que provavelmente não foi um êxito de vendas. A revista Veja, numa crítica ranzinza, avaliou bem a performance vocal de Maysa, mas considerou que ela “perdia” para os arranjos “grandiloquentes” do maestro Gaya. O que não deixa de ser verdade e abre espaço para imaginarmos o que teria resultado o encontro de Maysa com a guitarra e o violão de Lee Ritenour e Oscar Castro Neves (que fez os arranjos de base do LP dela) – dupla que à mesma época, registrou um belo álbum de bossa nova sob a tutela de Aloysio no selo Evento. Só podemos imaginar. Mas razinza foi o tom predominante em maioria das críticas do álbum - algumas eram até cruéis. 
    Uma curiosidade é que o álbum lançado pela Odeon em dezembro de 1974 não se trata da última gravação de Maysa em estúdio. No ano seguinte, ela registraria um obscuro compacto pela Som Livre, contendo de um lado uma regravação pouco inspirada de “Ouça”, e do outro o tema da novela Bravo! para o qual escreveu uma letra que chegou a renegar pouco tempo depois. É possível que tenha sido esse compacto que motivou Maysa a reclamar do uso excessivo de cordas em orquestração, durante a última entrevista que ela concedeu, em novembro de 1976. Contudo, se os últimos anos de sua vida artística foram titubeantes, o último álbum permanece como uma delicada conclusão de uma etapa. Assim como o primeiro LP da cantora e compositora, lançado em novembro de 1956; por coincidência, o último álbum também não mostrava a foto de Maysa na capa, apenas aquarelas de gatos do artista gráfico César G. Vilella. Seu rosto só aparece na contracapa, sorrindo, ao lado de uma de suas pinturas. Maysa pinta e borda, literalmente, em seu último disco. Se ele começa extremamente dolorido, ao longo das outras onze faixas Maysa vai transfigurar as emoções como bem entende; seja expondo a melancolia oculta nos sambas alegres de carnaval, ou trazendo à flor da pele a tristeza inerente a todas as decepções e esperanças de viver um amor. E é o amor incondicional à vida que Maysa proclama na última faixa, “Hoje é dia de amor” de Luiz Bonfá e Maria Helena Toledo, gravada dez anos antes por Rosana Toledo e Dick Farney. É possível notar que ela termina sorrindo a última frase da canção – “tudo insiste em fazer voltar/Pra esse céu/Pra esse mar/E o amor” – difícil imaginar um jeito mais bonito de encerrar um álbum de Maysa. 


Veja aqui o Especial de Maysa exibido na TVE-Rio em 1974.

Um Encontro (1974) álbum de Lee Ritenour & Oscar Castro Neves 


Leia mais sobre o último álbum de Maysa aqui.






3 de junho de 2024

Maysa entrevistada por Djenane Machado, 1971


Por vezes não contamos com todas as informações sobre uma reportagem como é o caso desta entrevista de Maysa por Djenane Machado. Não sei em qual revista ela foi publicada, mas certamente foi no ano de 1971. Quando Djenane e Maysa estavam no elenco da novela O Cafona da TV Globo. 


As Reportagens de Djenane 

Maysa: - Eu me matava por desamor


Quando eu estava no primário, tinha uma mania: desenhar olhos de pessoas famosas nos meus cadernos. Tinha verdadeira obsessão por olhos bonitos. Fazia-os com um esforço desgraçado porque sempre fui uma negação em desenho. Eu desenhava os olhos em cima e o nome da pessoa embaixo. Era gozadíssimo... Tinha uns preferidos, verdes, imensos, e o nome vinha embaixo: Maysa...

Eu cresci, Maysa viajou; estudei teatro; ela fazia um tratamento numa clínica na Espanha. Eu me tornei atriz. Eu me tornei atriz e entrei para a tevê; ela volta para o Brasil. Linda, magra, cantando como nunca. Foi aquele espanto, aquela alegria. Todos queriam saber se ela tinha mudado, como tinha emagrecido, que diabo tinha acontecido depois daquele tempão todo. Choveram entrevistas. E foi por causa destas entrevistas que embatuquei e cismei com ela de vez.

Maysa era um pouco eu. Seu modo de pensar, seus problemas, angústias tinham muito a ver comigo. Poxa, pensei comigo mesma, achei uma pessoa que não vai se assustar com meus problemas porque seus grilos são parecidos com os meus. Fui ver o seu show no Canecão e jurei que ia ser amiga dela. Não deu outra coisa, claro...

Houve de cara uma comunicação muito forte, imensa e acho eterna. Quando acontece um troço bacana ou então ela está na fossa, liga pra mim e eu corro para a casa dela pra gente curtir juntas. Enfim, a gente se dá muito bem, a gente briga muito, mas nada diminui o carinho. Hoje, pra mim, ela não se chama Maysa. Chama-se Ma. E eu passei a ser DG.



EU – Ma, me conta da tua infância, da tua babá, da tua mãe, do teu pai, das coisas que te marcaram. Da tua casa.

ELA – A minha infância foi uma árvore, um mar que servia de quintal de minha casa, foi um amor muito grande e de muita certeza, coragem. Foi boa demais para o que estava por vir. E veio, e como... minha babá, que continua comigo até hoje, continua com aquele cheirinho de alfazema no cangote onde muitas vezes eu me agarrava de medo da noite e do escuro. Mamãe, aquela mulher intocável, linda. A minha deusa. Papi, aquele ser quase proibido, sempre longe por causa do seu trabalho, forte como uma árvore, doce como um beijo que me dava no travesseiro quando estava no colégio interno, vivendo a imagem dele e de mamãe, naquela carícia medrosa e sozinha. Tudo me marcou na minha infância, porque eu sabia que ela ia terminar rápido.

- Ma, me conta do teu colégio (se você era boa aluna ou se tinha boas amigas).

- Meu colégio não era ruim. Eu é que era ruim no colégio, não por falta de disciplina, mas por saber que estando interna eu estava perdendo a juventude de meus pais.

 - Esse problema do seu pai e da sua mãe te marcou muito. Você é triste por causa disso?

- Triste, eu acho; mais que triste, só.

- Você tinha muitas amigas?

- Nunca pude ter amigas. Nunca me entendi muito com mulheres.

- Por que você diz sempre que sua mãe era uma deusa para você. Por que sempre era, no passado?

- Ela ainda é. Só que agora ela é minha também. Antes era só do papai.

- E André, teu primeiro marido, ele era super-mais-velho que você. E você uma garotinha. Você achava isso legal?

- No princípio, André era a figura do pai. Depois, mudou e eu passei a ser a mãe dele. Então, eu cansei. E descansei...

- Me conta um troço, Ma. Sempre achei o suicídio um ato de extrema coragem. Quando você tentava se suicidar, você realmente queria acabar com tudo ou o que você queria, no fundo, era começar outra coisa diferente?

- Os meus suicídios sempre foram pra valer. Geralmente, eu só faço as coisas pra valer. Depois, foi que eu descobri que aquilo era uma enorme procura de amor, de chamar atenção sobre mim. É, é um ato de coragem. Mas é a coragem mais inútil que eu já vi.

- Sabia que você ia dizer isso. Você já tentou a análise?

- Eu já me meti em análise, sim.

- Você teve coragem mesmo de se conhecer?

- Eu acho que sim, que teria coragem de me conhecer, não sei por quê, não? Mas prefiro conhecer os outros, gastar meu tempo conhecendo os outros. É mais importante para mim, é claro.

- Falou e disse...

- Ma, por que você bebe? Se eu sei que você tem horror ao gosto da bebida?

- Por que é que eu bebo, DG? Pela mesma razão que você. Realmente, eu não gosto do gosto da bebida. Mas tem o efeito depois. Às vezes, é bom. Às vezes, não, como você sabe tão bem.

- Mas eu gosto do gosto. Me responde agora. Eu sei que você adora a Elis Regina. E sofre à beça essa distância. Por que você não tenta se aproximar dela?

- Djenane, você às vezes julga os outros por si mesma. Nós temos, eu e você, alguma coisa em comum, mas nesse ponto não. Quem adora a moça é você. Eu, não. Quanto a sofrer a distância, como é que a gente sofre a distância se nunca houve presença? Você é que está sofrendo, porque ruiu a historiazinha que você fabricou, querida.

- Você muda muito de opinião, Dona Maysa. E que historiazinha é essa? Como eu gosto muito de você e gosto também dela, queria que vocês fossem amigas, só isso. Vamos mudar de assunto. Quais são as coisas que mais te emocionam num ser humano?

- As coisas que mais me emocionam num ser humano, é? A capacidade de amor, de humanidade que possa caber dentro de uma pessoa. Mesmo que sejam pequeninas. De tamanho, estou dizendo?

- Eu não sei se a senhora está me espinafrando ou se está me elogiando. Como eu sou uma moça muito educada, pelo sim pelo não, obrigada pela parte que me toca. O que é que você primeiro olha numa pessoa?

- Nos olhos. Pra mim, as pessoas estão dentro dos seus olhos.

- O que é que você não gosta numa pessoa? Aquilo que você não admite?

- Apunhada pelas costas, a mentira gratuita, as pessoas falsas, mesquinhas. São odiosas.

- Você acredita nas pessoas? Porque a impressão que você me dá é de que você só acredita em você mesma. Ponto final.

- Você vê. Se eu não tivesse acreditado em você, eu poderia ter ido dormir sem essa afirmação idiota sua. Se eu só acreditasse em mim, DG, eu já estaria morta, morta mesmo.

- Calma. Era só uma impressão minha, poxa. Guarda a faca afiada e o revólver e vamos mudar o assunto de novo.

- O que é que você queria, agora?

- No presente momento, gostaria de já ter estreado no teatro. Amanhã ou mesmo daqui a pouco, eu não sei...

- Do que é que você gosta?

- De tanta coisa. De Leila, por exemplo (Leila é uma criatura divina que a gente conhece. Uma pessoa tão boa, tão desarmada, dessas que não existem mais).

- Do que é que você tem medo?

- Eu não tenho medo de nada. Só de gente burra.

- Você não tem medo da solidão?

- Eu odeio a solidão quando não posso estar só. Eu amo a solidão quando preciso dela.

- Eu sei que você tem sempre uma musiquinha que você curte à beça. Foi o Midnight Cowboy, depois outras, e agora, qual é?

- Agora é o Tema de Simone. Modesto, né?

- Ultimamente, você já esteve tão feliz a ponto de querer que o tempo parasse?

- Faz tempo que não. E não sei até onde o tempo devesse parar. As coisas se tornariam muito iguais, portanto muito chatas.

- Qual é a hora do dia mais chata para você?

- A hora em que vejo um cachorrinho ou um animalzinho qualquer com fossa, só, sem possibilidades de poder falar. Nada há mais triste, seja a hora em que for!

- Que lindo e que triste, poxa. Vamos brincar um pouco agora, Ma. Eu digo uma palavra e você associa a outra. Tem que ser a primeira que vier à cabeça, senão não vale. Quero ver como anda a sua cuquinha (não perco essa mania de psicóloga).

Djenane – Saudade.

Maysa – Filme.

D – Felicidade.

M – Mar.

D – Amizade.

M – DG.

D – Homem.

M – Pai.

D – Mulher.

M – Eu.

D – Avião.

M – Desejo.

D – Miguel.

M – Paz.

D – Violência.

M – Amor.

D – Telefone.

M – Chato.

D – Eu.

M – Eu.

D – Árvore.

M – Teatro.

D – Sexo.

M – Paz.

D – Fim.

M – Começo.




Ary Fontoura, Maysa, Tônia Carrero, Marília Pêra e Djenane Machado em festa oferecida ao elenco da novela O Cafona na casa do produtor Carlos Machado, 29/04/1971. Foto: Ronald Fonseca. O Globo. 


6 de junho de 2023

Playlist do Blog oficial Maysa no Spotify

 


Em comemoração ao que seria o 87º aniversário de Maysa, o Blog elaborou especialmente uma playlist no Spotify com mais de duas horas de duração contendo o melhor de Maysa, já que a playlist criada pelo Spotify This is Maysa é falha, contendo músicas que são de uma outra cantora homônima. Viva Maysa!