10 de junho de 2013

Imprensa: Maysa acha os americanos ingênuos - Radiolândia (05/1961)


Maysa acha os americanos ingênuos


Esta entrevista foi realizada com Maysa noite dessas no apartamento 1.303 do Plaza Hotel, onde a estrela se encontrava hospedada. Informal e simples, lacônica por vezes, mas categórica sempre, deixando de lado, por completo, os chavões e as frases feitas, a criadora de “Ouça”, “Mundo Vazio”, “Suas Mãos”, “Escuta Noel” e tantos outros sucessos em disco foi respondendo, uma a uma, às indagações que lhe dirigimos, sem titubear, sem hesitar um instante sequer. Vestia uma blusa de malha e uma saia escura. Ao colo, seu cachorrinho de estimação. Os cabelos revoltos, caindo em mechas sobre a testa, davam-lhe um toque de encantadora negligência, que a ausência de “baton”, “rouge”, ou rimmel” tão bem complementava.
Fitou-nos, com seus olhos marcados a lápis. Seu olhar nos disse que podíamos começar.

“NÃO ME CONHEÇO”

-         Que acha de si mesma? – iniciamos.
-         Já cheguei à conclusão de que não me conheço. Não sei ainda, exatamente, quem sou, quem fui, quem serei. Vivo procurando a mim mesma, certa, embora, de que não me encontrarei nunca, nem no espaço nem no tempo. Sou, entretanto, a mulher que se busca.
-         Considera-se realizada como criatura, artista e mulher?
-         Realizei-me plenamente como criatura humana, como matéria orgânica e sensitiva. Não o consegui, todavia, como artista e mulher. Pensando bem, pouco ou nada realizei na vida, pois cada dia que passa mais me convenço de que me falta tudo para realizar aquilo a que me propus, quando iniciei a jornada da existência. Existência? Nem sei mesmo, ao certo, se vivo ou vegeto...
-         Considera-se uma mulher de grande personalidade?
-         Não, de personalidade grande. Não sei se para bem ou para mal. Costumo dizer o que penso, porque, geralmente, penso o que digo, aproveitando o “slogan” de um jornal.
-         A Maysa-mãe é condescendente ou rigorosa?
-         Nem uma coisa nem outra: compreensiva. Meu filhinho (que se encontra em São Paulo, residindo em companhia de meus pais) não conheceu, até agora, de minha parte, tolerância ou tirania. Dispenso-lhe a compreensão de vida aos meninos de sua idade, pois não desconheço que a benevolência excessiva é tão perigosa quanto o rigor em demasia.
-         Qual é sua religião? E cor política?
-         Tenho, por princípio, não responder a perguntas que versem sobre questões religiosas ou políticas, uma vez que são assuntos extremamente controversos. Vou abrir uma exceção, certa de que vocês não tocaram mais nestes temas. A religião que professo, defino-a numa palavra – cristã. Quanto à minha cor política, é... meia-esquerda.
E deu um sorriso maroto. Espremendo mais ainda os olhos rasgados.

“BEBO PORQUE QUERO”

-         Maysa, porque você bebe? – perguntamos, de chofre. Pausa. Lentamente o sorriso se desfez. E a resposta veio, em tom que não admitia réplica:
-         Bebo, por vários motivos: em primeiro lugar, porque quero. Em segundo, porque sinto vontade. Em terceiro, porque tenho dinheiro para pagá-la. Finalmente, porque bebendo, eu me torno menos insuportável aos outros e, ao mesmo tempo, consigo suportar a presença dos insuportáveis, coisa que seria difícil obter fora do estado etílico.
-         E que faz quando, mesmo estando em multidão, sente-se só?
-         Bebo.
Aproveitamos a embalagem:
-         A noite carioca lhe agrada? E a paulista? E a nova-iorquina?
-         Quer saber de uma coisa? Minhas noites não têm sobrenome.

“FRACASSEI NO AMOR”

-         Quantas vezes você se viu frustrada no amor, Maysa?
-         Tantas quanto tentei. Meu fracasso no amor foi qualquer coisa de cruel, total, inumano, exasperante, irremediável. Como sigo, entretanto, a teoria filosófica que erige a fatalidade como supremo dogma, conformei-me com os meus contínuos insucessos nesse terreno, cujos encantos, ainda, a bem dizer, desconheço. Resigno-me a amar sem ser amada ou ser amada sem amar, ou ainda: nem amar, nem ser amada – que considero a mais simples para uma vida vegetativa e sem pretensões. Diga-se de passagem que não creio já ter sido amada verdadeiramente, levando-se em conta o que eu entendo por “amar”, em toda complexa acepção da palavra.
-         Julga-se feliz atualmente? Nada lhe falta?
-         Sim, feliz. Nada me falta, exceto encontrar-me, como já disse acima. Se isto acontecer, – o que não acredito – então, sim, terei atingido a felicidade verdadeira, completa, insofismável.
-         Acha o ciúme um sentimento próprio dos medíocres?
-         Ah! Então é por isso que eu sou tão medíocre...

“STATES”

Como não poderia deixar de ser, tocamos no assunto “States”. Disse-nos Maysa que ficou verdadeiramente encantada com o adiantado estágio de civilização que já atingiu o povo daquele país irmão. Suas magnificentes construções, – maravilhas arquitetônicas – suas pontes, vida noturna, indústrias, enfim, todas as inúmeras formas de resolver os problemas da vida quotidiana pela maneira mais prática e eficiente – a deslumbraram. Gostaríamos, entretanto, de saber o que, dentre aquela imensidão de maravilhas que existe nos Estados Unidos, mais entusiasmara a artista brasileira. Por isso, fizemos a pergunta:
-         O que mais a impressionou nos “States”?
A resposta de Maysa veio pronta.
-         A ingenuidade dos americanos.


(Reportagem publicada originalmente na RADIOLÂNDIA - Nº352, segunda quinzena de maio de 1961. Agradecimentos ao leitor Edson Luiz Mendes que tornou possível a publicação desta matéria. Muito obrigado!)

6 de junho de 2013

Especial: 77 anos de Maysa


77 anos de Maysa


"Minha infância foi muito alegre. Engraçado... Eu preferia brincar com os meninos, não com as meninas. Às vezes entrava em brigas feias, batia até neles. Mas, cantar, cantei sempre. Ainda menina, me lembro, ganhei um gravador de presente, todo vermelho. Olhava no espelho e me maquilava igual à Marilyn Monroe. Só cantava música americana. Mais tarde fugi de casa e fui gravar o que seria o meu primeiro disco. Fui junto com o Baby, famoso guitarrista do Oásis, uma boate paulista que era o lugar da moda nos anos 50. Gravei esse disco em 1951. De um lado, uma música americana, do outro, 'Se Eu Morrer Amanhã de Manhã'. Aí é que veio o convite do Roberto Corte-Real para gravar meu primeiro LP."


“Maysa, nome incomum, é um cripto de Maria Luísa enfeitado com um Y. O nome me foi dado por minha mãe em homenagem a uma grande amiga.  Todo mundo pensa que eu sou paulista. Vivi muitos anos em São Paulo, estudei no Sacré Coeur de Marie de São Paulo, meus mais moram lá, mas eu nasci em Botafogo, à Rua Visconde e Silva. Numa casa que ficava em frente à residência de Simoens da Silva. Eu acho que estive 10 anos interna estudando. Repeti a 2ª série para que me tirassem. E agora sonho quase toda noite que vou voltar para o colégio interno.”


Eu me casei muito moça: com 17 anos. Ele era 18 anos mais velho que eu, para mim muito mais pai do que marido. Não levei propriamente vida de sociedade, mas me sentia muito tolhida no meio daquela gente toda. Acabava tendo de jogar buraco, pif-paf, ir a boates... o que eu gostava era de cantar."


"Atenção, que o nome dele é Jayme, com y. É o meu maior amigo. Aliás, o único. Só que ele ainda não se deu conta disso. Está com 19 anos, de casamento marcado e tudo. Mas o melhor é que ele vai me fazer avó. Quero curtir esse neto como se fosse um outro filho. Meu neto será o filho que eu mesma não posso ter. Agora, quando as pessoas me procuram para elogios, para dizer que gostam do meu show, que estou muito bonita, essas coisas, digo sempre que é por causa do Jayme, que é para ele que estou cantando agora. É para o Jayme que eu dedico 'Dindi', por exemplo. Todo mundo tem o seu Dindi; o meu é o Jayme."



" Não procuro julgar ninguém. Esse mesmo respeito que exijo em relação a mim devolvo às pessoas. Não existe ninguém ruim. Que cada um faça o que entender e do que gostar, não importa o que. Perdoe o lugar-comum, mas nada tão certo como o princípio de que a liberdade de cada um termina quando começa a do outro. Por isso tudo é válido, desde que sincero e autêntico. Mas também nisso tudo não cedo num ponto. É quanto a burrice na sua totalidade. Esses de forma alguma deveriam existir. A pessoa que apela para a burrice não tem direito de viver. Essa, sim, é a maior e pior desgraça da humanidade."


"Se minhas músicas representam o estado da minha alma, até isso é verdade. Vivo-as todas as vezes que as interpreto. Se sou excessivamente romântica, não vejo desdouro nenhum nessa afirmativa. A vida sem amor é uma queda no vácuo".


"Quando eu era casada com o Matarazzo, eu nunca comunguei da cartilha dele, não, entende? Na minha casa, eu sempre recebi quem eu quis, sempre fiz o que quis, quando comecei a cantar recebia em casa todo o mundo que me dava vontade, quer dizer que nunca participei da vida de sociedade."


 "Sou assim: minha vocação explodiu dentro de mim como um vulcão. Por isso me considero inconsequente, incoerente, leviana, matusquela. Falam como se tudo isso pudesse mesmo de longe atingir os meus sofrimentos. Um dia, e na esperança desse dia, muitos dirão que 'afinal de contas não sou má pessoa'."


"Minha carreira artística é uma decorrência da minha vida. A minha vida é uma coisa muito importante. Deu muito pras pessoas, deu muito pra mim, talvez mais pras pessoas que pra mim. Eu somei muita coisa. Ensinei muita coisa pras pessoas, só não ensinei pra mim mesma."


Feliz aniversário Maysa Figueira Monjardim!

(6 de junho de 1936 - 22 de janeiro de 1977)

Não, não voltaria atrás em nada. Faria exatamente tudo igual. Se pudesse acrescentaria mais alguma coisa, igualzinha."

- Maysa

21 de maio de 2013

Imprensa: Depois de amanhã, todo dia é de Maysa - Correio da Manhã (19/05/1970)


Depois de amanhã, todo dia é de Maysa


O Dia D Maysa foi ontem, em São Paulo. Maysa só exigiu uma equipe para trabalhar e o resto ficou por conta do recado que as câmeras do canal 7, TV Record de São Paulo, mandaram para quase todo o Brasil.

Agora é hora de voltar ao Rio. Quinta-feira é dia de Maysa no Canecão.

-        A gente tem que ser coerente, mais nada. Se foi aqui que eu recebi tanto carinho e o meu recado foi tão bem entendido, porque mudar?

A “Maysa de hoje”, ela mesma diz, não existe.

-        Nada mudou. As pessoas continuam me agredindo, tendo preconceitos em relação a mim. E eu continuo me defendendo delas, agressivamente. Na verdade, o que pode ter mudado – é, isso realmente mudou – é que hoje, eu evito essas pessoas o mais que eu posso, procuro ter o mínimo contato possível com essa gente.

Mas hoje existe uma Maysa obcecada por seu trabalho, entusiasmada com as canções que vem ensaiando para o show do Canecão, com os arranjos de Luiz Eça, com os jovens do conjunto que vai acompanha-la.

-        Há dez anos, nós já fizemos isso: éramos eu, o mesmo Luizinho Eça, Menescal, Hélcio Milito, Bebeto, Luís Carlos Vinhas. Foi a época do Barquinho e todos eles, apesar de ainda desconhecidos, já eram da pesada. Hoje, eu volto a trabalhar com uma turma de garotos sensacionais, orientados pelo Eça, estou muito à vontade com eles.

No repertório, há San Juanito e há Roberto Carlos.

-        Também isso não é uma mudança. Eu sempre cantei o que sentia, minha única condição para cantar uma música é ser tocada por ela, acreditar nela. Se há 10 anos me aparecesse uma canção de Roberto Carlos, eu cantaria, desde que gostasse. Nunca tive preconceitos, principalmente, em relação à música.

Os planos para o futuro só falam em cantar, até que a voz acabe. Maysa assinou agora um contrato com a Phillips, primeira experiência de um programa de divulgação de Maysa no exterior: o novo disco tem a direção artística de Roberto Menescal, tem arranjos modernos e tem músicas que Maysa vai cantar no Canecão. Apesar de estar num esquema de se lançar no exterior, Maysa nem quer ouvir falar no Festival da Canção.

-        É simples: até agora, o Festival só trouxe vantagens para a música estrangeira.

Antes do show do Canecão, Maysa deveria fazer uma temporada no Teatro da Praia, sob a direção de Miéle e Bôscoli. Faltando cinco dias para a estreia, o espetáculo foi cancelado.

- Não tenho físico para trabalhar daquele jeito. Em cima do dia da estreia não havia nem texto. Ronaldo e Miéle são excelentes produtores e estão acostumados a trabalhar na base da improvisação. Mas eu não aguento, não sou gênio. Talvez os dois, de uma certa forma, o sejam. Mas para mim não dá, embora isso não diminua minha admiração por eles. 


(Reportagem publicada originalmente no jornal CORREIO DA MANHÃ - Rio de Janeiro, 3ª feira, 19 de maio de 1970)

13 de maio de 2013

Imprensa: A voz que vem do Coração, Fernando Sabino - Jornal do Brasil (11/11/1974)


Fernando Sabino

A voz que vem do coração


Aperto o botão da campainha e espero. Tive de subir um lance de escada, o elevador não vem até aqui. É um prédio antigo numa rua transversal de Copacabana. O vestíbulo é amplo – reparo que o papel de parede está descolado junto ao chão, mostrando uma cicatriz no reboco. Quando começo a acreditar que a campainha não esteja funcionando a porta se abre:
-         Ela está para chegar a qualquer momento. Entre, por favor.
É Leila, sua dedicada amiga e secretária. Sigo-a através de várias dependências, inclusive um quarto de dormir. O apartamento, de cobertura, me parece fino e comprido como um navio.
-         Não repara, estamos em obras.
Ela me serve um uísque e me deixa à vontade. Enquanto espero tenho tempo de reparar em tudo, mas estou inquieto, como um mistério que terei de enfrentar de um momento para outro. Vou até o terraço, que se prolonga em todo o comprimento da fachada, extenso e vazio, como uma plataforma de estação. Debruço-me na parte que dá para o mar, fronteira à janela do apartamento onde morou Augusto Frederico Schmidt. A lembrança do poeta morto me deprime, a altura me dá vertigem. Volto para a sala e continua a pesar-me uma sensação de insegurança, emanada dos próprios móveis que me cercam, marcados pelo uso, dos quadros que cobrem a parede, densos de sofrimento, dos livros na estante, todos de espiritismo e ciências ocultas (que mais tarde ficarei sabendo não serem dela). Meia-noite em ponto – hora fatídica das velhas histórias de assombração. Mal tenho tempo de acomodar-me e tomar o meu uísque para sossegar o espírito: ela acaba de chegar.
De repente tudo se ilumina. Como uma curva de estrada sob os faróis de um carro, a sala se acende. Tudo se ilumina com a presença magnética de uma mulher que acaba de entrar, fremente de simpatia, descontraída, aberta, comunicativa, e que se aproxima de mim pedindo desculpas pelo atraso. Sua maneira de me apertar as mãos me liberta instantaneamente da inquietação. Só que não vai ser nada fácil escrever sobre ela. Vejo apenas dois olhos diante de mim, que são como os de Teresa no poema de Bandeira: mais velhos que o resto do corpo – os olhos nasceram e ficaram 10 anos esperando que o resto do corpo nascesse. E entendo sobre o que o poeta disse sobre os dela própria:
“Os olhos de Maysa são dois não sei que, dois não sei como diga, dois oceanos não pacíficos. Maysa são dois olhos e uma boca.”
A boca de Maysa falando e meus ouvidos escutando. Procuro em suas palavras um sentido lógico que complemente a emoção escolhida na sua voz de cantora. É estranho como a admiração à distância pode às vezes queimar etapas: não nos conhecemos senão indiretamente, através de amigos comuns como Aloysio de Oliveira ou Vinicius de Moraes – no entanto, nem um minuto é passado e ela já me fala de sua vida como se eu fosse um amigo de infância. Corremos o risco de só conversarmos assuntos sobre os quais eu não poderia escrever.
-         Porque não? Pode escrever sobre o que você quiser.
Ela vem de uma seção de análise – a análise de grupo: parece embalada na franqueza ali exercida, prolongando-a em tudo que me diz. Prefere análise individual:
-         Já tenho os meus problemas, porque vou me chatear aguentando os dos outros? O que eu quero é viver a minha vida, amar, ser amada, fazer amor. Sofro de solidão. Sou uma romântica.
Como um analista improvisado, vou tentando explicar o seu temperamento, a partir da qualidade que parece presente em tudo na sua vida: a necessidade de amar e a fatalidade da solidão; a força da mulher erigida em mito e a imaturidade de criança; a moça de sociedade e a vida boêmia; a artista profissional e a amadora que gosta de pintar e escrever; até mesmo a mulher magra com tendência a engordar.
-         Não foi tendência a engordar: foi bebida mesmo. Tomei um pileque que durou de 58 a 62. Fiquei com 96 quilos. Deixei de beber e perdi litros e litros.
Eu bebendo, e ela tomando uma xícara de café a cada uísque meu.
-         Beber é muito bom. Muito melhor que não beber. Mas eu não podia: ficava impossível, agredia as pessoas. Um dia vi um amigo nosso saindo pelos fundos para fugir de mim, fiquei chateada, resolvi parar.
A surpreendente desinibição com que ela fala no problema é a prova de que soube enfrentá-lo. Quando todos a supunham com a carreira encerrada, ressurgiu como se tivesse renascido. Não é sem razão que admira Sarah Vaughan ou Ella Fitzgerald, mas sua admiração maior é mesmo por Judy Garland.
-         Eu me casei muito moça: com 17 anos. Ele era 18 anos mais velho que eu, para mim muito mais pai do que marido. Não levei propriamente vida de sociedade, mas me sentia muito tolhida no meio daquela gente toda. Acabava tendo de jogar buraco, pif-paf, ir a boates... o que eu gostava era de cantar.
Aprendeu piano e aos 12 anos compôs a sua primeira música. Que acabou em disco, quando tinha 19 anos, sugerido um dia por um produtor em visita à sua casa. O sucesso deixou a família desconcertada: não era exatamente o que esperavam dela. Por essa ocasião teve um filho (hoje com 18 anos). A família inteira compareceu a sua estreia na TV Record. Daí para frente a situação ficou insustentável. Deixou a família e continuou cantando: no Rio, em Buenos Aires, em Paris, dois anos na boate Blue Angel em Nova Iorque. Sete anos de cura e repouso na Espanha. Outros casamentos, quatro ao todo. E voltou a cantar.
O novo long-play que está lançando esta semana talvez seja o mais importante dos 25 que já gravou: representa a sua nova maneira de cantar e a sua verdadeira maneira de ser. Tentou o teatro, tentou a novela, tentou o show popular, com jogos de luzes e pernas de fora, numa obstinada procura de renovação. Mas não encontrou como agora a verdade da sua arte, despojada de artifícios, na voz nascida nota por nota diretamente do coração. É ela própria que está ali, autêntica, vivida e amadurecida. Não esconde idade: está com 38 anos feitos. Não tem medo de envelhecer nem de morrer. Tem medo é de enfrentar o público. Mesmo indiretamente através de uma entrevista ou do que escrevam sobre ela. Hoje, por exemplo, pensou seriamente em inventar uma desculpa para adiar nosso encontro, dizer que o pai estava passando mal, ou que ela tinha ido para Maricá (onde ela está construindo uma casa que é atualmente o seu sonho de uma nova vida e de um novo amor). Mas acaba conversando comigo até quatro e meia da manhã, e quando lhe digo, ao despedir-me, que não saberei como escrever sobre ela, sugere que eu ouça seu novo disco, preste atenção nas palavras:
-         Eu estou toda ali.


(Publicado originalmente no CADERNO B do JORNAL DO BRASIL - Rio de Janeiro, 2ª feira, 11 de novembro de 1974.)

6 de maio de 2013

Curiosidades: Contracapa de Maysa sings songs before dawn (1961)


Maysa sings songs before dawn


Texto de contracapa (TRADUÇÃO)

Esta é a voz de Maysa. A cantora mais popular e emocionante do Brasil. Sua voz – quente, infinitamente sedutora, – é calorosamente convincente, suas performances são hipnóticas. Com extraordinária arte (e um punhado de sotaque) Maysa se estabelece imediatamente neste, seu disco norte-americano de estreia, como uma das grandes estrelas internacionais. Nascida numa das mais distintas famílias do Rio de Janeiro, Maysa foi “descoberta”, enquanto cantava numa de suas próprias festas. Roberto Corte-Real, diretor artístico e de repertório da gravadora Columbia no Brasil, estimulou-a a gravar algumas de suas canções e Maysa concordou, estipulando que os direitos autorais deviam ser cedidos ao Instituto Brasileiro do Câncer. O resultado do disco foi um sucesso instantâneo, e Maysa se encontrou lançada numa nova e inesperada carreira. Como Maysa Matarazzo (ela é esposa do conde André Matarazzo) esta cantora vibrante apareceu nos principais clubes do Rio de Janeiro, São Paulo, Buenos Aires e Uruguai. Os discos subsequentes trouxeram-na mais sucesso, e ela estrelou o elenco de programas de rádio e televisão por toda América do Sul. Maysa também apareceu na famosa casa de shows Olympia em Paris, no Japão e no Blue Angel de Nova Iorque. Ela ganhou por duas vezes consecutivas todos os quatro maiores prêmios do Brasil: O Disco de Ouro, A Antena de Prata, o prêmio de Melhor Cantora da TV do ano e o Troféu Roquette Pinto, nomeada para um dos maiores artistas do Brasil, como melhor cantora de boate, rádio e televisão. Neste programa provocante, Maysa canta em inglês, francês, espanhol e na sua língua nativa, português. As três canções talvez desconhecidas do público norte-americano são a exótica brasileira Night of my Love, a mordaz francesa Ne Me Quitte Pas do compositor-cantor Jacques Brel e a balada chilena La Barca. Autumn Leaves, que é cantada em francês e inglês, combinando os talentos do poeta francês Jacques Prevert e do letrista americano Johnny Mercer, é a única outra canção não-nativa. As outras, todas standards norte-americanos, foram deliberadamente escolhidas por suas qualidades dramáticas. Todas as canções gravadas neste disco dão a Maysa a oportunidade de cantar com paixão, envolvimento pessoal e soberba musicalidade, qualidades que tem trazido a ela um séquito fervente e fiel em sua pátria. 



22 de abril de 2013

Imprensa: O grande amor de Maysa Matarazzo - Diário de Notícias, 29/09/1957


O grande amor de Maysa Matarazzo 


Um vestido vermelho entre violinos –
Recordações do colégio de freiras –
Cantar não é pecado – Romance inacabado – A tentação do teatro – O momento sagrado – Tudo em paz – Renunciar? Nunca

Entrevista exclusiva para a Revista Feminina

(Especial para a Revista Feminina)

O auditório estava às escuras. O ensaio havia começado. A orquestra, no palco. Maysa Matarazzo cantava Mea Culpa. O repórter sabia que a entrevista só podia ser feita durante o ensaio. Maysa devia ir ao hotel trocar de roupa, depois atuaria no programa de televisão e, logo a seguir, tomaria o avião de volta para São Paulo. O repórter chegou até a beirada do palco, lápis e papel na mão.

-         Maysa!
A orquestra tocava outra música. O maestro indicava os andamentos aos instrumentistas. E, assim, entre as pausas dos violinos, fez-se a entrevista.
-         Maysa, você sabe que parece uma menina com esses cabelos despenteados?
-         Não tive tempo para ir ao cabeleireiro.
-         Tem uma cabeça de artista jovem e bonita.
-         Jura?
-         Então! Onde nasceu?
-         No Rio. Minha família foi residir em São Paulo quando eu contava três anos de idade.
-         Onde estudou?
-         No Colégio Sacre-Coeur de Marie.
-         Quando começou a cantar?
-         No coro do colégio. Ali também aprendi que cantar não é pecado.
-         Não é, não. A arte resume o que de mais puro existe em todas as religiões.
-         Você disse tudo. Sabia que estudei seis anos de piano?
-         Ótimo. E como iniciou a carreira?
-         Em casa, sem pensar em me tornar profissional. Ouviram-me uns amigos de meu pai, gravaram minha voz em fita. Pouco depois, fiz o primeiro long-playing para a fábrica RGE, em novembro do ano passado.
-         E a sua estreia para o público?
-         Foi no dia 13 de abril, pela TV-Canal 7, da Rádio Record de São Paulo. Nem queira saber a surpresa de muitos, a minha alegria, os debates na família, os comentários dos jornais. Estreia emocionante.
-         É verdade que destina tudo que ganha a instituições de caridade?
-         Sim.
-         E quanto ganha?
-         Vinte e cinco contos em cada programa de televisão no Rio, vinte e cinco contos em cada programa de televisão em São Paulo. Falando em cruzeiros, cinqüenta mil cruzeiros semanais. Cantar não é pecado...
-         Pretende fazer tournées?
-         Mais tarde, talvez.
-         Algum dia pensou em escrever romance?
-         Comecei, parei no meio, não tinha título.
-         Que heroína de peça teatral desejaria viver?
-         Alma, personagem surrealista da comédia de Sophie Rosenhaus O Ambutis.
-         Sophie Rosenhaus?
-         É uma autora desconhecida, mas que terá fama, breve.
-         Qual o trabalho em casa que você mais gosta?
-         Nenhum. Em casa, o meu prazer é cuidar do filho e ouvir música.
-         O que mais aprecia no Rio?
-         Tudo. O Rio.
-         E em São Paulo?
-         Detesto o clima.
-         Qual a mulher mais elegante, a carioca ou a paulista?
-         A mulher brasileira.
-         Como se inspira para compor suas músicas?
-         Em casa. A melodia surge em mim, distante, até que se apossa de toda a minha sensibilidade. Canto a melodia, fazendo a gravação na fita. Depois, eu mesma escrevo a letra. É um momento sagrado. Vou ao piano e faço o acompanhamento. Minhas canções são dolentes, sentimentais: Tarde triste, Adeus, Mundo novo... a última intitula-se Felicidade triste. A música é o meu grande amor.
-         Maysa, reconstituiu definitivamente o seu lar?
-         Sem, graças a Deus.
-         Ninguém, falará mais em desquite?
-         Ninguém, graças a Deus.
-         Algum dia poderá renunciar à carreira artística?
-         Isso, nunca.
A sonoridade vibrante dos violinos no palco era como um convite irresistível à música. Maysa Matarazzo despediu-se do repórter. 


(Publicado originalmente no jornal DIÁRIO DE NOTÍCIAS, em 29 de julho de 1957.)

15 de abril de 2013

Imprensa: (Discoteca) Um novo estilo melódico - Correio da Manhã, 18/05/1958


Discoteca
Claribalte Passos


Um novo estilo melódico

Comentamos o disco long-playing RGE (selo preto), de nº XRLP-5.013, em gravações de alta fidelidade, 33 1/3 r.p.m., exemplar de 12'' (doze polegadas), vocal, sob o título de: "CONVITE PARA OUVIR MAYSA Nº 2". Temos, aqui, nada menos de doze criações da discutida intérprete MAYSA MATARAZZO, acompanhada por HENRIQUE SIMONETTI E ORQUESTRA "RGE". Na face A, desfilam: "Meu Mundo Caiu", de Maysa Matarazzo; "No Meio da Noite", de Aloysio Figueiredo e J. M. da Costa; "Bronzes e Cristais", de Alcyr Pires Vermelho e Nazareno de Brito; "Por Causa de Você", de Antônio Carlos Jobim e Dolores Duran; "Bom Dia, Tristeza", de Adoniran Barbosa e Vinicius de Moraes, e "Felicidade Infeliz", de Maysa Matarazzo. Na face B: "Bouquet de Isabel", de Sérgio Ricardo; "Mundo Novo", de Maysa Matarazzo"; "E a Chuva Parou", de Ribamar, Esdras Pereira da Silva e Victor Freire; "Caminhos Cruzados", de Antônio Carlos Jobim e Newton F. de Mendonça; "Meu Sonho Feliz", de Nanai, e, finalmente, "Diplomacia", de Maysa Matarazzo. Em vários discos desta etiqueta, observamos, mencionadas no selo os nomes das editoras. Achamos, na verdade, um hábil sistema não só de resultados comerciais profícuos, como também útil no tocante ao ponto de vista informativo. Neste seu novo long-playing a cantora paulista MAYSA MATARAZZO oferece-nos um expressivo recital de páginas melódicas, no ritmo do samba-canção. Algumas delas, de sua própria autoria, revelando-se mais uma vez excelente e inspirada compositora. "MEU MUNDO CAIU", por exemplo, constitui insuspeito testemunho e provavelmente teria o mesmo êxito de "OUÇA", não fosse a falta de "consciência" dominante nas "falsas paradas de sucesso" de nossas emissoras, nas quais o critério de seleção não é orientado pela qualidade, autêntico sucesso de vendagem, mas cavilosamente através de uma suspeita simpatia... Quem escuta rádio hoje em dia, no Rio, não pode esconder a repulsa diante de tão pouca vergonha! Infelizmente, trata-se de mal irremediável. Salve-se quem puder. Voltando a intérprete MAYSA, temos a salientar que reedita neste LP, "performances" anteriores e exterioriza com méritos um estilo diferente e personalíssimo no gênero melódico brasileiro. "Meu mundo caiu", "Caminhos cruzados", "Bouquet de Isabel", "Bronzes e cristais", "Por causa de você", figuram entre as melhores criações de Maysa. Louvamos também, os bonitos trabalhos orquestrais o que mais contribui a fim de aumentar as boas qualidades do presente microssulco da RGE. Ótimo, o nível de sonoridade das gravações, somente prejudicada em certos momentos pela massa empregada na fabricação acusando chiado. Muito sugestivo, em cores de real beleza, a foto da capa do LP. Cotação: ÓTIMO. - C.P.

(Publicado originalmente no jornal CORREIO DA MANHÃ, domingo, 18 de maio de 1958.)