31 de março de 2014

Imprensa: Maysa trocou o copo pelo Canecão - O Cruzeiro, 1969


Maysa trocou o copo pelo Canecão



Reportagem de Rosinha Sarda

“Ela trocou o copo pelo Canecão.” Um jogo de palavra de Leon Eliachar para falar da volta. Na hora em que se procura o novo, eis Maysa voltando: na voz, as mesmas canções, o mesmo mormaço de antes. Uma cartada de risco, no décimo ano de carreira: a cantora intimista, da solidão e do sussurro, vai ao Canecão, onde duas mil pessoas vão amá-la. Maysa de volta. Ela conta idas e vindas.

-         Maysa, porque você canta?
-         Eu acho que as pessoas devem fazer as coisas que mais gostam e melhor sabem. Eu gosto e especialmente: sei cantar.
-         Cantar é um meio de vida, para você, ou tem outro significado?
-         Eu dei metade da minha vida para cantar. Portanto, cantar, para mim, não é um meio de vida; cantar, para mim, é a própria vida.
-         Quem é o público?
-         Aquele que aplaude ou silencia. O outro não me interessa.
-         Que valor tem o público?
-         Não meço o público. Estou ali para eles. Eles é quem devem ser perguntados.
-         Você gosta mais do público selecionado?
-         O que é que você chama de público selecionado? A minha voz é igual para todos os que me ouvem. Se eles entre si se sentem diferentes, não é meu o problema.
-         Você é uma cantora de elite?
-         Eu sou cantora de músicas.
-         Houve época em que você bebia muito antes de se apresentar, porque?
-         Eu não bebia só antes de me apresentar. Eu bebia sempre. Porque? Porque queria, ora essa!
-         Você tem ódio?
-         É o sentimento mais pobre e mais chato que existe. Deve dar um trabalho danado odiar os outros.
-         Qual o sentimento mais constante em você: ódio, amor, alegria ou tristeza?
-         Eu busco amor em tudo.
-         Porque você só canta músicas tristes?
-         Talvez seja com elas, com as quais mais me identifico. Mas não é verdade que eu só cante músicas tristes. Canto o que gosto e o que sinto no momento. e não faço da tristeza profissão.
-         Que é que sente quando a chamam de cantora bêbada?
-         Uma tremenda vontade de tomar um pileque para dar-lhes razão, para não deixá-los no papel de mentirosos. E também uma profunda pena pela falta de assunto dessa gente.
-         Você tem, no olhar e no falar, uma agressividade profunda. Contra o que?
-         Isso é uma opinião sua. Eu não agrido ninguém. Eu me defendo. Eu fujo. Me defendo de pilantras. Fujo da burrice.
-         Gosta da vida, ou gostaria de estar morta?
-         Amo a vida com todos os seus problemas e todas as simples coisas do dia a dia.
-         Houve época em que preferia estar morta?
-         Sim, houve essa época. graças a Deus já não é assim.
-         Como interpreta o sentimento de amizade?
-         Para mim é a coisa mais importante que há. Desde que seja verdadeiro. Sou muito desconfiada, sabe?
-         Você tem amigos?
-         Poucos, mas muito verdadeiros. Um deles, talvez o maior: Ítalo Rossi.
-         Porque saiu do Brasil? Estava fugindo?
-         Porque tive vontade de ver outros problemas, amar em outros idiomas, cantar para outras plateias. Eu fugi sim. Me enchi de ser pão-de-ló de festa de determinada imprensa que estava muito em moda naquela época. Me cansei de ser importante só no meu país. Fui ser importante em outros lugares, não só pelo meu canto, mas também como ser humano.
-         Porque voltou?
-         Porque enfim, meu povo, minha gente, minha terra e minha saudade me trouxeram de volta.
-         Qual a sua maior decepção?
-         Não digo porque vocês não poderiam publicar.
-         Você ainda bebe?
-         E você, não?
-         Poderá um dia voltar a beber?
-         Nesse dia, mandarei um convite a todos os que possam interessar-se para a glória geral dos fofoqueiros profissionais.


(Entrevista publicada originalmente na revista O CRUZEIRO, em 1969)

17 de março de 2014

Imprensa: Maysa ganha 50 mil cruzeiros por dia - Revista do Rádio, 1958


Maysa ganha 50 mil cruzeiros por dia


Texto de MAX GOLD – Fotos de HÉLIO BRITO

Há poucos dias os jornais noticiaram que Maysa iria ganhar uma fortuna por uma série de exibições no norte. A cantora, em entrevista à REVISTA DO RÁDIO, tudo confirma.
-         Fui contratada pelos empresários Carlos Silva e Ribamar e Ribamar Rosa para uma excursão de 14 dias, que começará em Manaus, e terminará em Salvador. Receberei, livre de qualquer despesa de passagens e hospedagens em hotel de primeira classe, a importância de meio milhão de cruzeiros.
-         Quantas atuações diárias?
-         Duas por dia e há uma cláusula, que obrigo em todos os meus contratos: não me apresento em praça pública nem em cinema. Estou atualmente cobrando por minhas apresentações fora do Rio, 50 mil cruzeiros diários e posso dizer com satisfação que os empresários tem pago e tido lucro.
-         Vai se apresentar fora do Brasil?
-         Tenho duas propostas da Argentina, para fazer teatro, rádio, boate, televisão, durante um mês. Respondi pedindo um milhão de cruzeiros e estou aguardando a resposta de quem se manifestar primeiro para assinar o contrato. Reservei o mês de maio para os meus programas na Rádio e TV-Record e a gravação de um LP na RGE, que se chamará “Maysa ao redor do mundo”, em que cantarei em várias línguas. Em junho farei televisão em Belo Horizonte. Em julho viajarei pelo interior de São Paulo e possivelmente em agosto ou setembro irei à Europa, para atuar em Portugal ou na França.
A conversa tem lugar no aeroporto Santos Dumont, enquanto Maysa espera a chamada para tomar o avião para São Paulo. Ela aproveita, compra um brinquedo para o filho e uma flâmula do Botafogo, seu clube do coração. Aproveitamos e indagamos quanto ela está recebendo da Record.
-         Cem mil cruzeiros por quatro audições por mês, conjugadas de rádio e televisão. Meu programa que era realizado no auditório “pullman” da Record passou agora a ser feito no estúdio da televisão junto do aeroporto de Congonhas, sem a presença do público.
-         Quem cuida de seus contratos?
-         Meu secretário, Hélio Capalbo, e meu advogado, dr. Orlando Bulcão Viana.
-         Como foi sua temporada em boate?
-         Muito boa. A última, na boate “La Boheme”, durou mais de um mês e eu recebia 15 mil cruzeiros diários. Vou muito bem, igualmente, de direitos autorais: o último trimestre rendeu 200 mil cruzeiros.
-         E o que tem feito com o dinheiro que ganha?
-         Parte é dedicada às obras de caridade e outra parte eu utilizo nos meus gastos. Sou dona de um apartamento em Botafogo e estou comprando um outro bem grande em Copacabana, para morar, pois resido em apartamento alugado.




(Matéria publicada originalmente na REVISTA DO RÁDIO, em 1958)

13 de março de 2014

Imprensa: Os "trinta litros" a menos de Maysa - Diário da Noite, 15/09/1969


Os "trinta litros" a menos de Maysa


Texto: Suad Hadha – Foto: João Peixe

Maysa, um dos únicos “fenômenos artísticos”, concedeu ontem entrevista coletiva à imprensa no Urso Branco, local onde irá estrear seu novo show. A grande intérprete e cantora pode ser considerada um dos acontecimentos mais importantes do nosso meio musical.
Enquanto muitos de nomeada lutam pela permanência na parada de sucesso, a cantora brasileira deixa o Brasil, não vai à televisão, grava poucas melodias e quando retorna, depois de longo tempo, é sempre bem recebida, lotando todos os locais onde se apresenta.
Maysa é a mensagem mais autêntica de singeleza. Responde a qualquer pergunta e dá o máximo de atenção a quem a interroga. Com seus trinta quilos a menos, a compositora e cantora de “Ouça”, “Meu mundo caiu” e outros tantos sucessos que iniciaram a verdadeira fase intimista da música brasileira, está como aquilo que o brasileiro da gema rotula de “enxuta”. Linda, autêntica como sempre se apresentou, diz que “nunca deixei de beber”. Só não tomo aqueles pileques famosos, mas deixar da bebida, jamais. Emagreci, uns trinta litros”.
Maysa confessa que cantaria, como Ângela Maria, em qualquer boate e não vê nisso nenhum problema. E com suas novas gravações, onde se incluem músicas de Roberto Carlos, Johnny Alf e outros compositores, totalizando vinte interpretações, inclusive da sua própria autoria, Maysa, após longa ausência de nossos palcos, voltará no Urso Branco.

GRAVAÇÕES

Embora seja profundamente saudosista, a cantora que encantou muitos países da Europa, gosta muito de Caetano Veloso e o considera um “cantor que quem interpretar suas músicas, estará dando o recado. Caetano é ‘sideral’, mas eu não gostaria de gravar nada dele, porque acredito em uma gravação que exija criação pessoal. Enquanto outros podem interpretar Caetano, eu gostaria que ele compusesse para mim, só para mim. Aí então eu gravaria, caso contrário, não”.
Teatro também é tema para Maysa. se por um lado não lhe sobra espaço para faze-lo, em seus planos consta uma peça com roteiro baseado em crônicas do imortal compositor Antônio Maria e músicas de Dolores Duran. Essa peça, Maysa pretende leva-la no próximo ano, com estreia marcada em teatros do Rio de Janeiro.
Outra pergunta que se fez nessa entrevista, foi sobre seu ponto de vista a respeito de Cauby. Maysa disse gostar muito dele como pessoa. E como cantor, embasbacou-se, pois nunca houvera pensado antes. Disse aos repórteres que prometia “parar e pensar”.
Gosta do seu futebolzinho, embora “pó-de-arroz” em torce em S. Paulo pelo Palmeiras; no Rio é Botafogo.
Adiantou que está confiante na música que defenderá no Festival Internacional da Canção, e, a instituição do “Troféu Maysa” à melhor intérprete desse mesmo festival, a fez muito feliz.
Nem por essa docilidade toda, Maysa deixa de responder que “em verdade Elis Regina é o pior caráter que conhece no ambiente que vive. Elis é falsa, intrigueira, sem desmerecer seu grande valor como cantora. Intérprete ela não é. Maria Bethânia sim é uma grande intérprete da nossa música. Enquanto isso, Nara Leão é puramente autêntica”.

BRUXARIAS

Maysa não crê nisso, e sorriu quando lhe perguntaram se “Polanski não era um bruxo”. E vai além em todas suas considerações sobre o que há de acontecer. Para ela “felicidade é privilégio dos burros”.
Isso, segundo a cantora, é o mesmo que dizer que “não se vive com os pés fincados no passado e ser feliz é coisa de momento. Quem acreditar que se planta a felicidade em tempos, é burro mesmo. A gente terá sempre, no momento em que vive, sorrisos e tristezas. Terá a mesma coisa nos tempos idos. E será sempre assim”.
Maysa lê pouco, pela falta de tempo, mas confessou estar profundamente impressionada com o último livro que leu: “O Compromisso” de Elia Kazan.
Isso não impede de dizer que atualmente não componha mais. Faz, às vezes, poesia, mas “somente para consumo pessoal”.
Maysa é realmente a *palavra ilegível* mais autêntica mesmo. É capaz de dizer com convicção que “gosto muito mais de cachorro vira-lata do que desses atrevidos à bacanas. O vira-latas não tem trejeitos”.
De todos os convidados não faltou Werner, o cabeleireiro de Maysa, *palavra ilegível*. Foram muitos abraços *palavra ilegível* se viram e não faltou o clássico beijo de saudades quando se encontraram mais perto.
Realmente muita coisa *palavra ilegível* se diria de Maysa. No entanto, o mais importante é esse extravasamento e a alegria que essa excepcional compositora e cantora demonstrou.  Rejuvenescida, com seu filho a tira colo, *palavra ilegível* dos poucos sucessos permanentes de nosso meio romântico, falou à imprensa e dialogou com todos numa noite de muita música.


(Reportagem publicada originalmente no jornal DIÁRIO DA NOITE, na 5ª feira, 15 de setembro de 1969)

25 de fevereiro de 2014

Imprensa: O que há com Maysa? - Jornal do Brasil, 23/05/1962


O que há com Maysa?

José Carlos Oliveira


Acompanho Maysa, de longe, desde que ela surgiu em São Paulo. Interessaram-me, inicialmente, aqueles indícios de uma existência insatisfeita e que variava bruscamente. Primeiro, Maysa Monjardim, menina em Vitória, onde também eu cresci; depois, Srª Maysa Matarazzo, bela, rica e voluntariosa. Aos 21 anos, quando as mulheres começam a viver, ela abandonava o matrimônio para entregar-se à música, ao público que estava precisando daquela mulher atormentada e talentosa, e também ao vício: a própria cantora parecia interessada numa publicidade que colocava o alcoolismo e a solidão como elementos indispensáveis à atmosfera Maysa. Escândalos; suicídios frustrados; canções tristes que ela mesma compunha, sintetizando as suas dificuldades num conflito pronominal (é a palavra exata) que conheço de perto. Eu tenho muitos mim – ou isto estava num poema de Carlos Drummond de Andrade? Pouco importa; Maysa é quem vive essa dificuldade que no poeta não passaria de um sofrimento encantador – o sofrimento feliz ocasionado pelo conhecimento de infinitos e tênues significados. Maysa, no entanto, usa os pronomes para exprimir a obliqüidade, o caráter resvalante do seu ser – ela é sempre outra coisa, sempre inatual em relação a si mesma, e este é o seu drama particular. Não se apega a nada; não crê em nada; tem medo de amar; entregar-se com sofreguidão, em seguida se recolhe ao anonimato do seu sofrimento e complexidade; o álcool, então, é sedativo eficaz. Maysa e Ava Gardner são muito parecidas.
O Cruzeiro desta semana publica uma reportagem cruel sobre Maysa. Cruel, mas consentida; a cantora se humilha publicamente, ao mesmo tempo em que reivindica o respeito público para as suas singularidades e quedas. Mostra-se inteira, e quer ser aceita na sua dimensão; antes de tudo, é autêntica, como todos os malditos. Seus versos em espanhol: “Quién ha muerto? El mundo, o Yo?” Falam sempre na solidão e no abandono. Ela precisa de amor, mas foi esquecida: “No oyen mis gritos. Quedé dormida y creyerón o pensarón: se murió.” O desejo, imorredouro, de novas quedas – em suma, ela quer destruir-se, renasce no isolamento, corroendo e negando esse bem inestimável que é a paz: “Es una tarde tan calma, tan calma que puede ser monótona.”
A imagem de Maysa na televisão. Os grandes olhos de pantera, dementes, sagazes, no rosto de traços meigos; o sorriso de mulher que sofreu muito... Ela reclama que se esqueceram dela, e no entanto, eu, que não cultivo os ídolos populares e raramente ouço os seus discos, surpreendo-me muitas vezes sentindo saudades dela. Fico triste de não ter conhecido Maysa quando criança; e que nossos caminhos não se tenham cruzado até hoje. Com minhas habilidades para cativar as mulheres desorientadas, certamente eu a faria esquecer, por momentos, o excesso de personalidades que dentro dela esperneiam – a triunfante, a bovariana, a medrosa, a sentimental, a enfurecida, a doida Maysa – cada personalidade se levantando no coração e sugerindo um caminho, um estilo, uma fuga, um encontro. E Maysa escravizada a cada impulso, correndo para onde ele a encaminha, julgando ser essa a viagem da verdade. Depois, como sempre, as mãos vazias, a decepção, a amargura: “Parece que el tiempo, cansado, monótono, y que se olvidaron de mi...” Percebe-se, nesse lamento, que sua existência não sabe como escapar ao ciclo fatal que se inicia no bar e no amor mendigo, e termina, matematicamente, na clínica de repouso. Pobre Maysa! Onde está o teu homem? Onde está a tua paz? Onde está a felicidade na qual acreditas firmemente? – na qual acreditas com uma obstinação admirável? Eu te compreendo, e compreendo o conflito que te dilacera; e por isso mesmo gostaria de dizer-te que a maldição particular de que te consideras vítima é algo bastante generalizado e, ai de nós, insolúvel. Só os malditos, Maysa, merecem a felicidade, mas só para eles é que ela não foi feita.


(Matéria publicada originalmente no Caderno B do JORNAL DO BRASIL em 23 de maio de 1962)

12 de fevereiro de 2014

Imprensa: Maysa volta à vida com poesia - O Cruzeiro, 05/1962


Maysa volta à vida com poesia


Reportagem de TABAJARA TAJES · ANTÔNIO RONEK


Ainda há pouco circulou o boato: a cantora Maysa Matarazzo perdeu a voz. Em São Paulo, seu pai, o Sr. Alcebíades Monjardim, desmentiu a notícia afirmando que sua filha canta melhor do que nunca e que logo estará no Brasil. A verdade é que Maysa passou realmente algum tempo sem cantar, internada em uma clínica de Buenos Aires, onde convalesceu escrevendo poemas em espanhol.

***

Ese tan-tan enloquecido
Que construye p’arriba
Matando al que está abajo

Y las manos, blancas, negras,
Que fueron hechas de abajo
¿Por qué construyen p’arriba?

¡Qué suelo cobarde es éste
Que recibe en sus entrañas,
De manos ya no humanas
Un pedazo de sí mismo!

***

No puedo, tras las rejas.
Las de oro las tiré,
Las de hierro, las rompí.
Esas, ahora, no las veo
¿Qué hacer con rejas como estas?

No oyen mis gritos.
Quedé dormida y creyeron
O pensaron: se murió.

No puedo quitarme las rejas
Que no puedo tocar.
Si yo por lo menos tuviera
Coraje para matar,
Estas rejas malditas
Que se me adelantaron.

***

Es una tarde tan calma,
Tan calma, que puede ser monótona.
El pez ya no busca el anzuelo
Pasa de largo ante la línea.
Y la tarde sigue
Hasta el pájaro se olvidó de cantar,
Y el hombre de encender las luces
Que traen la oscuridad
Se perdió del reloj.

Parece que el tiempo, cansado,
Se ha quedado triste, monótono,
Y que se olvidaron de mí...

Não foi só a noite,
Foi mais silêncio.
Tua ausência me buscou;

Não veio lágrima,
O dia já vinha
E só tua ausência
Foi que ficou.

Ficou sozinha
Com meu eu antigo,
E se entenderam,
Se completaram.

Então a lágrima
Caiu baixinho
No que restava
Do teu carinho.

***

Já nem brilha mais a lua.
O pedaço de nós dois
Se apagou
E eu ainda fiquei.

Mas fiquei tão acanhada...
Amanhã não serei sol
Inda mais pensar em lua.

Se pelo menos eu tivesse
A coragem de ser tua...

***

Com um esparadrapo marcando em seu pulso a cicatriz de seu último gesto de incompatibilidade com a vida, a cantora Maysa Matarazzo, “née” Maysa Monjardim, deverá chegar por estes dias ao Brasil, após algumas semanas de internação na Clínica Bethlem, da rua Coronel Diaz, 2.892, em Buenos Aires. Submetida a um regime de bife magro com salada sem azeite, bebendo apenas água mineral sem gás e dormindo cedo (sem pílulas), Maysa voltará também com a silhueta adelgaçada, pois, com menos 15 quilos, o que perdeu em peso ganhou em graça.
Maysa começou a escrever seus poemas em espanhol enquanto se recuperava, aproveitando as folhas brancas de uma agenda. Em um deles, seu subconsciente se revela de maneira impressionante: “No oyen mis gritos./Quedé dormida y creyeron/O pensaron: se murió”. No Brasil, pensaram que ela tinha perdido a voz, quando ela apenas tinha perdido o contato com as raízes da vida. a perda de sentido da vida que a levou a escrever em outro poema: “Parece el tiempo, cansado,/Se ha quedado triste, monótono,/Y que se olvidaron de mi...”
A cantora Maysa Matarazzo não titula poemas. Escreve simplesmente o que lhe vem a cabeça, ao sabor da inspiração. Segundo seus pais, tão logo conclua a gravação de alguns discos em Buenos Aires, voltará ao Brasil – onde lhe negam o título de melhor entre as melhores. Assim recuperada para a vida pelo caminho da poesia, a cantora fará suas mudanças para iniciar uma nova etapa de sua carreira, cantando para os norte-americanos e para os europeus, em uma excursão em que reverá com a alma sua voz dolorida, os segredos de uma alma que vive em conflito com o mundo.






(Reportagem publicada originalmente na revista O CRUZEIRO, em maio de 1962)


22 de janeiro de 2014

Especial: Conselho (1958)



Em 1958, com menos de dois anos de carreira completados, Maysa já alcançara o topo do sucesso como a maior e mais bem paga cantora do Brasil. O crescente sucesso de “Ouça” (1957), seguido pelo outro clássico “Meu Mundo Caiu” (1958) tornaram-na um sucesso meteórico que já começara incomum: despontara primeiramente do disco para depois o rádio e por fim a novíssima televisão. Voltando a 1958, seu quarto long-playing – Convite para ouvir Maysa Nº 3 – provocou reações ambíguas da imprensa especializada, que se dividiu em críticas negativas e positivas ao álbum. Mas o consenso geral, que é notável aos ouvidos de qualquer ouvinte mais atento, foi de que o mais recente disco da cantora não continuava o brilhante trabalho desenvolvido em Convite para ouvir Maysa Nº 2, álbum aclamado, lançado no começo do ano, que ainda ganharia o Troféu Chico Viola por Melhor Disco de 1958 e de quebra seria o long-playing recordista de vendas na carreira da cantora. Quanto à Convite para ouvir Maysa Nº 3, apesar de realmente não ser tão bom quanto o trabalho anterior, continha algumas obras-primas na voz de Maysa, como “Eu Não Existo Sem Você”, Suas Mãos”, “As Praias Desertas” e três novas composições de Maysa – Saudades de Mim”, “Fala Baixo” e “Maria Que é Triste”. Por alguma razão que não foi abordada em nenhuma das três biografias sobre Maysa, foram editadas no disco duas versões das canções “Saudades de Mim” (letra e música da própria Maysa) e “Conselho” (Denis Brean e Oswaldo Guilherme) – no caso de “Saudades Mim”, a grande diferença entre esta ‘versão alternativa’ e a outra célebre  estava no arranjo, que continha um belo acompanhamento de violão. Já “Conselho” é completamente diferente; trata-se de samba gingado com arranjos de sopros e metais e coro, que em nada tem a ver com a versão famosa, incluída também na primeira coletânea de Maysa lançada naquele ano – Os grandes sucessos de Maysa. Como essas faixas “inéditas” não foram incluídas em futuros relançamentos e coletâneas, portanto, só quem possuía o álbum físico (que por sorte) as incluísse, poderia ouvi-las. Esse é o meu caso, que agora venho disponibiliza-las para download aos leitores do blog, como presente de comemoração pelos nossos quatro anos de existência. Esperamos que essas faixas sejam incluídas devidamente remasterizadas em futuros relançamentos.



Especial: 37 anos sem Maysa


37 anos sem Maysa


Maysa. Apenas um nome – e que nome. Quantos artistas têm o privilégio de ter suas personalidades completamente indissociáveis de nomes comuns? Poucos, Maysa foi um deles. Mas nem sempre foi assim. A mulher que nasceu Monjardim e um dia foi Matarazzo, precisou de muita coragem para se livrar dos pesados grilhões que a acorrentavam, para poder enfim se tornar simplesmente Maysa. Nada foi fácil, tudo teve um preço muito caro. Numa época em que ser cantora era amoral, mal visto, Maysa foi cantora. Numa época em que ser compositora num ambiente estritamente masculino era incomum, Maysa foi compositora. Numa época em que ser separada do marido era uma aberração, Maysa desquitou-se. Não foi apenas ótima cantora, compositora, intérprete; foi muito mais que isso. Era uma mulher à frente do seu tempo, que não hesitou em romper barreiras, quebrar tabus e ir além. Isso por satisfação pessoal, de espírito, antes das bandeiras e dos partidos. Precisaram existir muitas ‘Maysas’ para que alcançássemos o grau de autonomia e liberdade de ação e pensamento que nossa sociedade possui hoje em dia. Há exatamente 37 anos atrás ela foi embora deste mundo para deixar de ser cantora, compositora, intérprete, atriz, pintora, poeta e ser apenas uma estrela reluzente no céu; porque, afinal, Maysa era muito maior do que o que todas as expressões artísticas poderiam lhe oferecer, e era evidente que sua trajetória tão densa poderia ser interrompida fatalmente por um choque violento, como um cometa. Ela precisava de uma dimensão estelar. Finalmente foi encontra-la no espaço sideral, que é gigantesco e infinito, um pouco como a própria Maysa.


Os três mal amados
João Cabral de Melo Neto

O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato
O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia,
meu endereço
O amor comeu meus cartões de visita, o amor veio
e comeu todos os papéis onde eu escrevo meu nome
O amor comeu minhas roupas, meus lenços e minhas camisas,
O amor comeu metros e metros de gravatas
O amor comeu a medida de meus ternos,
o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus
O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos
e de meus cabelos 
O amor comeu minha paz e minha guerra,
meu dia e minha noite, meu inverno e meu verão
Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça,
meu medo da morte




Descanse em paz, Maysa