29 de abril de 2014

Imprensa: Maysa anuncia casamento com jornalista argentino - Última Hora, 12/07/1962


Maysa anuncia casamento com jornalista argentino


SÃO PAULO (UH) – Afirmando estar “tarada” pela Argentina e anunciando seu noivado com um jornalista de “La Prensa” (chefe da seção do Exterior), Maysa recebeu a reportagem de UH, no apartamento de seus pais, já com a noticia engatilhada: “Estava louquinha para contar isso em São Paulo, enquanto o avião sobrevoava a cidade” (chegou de Buenos Aires às 22 horas).
Embora não declarasse o nome de seu príncipe encantado (“por enquanto é falta de ética”), Maysa nos descreveu o seu tipo: é alto, moreno, possui 32 anos, lembra Gary Cooper em certos momentos, tem forte personalidade e é “cobrão” em “La Prensa”.
Começou moço, como “foquinha”, porém, agora, ocupa o alto cargo de chefe de noticiário internacional, após ter militado em todos os ramos do jornalismo. Conheceu-o há seis meses.

Alcoólatra: não

Pesando oito quilos menos e mais linda (segundo seus próprios pais, e Jayme, o filho de seis anos), Maysa manifestou mágoa contra a “imprensa amarela”, cujos repórteres, queixa-se, andaram espalhando boatos absurdos e comprometedores a seu respeito.

“Não estava internada numa clínica especializada em recuperar alcoólatras. Apenas dormi 45 dias num hospital seguindo um “tratamento de sono”, o que me fez muito bem” – explicou. Exibindo feridas no braço, provocadas por injeção de “Pentotal”, ajuntou a cantora: “muitos pensam que isto é sintoma de viciado em morfina. Pura imaginação”.

Em princípios de 1963, a “cantora-coqueluche” casar-se-á em Buenos Aires e pretende passar a lua de mel em Roma (perto de uma praia com a qual sonha há quatro anos).

Ilha desconhecida

Maysa vai descansar das temporadas que fez em Buenos Aires e Montevidéu. E, para que ninguém a perturbe, seguirá nos próximos dias para uma ilha desconhecida, levando Jayme e o “nem meus amigos íntimos saberão para onde vou e o estado em que fica a ilha. Ali só existem 4 casebres e um casarão”. Por outro lado, se lhe oferecerem um contrato fabuloso, de muitos milhões, modificará os planos, só até setembro, quando embarcará para a Europa. “Minha voz – esclareceu – a mesma voz que alguns “picaretas” disseram ter “secado”, encontra-se perfeita. Nunca foi tão boa”.

Contou que “abafou” no canal 13 de Buenos Aires (“show” de Antônio Pietro), de tal maneira que a polícia argentina precisou escolta-la muitas vezes, defendendo-a de admiradores e “admiradores” na porta da TV. Cumpriu contrato também na boate mais “chic” do momento, lá, a “676” (música moderna). Em Montevidéu, sempre dentro de seu repertório (não faço concessões), exibiu-se no canal 4, com “show” próprio, e na boate “El Pátio” (de intelectuais “neuróticos”).

Vai à Europa

Em setembro, Maysa seguirá para Portugal, com diversos contratos. O primeiro: “Cassino do Estoril”. Depois, percorrerá, Espanha, França, Itália, Alemanha, retornando ao Brasil.
“Estou tarada pela Argentina. Não tenho nenhuma queixa do Brasil, a despeito de certa imprensa ter me ofendido tanto, mas a Argentina é uma terra formidável. Do povo nem se fala, um “brinco” de gente. Quando voltar da Europa, ficarei uns dias em São Paulo e retornarei à Buenos Aires, a fim de encontrar-me com o... meu noivo” – disse. Maysa não voltará ao Brasil depois de casada. “Tchau pra vocês”.
Finalizando, declarou que o seu estado de saúde é excelente, embora sinta fadigas de viagem. “Quando sair da minha ilha, estarei o ‘fino’”, prontinha para cantar na Europa.


(Reportagem publicada originalmente no jornal ÚLTIMA HORA, na quinta-feira, 12 de julho de 1962)


16 de abril de 2014

Imprensa: Maysa: contrato de três anos na TV americana - A Noite, 28/02/1961


Maysa: contrato de três anos na TV americana



Muito mais magra, trajando calças colantes de variadas cores e blusa bege, que mais ressaltavam sua beleza exótica, Maysa Monjardim – que também já foi Matarazzo – e ao nome famoso renunciou, pelo ideal artístico de uma carreira hoje vitoriosa, ensaiava com um pequeno conjunto musical, sob o calor intensíssimo de possantes refletores, num estúdio de TV, quando foi localizada pelo repórter. E, aproveitando um momento de descanso, antes de novo programa, falou-nos ligeiramente sobre seu recente estado nos Estados Unidos.
-         Foi das mais proveitosas, a minha passagem pela televisão americana, onde estou cumprindo contrato de três anos, numa das emissoras de Nova York – disse-nos a famosa intérprete e compositora da música popular brasileira.
Prosseguindo na rápida palestra – que o repórter procurou abreviar ao máximo, dada a elevadíssima temperatura reinante – confessou-nos Maysa que teve a melhor impressão do ambiente técnico e artístico dos estúdios norte-americanos, “com quem muito temos, ainda, que aprender, não só tecnicamente (imagem e som), mas, também, quanto aos programas, que são maravilhosos.”
Sobre nossa música popular nos Estados Unidos, disse-nos, desencantada:
-         Infelizmente, não está tão difundida tanto quanto seria de desejar. Com exceção de Ary Barroso como compositor e Leny Eversong como cantora, que obteve, realmente, estrondoso sucesso em Las Vegas, nenhum outro artista nosso logrou alcançar sucesso, ali.
-         Nem o Cauby Peixoto? Indaga, surpreso, o repórter.
E ela, mais surpresa, ainda, da nossa surpresa: “Porque Cauby Peixoto? Posso afiançar-lhe que, pelo menos em Nova York, jamais se ouviu falar em Cauby Peixoto. Não é fácil vencer nos Estados Unidos, onde abundam valores, procedentes de todas as partes do mundo.”
-         E que sugestão apresentaria para sanar essa falha?
-         Verbas do governo, para excursões artísticas, em larga escala.
Dizendo que prefere atuar como intérprete, mais do que como compositora, Maysa declarou-nos estar satisfeitíssima com sua carreira – não só artística, mas financeira também; que passará os próximos três anos presa a contratos, nos Estados Unidos, e que pretende dar um giro pela Europa e, nos intervalos, voltará ao Brasil “a fim de matar as saudades dos seus queridos telespectadores, dos quais vai sentir muita falta e deles também espera o mesmo.” E finalizando:
-         Voltarei no dia 5 de abril para Nova York, onde gravei um LP, que está prestes a sair. Aqui também estou gravando outro, que espero seja lançado antes do meu regresso.”


(Entrevista publicada originalmente no jornal carioca A NOITE, terça-feira, 28 de fevereiro de 1961)

31 de março de 2014

Imprensa: Maysa trocou o copo pelo Canecão - O Cruzeiro, 1969


Maysa trocou o copo pelo Canecão



Reportagem de Rosinha Sarda

“Ela trocou o copo pelo Canecão.” Um jogo de palavra de Leon Eliachar para falar da volta. Na hora em que se procura o novo, eis Maysa voltando: na voz, as mesmas canções, o mesmo mormaço de antes. Uma cartada de risco, no décimo ano de carreira: a cantora intimista, da solidão e do sussurro, vai ao Canecão, onde duas mil pessoas vão amá-la. Maysa de volta. Ela conta idas e vindas.

-         Maysa, porque você canta?
-         Eu acho que as pessoas devem fazer as coisas que mais gostam e melhor sabem. Eu gosto e especialmente: sei cantar.
-         Cantar é um meio de vida, para você, ou tem outro significado?
-         Eu dei metade da minha vida para cantar. Portanto, cantar, para mim, não é um meio de vida; cantar, para mim, é a própria vida.
-         Quem é o público?
-         Aquele que aplaude ou silencia. O outro não me interessa.
-         Que valor tem o público?
-         Não meço o público. Estou ali para eles. Eles é quem devem ser perguntados.
-         Você gosta mais do público selecionado?
-         O que é que você chama de público selecionado? A minha voz é igual para todos os que me ouvem. Se eles entre si se sentem diferentes, não é meu o problema.
-         Você é uma cantora de elite?
-         Eu sou cantora de músicas.
-         Houve época em que você bebia muito antes de se apresentar, porque?
-         Eu não bebia só antes de me apresentar. Eu bebia sempre. Porque? Porque queria, ora essa!
-         Você tem ódio?
-         É o sentimento mais pobre e mais chato que existe. Deve dar um trabalho danado odiar os outros.
-         Qual o sentimento mais constante em você: ódio, amor, alegria ou tristeza?
-         Eu busco amor em tudo.
-         Porque você só canta músicas tristes?
-         Talvez seja com elas, com as quais mais me identifico. Mas não é verdade que eu só cante músicas tristes. Canto o que gosto e o que sinto no momento. e não faço da tristeza profissão.
-         Que é que sente quando a chamam de cantora bêbada?
-         Uma tremenda vontade de tomar um pileque para dar-lhes razão, para não deixá-los no papel de mentirosos. E também uma profunda pena pela falta de assunto dessa gente.
-         Você tem, no olhar e no falar, uma agressividade profunda. Contra o que?
-         Isso é uma opinião sua. Eu não agrido ninguém. Eu me defendo. Eu fujo. Me defendo de pilantras. Fujo da burrice.
-         Gosta da vida, ou gostaria de estar morta?
-         Amo a vida com todos os seus problemas e todas as simples coisas do dia a dia.
-         Houve época em que preferia estar morta?
-         Sim, houve essa época. graças a Deus já não é assim.
-         Como interpreta o sentimento de amizade?
-         Para mim é a coisa mais importante que há. Desde que seja verdadeiro. Sou muito desconfiada, sabe?
-         Você tem amigos?
-         Poucos, mas muito verdadeiros. Um deles, talvez o maior: Ítalo Rossi.
-         Porque saiu do Brasil? Estava fugindo?
-         Porque tive vontade de ver outros problemas, amar em outros idiomas, cantar para outras plateias. Eu fugi sim. Me enchi de ser pão-de-ló de festa de determinada imprensa que estava muito em moda naquela época. Me cansei de ser importante só no meu país. Fui ser importante em outros lugares, não só pelo meu canto, mas também como ser humano.
-         Porque voltou?
-         Porque enfim, meu povo, minha gente, minha terra e minha saudade me trouxeram de volta.
-         Qual a sua maior decepção?
-         Não digo porque vocês não poderiam publicar.
-         Você ainda bebe?
-         E você, não?
-         Poderá um dia voltar a beber?
-         Nesse dia, mandarei um convite a todos os que possam interessar-se para a glória geral dos fofoqueiros profissionais.


(Entrevista publicada originalmente na revista O CRUZEIRO, em 1969)

17 de março de 2014

Imprensa: Maysa ganha 50 mil cruzeiros por dia - Revista do Rádio, 1958


Maysa ganha 50 mil cruzeiros por dia


Texto de MAX GOLD – Fotos de HÉLIO BRITO

Há poucos dias os jornais noticiaram que Maysa iria ganhar uma fortuna por uma série de exibições no norte. A cantora, em entrevista à REVISTA DO RÁDIO, tudo confirma.
-         Fui contratada pelos empresários Carlos Silva e Ribamar e Ribamar Rosa para uma excursão de 14 dias, que começará em Manaus, e terminará em Salvador. Receberei, livre de qualquer despesa de passagens e hospedagens em hotel de primeira classe, a importância de meio milhão de cruzeiros.
-         Quantas atuações diárias?
-         Duas por dia e há uma cláusula, que obrigo em todos os meus contratos: não me apresento em praça pública nem em cinema. Estou atualmente cobrando por minhas apresentações fora do Rio, 50 mil cruzeiros diários e posso dizer com satisfação que os empresários tem pago e tido lucro.
-         Vai se apresentar fora do Brasil?
-         Tenho duas propostas da Argentina, para fazer teatro, rádio, boate, televisão, durante um mês. Respondi pedindo um milhão de cruzeiros e estou aguardando a resposta de quem se manifestar primeiro para assinar o contrato. Reservei o mês de maio para os meus programas na Rádio e TV-Record e a gravação de um LP na RGE, que se chamará “Maysa ao redor do mundo”, em que cantarei em várias línguas. Em junho farei televisão em Belo Horizonte. Em julho viajarei pelo interior de São Paulo e possivelmente em agosto ou setembro irei à Europa, para atuar em Portugal ou na França.
A conversa tem lugar no aeroporto Santos Dumont, enquanto Maysa espera a chamada para tomar o avião para São Paulo. Ela aproveita, compra um brinquedo para o filho e uma flâmula do Botafogo, seu clube do coração. Aproveitamos e indagamos quanto ela está recebendo da Record.
-         Cem mil cruzeiros por quatro audições por mês, conjugadas de rádio e televisão. Meu programa que era realizado no auditório “pullman” da Record passou agora a ser feito no estúdio da televisão junto do aeroporto de Congonhas, sem a presença do público.
-         Quem cuida de seus contratos?
-         Meu secretário, Hélio Capalbo, e meu advogado, dr. Orlando Bulcão Viana.
-         Como foi sua temporada em boate?
-         Muito boa. A última, na boate “La Boheme”, durou mais de um mês e eu recebia 15 mil cruzeiros diários. Vou muito bem, igualmente, de direitos autorais: o último trimestre rendeu 200 mil cruzeiros.
-         E o que tem feito com o dinheiro que ganha?
-         Parte é dedicada às obras de caridade e outra parte eu utilizo nos meus gastos. Sou dona de um apartamento em Botafogo e estou comprando um outro bem grande em Copacabana, para morar, pois resido em apartamento alugado.




(Matéria publicada originalmente na REVISTA DO RÁDIO, em 1958)

13 de março de 2014

Imprensa: Os "trinta litros" a menos de Maysa - Diário da Noite, 15/09/1969


Os "trinta litros" a menos de Maysa


Texto: Suad Hadha – Foto: João Peixe

Maysa, um dos únicos “fenômenos artísticos”, concedeu ontem entrevista coletiva à imprensa no Urso Branco, local onde irá estrear seu novo show. A grande intérprete e cantora pode ser considerada um dos acontecimentos mais importantes do nosso meio musical.
Enquanto muitos de nomeada lutam pela permanência na parada de sucesso, a cantora brasileira deixa o Brasil, não vai à televisão, grava poucas melodias e quando retorna, depois de longo tempo, é sempre bem recebida, lotando todos os locais onde se apresenta.
Maysa é a mensagem mais autêntica de singeleza. Responde a qualquer pergunta e dá o máximo de atenção a quem a interroga. Com seus trinta quilos a menos, a compositora e cantora de “Ouça”, “Meu mundo caiu” e outros tantos sucessos que iniciaram a verdadeira fase intimista da música brasileira, está como aquilo que o brasileiro da gema rotula de “enxuta”. Linda, autêntica como sempre se apresentou, diz que “nunca deixei de beber”. Só não tomo aqueles pileques famosos, mas deixar da bebida, jamais. Emagreci, uns trinta litros”.
Maysa confessa que cantaria, como Ângela Maria, em qualquer boate e não vê nisso nenhum problema. E com suas novas gravações, onde se incluem músicas de Roberto Carlos, Johnny Alf e outros compositores, totalizando vinte interpretações, inclusive da sua própria autoria, Maysa, após longa ausência de nossos palcos, voltará no Urso Branco.

GRAVAÇÕES

Embora seja profundamente saudosista, a cantora que encantou muitos países da Europa, gosta muito de Caetano Veloso e o considera um “cantor que quem interpretar suas músicas, estará dando o recado. Caetano é ‘sideral’, mas eu não gostaria de gravar nada dele, porque acredito em uma gravação que exija criação pessoal. Enquanto outros podem interpretar Caetano, eu gostaria que ele compusesse para mim, só para mim. Aí então eu gravaria, caso contrário, não”.
Teatro também é tema para Maysa. se por um lado não lhe sobra espaço para faze-lo, em seus planos consta uma peça com roteiro baseado em crônicas do imortal compositor Antônio Maria e músicas de Dolores Duran. Essa peça, Maysa pretende leva-la no próximo ano, com estreia marcada em teatros do Rio de Janeiro.
Outra pergunta que se fez nessa entrevista, foi sobre seu ponto de vista a respeito de Cauby. Maysa disse gostar muito dele como pessoa. E como cantor, embasbacou-se, pois nunca houvera pensado antes. Disse aos repórteres que prometia “parar e pensar”.
Gosta do seu futebolzinho, embora “pó-de-arroz” em torce em S. Paulo pelo Palmeiras; no Rio é Botafogo.
Adiantou que está confiante na música que defenderá no Festival Internacional da Canção, e, a instituição do “Troféu Maysa” à melhor intérprete desse mesmo festival, a fez muito feliz.
Nem por essa docilidade toda, Maysa deixa de responder que “em verdade Elis Regina é o pior caráter que conhece no ambiente que vive. Elis é falsa, intrigueira, sem desmerecer seu grande valor como cantora. Intérprete ela não é. Maria Bethânia sim é uma grande intérprete da nossa música. Enquanto isso, Nara Leão é puramente autêntica”.

BRUXARIAS

Maysa não crê nisso, e sorriu quando lhe perguntaram se “Polanski não era um bruxo”. E vai além em todas suas considerações sobre o que há de acontecer. Para ela “felicidade é privilégio dos burros”.
Isso, segundo a cantora, é o mesmo que dizer que “não se vive com os pés fincados no passado e ser feliz é coisa de momento. Quem acreditar que se planta a felicidade em tempos, é burro mesmo. A gente terá sempre, no momento em que vive, sorrisos e tristezas. Terá a mesma coisa nos tempos idos. E será sempre assim”.
Maysa lê pouco, pela falta de tempo, mas confessou estar profundamente impressionada com o último livro que leu: “O Compromisso” de Elia Kazan.
Isso não impede de dizer que atualmente não componha mais. Faz, às vezes, poesia, mas “somente para consumo pessoal”.
Maysa é realmente a *palavra ilegível* mais autêntica mesmo. É capaz de dizer com convicção que “gosto muito mais de cachorro vira-lata do que desses atrevidos à bacanas. O vira-latas não tem trejeitos”.
De todos os convidados não faltou Werner, o cabeleireiro de Maysa, *palavra ilegível*. Foram muitos abraços *palavra ilegível* se viram e não faltou o clássico beijo de saudades quando se encontraram mais perto.
Realmente muita coisa *palavra ilegível* se diria de Maysa. No entanto, o mais importante é esse extravasamento e a alegria que essa excepcional compositora e cantora demonstrou.  Rejuvenescida, com seu filho a tira colo, *palavra ilegível* dos poucos sucessos permanentes de nosso meio romântico, falou à imprensa e dialogou com todos numa noite de muita música.


(Reportagem publicada originalmente no jornal DIÁRIO DA NOITE, na 5ª feira, 15 de setembro de 1969)

25 de fevereiro de 2014

Imprensa: O que há com Maysa? - Jornal do Brasil, 23/05/1962


O que há com Maysa?

José Carlos Oliveira


Acompanho Maysa, de longe, desde que ela surgiu em São Paulo. Interessaram-me, inicialmente, aqueles indícios de uma existência insatisfeita e que variava bruscamente. Primeiro, Maysa Monjardim, menina em Vitória, onde também eu cresci; depois, Srª Maysa Matarazzo, bela, rica e voluntariosa. Aos 21 anos, quando as mulheres começam a viver, ela abandonava o matrimônio para entregar-se à música, ao público que estava precisando daquela mulher atormentada e talentosa, e também ao vício: a própria cantora parecia interessada numa publicidade que colocava o alcoolismo e a solidão como elementos indispensáveis à atmosfera Maysa. Escândalos; suicídios frustrados; canções tristes que ela mesma compunha, sintetizando as suas dificuldades num conflito pronominal (é a palavra exata) que conheço de perto. Eu tenho muitos mim – ou isto estava num poema de Carlos Drummond de Andrade? Pouco importa; Maysa é quem vive essa dificuldade que no poeta não passaria de um sofrimento encantador – o sofrimento feliz ocasionado pelo conhecimento de infinitos e tênues significados. Maysa, no entanto, usa os pronomes para exprimir a obliqüidade, o caráter resvalante do seu ser – ela é sempre outra coisa, sempre inatual em relação a si mesma, e este é o seu drama particular. Não se apega a nada; não crê em nada; tem medo de amar; entregar-se com sofreguidão, em seguida se recolhe ao anonimato do seu sofrimento e complexidade; o álcool, então, é sedativo eficaz. Maysa e Ava Gardner são muito parecidas.
O Cruzeiro desta semana publica uma reportagem cruel sobre Maysa. Cruel, mas consentida; a cantora se humilha publicamente, ao mesmo tempo em que reivindica o respeito público para as suas singularidades e quedas. Mostra-se inteira, e quer ser aceita na sua dimensão; antes de tudo, é autêntica, como todos os malditos. Seus versos em espanhol: “Quién ha muerto? El mundo, o Yo?” Falam sempre na solidão e no abandono. Ela precisa de amor, mas foi esquecida: “No oyen mis gritos. Quedé dormida y creyerón o pensarón: se murió.” O desejo, imorredouro, de novas quedas – em suma, ela quer destruir-se, renasce no isolamento, corroendo e negando esse bem inestimável que é a paz: “Es una tarde tan calma, tan calma que puede ser monótona.”
A imagem de Maysa na televisão. Os grandes olhos de pantera, dementes, sagazes, no rosto de traços meigos; o sorriso de mulher que sofreu muito... Ela reclama que se esqueceram dela, e no entanto, eu, que não cultivo os ídolos populares e raramente ouço os seus discos, surpreendo-me muitas vezes sentindo saudades dela. Fico triste de não ter conhecido Maysa quando criança; e que nossos caminhos não se tenham cruzado até hoje. Com minhas habilidades para cativar as mulheres desorientadas, certamente eu a faria esquecer, por momentos, o excesso de personalidades que dentro dela esperneiam – a triunfante, a bovariana, a medrosa, a sentimental, a enfurecida, a doida Maysa – cada personalidade se levantando no coração e sugerindo um caminho, um estilo, uma fuga, um encontro. E Maysa escravizada a cada impulso, correndo para onde ele a encaminha, julgando ser essa a viagem da verdade. Depois, como sempre, as mãos vazias, a decepção, a amargura: “Parece que el tiempo, cansado, monótono, y que se olvidaron de mi...” Percebe-se, nesse lamento, que sua existência não sabe como escapar ao ciclo fatal que se inicia no bar e no amor mendigo, e termina, matematicamente, na clínica de repouso. Pobre Maysa! Onde está o teu homem? Onde está a tua paz? Onde está a felicidade na qual acreditas firmemente? – na qual acreditas com uma obstinação admirável? Eu te compreendo, e compreendo o conflito que te dilacera; e por isso mesmo gostaria de dizer-te que a maldição particular de que te consideras vítima é algo bastante generalizado e, ai de nós, insolúvel. Só os malditos, Maysa, merecem a felicidade, mas só para eles é que ela não foi feita.


(Matéria publicada originalmente no Caderno B do JORNAL DO BRASIL em 23 de maio de 1962)

12 de fevereiro de 2014

Imprensa: Maysa volta à vida com poesia - O Cruzeiro, 05/1962


Maysa volta à vida com poesia


Reportagem de TABAJARA TAJES · ANTÔNIO RONEK


Ainda há pouco circulou o boato: a cantora Maysa Matarazzo perdeu a voz. Em São Paulo, seu pai, o Sr. Alcebíades Monjardim, desmentiu a notícia afirmando que sua filha canta melhor do que nunca e que logo estará no Brasil. A verdade é que Maysa passou realmente algum tempo sem cantar, internada em uma clínica de Buenos Aires, onde convalesceu escrevendo poemas em espanhol.

***

Ese tan-tan enloquecido
Que construye p’arriba
Matando al que está abajo

Y las manos, blancas, negras,
Que fueron hechas de abajo
¿Por qué construyen p’arriba?

¡Qué suelo cobarde es éste
Que recibe en sus entrañas,
De manos ya no humanas
Un pedazo de sí mismo!

***

No puedo, tras las rejas.
Las de oro las tiré,
Las de hierro, las rompí.
Esas, ahora, no las veo
¿Qué hacer con rejas como estas?

No oyen mis gritos.
Quedé dormida y creyeron
O pensaron: se murió.

No puedo quitarme las rejas
Que no puedo tocar.
Si yo por lo menos tuviera
Coraje para matar,
Estas rejas malditas
Que se me adelantaron.

***

Es una tarde tan calma,
Tan calma, que puede ser monótona.
El pez ya no busca el anzuelo
Pasa de largo ante la línea.
Y la tarde sigue
Hasta el pájaro se olvidó de cantar,
Y el hombre de encender las luces
Que traen la oscuridad
Se perdió del reloj.

Parece que el tiempo, cansado,
Se ha quedado triste, monótono,
Y que se olvidaron de mí...

Não foi só a noite,
Foi mais silêncio.
Tua ausência me buscou;

Não veio lágrima,
O dia já vinha
E só tua ausência
Foi que ficou.

Ficou sozinha
Com meu eu antigo,
E se entenderam,
Se completaram.

Então a lágrima
Caiu baixinho
No que restava
Do teu carinho.

***

Já nem brilha mais a lua.
O pedaço de nós dois
Se apagou
E eu ainda fiquei.

Mas fiquei tão acanhada...
Amanhã não serei sol
Inda mais pensar em lua.

Se pelo menos eu tivesse
A coragem de ser tua...

***

Com um esparadrapo marcando em seu pulso a cicatriz de seu último gesto de incompatibilidade com a vida, a cantora Maysa Matarazzo, “née” Maysa Monjardim, deverá chegar por estes dias ao Brasil, após algumas semanas de internação na Clínica Bethlem, da rua Coronel Diaz, 2.892, em Buenos Aires. Submetida a um regime de bife magro com salada sem azeite, bebendo apenas água mineral sem gás e dormindo cedo (sem pílulas), Maysa voltará também com a silhueta adelgaçada, pois, com menos 15 quilos, o que perdeu em peso ganhou em graça.
Maysa começou a escrever seus poemas em espanhol enquanto se recuperava, aproveitando as folhas brancas de uma agenda. Em um deles, seu subconsciente se revela de maneira impressionante: “No oyen mis gritos./Quedé dormida y creyeron/O pensaron: se murió”. No Brasil, pensaram que ela tinha perdido a voz, quando ela apenas tinha perdido o contato com as raízes da vida. a perda de sentido da vida que a levou a escrever em outro poema: “Parece el tiempo, cansado,/Se ha quedado triste, monótono,/Y que se olvidaron de mi...”
A cantora Maysa Matarazzo não titula poemas. Escreve simplesmente o que lhe vem a cabeça, ao sabor da inspiração. Segundo seus pais, tão logo conclua a gravação de alguns discos em Buenos Aires, voltará ao Brasil – onde lhe negam o título de melhor entre as melhores. Assim recuperada para a vida pelo caminho da poesia, a cantora fará suas mudanças para iniciar uma nova etapa de sua carreira, cantando para os norte-americanos e para os europeus, em uma excursão em que reverá com a alma sua voz dolorida, os segredos de uma alma que vive em conflito com o mundo.






(Reportagem publicada originalmente na revista O CRUZEIRO, em maio de 1962)