26 de setembro de 2014

Imprensa: Eles agora são da família mineira - revista Fatos e Fotos, 1972


Eles agora são da família mineira

Reportagem de ANTONIO DE PÁDUA · Fotos de NÉLSON ARANHA
  
Poderia ser um script de novela de TV. Cantora e ator famosos, com casamentos terminados, unem-se para buscar, fora da agitação das grandes cidades, o clima propício à criação artística. Esta história está acontecendo.



De repente, recém casados, Carlos Alberto e Maysa resolveram sair em busca do tempo perdido, viajando Brasil afora. Pegaram o carro e deram adeus às coisas que os prendiam ao Rio.
Chegaram a Minas pelo sul, e pouco a pouco foram subindo. Em Belo Horizonte, resolveram parar uns dias para conhecer melhor a cidade. Acabaram tomando a decisão: ficariam lá. Acharam o povo atraente, as condições de vida na capital mineira “espetaculares”. Não resistiram. Maysa explica:

UM ROMPIMENTO COM O PASSADO

-         O mineiro é um povo fechado, todo mundo sabe disso. Mas quando aceita um estranho, o torna parte da sua vida. Foi o que aconteceu conosco. Pessoas maravilhosas querem nos ajudar. Sabe, é uma pena que não tenham descoberto a velha Minas Gerais. E eu me sinto muito feliz por tê-la descoberto a tempo.
Os novos planos dos dois não implicam em rompimento total com o passado. Querem sair da rotina anterior, mas de forma racional, sem precipitações.
Seus projetos incluem um programa de televisão numa emissora de Belo Horizonte. Seria algo diferente do que se tem feito até agora. Músicas, entrevistas e jornalismo, sobretudo jornalismo, tudo concebido e executado pelos dois. Carlos Alberto no seu papel de ator, e Maysa no de cantora. Ela já tem até um show marcado para o ano que vem, num teatro de Belo Horizonte.
-         Vai ser a primeira vez que vou cantar num teatro. Até agora, pensava que meu público fosse gente que gosta de bebericar enquanto me ouve. Aqui eu vi que é diferente. Carlos Alberto também não vai cortar de uma vez o que andava fazendo. Um de nossos desejos é montar uma peça também. Com exceção da gente, usaríamos só atores mineiros. Achamos que esta terra tem muita gente boa inaproveitada. No meu show, por exemplo, todos os músicos serão mineiros, inclusive o maestro.
Outro projeto do casal, para ser posto em execução em Belo Horizonte, é a criação do Ponto de Encontro, uma espécie de feira aberta das artes. Carlos Alberto fala dele com entusiasmo:
-         O Ponto de Encontro vai ser um lugar para a reunião de artistas, intelectuais e todas as pessoas que se interessem por arte em geral. Teremos lá discos importados, livros, quadros e outras coisas. Aqui ainda não há uma casa deste tipo, e quero torna-la realidade tão logo possa para aproveitar a potencialidade de Minas Gerais. Na minha opinião está se processando em Belo Horizonte um dos maiores movimentos de arte do mundo, sobretudo no campo da pintura. Em nenhum outro lugar consegui observar tanto qualidade. O interesse da juventude mineira é uma coisa muito séria.
Além da razão artística, Carlos Alberto vê outro motivo para estar amado pelas montanhas de Minas, estado que ele acha esquecido até pelos próprios mineiros.
-         Eu sou um homem que busca a paz. Aqui em Minas eu a encontrei. A vida inteira procurei a mim mesmo, o sentido de viver, uma resposta para a minha existência, e parece que tudo está aqui. Esta terra é maravilhosa. Sou o gaúcho mais mineiro que existe.




(Reportagem publicada originalmente na revista FATOS E FOTOS em 1972)

11 de agosto de 2014

Imprensa: Maysa uma gatinha na galeria dos ídolos - Radiolândia, 1957


Maysa uma gatinha na galeria dos ídolos!



Havia no público do Rio incontido desejo de conhecer a jovem cantora e compositora surgida tão surpreendentemente no cenário musical do país – e Maysa Matarazzo, que conquistara S. Paulo da noite para o dia, encontrou o Rio de braços abertos, para a complementação de sua glória – beleza exótica, sua cara lembra a de uma gatinha mesmo – o sucesso enorme do primeiro “Lp” animou a RGE ao segundo, que vem por aí para novos êxitos de vendagem – a noite foi de Maysa na TV-Rio

De OSWALDO MIRANDA
Fotos de WILSON LOPES

Maysa Matarazzo agora também canta para os cariocas, depois de representar para eles, assim como que um enigma... sim – um enigma. A totalidade do público do Rio só conhecia Maysa de sua fama obtida fulminantemente, com o lançamento de um “long-playing”. Ela começava por onde os outros terminam. O LP é o ápice da carreira de todo cantor de rádio e muitos, de comprovada categoria e popularidade ou tradição artística, ainda não o conseguiram. E seria inoportuno, até, referi-los neste escrito que focaliza um valor absolutamente novo, um nome incipiente na arte da composição e do canto populares.
Eu disse que Maysa era um enigma para os cariocas. Sim. Eles a viam em fotografias, liam as reportagens, procuravam seu disco nas lojas, mas já desde há algum tempo davam mostras de um desejo incontido de conhecer, em pessoa, aquela que tão sensacionalmente surgira no mundo musical do Brasil, legendada, primeiro, pelo sobrenome famoso que logo evoca uma alta expressão na sociedade e na indústria nacionais; segundo, pelo valor incontestável que demonstrou possuir.
Um dia Maysa viera ao Rio, cantara na Mayrink Veiga, dera um giro pelas emissoras, mas tudo foi uma andança a jato, na companhia de Valter Silva. Logo voltava a São Paulo e em seguida se conhecia a notícia de que fora contratada pela rádio e televisão Record. Tal contrato, como o que assinara com a RGE, a instâncias de Roberto Côrte Real, Maysa só o fizera mediante a condição primacial de atuar, na qualidade de profissional, com o dinheiro proveniente de seu trabalho revertendo, na mor parte, em favor dos necessitados, em favor dos cancerosos.
Maysa passou a ser notícia de jornal e a cada dia crescia sua popularidade e aumentava, no Rio, a angústia de um público que ansiava por conhecer a grata revelação artística do ano de 1956.
O enigma, finalmente de desfez. Maysa aceitou contrato de Bom Bril para fazer uma temporada na TV-Rio. E veio; veio para começar no Rio a mesma brilhante carreira já consolidada em São Paulo. Sua vinda coincidiu com a instalação dos escritórios da RGE no Rio. Não será preciso dizer, portanto, que um mundo de gente da terra da garoa (ainda é?) voou do planalto para festejar com Maysa a noite de sua estreia. Primeiro, foi um “cock-tail” na Mesbla, com taças se chocando no ar e às vezes até se quebrando, tal entusiasmo que imperava no ambiente amigo, de confraternização artística, com o Ibirapuera abraçando o Maracanã e a Avenida São João se dando de braços com a Avenida Rio Branco... uma hora depois toda aquela gente alegre enchia o auditório da TV-Rio, florido para a noite de Maysa. noite memorável porque dezenas de milhares de pessoas, que tanto desejavam conhecer Maysa, com ela travaram contato, tiveram-na assim, com a cara de gata dentro de sua casa, cantando com a voz quente e ingênua, doce e insinuante, que já fizera o encanto dos paulistas.

Léo Batista foi o felizardo da apresentação, contou a história curiosa do surgimento de Maysa, tal como está escrita na contracapa do “long-playing” “Convite para ouvir Maysa”, em redação brilhante de Roberto Côrte Real, e disse o que poucos sabiam: ela é carioca!
A orquestra de Osvaldo Borba, de violinos em surdina, fez os acompanhamentos e o público foi-se embriagando com “Tarde triste”, “O que?”, “Escuta Noel” e “Ouça”, tudo de autoria da própria cantora, e “Segredo” de Fernando César. Violinos e harpas compunham o todo orquestral que amparava a voz gostosa de Maysa, no seu recital, e sua beleza exótica – repito que Maysa parece uma gatinha de estimação e vou até mais longe, sugerindo que sua beleza seja assim uma beleza felina... – a todos encantava.

A noite carioca era toda de Maysa. Para ela eram as atenções, os olhares, os comentários de um milhão de cariocas; para ela eram as palmas da plateia; para ela era o champagne que escorreria no auditório da TV-Rio, o mesmo champagne que marca sempre os grandes acontecimentos.
De vestido preto, com bordados de pedras, Maysa trazia o cabelo louro despenteado e caído por sobre a fronte. Mas o despenteado de Maysa completa o exotismo de sua beleza e compõe, com os olhos verdes, puxados para o canto, em forma de losango, o toque felino a que já me referi.

Quando cumprimentei Maysa, disse-lhe:
-         Você ficará zangada se eu disser que você tem uma carinha linda de gata?
Maysa só fez sorrir e disse:
-         Sabe que eu até gosto de ser comparada a uma gatinha?

É essa simpatia, esse valor, essa esplêndida revelação da música popular do Brasil que hoje todos festejamos. Maysa venceu porque tinha mesmo de vencer. Não fez porque. Venceu naturalmente, pela lógica das coisas. Seu disco que traz o samba “Ouça” já vendera mais de 30 mil exemplares quando escrevo estas linhas e o LP continua descendo das prateleiras, para a alegria de José Scatena e de toda a gente boa da RGE.
Agora vem outro “long-playing” por aí. Na face “A” vocês encontrarão “Ouça”, “O que?”, “Escuta Noel” e “Segredo” e na face “B”, “To the ends of the earth”, “Franqueza”, “Um jour tu verras” e “Se todos fossem iguais a você”. As orquestrações, à exceção de “Segredo”, que é de Henrique Simonetti, são do mesmo Rafael Puglieli, autor de todos os primorosos arranjos do primeiro LP. Será também sucesso.
Quando esta reportagem sair, já Maysa terá feito três ou quatro programas na TV-Rio e os cariocas já terão incorporado a gatinha à galeria de seus ídolos do canto popular. Não sou de dar palpites, mas este eu arrisco, sem receio de errar.


(Reportagem publicada originalmente na revista RADIOLÂNDIA, 1957)

29 de julho de 2014

Imprensa: O que Maysa pensa dos homens - Revista do Rádio, s.d.



-         Os homens são todos iguais. Dizem que a mulher é a costela que lhes está faltando. Mas, sempre querem várias “costelas” para um só lugar vazio...
-         O maior defeito do homem? Normalmente eles têm tantos defeitos que seria impossível dizer qual o maior deles.
-         Eu poderia dizer que o homem mais perfeito do mundo é o meu pai. Mas, isso seria piegas. Afinal de contas, quando existir um só homem perfeito no mundo, o mundo deixará de existir.
-         Os homens só têm uma bondade: eles podem ser o que as mulheres quiserem. Para isso basta serem levados com carinho.
-         Infelizmente essa é a verdade: os homens nasceram para dominar o mundo.
-         E como as leis são feitas por eles, claro que eles serão sempre os mais beneficiados.
-         Os homens deixarem de ser menos egoístas? Isso é uma coisa tão boa que nós, mulheres, não podemos desejar.
-         Volto a dizer o que já disse: se eu voltasse ao mundo, queria ser preto e feio.
-         Para os homens o 9º mandamento da Lei de Deus praticamente não existe.
-         Os carecas são geralmente os homens que mais impressionam as mulheres. É mesmo dos carecas que elas gostam mais.
-         A principal missão do homem é construir o lar e amar, para que a vida continue.
-         O mais detestável tipo de homem é o bonitão, o conquistador barato.
-         O golpe que o homem nasce com ele no pensamento, desenvolve através dos anos e nem sempre o executa, é o “golpe do baú”...
-         Existem, sim, homens de vários tipos. Porém, o tipo mais comum é aquele que prefere enganar para ser mais feliz.
-         Eu me casei por amor. Meu marido também o fez assim. E não foi por falta de amor que chegamos à separação.
-         O homem normalmente nasce enganado, vive enganado. O diabo é que no final morre enganado, pois não consegue enganar a morte (que é mulher).
-         Convenhamos, os homens são fortemente atacados pelas mulheres. Todavia, elas vivem sempre à caça deles.
-         Sim, porque é isso mesmo. Já imaginaram um mundo sem homens? Seria tenebroso! As mulheres não tinham nem de quem falar mal...


(Matéria publicada originalmente na REVISTA DO RÁDIO; provavelmente nos anos de 1958 ou 1959)

3 de julho de 2014

Imprensa: Maysa Matarazzo um show de beleza e caridade - Jornal das Moças, 29/08/1957



Maysa Matarazzo não é só a artista. É, também, a mulher bela e elegante, que atrai pelo encanto natural que a sua pessoa exerce sobre todos nós.

Aproximarmo-nos do belo é próprio da natureza humana. Mas em Maysa outros predicados existem que nos levam a desejar estar perto dela: é a bondade, o espírito de compreensão, e o desejo de melhorar a situação dos que sofrem.

Maysa nasceu artista. Canta porque nasceu com a voz privilegiada, com a arte na alma. Ouvida por muitos, certa ocasião foi convidada para gravar. Negou-se, a princípio.

Concordou depois, impondo uma condição. Os seus vencimentos seriam doados à campanha contra o câncer, em São Paulo. Seu gesto nobre foi reconhecido pela Câmara de São Paulo. Logo em sua primeira gravação os discos R.G.E. alcançaram recordes de vendagem. Depois outros mais e o LP da R.G.E. “Convite para ouvir Maysa”. E Maysa veio à Cidade Maravilhosa. Fez um contrato com a TV Rio, e mais uma vez cederia os seus vencimentos. Um cheque foi entregue “As Pioneiras” de D. Sara Kubitscheck.

Aqui está Maysa! um show de beleza, de voz, de gestos simpáticos. Uma artista maravilhosa que nasceu para fazer caridade.


(Matéria publicada originalmente no JORNAL DAS MOÇAS em 29 de agosto de 1958)

25 de junho de 2014

Imprensa: Equipe exigiu que Maysa vestisse roupa de gala - O Estado de S. Paulo, 07/04/1966


Amalfi desenhou os modelos que Maysa veste nos programas que estão sendo gravados em vídeo tape. Aqui, ela explica porque deixou de ser a moça displicente de antes: vontade de fazer trabalho sério.


Se fosse por Maysa, ela estaria de botas, calça comprida, camisa e microfone nas mãos, fazendo o show com seu jeito mesmo, displicente e sem requintes. Mas, como tem espírito de equipe fez via sacra em vários ateliês de costureiros à procura de um que tivesse estilo simples e fizesse vestidos sem lantejoulas de cima a baixo. Encontrou Amalfi e firmaram contrato: quatro modelos diferentes por programa, cada um de acordo com as músicas que Maysa vai cantar.
O terceiro vídeo tape foi feito na última terça-feira. Com ele,Maysa terminou a primeira série de programas e já vestiu doze modelos de Amalfi.

Elegância em equipe

Para a montagem de seus programas, Maysa contratou uma equipe completa. Estudou-se tudo: cenário, movimentos em cena, luz, música, e a cantora, principalmente. O resultado foi uma nova Maysa, de compridinho ou curto, porém sempre a rigor. Isso dá mais trabalho do que parece. Embora fique quieta para receber sua dose de maquilagem, ela se rebela contra o cabeleireiro Arnaldo e só a muito custo ele consegue fazer Maysa usar uma das seis perucas ou o coque com o qual aparece nas fotos. Maysa olha no espelho e enfia os dedos nos cabelos, embaraçando-os como fazia anos atrás – quando lançou uma moda (ou gênero) que muita mulher adotou. O maquiador é Juvenal.

Amalfi e os quatro

Amalfi também não tem problemas com Maysa – “ela é um amor”, com uma única exceção – não quer saber de experimentar os vestidos. Chega, escolhe quatro desenhos e determina as cores, porque sabe quais os tons que aparecem melhor na televisão. Na hora de provar, reluta e esquece que alta costura exige esse sacrifício.
Outro problema é fazer quatro vestidos por semana, o que pede um ritmo de trabalho bastante rápido. Entretanto, Maysa prefere linhas simples e o vestido só tem babados quando ela precisa se movimentar em cena ou a música é muito romântica. Além do mais é radicalmente contra bordados, o que vem facilitar o trabalho do costureiro. Na moda-show da cantora, o show de brilho é proibido.


(Reportagem publicada originalmente no jornal O ESTADO DE S. PAULO, em sete de abril de 1966) 

16 de junho de 2014

Imprensa: Depoimento de Maysa à revista Fatos & Fotos - 01/1976


 Num fim de noite, depois do show em São Paulo, ela fala de amor, de viagens, do filho e de um neto prometido



Maysa-cantora, todo mundo conhece (e gosta). Mas a Maysa-mulher, como estará, em janeiro de 76?
“Quando as pessoas se referem à cantora Maysa, só querem saber quantos uísques ela já bebeu hoje. Mas eu não gostaria que todos continuassem a pensar que a bebida é a única coisa importante para mim. Todas as noites saio cansada, vou para casa e me deito. No dia seguinte, às 10 horas, invariavelmente, minha mãe pega o telefone e me acorda. Acordo contrariada, nem bem descansada da véspera. Acontece que ela ainda não se acostumou com a ideia de que sou uma mulher adulta. E pelo telefone, todos os dias, quer saber se eu dormi bem, se já tomei café, o que vou comer no almoço, essas coisas. Às vezes penso que sou mesmo essa menina que ainda não cresceu. Pois é. Gostaria que o público me visse também assim, como uma menina. Ao mesmo tempo, quero que as pessoas me vejam como mulher. É essa contradição, a Maysa verdadeira. Claro, comecei com um background muito especial. Mas qualquer Matarazzo que resolvesse cantar, sentiria a mesma reação. Uma coisa que eu faço questão de dizer é que meus cunhados não brigaram comigo por eu ter partido para os palcos e microfones. Quem realmente se chocou fui eu. Começar a cantar terá sido um choque muito maior para mim do que para qualquer outra pessoa. Na verdade, cantar era uma maneira de sair da gaiola. Foi o que eu fiz. E, se não foi fácil no começo, ficou cada vez mais difícil à medida que o tempo passava.”

Um neto como outro filho

Esse show de agora é dedicado por ela a seu filho Jayme.
“Atenção, que o nome dele é Jayme, com y. É o meu maior amigo. Aliás, o único. Só que ele ainda não se deu conta disso. Está com 19 anos, de casamento marcado e tudo. Mas o melhor é que vai me fazer avó. Quero curtir esse neto como se fosse um outro filho. Meu neto será o filho que eu mesma não posso ter. agora, quando as pessoas me procuram para elogios, para dizer que gostam do meu show, que estou muito bonita, essas coisas, digo sempre que é por causa do Jayme, que é para ele que estou cantando agora. É para o Jayme que eu dedico Dindi, por exemplo. Todo mundo tem o seu Dindi; o meu é o Jayme.”
Planos?
“Estou preparando uma grande viagem, para breve. Primeiro vou ao México, cantar. Depois quero alugar um trailer, para percorrer os Estados Unidos (é preciso visitar os Estados Unidos antes que ele acabe). Vou viajar absolutamente sozinha; em cada lugar quero curtir as pessoas que encontrar, as pessoas que forem legais. Pois é. Sou uma pessoa solitária, sim. E muito. Incrível? Não é? Justamente a Maysa que tem tanta vontade de ser feliz, que teve e continua a ter tantas oportunidades de ser feliz. Mas acho que o meu mau é exatamente esse: estar sempre se lamentando, explorando ao máximo minha autopiedade. Posso conseguir as coisas que quero, tenho tudo para chegar a isso que se convencionou chamar de felicidade. Mas prefiro me machucar, me arrebentar. Atualmente, o livro que estou lendo é Jogo da Amarelinha, do Júlio Cortázar. Aliás, outro dia vi uma foto dele: pareceu-me muito bonito, essa beleza das pessoas tranquilas. Em paz consigo mesmas. (Acho que é por isso que ele consegue escrever coisas tão lindas.) Mas minha vida, hoje, é mais ou menos assim como um jogo da amarelinha, quando a gente tem todas as oportunidades de chegar ao céu e acaba caindo no inferno.
Amor?
Quando alguém me pergunta o que é amor eu sinceramente não sei o que responder. Está certo: amor é uma palavra muito bonita, mas não define coisa alguma. Hoje em dia, acho que o meu maior ato de amor é cantar. A pena é que cantar, para mim, ainda não se transformou – apesar de tudo – numa forma de expressão, no sentido realmente completo do termo. Pelo contrário, é apenas uma maneira de ganhar dinheiro. Mas acredito que chegará o dia em que conseguirei cantar como se fosse a coisa mais natural do mundo, assim como comer ou escovar os dentes; um ato absolutamente natural. Então, cantar vai deixar de ser apenas profissão. Porque quando me perguntam qual é a minha profissão, faço questão de dizer que minha profissão é ser.”
Infância?
“Minha infância foi muito alegre. Engraçado... eu preferia brincar com os meninos, não com as meninas. Às vezes entrava em brigas feias, batia até neles. Mas, cantar, cantei sempre. Ainda menina, me lembro, ganhei um gravador de presente, todo vermelho. Olhava no espelho e me maquilava igual à Marilyn Monroe. Só cantava música americana. Mais tarde fugi de casa e fui gravar o que seria o meu primeiro disco. Fui junto com o Baby, famoso guitarrista do Oásis, uma boate paulista que era o lugar da moda nos anos 50. Gravei esse disco em 1951. De um lado, uma música americana, do outro, Se eu Morresse Amanhã de Manhã. Aí é que veio o convite do Roberto Corte-Real para gravar meu primeiro LP.”
Solidão?
“Talvez meu maior mal seja a minha enorme incapacidade de conservar uma amizade. Desfaço, com três pontapés, meu relacionamento com uma pessoa que queira ser meu amigo. Chuto as pessoas que estão querendo gostar de mim. Chuto e depois fico com vergonha de procura-las outra vez. Mas no fundo sei que sou uma mulher muito gostável. O problema é que prefiro ficar na defesa, defendendo-me justamente de quem gostar de mim. Dizem que sou uma mulher que foi muito amada. Será que isso é mesmo verdade? Se eu fosse uma mulher diferente do que sou, se fosse alguém totalmente desconhecida, aí talvez eu pudesse responder com sinceridade, dizer alguma coisa melhor sobre o amor. Mas sou quem sou. Assim, volto a repetir: meu principal ato de amor é cantar. E é exatamente por isso que eu detesto a palavra carreira. Porque o que eu realmente desejaria é que meu canto fosse apenas um modo de expressar o meu amor. Mais nada. No mais, vivem querendo saber o que eu tenho de diferente em relação às outras mulheres, às outras cantoras. Olha, pra quem quer mesmo saber a verdade, é simples, simples até demais, no fundo, tenho uma imensa preguiça de ser eu mesma. E que ninguém me venha com o papo de que é preciso aprender a amar. Às vezes acontece de você encontrar alguém em quem possa jogar essa sensação chamada amor. Mas aí, de repente, o que se passa é que você percebe que jogou errado.”
Definições?
“Não é fácil definir as coisas, não gosto quando as pessoas exigem que eu defina isto ou aquilo. Querem saber qual é o homem ideal para mim? De preferência, um homem calado. Só que não existe nada ideal. O que hoje pode ser uma coisa ideal, amanhã pode não ser. E depois, a ser chateada, prefiro minha solidão. Será que seria assim tão bom se eu encontrasse alguém que precisasse de mim? Às vezes, o que me dói mais é saber que há alguém me amando”...
É essa Maysa-mulher que está cantando na Igrejinha, uma boate paulista, todas as noites, num show que começa assim:
“... vai lembrar de alguém/que só carinho pediu/e você fez questão de não dar/fez questão de negar...”

Reportagem de Luiz Carlos Azevedo
Fotos de Wilson Chumbo





(Reportagem publicada originalmente na revista FATOS & FOTOS em janeiro de 1976)


13 de maio de 2014

Imprensa: As confissões de Maysa III - Revista Amiga, 21/09/1971




“Eu estava bebendo demais e viver não tinha mais nenhum sentido”

“O amor deu nova força a minha vida”

depoimento à Gardênia Garcia

Quando eu estava bebendo demais, quando minha vida não tinha mais sentido, não via horizonte nenhum, fui a Portugal, em 62. Fui por ir, tanto fazia. E conheci Miguel. Ele e a mulher foram ver meu show, e Gabriela levou meu disco para autografar, no camarim. Eu e Miguel nos amamos à primeira vista. Quinze dias depois morávamos juntos. E Gabriela ficou minha amiga. Quando ela se divorciou de Miguel, no México, ficou hospedada em nossa casa. Vale lembrar que quando eu e Miguel nos conhecemos, em 62, Gabriela era linda e eu pesava 96 quilos. Foi amor mesmo!

CONHECI Miguel e minha vida mudou. Foi com a ajuda dele que saí do pileque de anos, que emagreci, que ganhei tranqüilidade. Precisamos muito um do outro. Ele deixou suas fábricas na Espanha e passou a me empresariar. Agora está produzindo a peça que ensaio.
Depois que emagreci, dou um valor imenso ao corpo, não por vaidade. A bebida e a gordura estavam interligadas, eram autodestruição. Quando engordo meio quilo fico muito deprimida, trato de perde-lo rápido.
Nós vivemos na Espanha, um tempo, transferi Jaiminho para um colégio lá, depois viajamos muito. Parei de cantar muitas vezes, de vez em quando volto. A última música que gravei é o Tema de Simone, do O Cafona, aliás, é das poucas composições minhas que gosto.
Vivemos um ano nos EUA, Miguel lecionando línguas, eu de doméstica. Porque adoro cuidar de casa, cozinhar.
Tenho premonição das coisas, sou meio bruxa. Por isso topei aquela temporada no Canecão. Estive magoada muito tempo, porque cantava no mundo inteiro e não recebia convite para o Brasil. Até que Flávio Cavalcanti se hospedou no mesmo hotel que nós, em Portugal, e me chamou para seu programa. E viemos para ficar. A temporada no Canecão foi maravilhosa para mim. Apesar de ter sido eu a primeira cantora que teve coragem de topar uma coisa destas, acabei me decepcionando com os donos do Canecão, que foram mal agradecidos, no final. Não entro em detalhes, ganhei a causa.
E então, no ano passado, aconteceu um novo marco na minha vida: o programa Dia D. Trabalhar como jornalista. Laerte Garcia, o cinegrafista do programa, foi pessoa da maior importância para mim. Foi ele quem acreditou que eu pudesse fazer o programa, acreditou em mim mais do que eu mesma. ele era o programa. Conseguimos fazer coisas maravilhosas. A cobertura da morte do Salazar, por exemplo, quando vimos o programa pronto nos espantamos: não era morte que estava ali, era uma mensagem de vida.
Um homem extremamente sensível, maravilhoso, nos entrosamos tanto que quando ele morreu não tinha mais sentido continuar com o Dia D. Como disse, ele era o programa, me ensinou muito de trabalho, de vida.
Fazer jornalismo foi ótimo, ser prato dos jornalistas é péssimo. Enquanto eu jogava microfone no público, aumentava tudo que acontecia. Depois, recentemente, criaram minha desavença com Elis Regina.
A imprensa não perdoa. Vive ressuscitando o que está tão longe: Ronaldo Bôscoli e eu. Daquela época da bossa nova, ainda. O que acontece é que hoje em dia somos amigos, acho Ronaldo um homem inteligentíssimo, o papo com ele é das coisas mais divertidas do mundo. Elis, considero das maiores cantoras que conheço. Acho-a, inclusive, muito segura, muito madura para a idade que tem. Ela sabe agir, sabe reagir.
Eu vou ver Elis cantar sempre, porque gosto. Quando ela esteve no Canecão, Miguel e eu fomos. Mandamos flores, antes. Depois saímos para jantar, os dois casais. E o que a imprensa inventou! Depois o casal nos ofereceu um almoço genial em sua casa há mais de um ano. O filho deles ainda não tinha nascido. Não nos vimos mais. A culpa, em grande parte é da imprensa, que cria casos entre Elis e eu. Nós poderíamos ser amigas, acredito, não fosse a onda da imprensa.
Felizmente meu filho não foi prejudicado pelo que escreveram a meu respeito. Ele é inteligente demais, o Jaiminho. Lembro que quando era pequeno, num colégio aqui no Rio, falaram mal de mim pra ele, a reação dele foi ótima: não bateu, não se chateou. Disse apenas – você é uma besta, garoto, não entende nada de nada. Jaiminho está no Rio, passando as férias comigo. Está interno na Espanha mas vive com toda liberdade. Confia inteiramente em mim.
Da época em que comecei a cantar, gostaria de dizer uma coisa que pouca gente sabe: gravei bossa nova primeiro que todo mundo. Só que me antecipei demais. Lancei O Barquinho dois meses antes do movimento todo. Mas ele pertence sem dúvidas a João Gilberto. Através de João foi que a música pegou e na minha gravação não havia a batida dele, que mais marcou a bossa nova. 


(Matéria publicada originalmente na revista AMIGA, nº 70, 21 de setembro de 1971)