24 de abril de 2018

O último álbum de Maysa




Encarte do álbum.

Notas do diretor – responsável

Aproveitamos a presença de Oscar Castro Neves por algumas semanas no Rio. Juntamos Oscar e Maysa para preparar as “bases” do disco. As “bases” consistem nas gravações do canto acompanhado somente por violão, piano, baixo e bateria. As gravações foram feitas à noite pelo técnico Toninho. Depois das “bases” prontas vem a vestimenta. Aí, entrou o Gaya com suas cordas, metais, percussão, etc. o responsável técnico dessa fase foi o Nivaldo Duarte. E aí estão 8 canais prontos para serem mixados, isto é, colocar tudo em seus devidos lugares, no seu devido balanço. Isso também foi feito por Nivaldo com a supervisão de Jorge Teixeira. Nesta altura Milton Miranda achou tudo uma joia.

TUDO POR CULPA DE UM SUJEITO

Da sua cobertura em Copacabana ela espia o mar, lá longe. Aquele par de olhos de gata – gata arisca – levam suas vontades no lá longe do infinito. Daquele mar, seus pensamentos antigos. Suas viagens pelo mundo, suas cantigas espalhadas, seu nome escrito em idiomas diferentes, seu trilhar na base do “Oropa, França e Bahia”. Quem mandou? Quis ser cigana, que seja, e deixe de lado a coisa doméstica do dia a dia, da conta da luz, do gás, do telefone, a luta de não ter soja hoje como banha Rosa amanhã. Sabe, isso sim, o que é de sabor de estrela, de lua, de céu sem bruma e sabe mais nos versos que canta sua imensa solidão. É ela só e seus olhos de gata, companheiros constantes. Agora ela se encolhe, depois de debruça sobre o papel e faz um verso ou se alonga no braço pelo pincel e traça na tela a face branca e triste de um palhaço. Estranha mulher, essa Maysa, que tem um mundo de amor pra dar, e se esconde numa incerteza que é medo puro. Seu disco?
“Em 57 gravei o meu primeiro. Ele se chamou ‘Convite para ouvir Maysa’. E faturei com o mesmo título o Nº 2, Nº 3, Nº 4 e lá se foi a numeração. Cantei meu primeiro disco em 1974. Aí passei a ser para mim mesma um convite para ouvir-me. Tudo por culpa de um sujeito chamado Aloysio de Oliveira que por saber o quer, faz a gente descobrir coisas dentro de nós.
Discordamos de muita coisa, como por exemplo, o tratamento da música “Rasguei a Minha Fantasia”, mas ele é tão tinhoso que eu acabei concordando e gostando de tudo. A alegria que existe em determinadas faixas como “Agora é Cinza” não é bem como se sente pela primeira vez. É preciso ouvir de novo e descobrir quanta sutileza ela contém. Nesse disco ficou revelado publicamente o meu amor a Oscar Castro Neves. E quanto ao Gaya... Bem esse é um monstro!”

MAYSA – UMA CAMINHADA SEGURA

O artista aquele, desses dias de hoje, enche a boca quando diz que vai se apresentar no Olympia, de Paris. Isso, nessa hora de agora, nesse vale tudo da vida – pisar naquele palco já não é mais uma grande jogada. As portas do Olympia estão ultimamente muito francas, e seu dono, não está fazendo muita questão de escolha e, tanto faz uma trupe de cachorros amestrados, como um louco cantor de qualquer canto, que tenha cabelos verdes, se pinte de forma andrógina, e faça faturamento na bilheteria e estamos conversados em francês. Mas, no calendário de dez anos atrás a coisa era diferente. Era precisa o aval de uma Piaf, a garantia de um Sacha Distel, um oui de Jacques Brel, para que uma audiência experimental fosse conseguida.
Estamos em 1963 e Maysa está em Paris. Os jornais escrevem seu nome certo, com “y” no meio, e os fotógrafos tem diante de seus olhos uma moça de 26 anos, gorda de rosto, de corpo e de alegria. Na véspera da sua estreia o “France Soir” escreve assim, no escuro: “elle ést trés brune, du genre ‘opulent’ e brésilienne. Dans son pays, on la considère comme l’une de plus grandes vedettes de la chanson. Elle s’appelle Maysa, tout simplement; e la bossa nova – oui, vous savez, cette samba, ‘nouvelle manière’ importé par Sacha Distel est son royaume! Parmi les neuf chansons qu’elle va, pour ‘son publique parisien’ interpreter en français, en espagnol et en portugais. Maysa a inscrit deux de ses compositions (brésiliennes): ‘Ou çá?’ déjà enregistrée par Jean Sablon, et ‘Souvenir’. Il y aura aussi ‘Je voudrais rencontrer un grand amour’ et ‘Ne me quitte pas’, de son ami e idole Jacques Brel, qu’elle déjà allée entendre trois soirs sucessifs depuis son arrivée.”



Eu não gosto de vender minha arteO Globo, 2/12/1974

Maysa não gosta que se fale em volta, pois para ela, não houve partida. Parou porque queria descansar em sua casa na praia de Maricá, longe da máquina, da pressa, que não lhe agrada. Para ter-se uma ideia de seu atual ritmo de vida, basta lembrar o tempo de produção de seu novo disco: um ano.
- Quando Aloysio de Oliveira – que é o produtor do LP – sugeriu que fizéssemos um disco, aceitei de imediato, pois sabia que tudo seria feito do meu jeito. Em dezembro do ano passado, começamos a trabalhar no disco, com muita calma, pois não gosto da pressa que caracteriza as gravações, hoje. Todo mundo só pensa em acabar logo e colocar o disco à venda. E eu não gosto de vender minha arte.
Por isso, Maysa nunca pensou em crise na indústria fonográfica e não está preocupada em saber se o seu disco vai vender ou não. Diz que o importante é o disco mostrar o que vai dentro dela. No repertório, só músicas antigas, que ela queria gravar a muito tempo: “Castigo”, “Fim de Caso”, “Agora é Cinza”. De novidade, um tema da novela “Eu Compro essa Mulher”, com letra da cantora, que gravou a música para “fazer um carinho” no ator Carlos Alberto.
- O resto das músicas é de gente que estava comigo, quando comecei. Há pedaços de Silvinha Teles, de Dolores, de Aloysio, de Marisa. Não se trata de um saudosismo burro, de fossa, mas de um estado de espírito.
O lançamento
Para a cantora, esse disco é uma continuação do que gravou em 1962, antes de deixar o Brasil, também com produção de Aloysio de Oliveira. O Lp de 1970 – gravado durante seu show, no Canecão – não é de seu agrado, embora não o renegue.
- Na verdade, não gostei de nada que fiz depois que voltei ao Brasil. A exceção é o disco que vai ser lançado agora. Sei que alguns críticos vão dizer que não acrescenta nada à minha carreira porque gravei músicas antigas, sem a preocupação de agrada a ninguém. Mas o disco soma muita coisa para mim.
O lançamento do Lp de Maysa vai ser no seu apartamento, na próxima semana. A festa reunirá amigos e uns poucos jornalistas, porque o que a cantora quer, agora, é muita paz. Não há shows nem apresentações em rádio ou televisão programados.
- Meu único programa, atualmente, é passar o maior tempo possível na minha casa em Maricá. Só voltarei a ter uma vida artística mais ativa se puder fazer tudo com muita calma. Senão, fico apenas no disco, que está aí para quem quiser ouvir. É o que tenho para dar. 

Revista Veja, 1974.

"Maysa vai cantar as músicas de seu próximo disco" - Diário de Notícias, 6/10/1974.





20 de fevereiro de 2018

Maysa entre nós - Diário de Notícias, 1969



Reportagem de Anna Maria Funke
Fotos de Athayde dos Santos

MAYSA está de volta. Com sua beleza agressiva e aqueles seus olhos imensos e muito verdes, iluminando o rosto de uma mulher feliz e tranquila. Uma Maysa diferente daquela que o público conheceu em certa época. Mas isso é detalhe, pois Maysa, em nenhum momento, deixou de ser a cantora de voz personalíssima, cantando bonito e muito fazendo pela nossa música. Como compositora e cantora.

Maysa acha que o brasileira está cansado de música confusa, barulhenta, de letra longa. O que ele quer é coisa simples, bonita, humana, na qual cada um possa se identificar.
Música ela não tem feito há muito tempo. Está agora fazendo poesia, dentro da mesma linha de suas composições. Mas poesia, ela faz para ela só.
A primeira música, ela fez quando tinha doze anos, época em que já saia de casa, dizendo que ia estudar, para visitar gravadoras e estúdios... “Olha, levei muita surra e castigo por causa disso...” Chamava-se “Adeus” e foi por ela gravada, anos depois, quando surgiu para o grande público em 1957. Mas de suas músicas a que mais gosta é “Tarde Triste”, que juntamente com “Ouça” são talvez seus dois maiores triunfos.
Para fazer cinema ela teve um convite em Portugal, que não foi aceito. Não conhece muito o nosso atual cinema, mas gostaria muito de um dia poder interpretar na tela, a protagonista do romance de Mário de Andrade, “Amar, verbo intransitivo”. Aqui fica, portanto a sugestão para alguns de nossos cineastas...
A verdade é que hoje ela é um nome internacional. Já cantou em toda América do Sul, no Japão, nos Estados Unidos (onde morou dois anos e fez temporada no famoso “Blue Angel” de Nova York, ao lado de grandes cartazes), na Europa toda. Em Milão, fez programa de TV, “Em tempo de Samba”, mostrando as coisas bonitas desse nosso ritmo.
Mas o que pouca gente sabe é que no dia 16 de janeiro de 1963, uma brasileira fazia sucesso no Olympia de Paris. Era Maysa, que nesse dia estreava temporada, em programa no qual a vedete era o famoso Tino Rossi. Maysa cantou acompanhada pelo conjunto de Jacques Brel e o sucesso foi enorme. Nesse mesmo ano fez também programa de TV no único canal de TV de Paris cantando 12 músicas, com cenários sobre o Brasil, etc... chamou-se “Rendez-vous avec Maysa”. Também cantou em outro programa sucesso na TV francesa, o “Discorama” ao lado de Sacha Distel. Seu último disco, foi gravado na Espanha. Um compacto, com “Reza” (Edu Lobo) em versão espanhola, feita por ela mesma e “Pálida Ausência”, canção de protesto, de autor espanhol, com música, segundo ela, de grande beleza.
Mas em sua primeira ida a Europa, em 1959, quando resolveu deixar tudo aqui e viver uns tempos em Paris, ela já havia gravado no Olympia, com Ray Ventura e cantado em uma festa em San Remo.
Nessa época, ela descobriu Paris, com todo o seu encanto, inclusive o de viver nessa cidade, sem dinheiro, pois a família aqui, já não queria mandar mais, para ver se ela voltava. Junto com Vera Barreto Leite, que também lá estava, chegou a fazer desenhos e pinturinhas que vendiam aos turistas (pouco exigentes), para conseguir, quando muito almoçar e jantar.
Na continuação do papo, ficamos sabendo que temos uma admiração em comum por Judy Garland, cantora que ela considera extraordinária acima de qualquer outra. Gostava muito de Piaf que chegou a ouvir mais de uma vez.
De sua vida, feita de muita vivência e experiência, ela tem agora um sentido certo. De todos os anos que morou no exterior ela tem a certeza que ainda quer morar lá fora, pelo menos durante algum tempo ainda. Agora é viver intensamente essa atual temporada no Brasil. Trabalhando muito, cantando sempre bonito, com aquele jeito, muito seu, de cantar e dizer, ao mesmo tempo, transmitindo espontaneamente coisas de amor, saudade, tristeza, solidão, encontro e desencontro... Ou então a simplicidade da história de um barquinho em dia de sol, tema da canção que começou a leva-la para bem longe em sua carreira, que teve marés fortes e tempestuosas, mas hoje é calma e tranquila.
Dias atrás, Flávio Cavalcanti em seu programa, “A Grande Chance”, perguntou a Maysa, qual havia sido a sua grande chance. Maysa, não pensou muito para responder, que havia sido o fato de ter se chamado Matarazzo no início de sua carreira. Ali estava a resposta de uma mulher simples e autêntica.
Maysa não pensava em vir ao Brasil agora. Estava em Lisboa fazendo uma temporada numa das maiores boates da cidade (e fazendo um grande sucesso que pudemos comprovar quando lá fomos assistir a seu show em dezembro passado), quando foi convidada por Flávio Cavalcanti e Artur Farias para assinar um contrato com a TV Tupi.
Resolveu então vir. Agora faz parte do júri de “A Grande Chance”, e prepara a estreia de um programa seu na televisão. Deverá durar 1 hora e meia e vai mostrar vários aspectos da história de sua carreira. O programa estreia no começo de abril e terá nome simples que diz muita coisa: “Maysa”.
Em seu apartamento de Copacabana, onde pretende ficar até o fim do ano, quando então voltará para a Europa, conversamos durante muito tempo sobre música, gente e coisas. Ao seu lado, o marido Miguel Azanza, belga naturalizado espanhol, lembrava-lhe detalhes e datas participando, simpaticamente do nosso papo.
Faz 7 anos que ela não mora no Brasil, onde tem vindo relativamente pouco. O público a viu pela última vez no penúltimo Festival da Canção. Mas o ano passado ela deu uma “fugidinha” e passou 8 dias em São Paulo, com a família, fato que só agora ela nos conta. Era em Madri que estava morando atualmente, mas quando voltar irá morar em Portugal, numa casa gostosa, lá em Cascais, aquela cidadezinha-porto, de casas brancas e ruelas pitorescas, situada a alguns quilômetros de Lisboa. A casa já está comprada e os planos do casal são muitos no que diz respeito à decoração.
Antes de embarcar para o Rio, Maysa esteve cantando, durante um mês em Angola, acompanhada pelo conjunto Thilo’s Combo, o melhor de Portugal. Seus maiores sucessos nessa temporada: “O dia da vitória” de Marcos Valle e o nosso muito lindo “Chão de Estrelas”, que na sua interpretação ganha um tratamento muito especial.
No momento, Maysa prepara com todo carinho, o lançamento de um LP e um repertório novo. Para isso, tem recebido todas as noites, muitos compositores que vão lhe mostrar canções novas. No repertório que vai cantar aqui no Brasil (inclusive na boate Sucata, em temporada que começa dia 29 de abril) ela incluirá alguns números antigos, mas 80% será de música inédita. Mariozinho Rocha, Lúcio Alves, Flávia, Marcos Valle, Durval Ferreira, Francis Hime, Tom, Edu Lobo são alguns dos compositores que ela via em Egberto Gismonti, um jovem do estado do Rio, que segundo ela faz música para agora e daqui a muito tempo. Dele, ela irá gravar pelo menos três músicas, já escolhidas. De johnny Alf de quem ela canta “Eu e a Brisa”, na Europa, com o maior sucesso, também gostaria de cantar alguma coisa nova. Enfim, Maysa quer entrar em contato com a gente boa e nova que está fazendo o lado positivo da nossa música.
“E da pilantragem, o que você acha?” “Olha, acho válido como experiência, mas será uma fase apenas passageira. A meu ver é um misto de chá-chá-chá com xaxado... mas sobretudo o que eu não admito é que essa turma critique o outro lado da nossa música, que é o autêntico.”


(Reportagem publicada originalmente no jornal Diário de Notícias em 1969.)

14 de agosto de 2017

Sofro porque não sou burra - Romance Moderno,1971



A minha verdade – uma entrevista corajosa com Maysa

ROMANCE MODERNO – A novela representa uma outra fase em sua vida?
MAYSA – Possivelmente se abre um campo novo para mim. Espero que seja uma experiência bastante válida para o futuro. Me interessa muito fazê-la.

Quantas vezes você se sentiu obrigada a recomeçar a sua vida?
Eu não creio que tenha recomeçado nada, principalmente no lado profissional. Eu apenas tenho acompanhado as circunstâncias.

Você se projetou como cantora milionária. Hoje você canta para viver ou vive para cantar?
Fazem sempre esta pergunta para mim. A ideia de cantora milionária foi o público quem deu. Acredito que eu seja milionária no sentido de ter boa voz, ter bons amigos. Hoje em dia faço o que gosto: vivo canto, sou atriz, sou jornalista. Estes são os meus ideais, me fazem falta até para respirar. Uma coisa em função da outra.

Você demonstrou em suas composições ser uma mulher que sofre. Sofrimento para você representa uma razão de viver?
As pessoas que hoje em dia não sofrem são muito burras ou muito insensíveis. O sofrimento a gente tem de manhã, de tarde, de noite. A vida está mais cheia de sofrimentos do que de outras coisas. A gente procura, de certa forma, dar mais valor às coisas boas do que ficar pensando em coisas tristes.

Qual a diferença entre a felicidade e o sofrimento?
É justamente a diferença entre uma coisa e a outra.

Você acredita no amor?
Eu acho que é a única coisa que existe de bom no mundo.

Você como cantora se acredita atual ou fora de moda?
Como cantora, sigo a minha linha. E me sinto sempre atualizada. A música é uma só desde que ela começou. Eu faço o que gosto.

Você, que só canta um tipo de música, como vê toda esta renovação?
Eu acho que há muita confusão. Existem grandes valores, como por exemplo, Taiguara. Alguém pode chamar este menino de superado? Inclusive, ele tem a mesma linha que eu. É moderninho, é um garoto desta geração. O próprio Ivan Lins, que é considerado o mais quente do momento, se repararmos nas suas composições, tem um profundo sentido de fossa, de amor. No fundo, é sempre a mesma coisa. O amor a gente sempre sente igual.

Você já esteve na fossa?
Estive, e muitas vezes! Para sair dela há duas formas de encará-la. Ou curti-la muito bem, sofrer por ela, ou partir para um negócio melhor, fugir de gente que não se gosta, da burrice, se ligar com gente que nos faça bem.

Você seria capaz de morrer por alguém?
Totalmente!

Então, a morte compensa como sacrifício de amor?
O amor compensa qualquer coisa.

Como você define a angústia?
Para mim, a coisa mais importante é você tentar dar do que receber. Quando você deseja dar, dizer tudo o que tem dentro de si e não é compreendida, aí , sim, é a pior coisa, a maior angústia.

Entre a angústia e o desespero, onde você vê a solução?
É começar tudo novamente.

Você já sentiu em sua vida um momento de profunda ternura?
Sempre tenho motivos de ternura em minha vida. Sobretudo quando vejo uma possibilidade de diálogo com gente que me entende. Outro dia tive um momento de grande ternura em minha casa, quando estive batendo um papo com uma mulher que considero uma das coisas mais excepcionais que já encontrei em minha vida, Marília Pêra. O de que esta mulher é capaz, com os olhos, com palavras, ou mesmo expressões, é um negócio fantástico. Marília é uma mulher inteligente, sabe o que quer, é sensacional.

Crê em alguma coisa acima de você?
É muito importante eu me considerar importante, pois, acima de mim, existe um amor mais que o meu. E será que existe um amor maior que o meu?

Você andou uma época um pouco afastada, meio sumida. Qual foi a causa real?
Aconteceu que fui para a Espanha. Meu marido é espanhol e tive que acompanha-lo. Lá, continuei inclusive cantando, embora com menos frequência que aqui. Depois estava cansada de algumas fofocas e dei uma paradinha.

Você se considera o tipo de mulher em transição pela liberdade?
Desde que me entendo por gente, luto pela liberdade.

Qual o momento artístico mais importante de sua carreira?
Eu acho que ainda está para vir. Eu quero sempre mais do que já tenho.

O que você acha mais importante na vida?
É o amor. Para carreira, para tudo na vida.

Você agora está dando uma de atriz. Como está se sentindo?
Acho que atriz eu fui a vida inteira. Quem vive é ator; acho que participar da vida como eu, é uma forma de ser atriz. Às vezes, você tem de fazer coisas de que não gosta, atuar com pessoas que você detesta. A vida, toda ela, é um teatro.

O personagem que Bráulio Pedroso criou para você é mais ou menos um retrato de sua vida, mulher desquitada de industrial paulista. Como é a história?
Não tem nada que ver com a minha personalidade e, além do mais, eu não sou desquitada de um industrial paulista. Sou casada com um industrial espanhol e vivo muito feliz.

Você não tem receio de que esta nova carreira venha atrapalhar sua vida de cantora?
Não. Ao contrário, suponho que vai somar mais uma coisa à minha vida.

Se você tivesse que decidir entre ser cantora e atriz, optaria por qual?
Acho que este negócio de opção é muito tolo. Se tivesse que fazer as duas coisas ao mesmo tempo, sim. Eu não vejo porque tenha que deixar uma coisa pela outra.



(Entrevista publicada originalmente na revista Romance Moderno, nº 38, em 1971.)



18 de abril de 2017

Maysa, outra vez rica e caprichosa - Intervalo 2000, 31/07/1972



Pela segunda vez, Maysa interpreta mulher rica e caprichosa na televisão

São Paulo, Maysa (35 anos) atualmente está interpretando o papel de Márica, uma mulher rica e caprichosa, na novela "Bel-Ami", da Rede Tupi de Televisão, esta é sua segunda experiência como atriz de TV. Antes, fez Simone em "O Cafona" e, como desta vez, era rica. No tempo em que as músicas de "fossa" faziam grande sucesso, Maysa apareceu como cantora e compositora. "Ouça" foi uma de suas composições famosas. Depois, mudou-se para a Espanha, afastando-se um pouco da vida artística .
Depois de "O Cafona", Maysa foi para o teatro, onde interpretou a peça "Woyzeck" de Büchner. Embora fosse uma estreante, a crítica foi implacável quanto a seu desempenho como a camponesa Maria.
Enquanto faz novela, Maysa se apresenta no Bierklause do Rio, cantando, e prepara um show para os paulistas: "Tem que ser um grande show para marcar minha volta a São Paulo, depois de tanto tempo longe dos paulistas".





(Reportagem publicada originalmente na revista Intervalo 2000 de 31 de julho de 1972. Agradecimentos ao blog Astros em Revista)


21 de março de 2017

Fossa x Alegria = Maysa - Diário de Notícias, 17/06/1970



Texto de Vera de Almeida
Fotos de Maria José Barbosa

A Maysa, que diz que a fossa faz parte de sua vida, como faz da minha e das pessoas que se prezam, quando em família e,  principalmente, perto de sua avó, não parece senti-la, vira outra pessoa, onde o sorriso, a despreocupação está presente. É da Maysa fossenta e da Maysa alegre que hoje queremos falar um pouco. É do “Chão de Estrelas” que ela canta como ninguém. É da mulher e da cantora, ambas muito gente, que respeitam a quem as respeita, mas que se defendem como um leão ferido sempre que procuram atingi-las, jamais partindo para o ataque, sempre na defensiva. É da Maysa que só faz o que gosta, só diz o que pensa e aquilo que crê, que nos ocuparemos, mostrando que a sua agressão sempre tem razão de ser, não é gratuita.
Era um sábado cheio de sol. Em Copacabana, uma família reunia-se para feliz comemorar um aniversário. Era a família Monjardim que nesse dia cantava a tradicional musiquinha e acendia as velas de um bolo, quem as apagou foi uma pessoa famosa, conhecida em todo território nacional e fora dele. Mas naquele momento, Maysa esqueceu-se que era a cantora da fossa, da dor de cotovelo, para ser somente a neta, filha, a irmã, a cunhada, a esposa e a amiga. E como cantora da fossa é grande, não tem rival, também nas relações com sua família e com seus amigos, deixava transparecer toda a sua grandiosidade. Nesse dia não quis falar do show que está fazendo no Canecão, onde todas as noites é aplaudida de pé, especialmente ao fim de “Chão de Estrelas”, nem no programa “Dia D”, que deverá lhe dar este ano o prêmio de melhor entrevistadora da televisão, pois com muita inteligência vai conseguindo arrancar tudo de seus entrevistados, só desejava falar de saudade que sente de Jaiminho, que em julho deverá chegar para passar as férias, de sua sobrinha que leva o seu nome, de sua avó, a quem serviu o tempo todo, não permitindo que ninguém cuidasse dela, de seus pais, de seu marido e de seu irmão com quem relembrava momentos felizes e despreocupados de sua meninice e de sua adolescência. Nesse dia Maysa esqueceu a fama, as luzes, os aplausos, para ser só e simplesmente a dona de casa que estava recebendo e que fazia questão não só de receber como manda o figurino, mas acima de tudo, com muita ternura, carinho e amor, aqueles que lhe querem bem e aceitam como a mesma é sem exigir-lhe nada e de quem ela nada exige também.
Mas não é somente com seus familiares que vamos descobrir a Maysa ternura, a Maysa carinho, a Maysa amor, é, também, em seu ambiente de trabalho. É no Canecão, onde as garçonetes não lhe poupam demonstrações de apreço e carinho. É Luizinho Eça, diretor musical do show e responsável pelos arranjos, que diz:
- Eu quero levar Maysa ao encontro de um ambiente formado por garotos novos que tem coisas românticas e líricas que se prestam demais ao seu estilo de interpretação, para que ela renove o seu repertório. Quero propiciar esse encontro, porque acho que em matéria de lirismo, no Brasil, não existe nenhuma intérprete como Maysa. Disso não tenho dúvidas. Somente ela me faz abrir o berreiro, chorar como criança.
Maysa ouve isso tudo com um sorriso feliz em seus olhos, nos lábios, enfim, no rosto e, não se contendo, o interrompe para dizer que tudo isso acontece porque, embora já tenha trabalhado com muitos músicos, maestros, Luizinho Eça é o único que ela já viu durante um ensaio, ao piano, se arrepiar todo. E isso é sensacional. A gente vê a pele dele se arrepiar inteirinha e os pelos dos braços crescerem. Luizinho acredita tanto naquilo que está fazendo que nos transmite essa confiança, que nos dá confiança também. Desse modo Maysa reage aos amigos, àqueles que a respeitam como gente e como profissional. Em compensação, porém, é implacável quando encontra um mau caráter, aquele que se quer promover à sua custa ou a custa de qualquer outra pessoa, mesmo que essa não seja um amigo. Por isso, recentemente ao ser agredida, no que, como profissional, tinha de mais importante – sua criação musical – reagiu, e de maneira violenta. E desta vez, como de outras, os menos avisados não perceberam e alguns fingiram não perceber o porquê de seu ataque, que não era um ataque, mas uma defesa.
Assim, é Maysa: meiga, terna, carinhosa, mas que também sabe usar palavras e atitudes duras quando a provocam. E que não faz concessões baratas, como profissional, pois seu respeito ao público a leva aos maiores sacrifícios, porque, segundo ela mesma, não se pode brincar com aqueles que, apesar de tudo, das campanhas, do que disseram e fizeram com ela, lhe permaneceram fiéis e souberam responder ao seu apelo em “Ouça”: ouvindo-a ontem e hoje. 


(Reportagem publicada originalmente no jornal Diário de Notícias em 17 de junho de 1970)

8 de fevereiro de 2017

Maysa, o medo e a falta de sol - Diário de Notícias, 1963




Texto de Fernando Lobo

A vida é um quarto escuro mesmo e Maysa é uma criança ainda. As águas do tempo passam, mas ela será sempre criança, pois sendo só e sendo o bem das horas, minutos e segundos, não ganhará jamais o ritmo de ser só, de ficar só. Então se sabendo grande, esconde o medo empurrando a coragem do álcool, a presença do amor que não é amor, mas é presença, é segurança, é fala, é voz; não é amor, mas é alguém ao seu lado.
Que procura essa estranha mulher? Que quer ela? Para onde quer ir e onde está?
O silêncio de resposta é grande. Ontem ela ria, porque em volta havia um bando de meninos da “bossa nova” que cantaram sambas, que imploraram gravações para seus sambas “geniais”. Depois o bando voou, ao encontro das bem-amadas. Maysa ficou só, com acordes de colcheias e semitons nos seus ouvidos. O bando não a levou. Cumpriu missão de colocar música e depois se foi. A estrela ficou só, com seu Deus e sua estrela.
Agora ela diz que há um verdadeiro amor em sua vida e que ficou lá na Espanha. Não! Não é este ainda. O seu homem está num continente que pode ser a um mundo de milhas de distância ou a um palmo da sua mão. Ele não veste a farda nova dos novos de agora, nem tem nas mãos a arma moderna de um violão em dissonância. Deve ser homem, alegre, musical, bom, mas de passadas firmes, olhar firme e amor seguro por você. Mãos longas que segurarão suas mãos de menina. Passos firmes a mostrar como se caminha na estrada longa você que engatinha ainda. Ele será o homem procurado e que não está dentro da cortina de fumaça da noite, nem debruçado no balcão meloso do bar, muito menos com o rosto maquilado a pedido da noite. Será um homem de sol, de dentro para fora, homem dos peixes, amigo do mar, cheirando a sargaço, a seiva, a vida e transbordando amor para quem está oca, assim como você. E ele será inteiro seu. Então você saberá do sol, junto ao sol, provando e bebendo sol, que é o que falta às suas entranhas como remédio único para afastar o medo e a coragem de só não ter medo se afogando em lua...
Que estranha mulher é esta, que procura no vazio um alento, que encontra o alento procurado e o atira para o ar em troca de lágrimas e sofrimentos? Que estranha mulher é esta, que não se escondeu nos quatro cantos de um lugar comum, para que pudesse ter nos lábios sempre pragas. Que estranha mulher é esta, que tem em sua volta o ouro da fama, do metal, da glória, do êxito, ao ritmo das palmas e das flores? Estranha mulher, Maysa estranha que, quer um mundo maior que seu mundo, um Deus maior que seu Deus, uma estrela mais clara que a mais clara estrela que é sua. Ela vê as horas, escuta as águas do tempo correndo, correndo, seguindo sem passar e teme que seus cabelos sigam com elas e voltem brancos de neve. Maysa medrosa, Maysa covarde, Maysa fingindo ganância, com a soberba enfiada no peito como um punhal a não deixar que saia dos seus lábios a confissão mais certa, aquela que começa dizendo “eu quero mamãe, eu tenho medo...”


(Matéria publicada originalmente no jornal carioca Diário de Notícias em 1963)


22 de janeiro de 2017

Especial: 40 anos sem Maysa




O tempo parece voar cada vez mais rápido, hoje são quarenta anos sem Maysa... Quanto tempo se passou. Dizem que o tempo é o remédio para cicatrizes profundas, como a morte, mas mesmo que o tempo seja capaz de estancar uma ferida na pele, a memória conserva uma cicatriz interior; estas são mais profundas. Como a ausência de Maysa. 




[...] "Ao ler que não foi só cantora, compositora e atriz, mas também pintora, escultora e poeta, e sem entrar na avaliação de seu mérito em cada uma dessas formas de expressão, não tenho impressão de insegurança, superficialidade ou vaidade em busca de sucesso. Imagino antes que em cada tentativa de Maysa para se afirmar num setor de criação, havia a procura lancinante de forma de doação ao mundo – a forma definitiva. E essa doação seria de amor, no sentido mais perfeito da palavra, que é antes estético do que sentimental, ou seja, o ajuste completo das potencialidades do ser às potencialidades do mundo, em harmoniosa composição.
Por tudo isso, teria de sacrificar-se. Uma bela mulher talentosa que não se satisfaz com sua beleza nem com seu talento e procura alguma coisa mais do que isto, sem encontra-la, não por serem limitados os seus dons, mas porque a vida se encarrega de gerar situações críticas. Sobrevém o choque, o desejo subterrâneo de auto-imolação, que vai cortando as possibilidades da artista. O amor-criação não encontra correspondência adequada no grupo social, que deseja apenas aplaudir a cantora da dor-de-cotovelo e da solidão, sem perceber que atrás dessa música dolente há um enorme coração ligado a uma irrecusável ansiedade artística. E esse coração destrói-se aos poucos.

Seu fim, mesmo inesperado, é compreensível. Uma vida cheia de tensões, de insubmissão às regrinhas miúdas do jogo, teve o desfecho dramático que coroa sua tragicidade espiritual" [...]

Carlos Drummond de Andrade - Maysa na pintura e na lembrança, Folha de S. Paulo, 22/06/1978



[...] "Quando alguém me pergunta o que é amor eu sinceramente não sei o que responder. Está certo: amor é uma palavra muito bonita, mas não define coisa alguma. Hoje em dia, acho que o meu maior ato de amor é cantar. A pena é que cantar, para mim, ainda não se transformou – apesar de tudo – numa forma de expressão, no sentido realmente completo do termo. Pelo contrário, é apenas uma maneira de ganhar dinheiro. Mas acredito que chegará o dia em que conseguirei cantar como se fosse a coisa mais natural do mundo, assim como comer ou escovar os dentes; um ato absolutamente natural. Então, cantar vai deixar de ser apenas profissão. Porque quando me perguntam qual é a minha profissão, faço questão de dizer que minha profissão é ser."





Maysa
6 de junho de 1936 - ad infinitum