18 de maio de 2015

Imprensa: O que? Qualquer coisa. - Revista Veja, 09/09/1970


O que? Qualquer coisa.


Sobre a envelhecida – mas não esquecida – figura da mulher infeliz, a cantora Maysa vem desenhando nos últimos três meses o perfil ainda indefinido da pessoa famosa que se decide a correr o risco de mudar de atividade e sofrer críticas como qualquer principiante. Entrevistadora, apresentadora e repórter do DIA D (Record de São Paulo), ela tem mostrado inteligência, presença de espírito e, ao contrário da maioria dos apresentadores de TV, cultura. Mas não tem evitado os erros que todo principiante comete. O mais recente deles foi uma confusa entrevista nos EUA com o advogado do fanático Charles Manson, acusado de em agosto do ano passado ter comandado o assassinato da atriz Sharon Tate. Esse erro, seus novos planos e seu passado foram alguns assuntos de que falou na entrevista com Armando Salem, editor de “Televisão” de VEJA:

VEJA – Diga alguma coisa.
MAYSA – Ahn? Bemm... Eu posso dizer o que você quiser. Mas você não tem uma pergunta específica?
VEJA – Qualquer coisa.
MAYSA – Bom, tá perfeito, mas eu preferia que você dissesse sobre o que. Você é jornalista há muito tempo? Digo, faz tempo que você é repórter de VEJA? Você é repórter de VEJA?
VEJA – Sim, sou repórter de VEJA, faz tempo que sou jornalista e entendo sua preocupação. Não sou um foca*. Agora, não entendo seu espanto com minha pergunta. Afinal de contas, foi uma pergunta exatamente do gênero da que você fez ao advogado de Charles Manson no Hall of Justice, de Los Angeles. E com a mesma insistência.
MAYSA – (silêncio perplexo)
VEJA – Você deve assistir aos vídeos tape de seus programas e se tiver o mínimo de senso crítico...
MAYSA – Sim, vi o tape no Rio de Janeiro logo que cheguei de viagem e tive vontade de morrer. Se pudesse desligar o botão da minha televisão e tirar o programa do ar, teria tirado. Infelizmente, a gente não viaja por conta própria, mas com o dinheiro dos outros. E o programa que dá IBOPE, não importa se bom ou ruim, eles levam ao ar. A TV brasileira não existe para ser muito inteligente.
VEJA – Nesse caso a coisa muda de figura, não conhecia você pessoalmente e pela TV você parecia ser uma mulher orgulhosa e pretensiosa que...
MAYSA – Eu, orgulhosa? Porque?
VEJA – Talvez pelo seu porte, pelo ar teatral da pose sempre estudada...
MAYSA – Mas eu não sou estudada. Sou autêntica. Procuro sempre agir com naturalidade, a não ser...
VEJA – Não vem ao caso. Isso fica para mais tarde. O negócio é discutir sua entrevista com o advogado de Manson. Você conseguiu com exclusividade a cobertura do julgamento. Teve o advogado à sua disposição, o auxiliar do xerife, uma amiga de Manson e não fez nada. Deixou todo mundo sem saber nem mesmo se Manson estava na sala do tribunal. E, o que é pior, depois de um raio de luz, da insistência do advogado em que você fizesse uma pergunta específica, perguntou se ele achava Manson culpado.
MAYSA – Não sei o que aconteceu. Sabe quando você sonha que está fazendo algum troço, e quando está ali, com tudo à sua disposição, vem alguma coisa e lhe tolhe todos os movimentos? Minha voz não saía. Eu não conseguia coordenar nenhum pensamento. Sei lá, estava abobada. Se eu tivesse me preparado, teria feito uma coisa melhor, mas fui avisada às 10 horas da noite, pelo auxiliar do xerife, de que poderia ir ao Hall of Justice, inclusive com a câmera de filmagem.
VEJA – Sabe o que é uma pauta?
MAYSA – Sei, é aquele resumo da história que a gente faz...
VEJA – Não. Esse resumo também é importante e você não fez...
MAYSA – Não vai querer que eu lhe mostre que conheço o caso Manson?
VEJA – Claro que não. Mas no programa você devia ter lembrado o caso. No entanto, partiu do pressuposto de que todos os seus telespectadores eram gente que acompanha as notícias através de jornais ou revistas...
MAYSA – Meu público é o público de “Ouça”, ou seja, de todas as classes.
VEJA – Mas voltemos à pauta. Pauta é exatamente este roteiro que eu trouxe para me orientar e não esquecer certos temas da entrevista que estamos tentando fazer. Coisa que pouquíssima gente parece conhecer em nossas televisões.
MAYSA – Concordo plenamente, tudo é improviso. Mesmo nas entrevistas cara a cara que eu faço no “Dia D”, muitas vezes, fico sabendo cinco minutos antes de entrar em cena, ou do encontro com o entrevistado, de quem e do que se trata. Não é que eu queira me desculpar, mas o resultado só pode ser o apresentado – às vezes; bom, outras, ruim. Mas acho importante o que está dizendo...
VEJA – O que?
MAYSA – Todas essas críticas. Ainda no domingo passado, a respeito do programa do Charles Manson, li em um jornal de São Paulo que o programa havia sido excelente, com mínimas falhas. Agora veja quanto foi ridículo. Para mim isso é que é o importante, sei que não sou uma repórter...
VEJA – Era minha próxima pergunta. Olhe aqui na pauta.
MAYSA – (Sorri.) Eh, facilita. Mas, dizia, não sou repórter. Vejo no jornalismo algo de fascinante e pretendo me dedicar a ele. Manson era a minha primeira grande experiência, falhei, não pretendo me desculpar. Mas não gosto das coisas pela metade, como fazia antigamente. Ninguém nasceu sabendo, vou aprender a ser jornalista, aproveitar o meu “background” – intuição. Tudo em mim é intuição.
VEJA – Desculpe. Mas você parece ser uma mulher culta. Não apenas impressiona por falar fácil, mas suas histórias demonstram uma mulher vivida.
MAYSA – Minhas histórias. Histórias do tempo em que eu bebia demais para ter um pouco de coragem...
VEJA – É tímida?
MAYSA – Ultra tímida. Naquele tempo eu cultivava minha infelicidade. Os jornais falavam que eu era uma bêbada, infeliz, e eu delirava com isso. Ficava feliz porque alguém me incentivava a ser infeliz. Na verdade, eu não era nada, não via nada. Terminei o ginásio e aos dezoito anos de idade estava casada. Jamais gostei muito de ler (li muito pouco). Morei na Espanha, vivi uns meses completamente dura em Paris (mas dura mesmo, não tinha dinheiro nem para comer), morei em alguns países da América Latina e, francamente, não tirei nada além do dia a dia. Claro, aprendi a falar inglês, francês, espanhol e italiano.
VEJA – Bom, vivida ou não, o certo é que você carrega uma boa bagagem. E o simples fato de falar várias línguas já dá para você se comparar com os demais entrevistadores de nossas TVs.
MAYSA – Pra começar, eu quase não vejo televisão e conheço muito pouca gente para me comparar...
VEJA – Você não gosta de televisão?
MAYSA – Para responder isso, tenho que cair no velho chavão: “É masoquismo ver televisão no Brasil”. Mas a verdade é que eu não aguento TV. Ela atrapalha o diálogo e eu adoro conversar. Prefiro bater um papo sozinha, feito uma louca, ou ir cozinhar, a assistir televisão. Além disso, pouquíssimos são os bons programas.
VEJA – O “Dia D” é um bom programa?
MAYSA – Vai ser um bom programa. Já tem muita coisa boa, mas é muito longo e tem uma série de enxertos (musicais, na maioria) que se repetem para encher suas três horas e meia de duração. Agora ele vai passar para uma hora e vinte e será mais de jornalismo do que musical. E existe uma preocupação tanto de minha parte como do Paulinho Machado de Carvalho (diretor da Record) em não assinarmos contrato. Assim, no dia em que um dos dois não estiver satisfeito faço as malas e me mando. Por enquanto estamos de acordo. E animados. Ele com o meu trabalho, eu com as perspectivas de poder fazer um bom jornalismo. Entrevistas humanas, que outros fariam mundo-cão. O velho professor de violino da porta do Municipal do Rio, que, enquanto a orquestra toca no interior do teatro, toca na porta, na rua, feliz, exibindo um cartaz de sua profissão, em busca de alunos. Quero chegar à essência desse ser, dessa vida.
VEJA – Mas você me parece tão epidérmica!
MAYSA – Sim, sou epidérmica. Para mim, tudo é pele. Emoção, o que me cerca. E o que sempre procuro traduzir nos meus programas é isso, o que estou sentindo. Por isso não aceito a imagem de teatral que você me fez na TV. Eu sou aquilo. Por isso tenho fé no filme que só eu e o cinegrafista que me acompanha em minhas entrevistas (Laerte Garcia Rosa) iremos fazer. Sem roteiro. Ele filmará um longa metragem onde eu procurarei viver todas as emoções do momento e tentar transmiti-las. E para tentar transmitir isso vou até o impossível. Não tenho medo de bebidas, tóxicos. Só do LSD. Mas, se for...

* foca é o apelido que se dá nas redações ao jornalista principiante.









  

(Entrevista publicada originalmente na revista VEJA, em 9 de setembro de 1970)

2 de fevereiro de 2015

Televisão: Maysa, com muita saudade - TVE Brasil, 1987

Maysa, com muita saudade

Em 23 de janeiro de 1987, a TVE Brasil (atual TV Brasil), transmitiu o especial Maysa, com muita saudade -  homenageando os 10 anos da morte da cantora, em 22 de janeiro de 1977. Dirigido pelo compositor Fernando Lobo e J.A. Medeiros, era constituído de material de arquivo - compilado do especial gravado pela própria emissora com Maysa em Maricá (1974), o especial Maysa: Estudos (1975) da TV Cultura, e o curta metragem Maysa (1979) dirigido por Jayme Monjardim; tudo isso entrelaçado por textos originais da própria Maysa e outros, escritos especialmente por Fernando Lobo, que logo no início faz uma introdução relembrando os grandes nomes da MPB nascidos e falecidos no mês de janeiro. Além das imagens de Maysa, Jayme, seu filho único, também aparece lhe prestando um depoimento e brincando com seu primogênito (nascido em 1985), e mostrando às câmeras os quadros que a mãe pintou quando viveu em Maricá nos anos 70. A narração é dos atores Cássia Kiss e Raimundo de Souza. Agora, vejam e revejam quantas vezes quiserem Maysa, com muita saudade.




27 de janeiro de 2015

Televisão: Maysa no Dia D - TV Record, 1970


Como já abordado num post aqui no blog, em 1970 Maysa tomou a dianteira do jornalístico Dia D da TV Record de São Paulo, após a saída da então apresentadora Cidinha Campos da emissora, tendo revelado um desempenho excelente como repórter.
Numa de suas reportagens para o programa, Maysa visitou o set de filmagens de A Herança (1970) obscuro filme do cineasta Ozualdo Candeias - pioneiro do chamado cinema marginal -, onde entrevistou um velho conhecido seu, o cantor Agnaldo Rayol, que fazia uma participação no filme. Rodado em Itapecirica da Serra (SP), a trama se baseava em Hamlet de William Shakespeare; transpondo a história para o cenário rural brasileiro. Nas imagens a seguir podemos ver Maysa ao lado de Rayol e do ator David Cardoso, protagonista do filme.














Fotos: fotógrafo não identificado
Acervo: Cinemateca Brasileira



22 de janeiro de 2015

Especial: 38 anos sem Maysa



Uma vida é feita de fatos e acontecimentos. Momentos de felicidade, tristeza, amargura, alegria, instantes em que podemos nos sentir completamente felizes ou eternamente derrotados. A certeza da momentaneidade dos sentimentos (a da felicidade, por exemplo) era uma crença muito forte de Maysa, afinal, quantas vezes ela não proferiu a célebre "Felicidade a toda hora é coisa de gente burra!" E é mesmo, não é? Digo isso para exemplificar o quanto Maysa era uma pessoa viva e consciente da vida à sua volta, dos seres humanos, das horas, do passar do tempo. Tempo, tempo esse que correu depressa demais, assim como ela também vivia rápido demais, em alta velocidade. Costumamos admirar ou até mesmo idolatrar aqueles que ousaram viver no sentido mais vibrante da palavra - pulsante, sem medo, com coragem. E como Maysa teve coragem! Percebam nesta curta história o quanto a morte estava distante e perto de Maysa, sim, porque a morte costuma estar sempre muito perto dessas pessoas que atravessam barreiras as quais os outros tem medo de encostar. E esta história, a de Maysa, é cheia dessas transposições de barreiras, de pioneirismos, de "insubmissões às regrinhas miúdas do jogo", - como o poeta Carlos Drummond de Andrade definiu perfeitamente. Esta história que será contada e recontada por muitos anos é quase tão forte quanto a própria música que Maysa criou; caneta na mão, dedos no piano (ou no violão), ela ia inconscientemente escrevendo a história da sua vida, numa época em que mulheres ainda custavam a escrever sozinhas as suas histórias, e que bonito é pensar que Maysa conseguiu isso. Numa de suas canções ela disse que precisava de tempo para poder se encontrar; acredito que em algum dia ela tenha se encontrado. Porque acho isso? Porque Maysa nunca desistiu, era uma batalhadora, ela não parece ter desperdiçado um segundo sequer do seu tempo, quando se encheu de cantar, foi pintar, esculpir, buscou nas artes plásticas um novo canalizador para tudo aquilo que sentia, que retinha dentro de si mesma e não podia mais pôr para fora através do canto. E claro, escrever, nunca parou de escrever, seus escritos - ao lado de suas canções - são o que de mais precioso temos dela, frutos de uma mente incrivelmente sã e um coração grande demais. Perto do fim, ela sabia o quão longa havia sido a caminhada, doce, amarga; ela parecia saber todos os gostos, ter experimentado todos os sabores da vida. Sobre ela, temos dezenas de músicas, poemas, fotografias, rastros profundos de uma história de vida que pode ser resumida à uma palavra muito importante: aprendizagem; mesmo que ela jamais tenha tido a intenção de ensinar alguma coisa, ela sabia o quanto ensinou às pessoas, tenham certeza, ela sabia o quanto tudo valeu a pena. O fim? Não penso num fim para Maysa, a fatalidade que lhe tirou a vida terrestre é pequena perto de uma história tão enriquecedora, não se trata de um "fim da linha", ou um "ponto final", é um entre-aspas que podemos usar para prosseguir para outras partes mais eloquentes desta história. O seu fim é passageiro, a trajetória dela é infinita.


"Havia uma mulher que
caminhava dentro de mim
já num passo capenga, sem
jeito, quase aberto,
sem medos pela inconsequência,
sem alma pelo
vazio que ela sabia a sua busca..."


Maysa Figueira Monjardim
(06/06/1936 - 22/01/1977)


26 de setembro de 2014

Imprensa: Eles agora são da família mineira - revista Fatos e Fotos, 1972


Eles agora são da família mineira

Reportagem de ANTONIO DE PÁDUA · Fotos de NÉLSON ARANHA
  
Poderia ser um script de novela de TV. Cantora e ator famosos, com casamentos terminados, unem-se para buscar, fora da agitação das grandes cidades, o clima propício à criação artística. Esta história está acontecendo.



De repente, recém casados, Carlos Alberto e Maysa resolveram sair em busca do tempo perdido, viajando Brasil afora. Pegaram o carro e deram adeus às coisas que os prendiam ao Rio.
Chegaram a Minas pelo sul, e pouco a pouco foram subindo. Em Belo Horizonte, resolveram parar uns dias para conhecer melhor a cidade. Acabaram tomando a decisão: ficariam lá. Acharam o povo atraente, as condições de vida na capital mineira “espetaculares”. Não resistiram. Maysa explica:

UM ROMPIMENTO COM O PASSADO

-         O mineiro é um povo fechado, todo mundo sabe disso. Mas quando aceita um estranho, o torna parte da sua vida. Foi o que aconteceu conosco. Pessoas maravilhosas querem nos ajudar. Sabe, é uma pena que não tenham descoberto a velha Minas Gerais. E eu me sinto muito feliz por tê-la descoberto a tempo.
Os novos planos dos dois não implicam em rompimento total com o passado. Querem sair da rotina anterior, mas de forma racional, sem precipitações.
Seus projetos incluem um programa de televisão numa emissora de Belo Horizonte. Seria algo diferente do que se tem feito até agora. Músicas, entrevistas e jornalismo, sobretudo jornalismo, tudo concebido e executado pelos dois. Carlos Alberto no seu papel de ator, e Maysa no de cantora. Ela já tem até um show marcado para o ano que vem, num teatro de Belo Horizonte.
-         Vai ser a primeira vez que vou cantar num teatro. Até agora, pensava que meu público fosse gente que gosta de bebericar enquanto me ouve. Aqui eu vi que é diferente. Carlos Alberto também não vai cortar de uma vez o que andava fazendo. Um de nossos desejos é montar uma peça também. Com exceção da gente, usaríamos só atores mineiros. Achamos que esta terra tem muita gente boa inaproveitada. No meu show, por exemplo, todos os músicos serão mineiros, inclusive o maestro.
Outro projeto do casal, para ser posto em execução em Belo Horizonte, é a criação do Ponto de Encontro, uma espécie de feira aberta das artes. Carlos Alberto fala dele com entusiasmo:
-         O Ponto de Encontro vai ser um lugar para a reunião de artistas, intelectuais e todas as pessoas que se interessem por arte em geral. Teremos lá discos importados, livros, quadros e outras coisas. Aqui ainda não há uma casa deste tipo, e quero torna-la realidade tão logo possa para aproveitar a potencialidade de Minas Gerais. Na minha opinião está se processando em Belo Horizonte um dos maiores movimentos de arte do mundo, sobretudo no campo da pintura. Em nenhum outro lugar consegui observar tanto qualidade. O interesse da juventude mineira é uma coisa muito séria.
Além da razão artística, Carlos Alberto vê outro motivo para estar amado pelas montanhas de Minas, estado que ele acha esquecido até pelos próprios mineiros.
-         Eu sou um homem que busca a paz. Aqui em Minas eu a encontrei. A vida inteira procurei a mim mesmo, o sentido de viver, uma resposta para a minha existência, e parece que tudo está aqui. Esta terra é maravilhosa. Sou o gaúcho mais mineiro que existe.




(Reportagem publicada originalmente na revista FATOS E FOTOS em 1972)

11 de agosto de 2014

Imprensa: Maysa uma gatinha na galeria dos ídolos - Radiolândia, 1957


Maysa uma gatinha na galeria dos ídolos!



Havia no público do Rio incontido desejo de conhecer a jovem cantora e compositora surgida tão surpreendentemente no cenário musical do país – e Maysa Matarazzo, que conquistara S. Paulo da noite para o dia, encontrou o Rio de braços abertos, para a complementação de sua glória – beleza exótica, sua cara lembra a de uma gatinha mesmo – o sucesso enorme do primeiro “Lp” animou a RGE ao segundo, que vem por aí para novos êxitos de vendagem – a noite foi de Maysa na TV-Rio

De OSWALDO MIRANDA
Fotos de WILSON LOPES

Maysa Matarazzo agora também canta para os cariocas, depois de representar para eles, assim como que um enigma... sim – um enigma. A totalidade do público do Rio só conhecia Maysa de sua fama obtida fulminantemente, com o lançamento de um “long-playing”. Ela começava por onde os outros terminam. O LP é o ápice da carreira de todo cantor de rádio e muitos, de comprovada categoria e popularidade ou tradição artística, ainda não o conseguiram. E seria inoportuno, até, referi-los neste escrito que focaliza um valor absolutamente novo, um nome incipiente na arte da composição e do canto populares.
Eu disse que Maysa era um enigma para os cariocas. Sim. Eles a viam em fotografias, liam as reportagens, procuravam seu disco nas lojas, mas já desde há algum tempo davam mostras de um desejo incontido de conhecer, em pessoa, aquela que tão sensacionalmente surgira no mundo musical do Brasil, legendada, primeiro, pelo sobrenome famoso que logo evoca uma alta expressão na sociedade e na indústria nacionais; segundo, pelo valor incontestável que demonstrou possuir.
Um dia Maysa viera ao Rio, cantara na Mayrink Veiga, dera um giro pelas emissoras, mas tudo foi uma andança a jato, na companhia de Valter Silva. Logo voltava a São Paulo e em seguida se conhecia a notícia de que fora contratada pela rádio e televisão Record. Tal contrato, como o que assinara com a RGE, a instâncias de Roberto Côrte Real, Maysa só o fizera mediante a condição primacial de atuar, na qualidade de profissional, com o dinheiro proveniente de seu trabalho revertendo, na mor parte, em favor dos necessitados, em favor dos cancerosos.
Maysa passou a ser notícia de jornal e a cada dia crescia sua popularidade e aumentava, no Rio, a angústia de um público que ansiava por conhecer a grata revelação artística do ano de 1956.
O enigma, finalmente de desfez. Maysa aceitou contrato de Bom Bril para fazer uma temporada na TV-Rio. E veio; veio para começar no Rio a mesma brilhante carreira já consolidada em São Paulo. Sua vinda coincidiu com a instalação dos escritórios da RGE no Rio. Não será preciso dizer, portanto, que um mundo de gente da terra da garoa (ainda é?) voou do planalto para festejar com Maysa a noite de sua estreia. Primeiro, foi um “cock-tail” na Mesbla, com taças se chocando no ar e às vezes até se quebrando, tal entusiasmo que imperava no ambiente amigo, de confraternização artística, com o Ibirapuera abraçando o Maracanã e a Avenida São João se dando de braços com a Avenida Rio Branco... uma hora depois toda aquela gente alegre enchia o auditório da TV-Rio, florido para a noite de Maysa. noite memorável porque dezenas de milhares de pessoas, que tanto desejavam conhecer Maysa, com ela travaram contato, tiveram-na assim, com a cara de gata dentro de sua casa, cantando com a voz quente e ingênua, doce e insinuante, que já fizera o encanto dos paulistas.

Léo Batista foi o felizardo da apresentação, contou a história curiosa do surgimento de Maysa, tal como está escrita na contracapa do “long-playing” “Convite para ouvir Maysa”, em redação brilhante de Roberto Côrte Real, e disse o que poucos sabiam: ela é carioca!
A orquestra de Osvaldo Borba, de violinos em surdina, fez os acompanhamentos e o público foi-se embriagando com “Tarde triste”, “O que?”, “Escuta Noel” e “Ouça”, tudo de autoria da própria cantora, e “Segredo” de Fernando César. Violinos e harpas compunham o todo orquestral que amparava a voz gostosa de Maysa, no seu recital, e sua beleza exótica – repito que Maysa parece uma gatinha de estimação e vou até mais longe, sugerindo que sua beleza seja assim uma beleza felina... – a todos encantava.

A noite carioca era toda de Maysa. Para ela eram as atenções, os olhares, os comentários de um milhão de cariocas; para ela eram as palmas da plateia; para ela era o champagne que escorreria no auditório da TV-Rio, o mesmo champagne que marca sempre os grandes acontecimentos.
De vestido preto, com bordados de pedras, Maysa trazia o cabelo louro despenteado e caído por sobre a fronte. Mas o despenteado de Maysa completa o exotismo de sua beleza e compõe, com os olhos verdes, puxados para o canto, em forma de losango, o toque felino a que já me referi.

Quando cumprimentei Maysa, disse-lhe:
-         Você ficará zangada se eu disser que você tem uma carinha linda de gata?
Maysa só fez sorrir e disse:
-         Sabe que eu até gosto de ser comparada a uma gatinha?

É essa simpatia, esse valor, essa esplêndida revelação da música popular do Brasil que hoje todos festejamos. Maysa venceu porque tinha mesmo de vencer. Não fez porque. Venceu naturalmente, pela lógica das coisas. Seu disco que traz o samba “Ouça” já vendera mais de 30 mil exemplares quando escrevo estas linhas e o LP continua descendo das prateleiras, para a alegria de José Scatena e de toda a gente boa da RGE.
Agora vem outro “long-playing” por aí. Na face “A” vocês encontrarão “Ouça”, “O que?”, “Escuta Noel” e “Segredo” e na face “B”, “To the ends of the earth”, “Franqueza”, “Um jour tu verras” e “Se todos fossem iguais a você”. As orquestrações, à exceção de “Segredo”, que é de Henrique Simonetti, são do mesmo Rafael Puglieli, autor de todos os primorosos arranjos do primeiro LP. Será também sucesso.
Quando esta reportagem sair, já Maysa terá feito três ou quatro programas na TV-Rio e os cariocas já terão incorporado a gatinha à galeria de seus ídolos do canto popular. Não sou de dar palpites, mas este eu arrisco, sem receio de errar.


(Reportagem publicada originalmente na revista RADIOLÂNDIA, 1957)

29 de julho de 2014

Imprensa: O que Maysa pensa dos homens - Revista do Rádio, s.d.



-         Os homens são todos iguais. Dizem que a mulher é a costela que lhes está faltando. Mas, sempre querem várias “costelas” para um só lugar vazio...
-         O maior defeito do homem? Normalmente eles têm tantos defeitos que seria impossível dizer qual o maior deles.
-         Eu poderia dizer que o homem mais perfeito do mundo é o meu pai. Mas, isso seria piegas. Afinal de contas, quando existir um só homem perfeito no mundo, o mundo deixará de existir.
-         Os homens só têm uma bondade: eles podem ser o que as mulheres quiserem. Para isso basta serem levados com carinho.
-         Infelizmente essa é a verdade: os homens nasceram para dominar o mundo.
-         E como as leis são feitas por eles, claro que eles serão sempre os mais beneficiados.
-         Os homens deixarem de ser menos egoístas? Isso é uma coisa tão boa que nós, mulheres, não podemos desejar.
-         Volto a dizer o que já disse: se eu voltasse ao mundo, queria ser preto e feio.
-         Para os homens o 9º mandamento da Lei de Deus praticamente não existe.
-         Os carecas são geralmente os homens que mais impressionam as mulheres. É mesmo dos carecas que elas gostam mais.
-         A principal missão do homem é construir o lar e amar, para que a vida continue.
-         O mais detestável tipo de homem é o bonitão, o conquistador barato.
-         O golpe que o homem nasce com ele no pensamento, desenvolve através dos anos e nem sempre o executa, é o “golpe do baú”...
-         Existem, sim, homens de vários tipos. Porém, o tipo mais comum é aquele que prefere enganar para ser mais feliz.
-         Eu me casei por amor. Meu marido também o fez assim. E não foi por falta de amor que chegamos à separação.
-         O homem normalmente nasce enganado, vive enganado. O diabo é que no final morre enganado, pois não consegue enganar a morte (que é mulher).
-         Convenhamos, os homens são fortemente atacados pelas mulheres. Todavia, elas vivem sempre à caça deles.
-         Sim, porque é isso mesmo. Já imaginaram um mundo sem homens? Seria tenebroso! As mulheres não tinham nem de quem falar mal...


(Matéria publicada originalmente na REVISTA DO RÁDIO; provavelmente nos anos de 1958 ou 1959)