31 de maio de 2010

Coluna: Música da semana


"Castigo" / "Fim de Caso"


Título:
Autoria: Dolores Duran
LP: Maysa (1974)

Análise:
‘Eu desconfio que o nosso caso está na hora de acabar, há um adeus em cada gesto em cada olhar, mas nós temos é coragem de falar.’

"Fim de Caso" já estava fadado a se tornar um sucesso, era uma música que já nascia como um clássico da MPB. Um dos maiores sucessos da incrível obra da saudosa Dolores Duran. Maysa já havia registrado "Castigo" no LP Maysa é Maysa...é Maysa, é Maysa! de 1959, mas agora, quase 15 anos depois, era hora de prestar uma homenagem póstuma à Dolores. Em clima de nostalgia, Maysa montou um revival para o LP Maysa de 1974, casando os versos de "Fim de Caso" aos de "Castigo", num singelo pot-pourri, delicado, que aos nossos ouvidos acaba passando despercebido o fato de serem duas canções, ao invés de uma só.

O emocionante revival, resultaria em uma das melhores e mais sinceras interpretações de Maysa. "Fim de Caso" retrata as angústias rotineiras de Dolores Duran sobre o fim do casamento com Macedo Neto nos versos contritos ‘Tenho pensado e Deus permita que eu esteja errada, mas eu estou desconfiada que o nosso caso está na hora de acabar.’ Já "Castigo" cristaliza a dor da separação do casal, explícita por Dolores nos versos agoniados ‘Você se lembra? Foi isso mesmo que se deu comigo, eu tive orgulho e tenho por castigo, a vida inteira pra me arrepender.’

"Castigo" e "Fim de Caso" são canções intimistas, por retratar em versos, as dores e aflições de sua autora. São canções que requerem uma interpretação sincera por carregar em sua letra toda uma carga de emoções vividas. Tudo isso, somado à personalidade passional de Maysa criou de imediato uma identificação mútua entre a música e a intérprete, Maysa realmente se apropriou do lamento de "Fim de Caso" e da auto-punição de "Castigo" como se fosse obra dela mesma.

Mas quem nunca se viu diante de um fim de caso? Ou então se punindo como castigo, após uma dolorosa separação. ‘Nós já tivemos a nossa fase de carinho apaixonado, se fazer versos de viver sempre abraços, naquela base do só vou se você for.’ Não, realmente não há ninguém que não tenha vivido a tristeza, e é aí que entra o dilema, a dúvida, a punição, o castigo e a dor, talvez por isso haja tanta identificação entre a canção e Maysa, seu lamento parece o próprio lamento de Maysa, um lamento de tantos amores idos e vindos, de tantas paixões e casos terminados. Para todos os corações apaixonados, "Fim de Caso" e "Castigo" pode soar como velha nostalgia sobre amores do passado, amores terminados e corações despedaçados. Mas por mais que o tempo passe e o vento carregue as lembranças do passado, sempre há de pairar uma dúvida sobre a cabeça.

'Se eu soubesse, naquele dia o que sei agora, eu não seria esta mulher que chora, eu não teria perdido você.'


28 de maio de 2010

"Maísa" de Manuel Bandeira



Maísa

Um dia pensei um poema para Maísa

Maísa não é isso
Maísa não é aquilo
Como é então que Maísa me comove me sacode me buleversa me hipnotiza?

Muito simplesmente
Maísa não é isso mas Maísa tem aquilo
Maísa não é aquilo mas Maísa tem isto
Os olhos de Maísa são dois não sei quê dois não sei como diga dois Oceanos Não-Pacíficos

A boca de Maísa é isto isso e aquilo
Quem fala mais em Maísa a boca ou os olhos?
Os olhos e a boca de Maísa se entendem os olhos dizem uma coisa e a boca de Maísa se condói se contrai se contorce como a ostra viva em que se pingou uma gota de limão
A boca de Maísa escanteia e os olhos de Maísa ficam sérios
meu Deus como os olhos de Maísa podem ser sérios e como a boca de Maísa pode ser amarga!
Boca da noite (mas de repente alvorece num sorriso infantil inefável)

Cacei imagens delirantes
Maísa podia não gostar
Cassei o poema.

Maísa reapareceu depois de longa ausência
Maísa emagreceu
Está melhor assim?
Nem melhor nem pior
Maísa não é um corpo
Maísa são dois olhos e uma boca
 Essa é a Maísa da televisão
A Maísa que canta
A outra eu não conheço não
Não conheço de todo
Mas mando um beijo para ela.


Manuel Bandeira in “Estrela da Vida Inteira”, 3ª edição, Livraria José Olympio Editora, 1973.

22 de maio de 2010

Discografia: Os discos internacionais de Maysa


Os discos internacionais de Maysa

Como todos sabem, Maysa foi uma cantora de intensa carreira internacional. Durante seus 20 anos de carreira, excursionou por toda América Latina, Estados Unidos, México, Portugal, Espanha, França e Itália, cruzando o Atlântico aportou na Angola e no Marrocos e pousou até sobre o longínquo Japão. Na bagagem levava talento; um talento que hipnotizava as plateias internacionais, viajou o mundo inteiro vendo gente, e essa gente se encantava com o magnetismo da cantora brasileira. Sucesso por onde passava, deixou seu nome impresso por todos os lugares onde se apresentou. Versátil, encantava a desde o público da cosmopolita Nova York, até a exigente platéia da tradicional Paris.

É por isso que hoje abrimos espaço aos vários álbuns nos quais Maysa registrou sua arte por todos os países que passou. De Nova York à Tóquio, de Lisboa à Paris. 

Maysa sings songs before dawn (mono)
Columbia Records – Estados Unidos (1961)
Maysa sings songs before dawn (estéreo)
Columbia Records – Estados Unidos (1961)
 
(mono)


 (estéreo)

Faixas:
1- You better go now
2- Something to remember you by
3- The end of a love affair
4- Night of my love (A noite do meu bem)
5- If I forget you
6- Ne me quitte pas
7- When you lover has gone
8- Mean to me
9- The man that got away
10- Autumn leaves
11- I’m a fool to want you
12- La barca

Maysa (compacto duplo)
Barclay – França (1963)


Faixas:
1- Les inconscients
2- Fin du jour
3- 100.000 chansons
4- Chega de saudade

Ad ogni costo (complacto simples)
GTA Records – Itália (1967)

 
 Faixas:
1- Dirgli solo no
2- Vai via malinconia

Et maintenant compacto simples)
GTA Records – Itália (1968)

 
 Faixas:
1- Et Maintenant
2- Per ricominciare

Maysa Matarazzo (compacto simples)
RCA Victor – Espanha (1968)

 
 Faixas:
1- Pálida ausência
2- Reza

Maysa Matarazzo (compacto português)
RCA Victor – Portugal (1968)


Faixas:
1- Reza
2- Chão de estrelas
3- Tristeza de nós dois
4- Dia de vitória

Relançamentos
Ao longo de toda sua carreira, Maysa sempre teve uma popularidade e prestígio extraordinário na América Latina, tendo excursionado pela Argentina, Uruguai, Chile, Colômbia, Peru, Venezuela, Porto Rico e México. Lá, seus discos eram continuamente relançados e consumidos por um público muito fiel. A equipe do Blog oficial Maysa selecionou alguns desses relançamentos raríssimos para exposição no Blog, dando provas da imensa popularidade de Maysa na América espanhola.

(OBS: Durante a pesquisa para a formulação desta ‘mini-discografia’ muitos relançamentos não apresentavam data, matriz original nem lista de faixas. Quando os títulos eram vertidos para o espanhol, muitas vezes não apresentavam a devida tradução original. Dentro deste contexto a equipe do blog checou todas as fontes possíveis e seguras para que evitar equívocos e poder apresentar esta discografia da forma mais correta o possível).

The sound of love
United Artists – Estados Unidos (1959)
(Reedição de Convite para ouvir Maysa Nº 2 de 1958)


Faixas:
1- Meu mundo caiu
2- No meio da noite
3- Bronzes e cristais
4- Por causa de você
5- Bom dia, tristeza
6- Felicidade infeliz
7- Bouquet de Izabel
8- Mundo novo
9- E a chuva parou
10- Caminhos cruzados
11- Meu sonho feliz
12- Diplomacia

Invitación para escuchar a Maysa
Orfeo – Argentina (sem data)
(Reedição de Convite para ouvir Maysa Nº 2 de 1958)


Maysa
Orfeo – Argentina (1961)
Maysa
Orfeo – Uruguai (1961)
Maysa Matarazzo
CBS Peru – Peru (1961)
(Reedições de Maysa sings songs before dawn. As músicas foram dispostas em nova ordem com títulos vertidos para o espanhol)



Faixas:
1- La noche de mi amor (A noite do meu bem)
2- Puedes irte ya (You better go now)
3- Algo por que recordarte (Something to remember you by)
4- No me abandones (Ne me quitte pas)
5- Si yo te olvido (If I forget you)
6- Fin de un asunto amoroso (The end of a love affair)
7- La barca
8- Cruel conmigo (Mean to me)
9- Cuando tu amor se haya ido (When your lover has gone)
10- Las hojas mortas (Autumn Leaves)
11- Soy un tonto por quererte (I’m a fool to want you)
12- Mi hombre se ha ido ahora (The man that got away)

Barquinho (mono)
Orfeo – Argentina (sem data)
Barquinho (estéreo)
Orfeo – Argentina (sem data)
El barquito
Harmony CBS – Argentina (sem data)
(reedições de Barquinho de 1961, os títulos das músicas foram vertidos para espanhol)

(estéreo)
 

(mono)
 
 
 Faixas:
1- El barquito (O barquinho)
2- Tu y yo (Você e eu)
3- Dos niños (Dois meninos)
4- Recado de soledad (Recado à solidão)
5- Despues del amor (Depois do amor)
6- Solo tu (Só você)
7- Maysa
8- Error sin importancia (Errinho à toa)
9- Primera lagrima (Lágrima primeira)
10- Yo y mi corazón (Eu e o meu coração)
11- Calla mi amor (Cala meu amor)
12- Melancolía (Melancolia)

Canção do amor mais triste
RGE / Antar – Uruguai (sem data)
Canción de amor más triste
RGE / Fermata – Argentina (sem data)
(Reedições de Canção do amor mais triste de 1962. O relançamento argentino teve os títulos das músicas vertidos para o espanhol)



Faixas:
1- Favela
2- La misma rosa amarilla (A mesma rosa amarela)
3- Nosotros y el mar (Nós e o mar)
4- Fin de noche (Fim de noite)
5- Alredor de medianoche (Round midnight)
6- Canción de mi amor (Canção do meu amor)
7- Canción de amor más triste (Canção do amor mais triste)
8- Agua de beber (Agua de beber)
9- El amor que acabo (O amor que acabou)
10- Mil flores
11- Loca de saudade (Louca de saudade)
12- Ah! Si yo pudiera (Ah! Se eu pudesse)

Maysa canta con amor
RGE / Fermata – Argentina (sem data)
(Os títulos das músicas foram vertidos para o espanhol)


Faixas:
1- Mi mundo cayó (Meu mundo caiu)
2- Himno al amor (Hino ao amor / L’Hymne a L’Amour)
3- Y de ahí? (E daí?)
4- Tarde triste
5- Llano de estrellas (Chão de estrelas)
6- Castigo
7- Lloro lloro (Chorou chorou)
8- Se que voy a amarte (Eu sei que vou te amar)
9- No voy a querer (Não vou querer)
10- Adios (Adeus)
11- Por la calle (Pela rua)
12- Solo dios (Só Deus)

Maysa Matarazzo
RCA Victor – Peru (1968)
Maysa Matarazzo
RCA Victor – México (1968)
Maysa Matarazzo (estéreo)
RCA Victor – Argentina (1968)
(As músicas foram extraídas do LP Maysa de 1966, mais "Berimbau" e "O Barquinho". Os títulos das músicas foram vertidos para o espanhol)




Faixas:
1- Barquinho
2- Solo um momento (Just in time)
3- Fantasia de trombones
4- O canto de ossanha
5- Morir de amor (Morrer de amor)
6- Ne me quitte pas
7- Fantasia de cellos
8- Canción sin titulo (Canção sem título)
9- Las mismas historias (As mesmas histórias)
10- Berimbau

Los últimos éxitos
Copacabana – Chile (sem data)
(Reedição de Canecão apresenta Maysa de 1969, a capa é de Maysa do mesmo ano. Os títulos foram vertidos para o espanhol.)


Faixas:
1- Demas / Mi mundo cayó / Debo aprender a estar solo (Demais / Meu mundo caiu / Preciso aprender a ser só)
2- Para quien no quiera escuchar mi canto (Pra quem não quiser ouvir meu canto)
3- Por causa de ti – Dindi (Por causa de você – Dindi)
4- Si tu piensas (Se você pensa)
5- No me dejes (Ne me quitte pas)
6- Enciende mi fuego (Light my fire)
7- Piso de estrellas (Chão de estrelas)
8- Tarde triste – Mi mundo caiyó – Escucha (Tarde triste - Meu mundo caiu - Ouça)
9- Yo y la brisa (Eu e a brisa)
10- Dia de victoria (Dia de Vitória)
11- Dia de las rosas (Dia das rosas)
12- Si todos fueran iguales a ti (Se todos fossem iguais a você)

Favela (compacto duplo)
RGE / Fermata – Argentina (sem data)
( Músicas extraídas de Maysa é Maysa...é Maysa, é Maysa! E Canção do amor mais triste. Os títulos das músicas foram vertidos para o espanhol)


Faixas:
1- Favela
2- Loca de saudade (Louca de saudade)
3- La misma rosa amarilla (A mesma rosa amarela)
4- Recado

Canción de Orfeo (compacto duplo)
RGE / Fermata – Argentina (sem data)
(músicas extraídas de Maysa é Maysa...é Maysa, é Maysa!, Maysa, amor...e Maysa e Canção do amor mais triste. Os títulos foram vertidos para o espanhol)


Faixas:
1- Canción de Orfeo (Manhã de carnaval)
2- La felicidad (A felicidade)
3- Murmullo (Murmúrio)
4- Mil flores

20 de maio de 2010

Coluna: Disco da semana


Ad Ogni Costo



Gravadora: GTA Records
Ano: 1967
Faixas:
1- Dirgli Solo No (Pantagruele)
            2 - Vai Via Malinconia (Bardotti / Ennio Morricone)

Análise:
Durante a temporada italiana de Maysa na Toscana, ela fora convidada pelo renomado Ennio Morricone - compositor, arranjador e maestro italiano, autor de inúmeras trilhas sonoras de sucesso para o cinema como os longas Cinema Paradiso e Os Intocáveis, para gravar duas músicas para o filme Ad Ogni Costo (À Qualquer Preço / Grand Slam), de Giuliano Montaldo, com a trilha sonora produzida pelo próprio Morricone. O longa tinha cenas rodadas no Rio de Janeiro e a trama se baseava em torno de um roubo prestes a acontecer no carnaval carioca, o elenco era estrelado por Janeth Leigh, Robert Hoffman e Klaus Kinski.

Maysa cantou em italiano escorreito as canções "Dirgli Solo No" (Basta dizer não) e "Vai Via Malinconia" (Vá embora melancolia), lançadas em compacto simples pela GTA Records, mais um disco internacional de Maysa que o público brasileiro jamais teve notícia. Para os ouvintes é uma surpresa ouvir Maysa cantar em italiano tão fluente, com uma pronúncia tão elegante e refinada, onde se nota total ausência de sotaque; mas até ali já não era de se espantar a versatilidade de Maysa que ainda no Brasil gravara em inglês, francês, espanhol, italiano e até em turco (!) dando demonstrações de seu decantado cosmopolitismo.

Além de demonstrações perfeitas do cosmopolitismo de Maysa, "Dirgli Solo No" e "Vai Via Malinconia" são canções dignas de prestígio e o disco não é ruim nem de longe. A primeira delas, com seu viés melancólico e refrão potente, se encaixa perfeitamente no repertório de Maysa, já "Vai Via Malinconia" com seu ritmo agitado e refrão contagiante, aliados ao título sugestivo (Vá embora melancolia) nos remetem a uma bossa à la italiana.

Ainda na temporada italiana em 1967, Maysa alugou uma casa em Milão e por lá fez uma boa temporada em Viareggio, localizada no litoral da Toscana. Ali mesmo, no início de 1967, ela fez uma temporada de sucesso na boate Bussola, onde no mesmo ano a cantora italiana Mina gravaria um histórico álbum ao vivo, e três anos antes foi palco para apresentações de João Gilberto. Maysa ainda gravaria um outro disco na Itália lançado pela mesma GTA Records; mas no fim do ano acabaria voltando à Madri junto ao marido Miguel Azanza, contudo, ela ainda voltaria à Itália em outras ocasiões para shows em boates e apresentações na televisão italiana. Estas apresentações resultaram na reedição italiana do disco Barquinho, de 1961, relançado na Itália pela CBS, com o nome de Tempo di Samba.

17 de maio de 2010

Coluna: Música da semana


"Deserto de Nós Dois"

Autor: Maysa / Enrico Simonetti
LP: Convite Para Ouvir Maysa Nº 4

Análise:
‘As praias desertas nos esperam, estão desertas de nós, o mar nos esta chamando, sentem saudade de nós dois.’

Uma das mais belas letras compostas por Maysa, com música do arranjador e maestro italiano Enrico Simonetti, amigo de Maysa. Bela e nostálgica. São alguns dos adjetivos em que posso classificar "Deserto de Nós Dois", uma canção que faz jus à um disco não menos grandioso e imponente. Com uma sonoridade que favorece o clamor nostálgico de Maysa, a orquestração imponente beneficia a sua voz, que parece ecoar, retumbando o lamento sintomático da música "Quanto tempo ainda vamos ficar, desertos de nós dois?"

Porém, os versos não são de todo dramáticos, há uma esperança, os laços ainda não se partiram "Por isso é que a vida passando me diz que é inútil chorar, pois sei que é meu o carinho que você tem medo de dar"; pois a vida passando e levando consigo as palavras jogadas ao vento, que nos batem gritando que o grande amor não morre, há de prevalecer por toda vida.
E ela vem, Maysa vem gritando aos nossos ouvidos todas essas palavras que jogamos ao vento. Vem o mar batendo aos pés, vem a areia dançando ao vento, vem o crepúsculo. E quando não se imagina, ela surge no horizonte, belíssima, clara, límpida surge como uma deusa, como uma verdadeira musa. Estonteando, encantadora  E não mais que de repente ela vem e vem cantando seu sintomático lamento.

"Quanto tempo ainda vamos ficar
 Desertos de nós dois?
 Desertos de nós dois?
 Desertos de nós dois..."

11 de maio de 2010

Coluna: Música da semana


"What Are You Doing The Rest Of Your Life?"


Autores: Alan Bergman / Marilyn Bergman / Michel Legrand
LP: Palavras, Palavras (compacto simples - 1972)

Análise:
"What are you doing the rest of your life?" (O que você está fazendo do resto da sua vida?); é uma canção com letra escrita por Alan Bergman e Marilyn Bergman e música de Michel Legrand para o filme de 1969 Tempo Para Amar, Tempo Para Esquecer (The Happy Ending); tendo sido nomeada ao Oscar de Melhor Canção Original, logo não demorou a se tornar um clássico popular, gravada por inúmeras vozes de renome como Diana Ross, Frank Sinatra, Barbra Streisand e Sarah Vaughan.

Maysa gravou a canção em 1972, em um compacto simples lançado pela RCA Victor, junto com "Palavras, Palavras" a versão em português do hit italiano "Parole Parole". Curiosamente "What are you doing the rest of your life?" fazia parte da trilha sonora da telenovela Bel-Ami, da TV Tupi, em que Maysa interpretava Márica naquele ano de 1972.
Com uma orquestração elegante e acompanhamentos de violão e piano, a voz de Maysa parece falar mais próxima aos nossos ouvidos. O questionamento aflito o que você está fazendo do resto da sua vida?, parece ser questionamento angustiante da própria Maysa e sua busca incansável por um amor sólido, traduzida nos versos da canção.

Pois este não é apenas o lamento de Maysa, é o lamento de todos nós, o lamento de quem já sofreu por um amor, o lamento de alguém que já perdeu um amor, o lamento de alguém que espera por um amor. Pois só quem sente e compreende o amor consegue entender o que é o sofrer por amor. Não há um querer maior, não há espera mais dramática, não há uma vontade mais passional, não há perda mais trágica.

Porque quando o coração ama, é como uma força sobre-humana que age sobre nossas ações, passe quando tempo for esse amor prevalecerá e essa busca interminável não há de acabar, pois a força do amor sobreviverá ao verão, ao inverno, a primavera e o outono. Mesmo que se passe toda uma vida e até que as correntes do vento voem em direção ao norte, ao sul, leste ou oeste há de prevalecer esse amor.

E aí continuamos com nosso questionamento: O que você fará do resto da sua vida? O que você está fazendo com a sua vida? Pra onde vai o resto da sua vida? Pois nós buscamos, Maysa também buscou. Perdidos, solitários, enganados, iludidos, nós fazemos as buscas; e as respostas ninguém há de saber, nem Maysa, nem nós mesmos, ninguém. Mas o que vamos lembrar de toda nossa vida, são todos os amores da nossa vida.


8 de maio de 2010

Especial: Os amigos


Os amigos



Maysa era uma artista especial, não só como artista, também como mulher e ser humano. E com toda sua personalidade apaixonante adquiria amigos e admiradores por onde passava. E é por isso, que hoje a equipe do blog oficial Maysa decidiu dedicar um especial as histórias destes eternos companheiros.

Desde o começo de sua carreira, por onde passava Maysa já angariava uma legião de admiradores, sejam eles do meio artístico ou não. Não era complicado se apaixonar pela encantadora Maysa, sejam levados pelo seu talento nato ou apenas estonteados com tanta beleza, Maysa de imediato conquistou o público e grande parcela do meio artístico. Algo incomum, pois o normal como seria de se esperar é a famosa hostilidade por parte dos outros cantores que já estavam no mercado antes dela e agora teriam mais uma rival pra lutar pelo alcance da popularidade na escalada ao sucesso.

Mas ao contrário de tudo isso, Maysa que já despontou ao cenário musical com grande êxito, recebeu chuvas de críticas positivas, além disso não eram poucos os compositores e jornalistas do eixo Rio - São Paulo que gastavam centenas de folhas de papel e muita tinta celebrando a própria Maysa e seu talento em suas inúmeras colunas nos jornais da época, eram nomes de respeito como os de: Denis Brean, Ricardo Galeno, Antônio Maria, Nazareno de Brito e muitos outros.

‘Ah, você está vendo só do jeito que eu fiquei e que tudo ficou, uma tristeza tão grande nas coisas mais simples que você tocou.’ O lamento triste de Por Causa de Você traduz perfeitamente o lamento pela ausência de Dolores Duran. Nela, Maysa via muito mais que uma fiel amiga, ela era a personificação de uma irmã que Maysa nunca chegou a ter. As duas são figuras chave do samba-canção com características musicais quase idênticas e origens muito distintas. Ambas eram compositoras de extremo talento que abordavam as mesmas histórias nos versos celebrados de Castigo, Ouça, Fim de Caso ou Meu Mundo Caiu. Eram grandes intérpretes e cantavam em diversos idiomas. É difícil definir o que teria unido tanto Maysa e Dolores, talvez além disso tudo já dito, a admiração mútua e o espírito boêmio e independente das duas. Dolores era alguns anos mais velha que Maysa, possivelmente, ela veria em Dolores um modelo de cantora e artista a ser seguido. Ela jamais se recuperou da perda da saudosa amiga, para sempre ficaria a vontade de homenagear Dolores Duran, vontade impressa em uma extensa lista de gravações da amiga por toda discografia de Maysa. É complicado escrever sobre uma relação tão carinhosa sobre duas figuras tão passionais, pode-se dizer que Maysa e Dolores são as personificações perfeitas do amor e nada mais.

Pelas mãos do grande Antônio Maria, Maysa receberia memoráveis críticas, a maioria positivas. Ele era um de seus maiores entusiastas e fã assumido, na pessoa de Maysa ele via a personificação exata do samba-canção. Dele, ela gravaria em 1958 a belíssima Suas Mãos que se eternizou em sua voz, o lamento sintomático e o dramático clamor dos versos da canção pareciam o lamento da própria Maysa, tal foi à associação. Mas a língua grande de Antônio Maria, também não deixaria de atingir Maysa. Ele não a poupou nunca do dito ‘absurdo’ que teria sido para ele a gravação de O Barquinho e do disco homônimo de bossa nova, para ele Maysa teria sido corrompida pela turma da nova onda e estaria traindo vulgarmente o samba-canção, as críticas não foram poucas, muito menos boas. Mas o talento de Antônio Maria era maior que sua enorme língua e assim como perdoou suas insistentes investidas, Maysa também perdoaria as duras ferroadas.

E o que dizer sobre Silvio Caldas? Um monstro sagrado da música brasileira, que acompanhou Maysa desde criancinha. Era com ele, que ela cantava Barracão ainda pequena nas noitadas homéricas na casa da família Monjardim, foi com Silvio que uma soberba Maysa contava as amigas que aprendera a tocar violão. Quando ela resolveu gravar a histórica Chão de Estrelas composição de Silvio em parceria com o amigo Orestes Barbosa, logo vieram as expectativas dos discófilos, pois Maysa foi a primeira cantora á grava-la depois de Silvio Caldas, porque curiosamente todos tinham uma certa desconfiança de grava-la para evitar comparações com a versão maravilhosa de Silvio. E Maysa foi lá e fez. Dito e feito, ninguém imaginaria que ela fosse dar a versão definitiva para aquela que é o símbolo máximo do cancioneiro do Brasil. Chão de Estrelas se eternizou na voz de Maysa.

Amigos também eram Vinicius de Moraes e Tom Jobim, a famosa dupla de que Maysa gravou mais de uma centena de músicas dada a sua identificação com o trabalho deles. Para os dois, Maysa não poupava elogios, aliás, os fãs mais observadores vêem no poético Vinicius um pouco da nossa também poética Maysa. Os versos tão celebrados das canções da dupla, ás vezes em parcerias com outros grandes nomes como os de Adoniran Barbosa, Carlos Lyra, Aloysio de Oliveira ou Edu Lobo, se eternizaram na voz de Maysa, tal foi à assimilação imediata. Canções que ás vezes se dissociam de seus autores para se integrar a própria alma de Maysa. Não importa que sejam músicas com viés dramático como a eterna Eu Sei Que Vou Te Amar, uma música que já nasceu como um clássico da MPB, ou então a belíssima Se Todos Fossem Iguais a Você, uma canção que se tornou uma constante na vida de Maysa e mais uma vez se eternizaria em sua voz. Mas a lista é extensa demais e por mais músicas da dupla que ouvirmos em sua voz, restará uma única certeza: pouco importa quando estas músicas estão ligadas á nomes tão importantes, quando estas são transpostas pela voz de Maysa ela as assume como sua própria autora, como se fossem trabalhos de sua própria alma.

Mas não podemos falar sobre amigos e não citar a eterna dupla Ronaldo Bôscoli e Roberto Menescal, que tem a vida entrelaçada ao nome de Maysa em casos e acasos divertidíssimos. Junto à turma da bossa nova liderada pelos dois e composta por outros grandes nomes como os de Luiz Eça, Luis Carlos Vinhas, Bebeto Castilho e Élcio Milito, Maysa viveria histórias famosas como a histórica turnê á Argentina e ao Uruguai que lançou a bossa nova no exterior, uma turnê recheada de casos delirantes com direito a uma guerra de bombinhas entre Maysa e Bôscoli, mais parecida a uma hecatombe atômica que quase "decretou"a prisão do grupo inteiro na capital portenha em tempos instáveis da política Argentina. Menescal já á conhecia de longa data, desde as férias infantis no Espírito Santo, para sempre Maysa veria nele a figura de um grande amigo registrado em uma canção composta por ambos anos depois. Com Bôscoli, Maysa ainda viveria um tórrido e conturbado romance que resultou no fim do noivado dele com a ainda desconhecida Nara Leão. Os dois pareciam realmente feitos um para o outro, com personalidades fortes e até certo ponto bem parecidas, igualmente boêmios, temperamentais e intensos, e seria essa mesma intensidade que detonaria brigas homéricas de cenas mais parecidas com os filmes de Hollywood. Na turnê em Buenos Aires, convidados para um jantar em um tradicional restaurante da capital, Maysa e Bôscoli trocaram desaforos durante toda à noite, provocada por ele não deixaria barato! Na mesma hora, desafiada ergueu os joelhos e virou a mesa perante todos os convidados. O romance não duraria muito tempo apesar dos inúmeros reencontros ao longo de vários anos. Famoso e igualmente polêmico é o histórico LP Barquinho de 1961, produzido por Ronaldo Bôscoli e com arranjos de Roberto Menescal, Luiz Eça e Luis Carlos Vinhas, um dos principais discos de bossa nova da MPB que trazia em si a composição mais conhecida da dupla Bôscoli e Menescal: O Barquinho. Luiz Eça e Menescal ainda fariam a produção do emblemático LP de Maysa: Ando Só Numa Multidão de Amores de 1970, nele Maysa registraria sua única composição com o amigo Menescal, a autobiográfica Me Deixe Só. Dessas amizades, restaram todas estas histórias inesquecíveis, pois como reza a música de Milton Nascimento: ‘Amigo é coisa pra se guardar debaixo de sete chaves.’