29 de novembro de 2010

Televisão: Maysa & Gal no Fantástico (1975)

Maysa & Gal no Fantástico (1975)


Em 1975, o programa Fantástico da Rede Globo, realizou um inédito encontro entre duas emblemáticas cantoras da MPB: Maysa e Gal Costa. O Fantástico naquela época – sob direção de Augusto César Vanucci – era suavemente diferente da atração que vemos hoje na TV aos domingos. A atração dominical criada em 1973, tinha uma verve musical imensa e muito explorada, naquela época o Fantástico apresentava até 3  clipes musicais por programa, além dos memoráveis quadros humorísticos, como o de Chico Anysio. As maiores estrelas da MPB soltaram suas vozes no Fantástico, e Maysa também era presença constante.
No ano de 1975, um desses clipes registrou o histórico encontro entre Maysa e Gal Costa. Era um encontro especial, em que a juventude prostrava-se diante de um mito, de uma diva – Maysa. Naquele momento, Gal Costa representava a jovialidade, e o ineditismo de uma cantora em início de carreira. Ela estava diante de uma Maysa toda vestido de preto, uma verdadeira diva, um mito da música brasileira com quase 20 anos de carreira, que havia marcado toda uma geração.
No clipe se fazia um “troca-troca”, Maysa cantava Gal, e Gal cantava Maysa. Gal começa cantando “Resposta”, (de autoria de Maysa), um dos maiores clássicos da cantora carioca. Maysa fica nitidamente feliz – e encabulada – com a interpretação da amiga para aquela música composta mais de 10 anos antes, e desanda a dar sorrisos como uma criança que experimenta o novo. Em seguida, Maysa interpreta um grande sucesso de Gal – “Coração Vagabundo”, de Caetano Veloso. Ela fica visivelmente emocionada ao interpretar aqueles versos de um amor tão dolorido – “Meu coração de criança, não se cansa de um dia ser tudo o que quer / meu coração é só a lembrança de um luto qualquer de mulher / que passou por meus sonhos sem dizer adeus e fez dos olhos meus um chorar mais sem fim.” Nasce em seu rosto a expressão da angústia e da tristeza que marcaram sua alma, porém, os olhos verdes brilhavam incessantemente, belíssimo.
Ao final, Maysa e Gal ensaiam “Até Quem Sabe?” de João Donato, sob os fartos aplausos da platéia. O vídeo é o único registro de Maysa interpretando a canção de Caetano Veloso. É um encontro histórico entre duas divas da MPB, de um tempo na televisão brasileira que não volta mais. Gal Costa era amiga de Maysa, e sobre ela disse em depoimento muitos anos depois:
"Uma mulher moderna para sua época, uma cantora apaixonada, de talento incomum. Ela está viva na sua obra, na sua perene imagem de mulher-deusa, na sua beleza."


23 de novembro de 2010

Série: decifrando Maysa (parte 3)

Série:
Decifrando Maysa (parte 3)

Parte 3 - Transgressora

Maysa foi uma das maiores transgressoras da história do Brasil. Mulher de coragem, idealista, verdadeira, moderna e absolutamente heróica. Rompendo todas as barreiras possíveis e impossíveis, sejam elas sociais, emocionais ou psicológicas, trilhou caminhos tortuosos e repletos de obstáculos. As opções de vida de Maysa não foram fáceis – pelo contrário – como ela mesmo disse, foram doídas e muito a machucaram, mas tudo foi em prol de si mesma, caso contrário, jamais saberíamos quem foi Maysa.
Maysa se fez famosa pelos atos impulsivos, exagerados, pelos escândalos épicos, pela vida atribulada e pela quebra de tabus e barreiras. Mas o que devemos ter em mente para entende-la é que tudo que Maysa fazia era extremamente passional, “só digo o que penso / só faço o que gosto e aquilo que creio.” Suas atitudes não eram forçadas, muito menos fingidas pois Maysa era muito autêntica e sincera. Era uma mulher instintiva e ousada. Maysa não conhecia a palavra arrependimento, não constava em seu vocabulário.  Maysa não foi uma transgressora apenas por romper padrões e por tabus em cheque. Ela foi uma ativista sentimental, que carregava consigo a bandeira do amor e da liberdade, independente de credos ou cores. Lutou pelo paradoxo da felicidade armada com música e muita coragem, e por isso, deu de ombros a toda uma sociedade e escreveu uma história de superações e vitórias.
O escândalo do desquite de Maysa não consistiu só pela mesma, ter abandonado um casamento aristocrático em favor da carreira musical, não mesmo. Maysa também fazia parte daquela mesma aristocracia, era parte integrante dela. Além do mais, sua separação de um membro da ultratradicionalista Família Matarazzo, em detrimento da carreira musical, ainda por iniciativa própria era visto como algo inadmissível, inimaginável. Era do tipo de coisa que não acontecia em sociedade – em hipótese alguma – e se acontecesse era visto como um verdadeiro escândalo, passível de julgamento público. E a carreira musical, na época, era extremamente mal vista, de uma forma que não podemos imaginar, era algo julgado como promíscuo, de baixo nível que competia à gente vagabunda que não gostava de trabalho sério. E foi neste mesmo mundo que Maysa optou por viver. E para viver nesse mundo ela rompeu com tudo – e com todos – abandonou família, casa, estabilidade financeira, absolutamente tudo. Mas o rompimento não foi fácil, Maysa sofreu muito por remar contra a maré, e sofreria ainda mais com tudo o que viria depois.
E assim aconteceu, decidiram por julgar Maysa publicamente. Ela foi completamente destituída de respeito e por várias vezes foi desmoralizada publicamente, além de ter sido vítima das mais escabrosas manchetes de jornais e revistas na época, mas Maysa deu de ombro, literalmente. Maysa não se fez de rogada. Ela nunca se importou com o “disse me disse”, muito menos com a maledicência alheia, a prova disso é que jamais alterou ou disfarçou seu comportamento e sua verdadeira personalidade por causa dos comentários preconceituosos de gente invejosa e ignorante. Seu comportamento visto como errático e rebelde, realmente, era muito avançado para os pacatos padrões da década de 50, já naquela época Maysa instigava um novo modelo de mulher, que se autofirmava sexual e economicamente. Afinal, até ali ela já era uma cantora de sucesso, rica e bem sucedida, que havia conquistado tudo isto muito antes dos 25 anos. Tudo isto, muito antes da revolução comportamental que ditaria novos costumes na década de 60.
Maysa ditava moda, instigava comportamentos, quebrava tabus, punha preconceitos em cheque e transpunha barreiras. Era uma transgressora nata, por realizar tudo isto muito antes dos movimentos feministas, pois muito antes destes movimentos em que tanto se falaria nas décadas de 60 e 70, Maysa já era uma mulher independente e fazia tudo aquilo que mais tarde se julgaria como atos feministas. Ela mesma chegou a reiterar isto diversas vezes. Era uma mulher totalmente despida de preconceitos, detestava convencionalismos bobos, sua sinceridade e autenticidade admiravam homens e mulheres, e até chegava a assustar aqueles que não estavam acostumados em ver mulheres tão ousadas, marcantes e arrojadas. Polêmica, moderna, Maysa desafiava a sociedade machista e preconceituosa em que havia nascido. Em muito se assemelhava a outras grandes mulheres percussoras, como – Chiquinha Gonzaga, Guiomar Novaes, Yolanda Penteado, Tarsila do Amaral, Nísia Floresta, Virginia Woolf, Simone de Beauvoir. E outras mulheres que se tornaram famosas pelo comportamento avançado e inspirador, como – Katherine Hepburn, Greta Garbo, Maria Callas,  Marilyn Monroe, Brigitte Bardot e Leila Diniz. Maysa tem um pouco de todas elas.
Um famoso pensamento de Clarice Lispector,  – que é também um grande lema –  pode definir a nossa transgressora, intensa, autêntica, moderna, sincera, verdadeira e mulher – Maysa.
"Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento."

15 de novembro de 2010

Série: decifrando Maysa (parte 2)

Série
Decifrando Maysa (parte 2)


Parte 2 – Amores
Maysa era uma mulher constantemente apaixonada, instantaneamente, facilmente, docilmente. Mas, porque? Acredito que a ferocidade da paixão de Maysa advinha de uma profunda carência e instabilidade afetiva que ela tinha dentro de si. Nada mais poderia explicar um temor tão grande a solidão, “ao medo de ficar só”. Desde adolescente era namoradeira, atrevida e avançada demais para os pacatos padrões da sociedade de então, digamos que ela conservasse o hábito que hoje chamamos de se “trocar de namorado, como quem troca de sapato”. Mas nada é tão simples assim quando se fala de Maysa. Ela foi uma adolescente que colecionava namorados, liberta, independente, já tinha o hábito de só dizer o que pensava, só fazer o que gostava e naquilo que em crê. A verdade é que Maysa era além disso tudo uma adolescente alegre, feliz, atrevida e esperta. Agora, imaginem esta mesma Maysa, casada, aos 17 anos com um marido multimilionário, membro da família mais rica – e de sobrenome mais opressor – do Brasil. Enfim, são duas realidades abissais, impossíveis de se crer. Por isso mesmo que o casamento de Maysa era completamente previsível no contexto de sua época, tudo era muito natural, simples e não era de se estranhar que uma garota de apenas 17 anos se casasse com um homem 20 anos mais velho que ela, e principalmente: sendo membro da tão tradicional família Matarazzo.
Não digo que Maysa não amasse André Matarazzo, pelo contrário, é leviano afirmar tal coisa vindo de Maysa. Poderia dizer que como uma garota de 17 anos, é muito natural deixar-se levar pelas armadilhas do coração, mas isto também é extremamente simplório vindo de Maysa. O fato é que Maysa conheceu André ainda criança, em uma temporada de águas na cidade mineira de Poços de Caldas, ali se firmou uma amizade entre seu pai – Alcebíades Monjardim – e o pai de André Matarazzo – Andrea Matarazzo – segundo Maysa, desde então ficou praticamente predestinado que ela se casaria com André. E assim foi.

E também foi do dia para a noite que Maysa acabou se encontrando sozinha dentro de uma gaiola de ouro mergulhada no ócio. Ela, uma garota jovem, bela e animada – ele, um homem vinte anos mais velho, empresário (e ocupado) com um verdadeiro império à frente para ser comandado. Maysa não demorou a perceber que havia mergulhado num abismo dos mais profundos, ela já conseguia prever toda sua vida: uma sucessão de jantares elegantes, recepções, jogos de pôquer e partidas de pólo aquático. O casamento foi-se tornando algo quase tão insuportável como o ambiente opressor da luxuosa Mansão Matarazzo situada na Avenida Paulista. Realmente, era algo insuportável para alguém com uma chama tão acesa dentro de si, seu espírito indomável, liberto e revolucionário não demorou a agir e neste momento a música volta a vida de Maysa para mudar sua rota em 180º graus.
Até ali seu nascimento como cantora e de seu próprio disco tinha um caráter beneficente, feito por uma dama da sociedade paulistana por puro diletantismo. Mas a partir do momento em que o disco começa a tocar nas rádios do eixo Rio – São Paulo, na medida em que Maysa começa a receber sucessivos convites para rádios, capas de revista, programas de televisão, não demorou a vir o ultimato de André Matarazzo. Neste momento se posicionaram de um lado – a tradição centenária – e de outro a chama incessante do espírito vivo de Maysa, como todos sabemos ela optou pela segunda opção. Maysa sintetiza muito claramente este período de sua vida, quando anos depois afirmou com sinceridade  que durante o período em que permaneceu casada, estava apenas "jogando cartas - de dia, de tarde e de noite." 

O desquite era algo inevitável, que viria mais ou menos dia, independente da carreira musical ou não. A partir daí a vida amorosa de Maysa passa a ser narrada nas páginas de todos os jornais. Porque, para mais escândalo da careta sociedade brasileira dos Anos 50 que não admitia que uma mulher separada pudesse namorar e ter as rédeas da vida nas próprias mãos, Maysa não estava nem preocupada em seguir um convencionalismo tão preconceituoso. Ao romper um casamento ela também esperava reencontrar o amor nos braços de outro homem, mas isto nem de longe aconteceu. Maysa acumulava vários namoros fracassados com outros vários homens errados, dizia não pensar mais na palavra casamento mas ao mesmo tempo confessava ao diário:
“...Não há mais tempo para a dor, não há mais nada senão a imensa vontade de acertar.”

Com Ronaldo Bôscoli, Maysa viveu a plena intensidade de uma paixão fulminante digna das mais criativas páginas novelescas como o próprio Bôscoli conta em seu livro de memórias lançado em 1994 – “Foi uma mulher que se entregou com uma voluptuosidade inteiramente nova e encantadora para mim. E isso não só no plano sexual. [...] Mas no plano profissional também. [...] Nós dois éramos muito amigos e nossa paixão transcendia tudo.” A primeira vista, os dois poderiam ser vistos como feitos um para o outro – duas personalidades vulcânicas, geniosos, divertidos, libertos, independentes, além de entornarem uma considerável quantidade de whisky – Maysa e Bôscoli realmente pareciam feitos um para o outro, mas nada é tão simples a primeira vista. Qualquer atrito dava origem a combates inimagináveis de tão ferozes, brigavam  feito cão e gato. Bôscoli apontava a traição como uma verdadeira obsessão de Maysa, que dava margem a atos impulsivos dela própria, traições vulgares que não tinham outro objetivo senão feri-lo, tudo fruto da enorme instabilidade emocional de Maysa. Mas mesmo com uma identificação mútua tão grande, o namoro de Maysa e Ronaldo Bôscoli não resistiu a um dos maiores problemas da cantora – o álcool – como ele próprio narra em sua autobiografia: “O motivo de nossas brigas era sempre a bebida. Um excesso o que Maysa bebia; aos poucos se tornou um absurdo. A quantidade de álcool consumido aumentava na mesma proporção em que crescia o nosso tempo juntos. [...] No início – como sempre no começo de tudo –, o alcoolismo de Maysa também me era bastante agradável. Embora obviamente eu não tivesse a dimensão de que aquilo fosse uma doença. Nem podia ter, porque eu também entornava bastante. [...] Só que o problema – que aliás foi o que baratinou e matou Maysa – foi realmente a progressão do álcool. De muita bebida ela passou a bebida demais. Eu, que não era nem um pouco abstêmio, ficava chocado. [...] Ela tentou sair dessa, por vários modos e meios. Mas realmente foi mais forte que ela. E isso nos separou.” E foi assim que mais um romance de Maysa se desfez, num fim de noite...

Aos montes de amores fracassados, Maysa seguiu ao longo da vida acumulando várias cicatrizes pelo corpo inteiro. Cicatrizes da alma como ela própria chegou a dizer. Maysa não conseguia não estar apaixonada, vivia em meio a uma perdição de amores, paixões fulminantes – muitas delas que só serviram para lhe sangrar o coração e machuca-la ainda mais. O longo casamento com o espanhol Miguel Azanza – que durou 10 anos – mostrou-se mais um grande fracasso. O que começou como uma bela aventura e seguiu como lua-de-mel aos poucos se desdobrou em uma relação insólita e estranha, com um marido acomodado e superficial que não conseguia enxergar os gritos desesperados da alma de Maysa. O que acabava descambando em traições mútuas. Ela chegava a maturidade dos 30 anos ao lado de um homem que não lhe transmitia a mesma maturidade e segurança que tanto precisava. Vivendo com Miguel na Europa, longe da família e dos amigos, Maysa passou a enfrentar constantes crises de solidão, medo e angústia. Acabava recorrendo a desesperadas tentativas de suicídio numa forma de pedir por ajuda, Miguel a salvava mas no entanto se mostrava indiferente e distante diante dos sucessivos clamores de Maysa. Ela o amava sinceramente, mas não via nele o homem que pudesse verdadeiramente ama-la e ajuda-la a conseguir um equilíbrio emocional que pudesse fazer com que ela finalmente vivesse em paz. Porém, Miguel era totalmente indiferente ao tormento de Maysa e não percebia o inferno que se passava dentro dela e apenas a perdoava. Miguel era um homem imaturo, superficial e acomodado, que confundia as emoções de Maysa e a deixava ainda mais perdida. Em breve, nem o amor dos dois conseguiria sustentar este casamento – minado por brigas e crises de ciúme – que foi se arrastando como um fardo ao longo dos anos, machucando ainda mais o já atormentado coração de Maysa.

A metáfora Ando só numa multidão de amores, de Dylan Thomas foi adotada como lema por Maysa, por sintetizar a forma como caminhava seu cansado coração. A verdade é que por trás da bela poética esconde-se um grito de desespero, Maysa se encontrava verdadeiramente perdida – sem rumo – em meio a uma imensidão de eternos amores que nunca cessão, talvez seu maior desejo fosse conseguir a proeza divina de amar em paz. Até ali Maysa já se encontrava cansada demais de sua atribulada trajetória, ela queria sim a proeza divina de amar em paz. Depois de tantos sofrimentos, tantas frustrações e tantos fracassos, Maysa precisava de tempo para poder se encontrar.

Carlos Alberto representava para Maysa a esperança de poder amar em paz. Era um homem que para ela representava a grande chance de alcançar uma estabilidade emocional, já que o próprio Carlos Alberto possuía uma grande integridade espiritual que em muito ajudou Maysa. Por ele, adotou a filosofia Rosa-Cruz, e foram os dois morar no lindo paraíso de Maricá, onde finalmente Maysa – em contato com a natureza – pode promover um encontro maior com o seu interior, desenvolver sua espiritualidade e alcançar uma estabilidade emocional – pequena e frágil – como ela mesma disse, mas que porém, caminhava para ser total. Carlos Alberto fez muito por Maysa, os dois se amavam profundamente e foram muito felizes, como ela mesma fazia questão de demonstrar publicamente. Mesmo vivendo em relativa paz e sob uma aura de amor com Carlos Alberto, Maysa ainda cultiva uma estranha angústia dentro do peito e seu eterno pavor da solidão, além disso o casamento com Carlos Alberto começou a desandar completamente, e Maysa, inquieta e confusa se descobriu apaixonada pelo maestro Júlio Medaglia, porém, ao mesmo tempo ainda amava verdadeiramente Carlos Alberto. Impulsiva, não exitou e caiu nos braços do maestro, mesmo ainda estando com Carlos Alberto, o casamento, não mais resistiu. A separação de Carlos Alberto foi profundamente dolorosa para Maysa, ela chegou a escrever longas cartas que nunca chegaram as mãos de Carlos em que expunha suas dores e seu tão grande sofrimento.
Se Maysa agiu certo ou não, não podemos saber.

 Tudo aconteceu de uma forma muito rápida – e até difícil de entender –, em pouco tempo parece que tudo ruía novamente e mais uma vez Maysa desabava e expunha toda a fragilidade e a imensa dor que carregava no peito. Não acredito que Maysa tenha morrido de tanto amar, acredito sim, que ela tenha morrido amando – profundamente – como era de seu feitio. Disso não tenho dúvidas. Seu gigantesco coração – atribulado, machucado, sofrido, insensato, magoado e lindo – jamais parou de pulsar por amor. Maysa amou até o último de seus dias, mesmo que tenha sido um amor tão carregado de dor, ela amou até as últimas consequências. Até o sem – fim da vida.

9 de novembro de 2010

Série: decifrando Maysa (parte 1)

Série:
Decifrando Maysa (parte 1)


Antes de tudo, gostaria de explicar o propósito e minha visão sobre esta série que começa nesta postagem. A série Decifrando Maysa, vem com o objetivo ousado de tentar ao máximo desvendar e explicar as ações interiores que moviam o ser humano Maysa de uma forma verdadeira – sem ilusões, fantasias ou meias-verdades – espero que com isto, todos nós possamos refletir e conhecer mais desta mulher extraordinária.
A série é escrita sob a minha ótica – que pode não ser a mesma que a sua – mas procura sempre enxergar Maysa de uma forma mais sensível, sincera e compreensível. Afinal, todos têm o direito de achar o que melhor lhes parecer. Mas somente com um olhar mais humano e desprovido de preconceitos poderemos enxergar o Eu de Maysa. (comentários e opiniões são sempre muito bem vindos!)

Parte 1 – Turbilhão de emoções
 Maysa era um turbilhão de emoções. Só isso já sintetiza boa parte do venho a falar. Mas, qual o porque de tanta intensidade? É sobre o que vamos falar. Primeiramente – Maysa era muito inteligente – não só musical, ou intelectualmente. Tinha uma inteligência especial, emocional e psicológica. Desde criança, Maysa já tinha em mente as mesmas convicções de amor e liberdade que seriam sua bandeira por toda a vida, tanto é que não suportou o ambiente frio, opressor e sombrio do colégio interno durante a infância. Além das freiras francesas estarem a deixando louca como ela mesmo dizia, não suportava o distanciamento de sua família, pois sempre conservou o amor e o carinho dentro de si, e talvez viesse disto a grande carência que sentiu ao longo da vida.
Ela nunca superou o trauma do internato, talvez, tenha sido um dos primeiros de sua vida. De repente, em pouco tempo, a adolescente espevitada, atrevida e namoradeira se viu presa pelos grilhões de um casamento aristocrático. Parecia que do dia para a noite aquela garota de apenas 17 anos havia perdido um de seus bens mais preciosos – a liberdade. Maysa era também muito impulsiva, ás vezes cometia atos que não eram passíveis de volta, mas a ela pouca importava pois também era muito decidida e geniosa, não permitia que ninguém interferisse em suas crenças e jamais abandonou suas convicções.
Neste exato momento a música surge na vida de Maysa como uma válvula de escape para as angústias e agonias que ecoavam dentro do seu ser, mas a música não surge na vida de Maysa durante seu casamento, e sim, muito antes, mas naquele momento suas letras nos dão nitidamente o tom do desespero e da infelicidade que permeavam sua vida. Ela literalmente explodia em forma de música. Pois então ela resolveu partir, abandonar um casamento aristocrático em plena 1958 era um ato execrável, armada com altas doses de coragem e idealismo ela enfrentou e resistiu bravamente a uma sociedade hipócrita e muito preconceituosa que não demorou a apedreja-la em forma de letra. O comportamento moderno e avançado de Maysa era tido como errático e libidinoso, achincalharam-na o quanto pôde.
A história de Maysa também é permeada por um sentimento enorme de coragem emanado pelo seu ser, sem isso, jamais saberíamos quem foi Maysa Figueira Monjardim. Dona de um temperamento instável, Maysa era uma mulher de personalidade fortíssima, irreverente, moderna. Realmente muito avançada para a época. Maysa era um verdadeiro vulcão, com um temperamento pronto para explodir a qualquer momento. Todos os amigos, familiares e contemporâneos a descrevem como uma mulher linda, simpática, autêntica, sincera e verdadeira. Dona de um magnetismo pessoal que atraia e até assustava as platéias (dois olhos verdes hipnóticos). Independente e liberta de preconceitos, detestava ilusões, convenções sociais ou modismos idiotas. É disto que se criou sua fama de agressiva, quando isto não passava apenas de um mecanismo de defesa. Mas apesar de ter-se construído à sua volta, a imagem de uma mulher forte, dura e agressiva, a verdade é que Maysa estava prestes a desabar a qualquer momento. Ela era muito insegura, frágil, sensível e sonhadora (como todo grande romântico). Mulher de buscas incessantes, talvez tenha sido em nome destas, que Maysa empreendeu tão longas viagens ao redor do mundo, certamente buscando algo que preenchesse seu interior, que respondesse ao chamado incessante de sua alma. Maysa buscou paz, amor, afeto, algo que preenchesse seu imenso coração e calam-se os gritos incessantes de sua alma.
Mesmo com todos os trágicos sofrimentos lhe impostos pela vida, ela lutou por seus ideais até o último de seus dias. Subsistiu a tudo e todos. Acho até que Maysa sofreu todas as dores que um ser humano pode sofrer, mas jamais esmiuçou diante delas. A cada dor, uma nova ressurreição. E por isso existiram várias Maysas nascidas de uma só mulher. Maysa tinha uma imensa vontade de viver – e viveu – levou a vida com a maior intensidade possível, a centenas de quilômetros por hora. Era uma mulher dominada e conduzida pelos sentimentos, deles fez sua vida e sua música. Certa vez confessou ao diário: “Há gritos incríveis dentro de mim que me povoam da mais imensa solidão.” e é verdade. Maysa morreu na mais absoluta solidão – no crepúsculo da tarde, sozinha, solitária, a mil por hora. O futuro respondeu a Maysa – tudo valeu a pena – como ela mesma disse “Tudo valeu pra burro!”

5 de novembro de 2010

Coluna: Disco da semana

Maysa (ao vivo - 1964)


Local: Boate Au Bon Gourmet
Gravadora: Elenco
Gravado: 1963
Lançado: 1964
Faixas:
1- Demais / I’Ve Got You Under My Skin
· Tom Jobim / Aloysio de Oliveira
· Cole Porter
2- Por Causa de Você (Dolores Duran / Tom Jobim)
3- La Barca (Roberto Cantoral)
4- Bom Dia, Tristeza (Adoniran Barbosa / Vinicius de Moraes)
5- Quem Quiser Encontrar Amor (Carlos Lyra / Geraldo Vandré)
6- Fim de Noite (Chico Feitosa / Ronaldo Bôscoli)
7- O Amor Que Acabou (Chico Feitosa / Luiz Fernando Freire)
8- Dindi (Tom Jobim / Aloysio de Oliveira)
9- Bouquet de Izabel (Sérgio Ricardo)

Análise:
Imperdível, sensacional, maravilhosa, brilhante, inesquecível. Assim foi descrito o show de Maysa na boate Au Bon Gourmet. A histórica temporada de 1963 deixaria muitas saudades, felizmente, o antológico show foi registrado em disco pela gravadora Elenco.

Nos anos 60, a pequenina Elenco de Aloysio de Oliveira, driblando todos os atropelos financeiros, possuía um dos melhores casts entre as gravadoras nacionais da época. Alguns dos nomes estelares eram os de – Nara Leão, Antônio Carlos Jobim, Vinícius de Moraes, Baden Powell, Sérgio Ricardo, Roberto Menescal, Sylvia Telles, Quarteto em Cy e Nana Caymmi – era nitidamente um elenco de Bossa Nova, e o propósito da Elenco não era outro se não este. E ela queria Maysa.

O disco gravado ao vivo durante um dos shows daquela temporada em 1963, trouxe a inconfundível marca estética da gravadora. A capa em tons de branco e preto com ícones vermelhos tornou-se antológica e responsável pelo sucesso do selo. No disco de Maysa, o layout de César Villela captou os expressivos olhos de Maysa no exato momento, em alto contraste – preto e branco – abaixo do seu nome escrito em letras garrafais.

“Todos acham que eu falo demais / e que ando bebendo demais / que essa vida agitada não serve pra nada / andar por aí bar bar.” Ela entrava no palco cantando “Demais” de Tom Jobim e Aloysio de Oliveira, a música antológica tornou-se um prefixo de Maysa. O piano dedilhado por Eumir Deodato (que também respondia pelos arranjos do show e pelo orgão), ainda brincava com o público quando no começo da música, iniciava com a melodia de “Ouça”. Após a marcante interpretação para “Demais”, Maysa emendava uma enlouquecedora versão de “I’ve Got You Under My Skin” de Cole Porter, eternizada na voz de Frank Sinatra. Após a desconcertante interpretação, seguiam-se releituras de grandes sucessos como “Por Causa de Você”, “Bom Dia, Tristeza”, Fim de Noite”, “Dindi” e “Bouquet de Izabel”. Havia também uma versão inédita para o clássico bolero “La Barca” de Roberto Cantoral.

O espetáculo agradou, o público amou e o show marcou época na vida noturna carioca da época. O produtor e diretor da atração – Aloysio de Oliveira – sintetizou as emoções do espetáculo no texto de contracapa do LP:

“Existem poucos artistas que possuem a terceira dimensão. A terceira dimensão é uma força de personalidade que permite ao artista “hipnotizar” o público. Maysa tem essa força. Por isso gravamos um dos seus shows, ao vivo, tal como aconteceu. Um documentário musical desta fabulosa voz, desta fabulosa personalidade, desta fabulosa intérprete que é Maysa”.


1 de novembro de 2010

Number One Apresenta Maysa (1972)

Number One Apresenta Maysa

“Gestos e expressões que lembram a amargura, a fossa e o sofrimento que exibia no início da carreira.”

Em Janeiro de 1972, Maysa estreou uma badalada temporada na elegante boate carioca Number One localizada em Ipanema. Maysa estava especialmente descontraída e sedutora naquela temporada. Belíssima, cabelos longos e revoltos (ou revoltados?) entrava em cena de forma hipnótica e em pouco também já tinha todo o público a seus pés. A caracterização dramática de uma Maysa mil vezes magnética é observada pelas fotos das apresentações, sempre em estilo noir, com expressões fortes e interpretativas. Com um repertório incrementado, somado a percussão da ótima Naila Skorpio – esposa do maestro Guto Graça Melo – a platéia da Number One pode ver Maysa em outra forma. O espetáculo agradou, e a Revista Veja publicou no mesmo mês uma crítica favorável, (que você lê aqui) narrando o show da Number One.

“Ela entra com os cabelos soltos, um vestido máxi branco e preto, e começa cantando ‘Tardes” com gestos e expressões que lembram a amargura, a fossa e o sofrimento que exibia no início de sua carreira. As palmas começam tímidas, aumentam no segundo número, o antigo bolero “Eclipse de Luna” (Margarida Lecuona), e se conservam entusiasmadas até o final, quando ela canta “Ouça” e a canção francesa “Ne Me Quitte Pas”.

Alegre e triste – Ao apresentar “Ouça” Maysa já tem o público sob seu controle. Antes, “botou todo mundo na fossa” cantando “Coração Ingrato” (Sílvio Caldas), ensaiou uns passinhos de dança e brincou com os acompanhantes em “Adeus, América”, homenageou sua personagem na telenovela O Cafona cantando o “Tema de Simone”. Pode, então, permitir-se à brincadeira e anuncia: “Quero cantar para vocês uma música que gravei há pouco e, eu sei, fará sucesso. Pois tudo o que eu gravo é sucesso.” A brincadeira, encaixada num show de boate, funciona. Mas sua interpretação nova para um de seus furores do passado é de fato surpreendente. Sua voz não é mais rouca e dolorida, como no princípio, mas aberta, forte, saída de uma garganta sem preocupação de estrangular sílabas ou prolongar frases. Torna a brincadeira no número seguinte, “Demais”, ao recitar os primeiros versos da música: “Todos acham que eu falo demais, e que ando bebendo demais.” E termina com o mesmo tom dramático de abertura ao murmurar o refrão de “Ne Me Quitte Pas” com toda a dor de uma amante suplicando para não ser abandonada. Nesse final, em “Ouça” e em “Adeus, América”, Maysa tem a parceria igualmente brilhante do conjunto de Oscar Milito, cujos componentes ela beija no início do show, com a seguinte explicação: “Ninguém vai entender o que está acontecendo. Mas é mesmo para ninguém entender. A classe artística é muito desunida.”
Incompreensível, realmente, e dispensável num espetáculo como este de Maysa, que dura pouco mais de meia hora, com músicas bem escolhidas e melhor ainda executadas. [...] Por mais que ela procure outras formas de realização, é como cantora que alcança um nível superior entre as artistas brasileiras.”

Maysa na Boate Number One – 14/01/1972

Maysa na Boate Number One – 14/01/1972