29 de outubro de 2010

Coluna: Disco da semana



Maysa Canta Sucessos


Gravadora: RGE
Ano: 1960
Faixas:
1- Ri (Luiz Antônio)
2- Noite Chuvosa (Fernando César / Britinho)
3- O Amor e a Rosa (Pernambuco / Antônio Maria)
4- Sonata Sem Luar (Vinicius de Carvalho / Freddy Chateaubriand)
5- Chora Tua Tristeza (Luvercy Fiorini / Oscar Castro Neves)
6- Ternura Perdia (Aloysio Figueiredo / Inah Monjardim)
7- Estou Pensando em Ti (Raul Sampaio / Benil Santos)
8- O Menino Desce o Morro (Vera Brasil / De Rosa)
9- A Canção dos Seus Olhos (Pernambuco / Antônio Maria)
10- Samba triste (Baden Powell / Billy Blanco)
11- Um Novo Céu (Fernando César / Ted Moreno)
12- Diplomacia (Maysa)


Análise:
O álbum Maysa Canta Sucessos, lançado em 1960 fez parte de um projeto maior da gravadora RGE de reunir grandes astros do catálogo da gravadora em uma série que consistia em apresentar estes cantores cantando grandes sucessos do momento nas vozes de este ou aquele cantor. Outros exemplos da série Canta Sucessos foram Elza Laranjeira Canta Sucessos e Agostinho dos Santos Canta Sucessos.

E a Bossa Nova não poderia deixar de estar presente após a última incursão no álbum Voltei lançado no mesmo ano. Em Maysa Canta Sucessos o ritmo simcopado da Bossa está lá presente em ao menos metade das faixas do álbum, como a bamboleante “Ri”, no embalo de “Chora tua tristeza” e a maravilhosa “Samba Triste”. Canções de grandes nomes ligados a bossa como Oscar Castro Neves, Billy Blanco e Baden Powell.

Apesar de Maysa Canta Sucessos não ser um dos discos mais comentados e prestigiados de Maysa, é um álbum maravilhoso, mas seu grande problema reside no fato de que Maysa não era uma cantora de “paradas de sucesso”, algumas canções ali parecem deslocadas do conjunto do LP como a insossa “O Menino Desce o Morro”. Tirando esses pequenos incômodos, Maysa Canta Sucessos é um ótimo disco que mostra uma Maysa versátil em grande forma, a orquestração e os arranjos de Enrico Simonetti também não deixam a desejar.

Há canções muito boas que se destacam no álbum, como – “O Amor e a Rosa” (Pernambuco / Antônio Maria), “Chora Tua Tristeza (Oscar Castro Neves / Luvercy Fiorini), “Estou Pensando Em Ti” (Raul Sampaio / Benil Santos), “Samba Triste” (Baden Powell / Billy Blanco), “Um Novo Céu” (Fernando César / Ted Moreno) e a bela “A Canção dos Seus Olhos” de Pernambuco e Antônio Maria que adquiriu ares de opereta italiana sob a regência do maestro Simonetti.

No álbum, Maysa aparece apenas como intérprete, mas contrariando o propósito inicial da RGE, foi incluída no disco uma composição dela própria – “Diplomacia” – gravação de Convite para ouvir Maysa Nº 2 de 1958. Maysa também incluiu uma canção de sua própria mãe Inah Monjardim – “Ternura Perdida – em parceria com Aloysio Figueiredo.
Maysa Canta Sucessos foi relançado em CD totalmente remasterizado, pela gravadora Som Livre em 2009.

25 de outubro de 2010

Manchete - Maysa, A Gata Voltou Mais Mansa (1969)

Maysa – a gata voltou mais mansa


 “Ela voltou. Uma nova Maysa, elegante, charmosa e ousada, escolhendo uma casa de espetáculos freqüentada por gente não sofisticada – para sua espetacular rentrée. A exceção da voz quente e sensual, tudo nela mudou: o estilo, as roupas, os gestos. Ela própria, no entanto, parece não acreditar muito em ta l transformação, afirmando: “A minha agressividade era minha defesa. Agora sei que por dentro sou meio covardona. Talvez gostasse mais da outra Maysa, inconseqüente e inconsciente, mas sei também que aquela coragem nascia da bebida e por isso decidi enfrentar as coisas sozinha, sem copos. Quando olho no espelho, chego a me perguntar: Será que sou eu mesma?” na verdade, a Maysa 36 quilos mais magra é a mesma de sempre. E a prova é uma só: embora pela primeira vez ela se apresente num show do “Canecão” , no Rio, dançando e usando minissaia , a interpretação que o público mais aplaude é “Ouça”, relembrando um passado em que os olhos da Gata eram dois oceanos, ainda não tão pacíficos.”

(Revista Manchete, 14 de junho de 1969)




18 de outubro de 2010

15 de outubro de 2010

Coluna: Música da semana

"Molambo"



Autores: Jayme Florence / Augusto Mesquita
LP: Ando Só Numa Multidão de Amores (1970)

Análise:
“Eu sei que vocês vão dizer que é tudo mentira, que não pode ser / que depois de tudo o que ele me fez , eu jamais deveria aceita-lo outra vez.”
“Molambo” foi o maior sucesso de Jayme Florence e Augusto Mesquita e na voz de Maysa atinge a plenitude da interpretação. Lançada por Elizeth Cardoso em 1953 com enorme êxito, também ficaria marcada na voz de Cauby Peixoto, como um dos maiores sucessos dos nostálgicos Anos 50. E é justamente na voz de Maysa que “Molambo” tem sua melhor interpretação. Planejado para o nostálgico álbum Ando Só Numa Multidão de Amores de 1970, Maysa resgata a canção dos Anos Dourados para a abertura do disco.
“Molambo” foi uma música extremamente ousada para época. Não por tratar de tabus ou polêmicas, mas por expor a coragem da personagem de forma tão clara e sem rodeios, numa época em que a sociedade brasileira era mergulhada na hipocrisia e dominada por pseudoverdades pré-fabricadas. Lê-se isso muito claramente nos versos da canção, em que a personagem (já sabendo) dá de ombros aos comentários alheios e não se importa com a expiação pública ou com qualquer tipo de reprovação.
A introdução de violinos, por si só já é magnífica, mas não há nada melhor do que ouvir a interpretação sensual e provocante (à flor da pele), da voz cálida e rouca de Maysa consumindo aqueles versos “Pensei e assim procedendo / me exponho ao desprezo de todos vocês / lamento mas fiquem sabendo / que ele voltou e comigo ficou.”  Ela se rasga e se consome numa explosão de emoção, levando a boca todos os sentimentos escritos naquela letra, em uma explosão de paixão, dor, sensualidade e ardor.
Maysa nos revira com a loucura e a dor da mulher abandonada pelo amado. Ultrajada, revoltada e machucada, porém, eternamente apaixonada pelo homem que a abandonou, mas – para o bem ou para o mal – ela ainda o ama e esse é o seu grande dilema. Mas de repente (não mais que de repente) ele volta, volta para impedir que a loucura a tome por completo. Ela ignora, se expõe e se entrega “Ficou pra impedir que a loucura fizesse de mim um molambo qualquer / ficou desta vez para sempre / se Deus quiser.”

“Eu sei que vocês vão dizer...”

11 de outubro de 2010

Especial: I Festival Internacional da Canção (1966)

I Festival Internacional da Canção (1966)

Maysa na grande final brasileira do festival, em 25 de outubro de 1966


Maysa não poderia sequer imaginar o que a aguardava no I Festival Internacional da Canção. Seria um dos momentos mais inesquecíveis de toda sua carreira. O concurso musical criado por Augusto Marzagão com apoio da secretaria de turismo do estado da Guanabara, foi exibido pelas TVs Rio (primeira edição) e Globo. O festival consistia em duas fases: a primeira – nacional –, que decidiria a candidata do Brasil na fase internacional e uma segunda e última – internacional – que consistia na grande final do evento. A primeira edição do evento se realizaria em outubro daquele ano de 1966  no ginásio do Maracanãzinho, contando com nomes estelares da música brasileira como Maysa e Elis Regina. E também artistas internacionais de renome, vindos de vários países. Alguns dos nomes deixam claro a que veio o FIC – Judy Garland, Amália Rodrigues e Jean Sablon – eram alguns dos convidados internacionais deste primeiro FIC.
Em jogo, além dos prêmios em dinheiro estava também o troféu Galo de Ouro, uma estatueta desenhada por Ziraldo com olhos de brilhantes, cauda de turmalinas e crista cravejada por rubis. Definido em 2 eliminatórias, Maysa apresentou-se na segunda e última defendendo a marcha-rancho “Dia das Rosas” do violonista Luiz Bonfá e de sua mulher Maria Helena Toledo no dia 23 de outubro de 1966. A canção logo alcançou um grande êxito animando a platéia de aproximadamente 5 mil pessoas, mais o grande destaque sem dúvidas foi o novo visual de Maysa, como ressaltou a Última Hora na edição do dia 24: “Maysa foi um espetáculo a parte, ao exibir-se ontem no Festival Internacional da Canção Popular para defender com êxito, a canção “Dia das Rosas” de Luís Bonfá e Maria Helena Toledo. Tostada de Sol, ela cantou e encantou na noite carioca. O júri composto por nomes como Elizeth Cardoso, Roberto Menescal, Chico Buarque e Henrique Pongetti logo questionou a acústica horrenda do estádio. Esta, seria de longe uma das maiores críticas ao FIC durante sua existência, entra ano e sai ano, tentaram de todas as formas algum tipo de melhora que nunca foi alcançada. O esquema continuou o mesmo desde a primeira até a última edição – a orquestra não ouvia o intérprete, o intérprete não ouvia a orquestra e ninguém ouvia ninguém (!).
A grande final brasileira, marcada para o dia 24 de outubro prometia fortes emoções que não demoraram muito a se concretizar. Dos catorze finalistas, Maysa foi a décima a subir ao palco do Maracanãzinho quando já era noite alta. Estava belíssima, sorridente e bronzeada pelo Sol carioca, logo levantaria a platéia de aproximadamente 5 mil pessoas com uma esfuziante interpretação de “Dia das Rosas”, acompanhada pelo maestro Eumir Deodato que fizera com ela o histórico show no Au Bon Gourmet 3 anos antes e viera especialmente dos Estados Unidos para acompanha-la junto com Claudette Soares. Naquele instante “Dia das Rosas” já havia se firmado como a favorita do público para campeã, mas também havia outras grandes favoritas. Dentre estas, 6 se destacaram junto ao público. “O Cavaleiro” de Geraldo Vandré e Tuca, interpretada pela rechonchuda cantora e compositora encabeçava a lista das favoritas, ao lado de “Não Se Morre de Mal de Amor” de Reginaldo Bessa, na voz do censurado Taiguara. Outra que mereceu destaque naquela final do I FIC foi “Inaiá” de Luís Carlos Sá, mais conhecido como integrante da dupla Sá & Guarabyra, Claudette Soares também empolgou a platéia do ginásio com “Chorar e Cantar” de Vera Brasil e Sivan Netto. Mas, uma das maiores surpresas da noite foi o garoto Bilinho, filho de Billy Blanco cantando “Se a Gente Grande Soubesse” de autoria do próprio pai com acompanhamento do Quarteto em Cy. Até ali já estava nítido que o Brasil seria representado por Tuca ou Maysa, pois mais nenhum intérprete teve a mesma comoção popular que a interpretação das duas cantoras.
Elis Regina com “Canto Triste” de Edu Lobo e Vinicius de Moraes foi recebida sem maiores delongas, assim como a futura campeã “Saveiros”, por Nana Caymmi. Ali mesmo naquela noite, instituiu-se a vedete oficial do Festival Internacional da Canção – a vaia em festival – dali por diante ela seria presença constante em todas as edições como um “termômetro” da platéia. E naquela primeira edição, coube a Miltinho esta amarga sensação. O público até gostou quando no começo da apresentação um grupo de passistas e cabrochas adentraram o palco do Maracanãzinho, mas passou a berrar quando Miltinho cantou “Apoteose do Samba” de Herivelto Martins e Klécius Caldas, a chuva de vaias foi tanta que acabou com a apresentação. Já era madrugada do dia 25 de outubro quando finalmente anunciou-se a lista dos vencedores em ordem decrescente, à hora, a expectativa era imensa. Tuca e Maysa precisaram até ser atendidas pela equipe médica presente no local – Tuca simplesmente pelo excesso de nervosismo, mas Maysa passara mal de verdade após os litros de whisky ingeridos nos camarins do ginásio antes de sua apresentação – ressabiada, logo acusou: “Whisky não faz isso comigo, alguém colocou alguma coisa na minha bebida” – Maysa teve de ser amparada pelos colegas na hora da anunciação. Após minutos de suspense a voz do locutor Hilton Gomes informou pelos alto-falantes do Maracanãzinho que “Dia das Rosas” conquistara a terceira colocação. Naquele exato momento o Maracanãzinho veio abaixo, junto com Maysa que ainda desnorteada demorou em perceber que as estrepitosas vaias eram para o jure. Após se acalmar, foi ao microfone e interpretou a marcha-rancho sob chuvas de aplausos consagradores. Ninguém poderia acreditar que o segundo lugar ficaria com a entusiasmada “O Cavaleiro” de Geraldo Vandré e Tuca, o Maracanãzinho novamente ameaçou ruir. “Saveiros” dos desconhecidos Dory Caymmi e Nelson Motta na voz de Nana Caymmi havia conquistado o primeiríssimo lugar, sob mais uma chuva de vaias para a duvidosa decisão do jure, ninguém conseguia ouvir a voz de Nana, revoltada, Maysa saiu do seu lugar e mesmo cambaleante exigiu às arquibancadas aplausos para a vencedora da grande final brasileira.
No fim da final internacional, Maysa foi saudada como a melhor intérprete brasileira do FIC I, no intervalo após receber o prêmio cantou “Dia das Rosas” novamente sob uma festa de aplausos e gritos inconformados de “é campeã, é campeã!”. A cantora alemã Inge Brück sagrou-se a grande campeã do festival, levando o Galo de Ouro para a Alemanha Ocidental com a canção “Frag den Wind”, de seus compatriotas Helmut Zacharias e Carl Schauber, “Saveiros” ficara em segundo lugar na classificação geral e foi novamente vaiada. No dia seguinte, na luxuosa Pérgula do Copacabana Palace, quando os jornalistas perguntaram a Inge Brück  o que havia achado da premiação, ela afirmou estar muito feliz , mas fez uma única ponderação: “Se Maysa tivesse concorrido na parte internacional, sem dúvida ela tiraria o primeiro lugar.” Enquanto cantarolava a melodia de Luiz Bonfá e Maria Helena Toledo. David Raskin da Associação Americana de Compositores para Cinema e Teatro, e Helmut Zacharias fizeram coro as afirmações de Brück sobre Maysa. Enquanto toda a imprensa internacional saudava Maysa como o grande nome do FIC I, os repórteres brasileiros ignoravam e tinham a cara de pau de perguntar a Maysa se era verdade que ela cantara alcoolizada. A resposta foi curta e grossa:
“Sim, eu bebi. Ninguém tem nada com isso. Anotem aí: eu bebo porque gosto de beber.”
Mesmo com todas as desventuras e destemperos do Festival – sem qualquer sombra de dúvida – Maysa sagrou-se a grande estrela do primeiro Festival Internacional da Canção. Mas ela não ficaria por muito mais tempo no Brasil, em breve iria voltaria a zanzar pelo mundo, buscando mares nunca dantes navegados.




Última Hora – 24/10/1966

Última Hora – 25/10/1966

Última Hora – 25/10/1966

As grandes vencedoras da final brasileira do Festival: Tuca, Nana Caymmi e Maysa

Painel FIC I:
Tuca, Nana Caymmi e Maysa
Henry Mancini e Chico Buarque
Nana Caymmi e Inge Brück
Henry Mancini e Nara Leão
Laurindo de Almeida e Vinicius de Moraes
Dory Caymmi e Nelson Motta

8 de outubro de 2010

Coluna: Música da semana

"If I Forget You"


Autor: Irving Caesar
Álbum: Maysa Sings Songs Before Dawn (1961)

Análise:
“Eu nunca vou esquecer você / mas deveria esquecer você / então deixe meus olhos esquecerem / que eles tem visto o dia, meu amor.” Maysa canta o verso como se narra-se um estado de espírito – e talvez realmente fosse – poderia ser um recado à algum amor que ela jamais fosse esquecer. Maysa interpreta "If I Forget You" (Se Eu Esquecesse Você) com a dor de quem já viveu aquele sofrimento narrado – “E talvez eu nunca encontre uma mão amigável, para saudar meu amor / e deixe este meu coração esquecer que deve bater, meu amor.” – tudo que está escrito naquela letra traduz Maysa, assim como cada verso de música que saia pela sua boca.
Assim como aquele coração rasgado que admite o seu sofrimento por jamais esquecer o grande amor, Maysa nos transpassa toda a emoção, a ternura e a dor da letra. É preciso esquecer, mas eu nunca vou te esquecer meu amor. Não se esquece um grande amor, é impossível, assim como esquecer o aroma da  flor. Só quem já viveu e já passou por tudo isso pode entender, mas é algo universal, inevitável e por isso todos um dia já disseram – ou ainda vão dizer – que jamais vão esquecer um grande amor.
É incrível como Maysa consegue transmitir sua mensagem principal mesmo cantando em outros idiomas. Mesmo em Inglês, Francês, Espanhol, Italiano (que seja!) ela sempre conseguiu transpassar a dor e alegria da emoção, como se tivesse vivenciado tudo aquilo. “If I Forget You” do LP Maysa Sings Songs Before Dawn é um dos melhores exemplos desta arte interpretativa sincera e emocionada. Qualquer pessoa, mesmo aquela que não tenha o mínimo conhecimento do Inglês consegue reconhecer os sentimentos e a emoção ali impressa. Não há erro, é a mesma Maysa – aqui ou em qualquer lugar do mundo – e ponto final.



4 de outubro de 2010

Especial: De Maysa para Dolores Duran

De Maysa para Dolores Duran


Duas mulheres, duas estrelas, duas vidas assustadoramente distintas e ao mesmo tempo extremamente parecidas. Elas tiveram seus destinos traçados, e por obra do acaso (ou não) quiseram que suas vidas se encontrassem nesta longa estrada. Dolores Duran e Maysa – é um puro caso de amor.
Uma amizade sincera, preenchida pela ternura e o carinho de duas figuras existenciais, dois, talvez os maiores símbolos da Fossa Brasileira, do velho amigo Samba-Canção. Boa, era a amizade de Maysa e Dolores, pelo simples motivo de que não consigo desassociar de tal relação sentimentos puros e belos como o afeto, o amor, a afeição e a sensibilidade. Sentimentos estes que são todos transpostos pelas suas vozes inesquecíveis, duas estrelas eternas da música popular brasileira.
Da carinhosa amizade à saudade eterna, da boêmia antológica nas noites de Copacabana ás homenagens sensíveis em shows e discos. Maysa jamais esqueceu Dolores – e também, esquecer Dolores é algo inimaginável para quem quer se seja –, segundo Maysa o primeiro encontro teria sido muito antes do começo da carreira musical, propriamente no Clube da Chave em Copacabana, nos idos de 1954, Maysa teria ido ao histórico Night Club levada pelo Pai – Alcebíades Monjardim – ao voltar para casa, a primeira coisa que fez foi se debruçar sobre o diário e lá escreveu como ficou maravilhada com o ambiente e o que mais havia lhe chamado atenção: um talentoso e jovem pianista – nada mais nada menos, que Tom Jobim – e uma cantora de bochechas muito grandes que só cantava bolero – a saudosa Dolores Duran.
Maysa e Dolores só voltariam a se ver após o início da carreira de Maysa, quando ela resolveu se mudar definitivamente para o Rio de Janeiro. Daí por diante, após uma identificação imediata, as duas não mais se desgrudaram, segundo a própria Maysa – ela, Dolores e Marisa Gata Mansa, eram amigas de dia, de tarde e de noite – entre Maysa e Dolores, não havia apenas uma identificação mútua. Havia também uma enorme identificação musical, pois desde o início de sua carreira, Maysa tinha em Dolores uma grande referência musical, sendo ela, uma de suas maiores ídolas. Afirmação esta, que sempre foi referendada em suas entrevistas e depoimentos quando era indagada sobre a amiga. Mas além de Maysa e Marisa Gata Mansa, aquela boêmia turma da Copacabana dos Anos Dourados era formada por outras figurinhas fáceis da nostálgica noite carioca, figuras como – Sylvia Telles, Antônio Maria, Sérgio Porto (Stanislaw Ponte Preta) e Mister Eco – além da querida Dolores. Sobre esta deliciosa época, Maysa afirmava sentir muitas saudades, principalmente de todos os amigos já mortos.
Duas cantoras sofisticadas, as duas figuras mais expressivas do Samba-Canção, duas – das maiores compositoras da história da música brasileira – Maysa e Dolores Duran eram mais do que duas cantoras e compositoras de Fossa, além de símbolos de uma era de ouro para a MPB, as duas são os personagens mais bem acabados da Fossa Brasileira. Dotados de um raro refinamento musical, eram intérpretes de êxito em mais de 4 idiomas. Transgressoras e arrojadas, foram cantoras que influenciaram mais da metade da geração seguinte da MPB e contribuíram de forma massiva para a evolução musical que acarretaria no surgimento da Bossa Nova, e desse próprio gênero extremamente brasileiro que nós chamamos comumente de MPB. Compositoras de talento esmerado, refinaram toda a dramaticidade exagerada do Samba-Canção, ao compor grandes sucessos como “Ouça”, “Meu Mundo Caiu”, “Tarde Triste”, “Fim de Caso”, “Castigo”, “A Noite do meu bem”, entre outras. Maysa e Dolores eram na verdade duas mestras em transpor a beleza dos sentimentos e das emoções em suas letras, sem qualquer sombra de dúvida, não há como falar de música popular brasileira sem citar estes dois nomes, é mais do que obrigatório. Os nomes – Maysa e Dolores Duran – são verbetes essenciais no extenso livro da nossa música.
Dolores Duran. Uma mulher marcada pela angústia e a presença iminente da morte, impressa nos versos da famosa “Noite de Paz” – “Por uma só noite assim poso trocar o que eu tiver de mais puro e mais sincero / Uma só noite de paz pra não lembrar / que não devia esperar e ainda espero.” – dizem que foi sua última composição, não há confirmação, mas fica a reflexão da dúvida. É tudo verdade, mas contrariando esta Dolores sofrida e dolorosa das letras, os amigos sempre narraram uma outra Dolores Duran – alegre, animada, feliz e entusiasta – bem diferente daquela figura realmente dramática. Dolores carregava no peito a certeza da morte e a angústia da vida, porém, jamais deixou que o medo e a tristeza dominassem seu espírito e conduzissem seu viver. Era realmente uma mulher de fibra, corajosa, encantadora. O infarto tragicamente a levou do mundo aos 29 anos, extremamente jovem, a morte fulminante durante o sono e a frase que teria dito se perpetuaram – “Estou cansada, não me acorde. Quero dormir até morrer” – a narração do episódio assusta e espanta qualquer alma sensível. Não houve tempo para qualquer tipo de dor ou sofrimento, o infarto foi como um sopro de vento que carregou sua alma ao céu. Fulminante, assim como a intensidade daquela mulher que levava a vida pulsante sobre a boca.
As coincidências entre as trajetórias de Maysa e Dolores são enormes, as vidas das duas estão entrelaçadas de uma forma surpreendente. Vários episódios ficaram gravados na cabeça de Maysa, que os relataria em saudosos depoimentos anos depois, um deles fala sobre uma certa ligação no meio da madrugada. Dolores teria telefonado para Maysa no meio na noite para cantarolar os versos de uma nova composição – “Solidão” – “Ai, a solidão vai acabar comigo / Ai, eu já nem sei o que faço e o que digo.” Maysa relata que naquele exato momento teve uma crise de choro e desabou em prantos, disse também que não havia jeito de gravar aquela canção. E assim foi feito, Maysa nunca gravou “Solidão”. compartilhavam sentimentos, confissões, segredos, amores, histórias. Foi uma amizade muito intensa, talvez porque durou tão pouco – 2, 3 anos – mas este fato passa despercebido perante a cumplicidade fraterna das duas amigas.  A amizade de Dolores e Maysa realmente não duraria muito tempo, em 24 de outubro de 1959, a cantora carioca sofreu um infarto fulminante.
 Deste episódio dramático, Maysa narrou um dos momentos mais emocionantes de sua vida. Era noite daquele mesmo dia 24 e Maysa iria estrear um show na boate Au Bon Gourmet, prestes a começar o espetáculo ela estava no camarim da boate quando pediu a um amigo que ligasse para o Litte Club, onde Dolores estava fazendo temporada, e pedisse que ela atrasasse seu show, porque a platéia do Au Bon Gourmet também estava querendo ir assisti-la. E quando terminasse o show, Maysa iria com todos para o Little Club. Depois de feita a ligação veio o choque – naquela noite não haveria show de Dolores, nem naquela, nem em nenhuma outra noite de sua vida – pois Dolores Duran estava morta. Após o baque inicial Maysa não se esquivou do show que estava preste a estrear, mesmo desmoronada por dentro com a alma corroída pela dor da morte da amiga, ela subiu ao palco para prestar a sua homenagem a Dolores Duran. Após rapidamente alterar a ordem das músicas, subiu ao palco e cantou “Noite de Paz”, aquela mesma música em que Dolores perpetuou sua angústia, sua dor e sua esperança.
Ao longo da carreira, Maysa renderia homenagens à amiga, como uma gratidão pelo carinho, o afeto, e a ternura lhe entregue por Dolores. Maysa já foi ao seu encontro, de certo – estão felizes, e em paz – na paz que tanto sonhavam, que tanto ansiavam, não há mais nenhum sofrimento, nenhuma dor, nenhuma tristeza. Elas vivem a vida infinita, finalmente foram fazer jus ao que eram: estrelas. Este ano, Dolores Duran completaria 80 anos de vida, rogo para que esta, que foi uma das maiores mulheres da história do Brasil jamais seja esquecida. Tomo os versos da mais bela composição de Dolores – “Estrada do Sol” – em uma feliz parceria com Tom Jobim, para dizer que hoje Maysa e Dolores ainda estão a brilhar como os pingos da chuva que ontem caiu, sem pensar quem foram, se sofreram ou se choraram. Já é de manhã e elas já deram as mãos para sair por aí e ver o Sol.

O Blog Oficial Maysa tem o prazer imenso de apresentar esta seleção musical reunindo interpretações de Dolores Duran em canções internacionais, em 6 idiomas. Muitas interpretações pouco conhecidas, raras mesmo. E todas magistrais. Boa audição!



Volume 1:
01- Sur Ma Vie
02- An Affair To Remember
03- No Other Love
04- My Funny Valentine
05- Ojos Verdes
06- Sabrá Dios
07- Mi Último Fracasso
08- Sinceridad
09- Only You

Volume 2:
01- Ohô-Ahâ
02- Nigraj Manteloj (Coimbra)
03- La Marie Vison
04- Nel Blu Dipinto Di Blu
05- Scapricciatiello
06- Viens
07- Love Me Forever
08- Que Mormurem
09- Ave Maria Lola



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