2 de julho de 2010

Análise Musical: Maysa como compositora


Maysa como compositora



Aqui no blog oficial Maysa, uma das propostas é tentar desvendar o ser-humano Maysa. Pois hoje, vamos tentar revelar uma de suas mil faces – a compositora.


A Maysa compositora talvez, tenha mais importância em sua carreira do que a Maysa intérprete, afinal – seu ingresso no cenário musical da época fora como compositora, a mesma compositora das oito faixas de Convite para ouvir Maysa, disco que representa o início de sua carreira musical em 1956, oito faixas com letra e música de sua própria autoria que obtiveram rápido êxito perante o público, eram elas: Marcada, Não vou querer, Agonia, Quando vem a saudade, Tarde triste, Rindo de Mim, Resposta e Adeus. Todas com duas características principais únicas, que dali por diante marcariam toda sua obra, 1: a melancolia, abordada como tema nas canções, fato que caracterizarou sua obra como fruto do bom e velho samba-canção. 2: o caráter intimista e pessoal das letras, na maioria das vezes, abordada na primeira pessoa do singular, expondo ao público todos os sentimentos e emoções, sentidas pela autora.


Tecnicamente, Maysa não usava de artifícios sofisticados nas letras, muitas vezes, não conseguia alcançar a melodia perfeita, tentando ao máximo (e quase sempre conseguindo) atingir uma harmonia agradável no todo da composição. Realmente, seu brilhantismo consistia em converter sentimentos e emoções em versos e palavras, atingindo um êxito espantoso. Maysa conseguia transmitir em suas letras, tudo aquilo que sentia – amor, paz, tristeza, dor, felicidade... Ela se entregava profundamente a canção, como se seu próprio eu estivesse presente naqueles versos, seu trabalho é marcado pela sinceridade da compositora.


Daquele primeiro disco de 1956, ao menos quatro músicas obtiveram rápido e grande êxito junto ao público – Tarde triste (seu primeiro grande sucesso), Adeus, Agonia e Resposta. Muitas delas, se tornaram clássicos do samba-canção, ganhando inúmeras interpretações pelas mais diversas vozes, Resposta, parecia um tanto quanto deslocada do restante das faixas do álbum, seu caráter autobiográfico e seus versos em tom de desabafo, “Ninguém pode calar dentro em mim, esta chama que não vai passar.” Estava há anos-luz do repertório de Maysa, porém, se consagraria com o decorrer do tempo, como uma de suas melhores composições. Adeus, mostrava uma Maysa menina envolta entre amigas, telefonemas e roupas. “Adeus, palavra tão corriqueira, que diz-se a semana inteira, a alguém que se conhece.” era uma letra composta por uma Maysa adolescente – aos 12 anos de idade. Não é equívoco dizer que todas aquelas composições, com exceção da Adeus, retratavam sua infelicidade e seu desencontro dentro do casamento. Desta forma, fugindo do tédio e da tristeza, a música, nascia como uma verdade válvula de escape para Maysa.


Perante o êxito incontestável daquela jovem cantora de apenas vinte anos, que se mostrava compositora talentosa – não foram poucas as críticas há favor de Maysa, críticas de nomes de peso da época como os também compositores Antônio Maria, Denis Brean, Oswaldo Guilherme e o cronista Ricardo Galeno, homens que se derretiam em elogios ao talento da jovem. Impressionava também, sua veia criadora, Maysa havia absorvido com muita delicadeza e sinceridade, os maiores ensinamentos do cancioneiro romântico brasileiro. Em sua obra, via-se nitidamente a influência do romantismo da obra de grandes compositores como Noel Rosa e Dolores Duran, dois de sua galeria de ídolos. Curiosamente, ela havia estudado piano clássico por grande parte de sua infância e afirmava ser a música clássica sua maior influência musical.


Um dos maiores sucessos de toda sua carreira, e próxima canção a figurar nas paradas de sucesso foi o samba-canção Ouça. Lançado já em 1957, a música de sua autoria era segundo Maysa um recado ao marido André Matarazzo - “Ouça vá viver, sua vida com outro bem, que hoje eu já cansei de pra você não ser ninguém.” Entre o estrondoso sucesso da canção e a separação do casal, também não se demoraria tanto tempo. E o sucesso, foi realmente estrondoso, unanimidade de público e crítica, a canção entrou para o hall dos clássicos da canção romântica brasileira e serviu para consolidar a posição de Maysa na galeria das grandes cantoras e compositoras do Brasil. Enquanto Ouça embalava casais apaixonados e corações despedaçados país a fora, a vida dela tomava rumos que por sua vez, alteraria em 180º graus o curso de sua vida, e teria influência direta em sua música.


Segundo Maysa, é fato afirmar que após sua separação (1957), explodiu seu impulso criativo. É desta época que nasceram seus maiores clássicos e as composições de maior sucesso de sua carreira, são desta época – O Que?, Escuta Noel, Meu Mundo Caiu, Mundo Novo, Felicidade Infeliz e Diplomacia, todas obtiveram total sucesso de público e crítica. Durante este período, o tom de suas letras começaram a mudar, suas músicas começaram a adquirir um viés cada vez mais dramático, rodeadas sempre pelos mesmos temas que atormentavam sua autora, via-se Maysa em cada letra, sua personalidade turbulenta era transposta nos versos e a mostravam cada vez mais aflita e angustiada. Por esta mesma época, o maestro da maioria de seus discos na RGE – Enrico Simonetti- , começou a aparecer como seu parceiro em outras composições de sua autoria, ela ainda assinava as letras e Simonetti se encarregava de musica-las, desta parceria nasceram – Fala Baixo, Maria Que é Triste, Você, Deserto de Nós Dois, Voltei e Vem Comigo. Porém, a crítica logo observou que gostava de Maysa como compositora, porém, sem parceiros.


A partir de 1960, há um hiato na série de composições gravadas de Maysa, indagada inúmeras vezes, sobre esta ausência de letras de sua autoria, ela dava inúmeras respostas, por isso, não seria correto afirmar qual o seu motivo para ter parado de compor. Este hiato só seria quebrado com Canção Sem Título no LP Maysa de 1966 – “Que tristeza havia em mim, neste mesmo lugar, que saudade eu senti do que estava por vir.” Ali, ela inaugurava também uma nova forma de compor, cada vez mais sincera e verdadeira, fugindo das altas doses de dramaticidade e buscando uma atualização musical, ela encontrava uma nova forma de compor, mais refinada e moderna. Praticamente neste mesmo período, Maysa lançou a canção Amor-Paz de sua autoria com Vera Brasil, defendendo-a no II Festival de Música Popular Brasileira da TV Record em 1966, em Amor-Paz, ela transmite nitidamente há que veio – “Vou lhe cantar uma canção, que começa agora no teu sonho bom e tem a música que vem lhe ofertar, um canto meu, de amor-paz.”


Desta nova fase, também se destacaram a singela e autobiográfica Me Deixe Só, sua única parceria com Roberto Menescal de 1970 – “Me deixe só errada e complicada, não imponha tua mão no meu caminho.” Era uma música linda, quase uma declaração de amizade mútua dos dois, singela. Para embalar as desventuras de sua personagem na telenovela "O Cafona" "de 1971 na Rede Globo, Maysa compôs aquela, que ela acreditava ser sua melhor letra composta até ali – o Tema de Simone“Não sei que rosto eu vou usar de noite, em qual desgosto eu vou curtir meu papo.” Realmente, era sua melhor letra, em Tema de Simone, Maysa atinge a maturidade musical plena como compositora, é uma música sofisticada e assustadoramente moderna – “Que somos todos juntos, que estamos todos juntos, na busca inútil, de sermos separados.”


Sua última composição gravada é Não é Mais Meu, uma parceria com David Nasser e Erlon Chaves da década passada, tema da novela "Eu compro esta mulher" de 1966 – Maysa afirmava te-la gravado para fazer um agrado ao marido, o ator Carlos Alberto. Não era uma música ruim, pelo contrário, uma letra, tocante, porém, soa como um fim bucólico “Me dê tua mão que eu aprendo, difícil foi desaprender, por onde eu andei foi tão triste, que quase nem deu pra te ver.” Em 2000, Marcus Viana musicou um poema inédito da cantora, "La Enorme Soledad", cuja gravação feita pela cantora Paula Santoro, foi incluída com sucesso na trilha da minissérie "Aquarela do Brasil", produzida pela TV Globo.


É necessário que a Maysa compositora seja lembrada com o mesmo prestígio que a Maysa intérprete, que ela seja devidamente reconhecida como o que é: uma das maiores compositoras da história da MPB. Inexplicavelmente, muitas vezes, passa despercebido o fato de que os maiores sucessos de sua carreira serem composições de sua autoria – Ouça e Meu Mundo Caiu. É unânime, afirmar que Meu Mundo Caiu (1958) é o maior sucesso de sua carreira, apesar de vários afirmarem que Ouça seja unânime na preferência popular. Porém, o apelo e consagração da música a tornaram um verdadeiro mito na história da música popular brasileira, só Meu Mundo Caiu poderia superar a romântica Ouça em sucesso de público e crítica.


É também, mais do que necessário reafirmar a importância de sua música nesses tempos atuais tão decadentes na música brasileira, pois nesta época, sua música soa mais atual do que nunca. Maysa transita de forma belíssima pela poesia, poesia esta que faz de sua obra, um canto singular na história da música brasileira. Entre e o amor, a dor e a poesia, lá está a música de Maysa – “Por isso é que eu fico cismando, querendo ser tempo pra tempo me dar, se saudade é querer ficar perto, eu preciso de tempo pra me encontrar.” (Saudades de Mim) “A Lua que ontem me viu, chorando, me mandou contar, que em outra janela te viu, sozinho me nome á chamar.” (Toda Tua) “Felicidade, deves sem bem infeliz, andas sempre, tão sozinha, nunca perto de ninguém.” (Felicidade Infeliz). Pois eu clamo e reafirmo – que se passe mil modismos imbecis pela música brasileira, porém, o canto de Maysa não passará como uma folha jogada ao vento, é mais forte, sua música é eterna para todo sempre.

7 comentários:

  1. muito legal galera essa postagem.. Gostei muito de ver vcs relembrando as composições de Maysa.
    São belíssimas e tocantes.... beijos
    Rafagazetta

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  2. Gostaria de saber se a Musica Viagem foi gravada por Maysa?

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  3. Foi gravada por Maysa, queria saber de quem é a letra/composição da música...

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  4. Elis Regina não curtiu. Hahahahahhahahaha Maysa grande artista brasileira

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  5. Eu a conheci muito jovem, me recebeu no Urso Branco-Casa de Show em Sampa, fiquei paralisado diante de sua beleza, seu abraço carinhoso,seu sorriso meigo e aqueles olhos absurdamente lindos! Maysa que saudades! você foi cedo, porque estava muito além de seu tempo...Viveu só num turbilhão de pensamento e sozinha... sofrendo(tarde triste-sua composição...Maysa INESQUECIVEL.

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