18 de junho de 2010

Espetáculo: A Maysa de Hoje no Canecão (1969)


A Maysa de Hoje no Canecão

Canecão Apresenta Maysa um de seus mais famosos álbuns, gravado ao vivo durante a antológica temporada.

9 de maio de 1969,

Na cervejaria Canecão no bairro de Botafogo, Rio de Janeiro após o barulho caótico de gargalhadas, risos, conversas e cadeiras o silêncio agora era sepulcral. Com as luzes apagadas, a platéia de aproximadamente 2.000 mil pessoas assiste fascinada as imagens no telão do palco. As primeiras imagens da projeção mostravam uma Maysa gorda, vestida a rigor que caminhava pela rua deserta a noite, com cara amarrada em direção ao mar. Na cena seguinte, via-se um incrível contraste. Era manhã e fazia Sol, uma outra Maysa, magra e de roupa despojada, aparecia sorrindo na praia. Ao fundo ouve-se a voz do poeta Manuel Bandeira declamando os famosos versos do eterno poema dedicado á ela.

Ao final da projeção o escuro novamente toma conta e um refletor acompanha a entrada da cantora e no fundo do palco vai surgindo a figura de Maysa, belíssima, ela entrava em cena com uma túnica marroquina bordada a ouro em tons de azul e rosa. Cantando a inesquecível Demais “Todos acham que eu falo demais e que ando bebendo demais.” Era o já famoso pot-pourri mesclando Demais, Meu Mundo Caiu e Preciso Aprender a Ser Só. Após o primeiro número, viria a primeira de uma noite de surpresas.

A primeira era ver Maysa interpretando Pra Quem Não Quiser Ouvir Meu Canto, de César Roldão Vieira, jovem compositor de 25 anos que se destacara na terceira edição do FIC em 1968. A música, com seu tom autobiográfico, parecia obra da própria Maysa, “Quem não quiser cantar comigo não faz mal, canto pra mim e canto por sinal pra não morrer.” Ao final da canção ela agradecia as palmas e falava à platéia:

“Quando nós ensaiamos este show, ensaiamos uma coisa complicadíssima para dizer a vocês com respeito à saudade. Eu acho que saudade é algo bastante complicado para a agente complicar ainda mais. A única coisa que eu queria dizer é que vocês me recebam com o mesmo carinho com que eu volto pra vocês. Muito obrigada.”

O espetáculo prosseguia com uma emocionante interpretação de Por Causa de Você em homenagem a Dolores Duran, combinada com Dindi de Tom Jobim e Aloysio de Oliveira. Dali por diante, se seguiram uma série de surpresas e nostalgias que encantou o público do Canecão. Ninguém esperava, mas todos adoraram ver Maysa cantando Se Você Pensa de Roberto e Erasmo Carlos “Daqui pra frente, tudo vai ser diferente, você tem que aprender a ser gente.” Dançando com um balé moderno ao fundo. A seguir, Maysa desaparecia por alguns minutos e retornava para a segunda parte do espetáculo vestindo uma longa saia branca de seda, coberta por longas franjas de vidrilho pendendo da blusa negra, de organza quase transparente. Cantou perante um silêncio abissal Ne Me Quitte Pas. Aquela altura, Maysa já havia se apropriado tanto da canção que ninguém mais lembrava que ela era do belga Jacques Brel.

Aos primeiros acordes de violão da próxima música, viria o momento máximo da noite: dois bailarinos negros se aproximaram de Maysa e para surpresa de todos lhe arrancaram a longa saia branca, deixando-a de minissaia negra com pernas gloriosamente á mostra, dançando junto ás franjas brilhantes de vidrilho que pendiam dos ombros e da gola da blusa. O Canecão inteiro foi ao delírio com Maysa intepretando Light My Fire, sucesso de Jim Morrison incluído no álbum de estréia da banda The Doors, lançado naquele mesmo ano de 1969. a vibração de Maysa contagiava o público, encantado com o espetáculo.

Após a gandaia de Light My Fire, em clima de nostalgia, ela interpretou grandes sucessos da carreira, como Chão de Estrelas, perante um público boquiaberto, ao final da canção, foi ovacionada por vários minutos. Logo a seguir, emendava três grandes sucessos do começo da carreira: Tarde Triste, Meu Mundo Caiu e Ouça, para devaneio do público que aplaudia maravilhado. Após uma inspirada interpretação para Eu e a Brisa do saudoso Jhonny Alf, uma Maysa animadíssima interpretava Dia de Vitória e Dia das Rosas, levantando todo o Canecão. Com esta última, ela havia conquistado o 3º lugar e o prêmio de melhor intérprete da fase nacional no I FIC em 1966.

Para o último número da gloriosa noite, ela reservara Se Todos Fossem Iguais a Você, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, um dos maiores sucessos de sua carreira. Nos últimos versos da canção, ela fazia uma sensível homenagem ao público trocando o singular pelo plural: “Existiria a verdade, verdade que ninguém vê, se todos fossem no mundo iguais a vocês, vocês, vocês.” Ao final, todo o Canecão extasiado abraçava Maysa, ovacionando-a por vários minutos.

É bem verdade que ela estava muito mais bonita, ela já havia reaparecido no Brasil magra alguns anos antes, mas agora, após uma longa ausência, seu retorno parecia mítico, triunfal, ainda mais bela. A silhueta estava sendo mantida à custa de uma rigorosa dieta e um punhado de anfetaminas, inibidores de apetite. O sorriso também era novo: Em Los Angeles, Maysa optara por um tratamento radical, logo após a última saída do Brasil, substituindo os dentes naturais, danificados pelo álcool e pela nicotina, por implantes. Os cabelos também estavam diferentes, provando sua fama de camaleoa, os fios estavam castanho-claro com reflexos loiros, mais compridos e penteados para trás levemente desalinhados, davam-lhe uma aparência leonina que dali por diante marcaria sua figura.

O espetáculo era realmente uma super produção, digna dos mais glamourosos musicais da Broadway. O Canecão fora toda reestruturado para o show, quando foram instalados projetores de cinema e sistemas de som e luz avançadíssimos para a época. Todo dirigido e coreografado por Nino Giovanetti, com produção musical de Paulo Moura e um total de 30 pessoas em cena, entre músicos e bailarinos. Maysa trocava de roupa cinco vezes, com um figurino refinado e impecável. Ousada e inovadora, naquele momento era dificílimo definir o verdadeiro estilo de Maysa, quebrando todos os rótulos lhe impostos, ela agora aos 33 anos, demonstrava uma jovialidade e alegria que não se via aos 23. Realmente, sua jovialidade viera com o tempo. Agradecendo a platéia, distribuindo sorrisos ao público, parecia um renascimento de uma nova Maysa, de um novo modo de cantar e viver, o público amou, a mídia também.

“Maysa está bonita, está linda” disse o Jornal do Brasil. “Essa parte do corpo de Maysa nem o Bandeira conhecia, por isso não pode louvar.” Comentou a Última Hora. “Maysa vibra do principio ao fim do show, vibração que consegue comunicar ao salão inteiro.” Comentou Zózimo Barroso de Amaral na Última Hora. “A jovialidade de Maysa, inexplicavelmente veio com o passar do tempo.” Constatou O Globo. A crítica era unânime ao sucesso do espetáculo, a Veja arriscou uma definição para a nova fase da cantora: Fossa Nova. Já o velho guerreiro Chacrinha, ia direto ao ponto na Última Hora: “Vai ser boa assim no inferno, sua danada.”

Ali, Maysa inaugurava um novo capítulo na história da música brasileira ao quebrar um velho tabu. Ponha em xeque o preconceito de que bons artistas não podiam se apresentar em casas populares para grandes platéias. “Não quero fazer mais showzinhos para deleitar meia dúzia de bacanas. Vamos acabar com essa história de que só grã-fino tem o direito de ouvir boa música. Quero cantar agora para todo mundo ver, até mesmo o bombeiro hidráulico lá de Cascadura.” Afirmara. Depois daquela sua temporada no Canecão, que duraria em torno de um mês com aproximadamente 30 shows, atraindo uma média de mil pessoas por noite, isso se tornara moda, algo antes inimaginável.

Maysa realmente inaugurara o Canecão para a MPB, transformando aquilo no que é hoje: um palco sagrado para as personalidades da música brasileira, gente do porte da própria Maysa, Elis Regina, Tom Jobim, Milton Nascimento e Chico Buarque. Enquanto na época os artistas ainda se apresentavam em boates acompanhados por trio ou quarteto, Maysa dava-se ao luxo de contar com uma verdadeira orquestra de sopros e cordas regida por Paulo Moura, no melhor estilo dos musicais americanos. Também caía por terra outro preconceito: o de que muitas pessoas tinham de ir a uma cervejaria para assistir um show de música popular. A reação da platéia era exatamente um dos problemas apontados pelas pessoas que queriam fazer com que Maysa desistisse de se apresentar em um lugar imenso como o Canecão. Afinal, o que se esperar de um local em que a entrada cobrada ao preço de apenas 10 cruzeiros ainda dava direito a uma rodada de chope de graça?

Maysa arrastou dezenas de populares ao Canecão durante sua temporada, mas, também forçou a elite á vê-la. Não foram poucas as figuras ilustres carimbadas dentre as quase duas mil pessoas na Cervejaria. Martha Vasconcellos, a brasileira que no ano anterior se consagrara como Miss Universo 1968, foi fotografada a uma mesa da casa, rendendo homenagens a Maysa. O ex-presidente e fã declarado Juscelino Kubitscheck teve de voltar da porta junto com a mulher, dona Sarah, porque não comprara ingresso antecipado e todas as mesas já estavam lotadas. O jornalista João Saldanha, técnico da seleção brasileira de futebol, foi aplaudido pela platéia ao ser reconhecido por trás de uma caneca de chope antes de a cantora entrar em cena. Julie London, que estava de visita ao Brasil, fez questão de cumprimentar Maysa nos camarins depois do show.

Pouco antes de assinar contrato com a cervejaria, Maysa desistira ou adiara todos os compromissos agendados, entre eles, estava uma temporada na badalada boate Sucata de Ricardo Amaral que viria a ser cumprida alguns meses depois. O próximo passo após a temporada carioca no Canecão era levar o show a São Paulo, no Urso Branco, a cervejaria de Aloysio de Oliveira. Inclusive, lá a despeito do título seria gravado um dos mais famosos álbuns de sua carreira: Canecão Apresenta Maysa. O melhor registro audiovisual do celebrado show. Tanto sucesso não era esperado. Entre as fórmulas, a união de grandes sucessos da carreira, ás surpresas do repertório e a ousadia da Maysa dançante de pernas de fora, foram umas das causas apontadas para o retumbante sucesso do espetáculo. O show causou um furor incrível que monopolizou as atenções da mídia e do público para Maysa em 1969. comparecer ao show do Canecão tornou-se roteiro obrigatório na cidade durante aquela época, a temporada é lembrada até hoje como uma das mais antológicas da mítica casa de shows. O espetáculo entrou para a memória daquela geração e dos fãs de Maysa naquele ano de 1969, no auge de sua carreira. Uma Maysa ousada, inovadora, alegre e muito mais Maysa. Um episódio para recordar.

Uma Maysa alegre e sorridente encantava a platéia de quase duas mil pessoas no Canecão.

Dançando de pernas de fora no Urso Branco de São Paulo. Ousada e glamourosa: de minissaia e franjas brilhantes de vidrilho.

Figurino impecável: mini-vestido preto de organza transparente com pantalonas negras de cetim.










6 comentários:

  1. Depois de tanta luta finalmente eu conseguir comprar o LP canecão apresenta Maysa....."é a coisa mais linda que existe"....!!
    á e muito obrigado pelas fotos estão lindas....perfeitas...!!!!

    ResponderExcluir
  2. Ótimo seu texto super bem escrito, achei demais as fotos que você encontrou da nossa grande intérprete, e apesar do tempo, continua a tirar suspiros de nós até hoje!

    ResponderExcluir
  3. Nunca entendi esse título. Apesar do show ser o mesmo do Canecão, o que está no disco é uma gravação do show na Urso Branco, em São Paulo.

    ResponderExcluir